Quando principiei meus estudos
universitários uma questão logo se me tornou preocupação: o tema da verdade.
Era o hoje distante, e ao mesmo tempo tão próximo, ano de 2005. Nada mais
natural a um estudante de História do que o problema da verdade, visto que ela
parece alterar-se na história. A inspiração direta foi um texto de Le Goff, na
disciplina de Medieval, onde o autor nos convidava a nos desfazer dos
preconceitos relativos ao período e citava von Ranke: todo tempo histórico está
em contato com deus.
Ao mesmo tempo em que pesquisava o
tema na biblioteca, visto os recursos eletrônicos ainda escassearem, lia textos
como Raça e história, de Lévi-Strauss e Verdade e poder, de
Foucault, e adentrava, destarte, no fio da meada de uma certa visão do tema,
ainda todo inocente, explodindo de juventude. Até mesmo meus fichamentos á
época, que eu cuidadosamente dividia em várias partes, contavam com um tópico:
Fulano e a verdade, no quadro de uma pesquisa de mais longa portada a qual eu,
quando de então, prospectava, planejava e realizava.
Já acadêmico do curso de Filosofia, ocorreu-me
de contar como docente com o professor Marcelo Pennaforte, hoje no Paraná, na
disciplina de Teoria do Conhecimento, Pennaforte, humeniano roxo, nos indicou a
Investigação acerca do entendimento humano, do escocês ilustrado e
camarada de Rousseau. Ora, o encontro com tal literatura me fascinou. Ao expor
ao professor de que eu pesquisava a verdade, ele, coquete, deu um
sorriso e disse: mas todos nós a pesquisamos. Tive a oportunidade, então, de
explicar-lhe que me interessava, na esteira de Foucault, a verdade como uma
função, não como objeto realista. Ele compreendeu e me indicou o recém-falecido
Ian Hacking, em uma edição que não existe em português até hoje: The social
construction of what? Meu inglês capenga de então, pura flor do Médio
público e de joguinhos de videogueime, não me permitia acompanhar o raciocínio
do autor. Entendi, tão somente, uma posição que postulava que a verdade era
fato-do-mundo, real, exterior às nossas volições e desejos; ao contrário, há
uma verdade, a qual tentamos descobrir.
No ano que seguiu a este, publiquei
meu primeiro artigo, A política da verdade em Michel Foucault. Trata-se
de uma exposição e interpretação de uma série de conferências de Foucault,
ocorridas no Brasil na década de 1970. Nesse texto, interpreto que Foucault defende
uma ontologia política do saber, posição a qual mantenho até hoje e tive a
oportunidade de ser repreendido pelos membros de minha banca de TCC,
foucaultianos não dizentes, os quais não gostaram do termo, e aplaudido, seja
quanto apresentei o texto em um evento internacional em 2019, seja quando
publiquei-o em uma edição especial da revista Ipseitas e os pareceristas
elogiaram o texto.
A juventude tem suas bençãos. Uma
das quais é a inocência e a vontade de agarrar o mundo com as pernas, como
diria meu antigo orientador, Ricardo Monteagudo. Ocorre que, ao defender essa
série de posições eu me embrenhava em um dos problemas mais antigos e candentes
da investigação filosófica, científica e teológica: a questão da verdade.
Em fato, se colocarmos os parafusos
no lugar, hemos de nos lembrar que na Grécia antiga, Platão e os sofistas se
opunham. Platão os acusava de serem, em um termo, despreocupados e
desatenciosos com a verdade, na exata medida em que, para o discípulo de
Sócrates, há uma verdade somente, que pode ser alcançada através do pensamento.
Já para os sofistas, como a tradição reza, valeria o princípio protagórico de
que o homem é a medida de todas as coisas, ou seja, de que a verdade é
dependente do sujeito. Lançava-se em germe, dessa maneira um tanto esquemática,
uma das principais controvérsias da história da filosofia: a querela dos
universais.
Amplamente discutida, sempre objetos
de novos estudos, essa querela, cuja origem pode ser situada seja em Porfírio,
seja em Boécio ou, até mesmo, em Aristóteles, está longe de terminar. Ao
contrário: as ideias se expressam, as proposições são proferidas e, caso
busquemos seu corolário, cai-se no debate bizantino.
