Em seu doutorado, sobre materialismo antigo, Marx trabalha uma importante diferença entre Demócrito e Epicuro. Embora ambos sejam atomistas (o primeiro, um de seus inventores, junto a Leucipo, também originário da cidade de Abdera, do qual não sabemos quase nada), Demócrito é determinista. O mundo, para ambos, é formado átomos e vazio, mas Epicuro acrescenta que os átomos, em sua queda, podem sofrer um desvio, o clínamen. Com isso, introduz-se o acaso ou, se se quiser, a liberdade. Li os fragmentos completos de Demócrito ainda em meu primeiro ano de doutorado. Sua obra era gigantesca e cobria inúmeros tópicos, mas, além dos títulos, quase todos seus fragmentos extantes são de ética, muitas vezes meros apotegmas (sentenças). De Epicuro há mais fragmentos, também li completo, por ocasião da investigação da (abre aspas) obra prima (fecha aspas) de Olavo, que trata justamente de Epicuro; texto surrealista, pode-se dizer. Mas não é disso que quero falar, mas, sim, de uma outra polêmica. Kant, na primeira Crítica, trata como antinomia o par liberdade da vontade e determinismo. Assim, irresolúvel. O mundo das ciências naturais é considerado há muito o reino da necessidade. Já as ciências humanas são o reino da liberdade. Para os positivistas, contudo, não há, a rigor, essa separação: as mesmas leis presidem ambos os campos, e essas leis são aquelas da necessidade. Engels, como se sabe, deixou incompleta uma Dialética da natureza, onde se aproxima, nesse aspecto, justamente do determinismo positivista; se já no Anti-Dühring ele fornecia leis da dialética, extraídas da Ciência da lógica, na Dialética da natureza ele vai mostrar, a seu ver, como os mais recentes avanços científicos comprovavam essa dialética. O resultado disso tudo é o mais estrito determinismo, que redundou no marxismo da II Internacional combatido por quase todos os clássicos dessa linha teórica no século passado. Quase todos, porque, além de Kautsky, que formulou um certo materialismo histórico biológico, Stálin, em seu curto texto "Materialismo histórico e materialismo dialético" subscreve essa visão. É o marxismo-leninismo-estalinismo, origem da diamat. As consequências para a ação política são severas. Os marxistas mais espertos anteviram isso e tentaram poupar Marx dessa empreitada engelsiana. Marx, dizem, formulou uma teoria social, histórica, nada de dialética da natureza. Creio eu, no entanto, que, se Marx o fez ou não, talvez seja difícil mensurar. Contudo, Engels é um marxista consequente por defender essa visão. Ou seria sustentável defender que a sociedade é histórica, muda no tempo, mas a natureza não? Sem contar que na origem da dialética marxista encontra-se aquela hegeliana, que é uma ontologia, inclusive com uma filosofia da natureza. Hegel começa o segundo volume da Enciclopédia justificando a necessidade de uma filosofia da natureza. Assim, e falo como alguém que teve muito pouco contato com Lukács, ontologia em sentido amplo, não somente "do ser social".(mas também dele).
Filosofia brasileira, política e poesia
O blog se propõe a debater os temas elencados, expondo a produção autoral de Felipe Luiz, o Guma, mestre em filosofia pela UNESP-Marília e ex-militante do movimento estudantil.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
terça-feira, 7 de julho de 2026
A metamontagem
Para Kdu, com carinho
Ao acordar uma manhã de sonhos inquietos, Eduardo Pamsa encontrou-se em sua cama transformado em uma lindíssima travesti. Estava deitada, de peruca, toda montada, um pouco indisposta, pois tinha batido cabelo por toda a noite, além de ter bebido todas. Estava sozinha no quarto, mas o cheiro que tomava o ar era de um dulçor imenso, lembrando-a de que não era mais Eduardo, mas, sim, Eduarda, a terrível, ou Duda Sanguínea, para os íntimos.
Um gosto de boas memórias subiu-lhe à
boca, misturada com certos efeitos da ressaca. Ao lado, no criado-mudo, um
pacote de camisinhas usadas e duas delas no chão, cheias de marcas de intenso
manuseio. Sentou-se à beira da cama, tomou um copo d’água e sorriu: havia se
liberto?