Em seu excelente A história do
conceito filosófico de verdade (Die Geschichte des philosophischen
Begriffs der Wahrheit. Berlin/NewYork: Walter de Gruyter, 2006; sem
tradução para o português) Enders e Szaif organizam, através da coletânea de
diversos textos oriundos de autores especialistas, uma história das diferentes
formas como o conceito de verdade foi pensado. A forma canônica e mais
difundida, adequatio rei et intelectos, teria origens ainda em
Aristóteles, ainda que tivesse que esperar os tempos medievais a fim de se ver
formulada tal e qual.
Para essa visão de que a verdade é a
adequação da coisa ao intelecto, é claro que algumas coisas são pressupostas:
há um mundo, uma verdade, que pode ser formulada e alcançada pela mente, de
modo a que cheguemos a uma proposição (ou série de) que expressem a essência da
coisa como ela se dá. Essa coisa, por sua vez, é tomada como uma espécie de
substrato, onde a verdade vem se alojar a fim de decifrar-lhe intestinamente,
no seu âmago mesmo. A verdade é, dessa maneira, uma relação entre nós
(intelecto) e mundo (coisa); ela é o fruto de uma interação entre um sujeito
tateante e exposto a erros e um mundo-aí, dado de uma vez por todas. Platão com
adereços.
Enders e Szaif, no texto dedicado a
Kant, indicam que o homenzinho de Königsberg refutou tal posição ao notar o
seguinte: se a verdade é a adequação do intelecto à coisa, a verdade está no
intelecto e, como só conhecemos as coisas através do intelecto, a verdade é, de
fato, a adequação no intelecto consigo mesmo. Ou seja, essa definição platônica,
a qual á primeira vista, parece realista e aliviadora do peso do olhar humano
sobre o mundo, em fato é uma espécie de solipsismo confeitado. A verdade gira
sobre seu eixo e volta, com Kant, ao sujeito que se lha propõe. Ainda Protágoras.
Foi necessário o grande lógico Frege
para uma solução distinta: ele, nos dizem no volume organizado por Szaif e
Enders, propõe que o conceito de verdade não somente é inútil, como
prejudicial, uma vez que ele traz consigo o gênero de entulho metafísico acima
indicado. Ao invés de se afirmar P é V, basta afirmar P, e a noção de verdade
se esvai, sem nenhum prejuízo para o entendimento. Trata-se do assim chamado
deflacionismo fregeano, posição corrente até os dias atuais.
Mas Frege não pôs uma pedra sobre a
discussão. Ao contrário, se essa oposição entre realistas e nominalistas se
expressa ainda hoje, também o século XIX, na pena de Nietzsche, viu uma outra
abordagem se expressar: aquela de Nietzsche. Ora, Nietzsche não está preocupado
com a verdade realistas, mas em questionar os motivos que levaram o Ocidente a
se aficcionar com a busca pela verdade, ou, como se quiser, a vontade de
verdade que vem guiando a démarche filosófica no Ocidente desde Platão,
pelo menos. Essa posição será trabalhada por Foucault, o qual vê a verdade nem
de maneira deflacionista, nem de modo realista. Para ele, em uma posição de
exterioridade, em um pensamento exterior, a verdade é o nome de um princípio de
repartição dos discursos, de uma forma de coagir o que se diz, escreve e pensa,
de modo a obter discursos que exercem um efeito de poder em uma formação
social. Niilista, como quis Merquior, nada nos resta das verdades eternas e
imutáveis: o campo do apodítico desfalece sob os golpes de Foucault, de modo a
só restarem proposições acidentais, aplicáveis a um tempo e um espaço, acontecimentalizáveis,
em uma palavra, e um palavrão.
Ora, ainda Protágoras contra Platão.
Veja-se. Esse construto foucaultiano, relativista, nos muni de elementos
suficientes a fim de que vejamos como se constroem as distintas estratégias de
formação do presente, sem que nos preocupemos com a justeza das proposições.
Por exemplo, ao invés de tão simplesmente negar o racismo científico com noções
que contraporiam pseudocientífico com a verdadeira ciência, interessa a
Foucault descobrir como foi que o racismo científico pode ter sido aceito, que
sujeitos ele constituiu, quais práticas ele sancionou, quem ele desqualificou.
Há
um uso, pois, específico do pensamento de Foucault. Mas, como se v~e, se trata
de uma posição relativista que nos desarma diante de algo como o nazismo, uma
vez que não temos ferramentas teóricas a fim de combatê-lo. É como se nos
contentássemos em denunciar die Böse, mas sem oferecer
alternativas. Afinal, como a verdade é sempre uma expressão de relações de
poder, e o poder é mau (pressuposto das colocações de Foucault), por que
escolher este ou aquele sistema, por que nos engajar na luta contra essas
relações de poder, se não temos propostas a fim de substitui-lo? Os
foucaultianos calam e vão a reboque dos marxistas. Na pandemia, por exemplo,
diante de uma aplicação clara do biopoder, com as medidas de distanciamento e a
vacinação, por exemplo, vimos os foucaultianos mais encartados defenderem essas
medidas, na esteira dos cientificistas marxistas, herdeiros diletos do
marxismo. O fato extraordinário da pandemia deveria ter oferecido aos
foucaultianos ocasião a fim de que questionassem seus pressupostos e objetivos,
mas, como sói ocorrer, preferiram os livros aos fatos, em uma espécie de dissonância
cognitiva, que não integra o mundo exterior com as elucubrações noéticas.
Parece
haver uma contradictio in adjecto no pensamento de Foucault, relativo à
verdade. Afinal, se verdade é poder, e se o poder está ligado coma espécie de
arbítrio da vontade, como explicar a ciência técnica contemporânea, a qual
prova, com suas realizações, que conhecemos algo do mundo? Sem esse
conhecimento, ser-nos-ia impossível escrever este texto, em um computador, ou
morar neste apartamento aqui, ou viajar entre cidades em modernos ônibus com
ar-condicionado e rede de internet sem fio a bordo. A ciência prova que existe
uma verdade, exterior ao sujeito, ao passo que Foucault e os seus denunciam
essa ciência como opressora e interessada, na esteira dos frankfurtianos,
também influenciados por Nietzsche.
Certamente
a ciência faz parte de um projeto de poder, e vimos insistindo nisso em nossos
textos, desde os mais antigos até aqueles que ainda estão no prelo. Mas, temos
que lidar com algumas perspectivas históricas. No Ocidente, as formações
sociais conheceram duas grandes formas de se encarar o mundo: a religiosa e a
filosófica. A primeira é uma forma muito pristina de se organizar uma
sociedade, explicar o mundo, justificar e basear ações, compreender a própria
sociedade e seu funcionamento. Já a filosofia propõe-se a racionalizar o mundo,
escarafunchá-lo, alterá-lo, moldá-lo às nossas necessidades. Não que a religião
seja irracional: já citamos Raça e história; mas simplesmente igualar a
racionalidade religiosa, pautada na verdade revelada ou na inspiração das
musas, com um método que é de uma verdade ativamente buscada e, na forma da
ciência moderna, replicável, nos parece não só despropositado, como, ademais,
contradizente com os próprios fundamentos do pensamento foucaultiano, uma vez
que ignora o situs das coisas, em benefício de sua eidos, abstrata
e formal.
Assim,
essas duas vias, religiosa e científica, vem se enfrentando na história do
mundo, com o predomínio ora de uma, ora de outra, em uma espécie de apolíneo e
dionisíaco societal, com pesadas consequências. A filosofia e a razão, após sua
vitória completa no século XVIII, parece ter tomado uma via que questiona seus
próprios triunfos sobre o fanatismo, a crendice, o preconceito e o arbítrio,
quando, com uma série de pensadores no mais das vezes reacionários, como
Schopenhauer e Nietzche, se propõe a se desfazer de suas vitórias, em benefício
de nada, além do puro prazer de questionar.
Longe
de nós afirmar que o mundo parido pelos iluministas e seu corolário é perfeito.
Muito ao contrário, mas criticá-lo e, com ele, pôr em xeque a capacidade da ciência
e da filosofia ― da razão ―em resolver os problemas que ou a religião ou a
própria razão geraram é jogar fora o bebê com a água do banho. A derrota do
mundo atual só pode se dar em nome de um projeto. Antes de criticarem
avidamente os pressupostos e efeitos do mundo atual, cumpre que se nos dotemos
de um projeto, ou, em outros termos, de um objetivo estratégico. Essa deveria
ser a primeira tarefa dos foucaultianos.
Retornando
à questão da verdade, expostos os problemas do relativismo, podemos questionar
os problemas do realismo aletúrgico. Afinal, Foucault e sua crítica do presente
não fariam tanto sucesso caso suas questões e colocações não fossem, no mínimo,
verossimilhantes. A sociedade que o iluminismo defendeu pariu monstros, é fato:
veja-se a crise climática, os problemas sociais, o colonialismo, as novas
formas de sofrimento. O liberalismo é, também, um dos corolários do Iluminismo,
junto com o socialismo, é bom não esquecer. Assim, a revolução científica e a
industrial, com todos os problemas e qualidades, podem ser creditados ao
Iluminismo no sentido de Adorno e Horkheimer. As guerras, o chauvinismo, os
massacres, os genocídios etc. Não que fossem desconhecidos anteriormente, mas,
a astúcia da razão aplicada aos velhos métodos, terminou por engendrar um nível
de brutalidade nunca antes visto.
Mas, ao mesmo tempo, graças ao período
histórico que o século das Luzes principiou, podemos justamente não só
enfrentar nossos problemas em um nível superior, e com toda capacidade de
resolvê-los, como opressões e explorações presentes em nossas formações sociais
há muito foram identificadas e vem sendo combatidas.
O
fascismo, por sua vez, não é um fruto direto do Iluminismo, mas uma reação
a ele. São justamente as forças mormente agrupadas em torno da defesa de
princípios religiosos ou do primado da emoção (e a ganância é um sentimento)
que conduziram o mundo aos seus piores momentos. Ao contrário, a defesa de uma
organização racional da sociedade, como uma economia autogerida ou da
democracia, ou, ainda, a defesa das diferenças como traço marcante de uma humanidade
a se constituir, são traços da razão no último período.
Hoje,
nosso maior inimigo não são as forças que querem racionalizar o mundo, mas
aquelas que querem impedi-lo ou se fiam no novo misticismo, as fake News
e a pós-verdade. Por trás dessas forças, uma velha concepção da verdade ou como
revelada (como no caso dos opositores de direitos das minorias) ou de uma certa
concepção da verdade como apanágio de grupelhos, no caso, os adeptos das
teorias conspiratórias. Não raras vezes, essas duas concepções diante da
verdade são complementares e marcam presença nos mesmos setores sociais.
Creem-se os novos iluminados, que enxergam por trás das conspirações, quando,
em fato, são eles mesmos os frutos de uma espécie de maçonaria anti-iluminista
de bilionários e pregadores religiosos, os quais tentam impor uma sociedade
pré-iluminista.
As
disputas políticas contemporâneas se dão, todas, em torno da concepção de
verdade, pois. De um lado, os herdeiros do Iluminismo, socialistas e liberais
(no sentido pleno do termo), contra os prepostos de uma concepção da verdade
como revelada ou conspirada. Claro, há matizes. A igreja Católica, sob Francisco, por
exemplo, vem fazendo um esforço a fim de se adequar ao Esprit du temps,
mas as forças ultramontanas e antimodernas em seu seio são muito fortes. Por
outro lado, alguns princípios nodais da civilização ocidental ainda se arrastam
para ser adotados no mundo, caso da China, com uma posição que não valoriza
liberdades pessoais (e não pensamos dentre estas a liberdade de empresa), mas,
sim, liberdade de expressão, do pleno assumir de sua própria orientação sexual,
por exemplo.
Se
a concepção de verdade tradicional, da adequação da coisa ao intelecto, redunda
em uma posição subjetivista e, assim, em uma tal que faz depender a verdade de
uma sociedade a qual forma esse sujeito, de modo que não exista verdade fora de
uma sociedade que a produz, isso deve nos alertar para o tipo de sociedade,
gerada pelo Iluminismo, que permite que um pensamento propugnador do ódio, do
preconceito e da negação do humano enquanto sujeito pleno, com desejos,
vontades e aspirações que não se deixam domar pelos princípios de uma religião
negadora do corpo e da liberdade. Por que as sociedades capitalistas, avançadas
ou da periferia, possibilitam esse tipo de proposição, de adoção de
verdades-reveladas e verdades-conspiradas em seu seio mesmo? A descoberta da
modernidade é, pois, que a verdade é social. Se essas formações sociais dão azo
a esse tipo de formulação, é justamente pelo acúmulo de frustações,
manipulações e interesses ocultos que as sustentam. A solução não passa por
tão-simplesmente combater os efeitos, mas, sim mirar as causas. E as causas são
as lutas intestinas dessa própria sociedade. A solução é a adoção de um novo
modelo social, além do capitalismo e sua irracionalidade de mercado, um tal que
racionalize a vida e compreenda o humano como um ser biopsicossocial, cujas
necessidades a sociedade deve dar a possiblidade de serem satisfeitas em um
marco de congraçamento, solidariedade e espírito de cooperação, não de busca do
lucro, opressão, exploração e indiferença.
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