Pamsa buscou recapitular a vida nos últimos
anos. Ainda era jovem, relativamente: não chegará aos quarenta. “Quarenta anos!”,
pensou, “estou quase lá. Mas ainda posso me divertir”. Seus quarenta haviam
transcorrido de forma terrível, entre casos fingidos com mulheres, só para
inglês ver, e desejos reprimidos. “Quarenta, não; trinta e oito, e pronta para
atirar”.. Na balada ontem atirou mais que Clint Eastwood em algum spaghetti.
Atirou como se fosse cangaceira, Maria Bonita rediviva e ativa; atirou como um
franco atirador, atirou como um soldado soviético na frente oriental, em
Stalingrado, lutando contra os nazistas, em plena guerra. Atirou como uma
metralhadora, como se sua vida dependesse disso. E, no fundo, era isso: sua
vida estava no jogo, sua vida dependia disso.
“Nunca mais”, essa frase, como
estribilho, como ritornelo, aparecia em sua mente. “Nunca mais”. Havia, à
muitas custas, vencido a repressão, ou a parte mais difícil: a si mesma. Um
casamento furado e muitos namoros até compreender que a vida não volta, vai
para um lugar muito longe, para as aluviões do barqueiro sombrio, para depois da
terra firme. Perdera trinta e oito anos se escondendo. E as mulheres que
enganou? Aliás, as havia enganado? O mentiroso que crê na própria mentira se
engana? Não sabia, não era filósofo. Era apenas um homem, quer dizer, uma
mulher, quer dizer, era apenas um ser humano em busca de si mesmo, disposto a
vencer o mundo para se realizar.
Eduard Pamsa, ou melhor, Duda
Sanguínea não tinha nas veias um de barata. Não se iludia: apenas a primeira
batalha havia sido ganha. Ea guerra, aprendera quando serviu no Exército, a
guerra é feita de muitas batalhas. Como um inseto, a noite passada serviu para
que rompesse o casulo do enrustimento. E quanto tempo levou a incubação.
Hoje, sentada na cama, pronta para
fumar um cigarro, Duda reviu sua vida até ali, em um flash, como em um filme. A
infância livre, cercada de amigos e amigas, as primeiras brincadeiras; fora
muito feliz, pais amorosos, inteligentes. Teve contato com uma cultura que
somente muito depois descobrira que outras crianças nem sonhavam, autores e
artistas que elas não conseguiam nem falar, que dirá escrever.
Levantou-se, foi até a sacada de sua
casa em uma sobreloja no centro da cidade. Acendeu o cigarro. “Preciso mijar”,
pensou.
Se a infância fora prenhe de alegrias,
a adolescência foi um terror, pelo menos até que entendesse. Em um primeiro
momento, começou o desconforto. Via os outros meninos de namorico, apaixonado
pelas moças da rua e da escola. E ele, digo, ela? Apaixonada em seu melhor
amigo. As brincadeiras dos rapazes, passar a mão na bunda, simular o coito, disputar
quem tem o maior membro etc., eram mais que brincadeiras para ela. Eram um
deleite, o único momento em que podia ser quem sempre fora: Duda Sanguínea.
Mas, por dentro, se sentia dilacerado. Um rapaz mais fracote da rua, ela batia
e chamava de bichinha: “assim, ninguém descobriria, nem eu”, foi a conclusão
que se lha assomou agora, já entrando na idade da loba.
Lobo veio a primeira vez, com 16 anos,
idade em que os rapazes estão à flor da pele. Duda evitou o máximo que pode,
mas tomou um enquadro da menina. Tentou escapar pela última vez: “não tenho
camisinha”, disse. “Não tem problema”, foi-lhe objetado, “tomo anticoncepcional
e sou virgem”. Os amigos do lado de fora do quarto saberiam se ela saísse
rápido demais, coisas que nem mesmo a inexperiência, o balbucio peniano
explicaria. A moça era um diaba: se lha agarrou, fez preliminares, buscou o
poste túrgido. Em vão. Faltou-lhe ânimo. Explicou-se, até para si mesmo: “estava
nervoso, primeira vez”.
Logo descobriu que isso podia ser
vencido com meios artificiais: remédios para importência, usados por senhores
de alta idade, se tornaram sua companhia. Assi, podia fugir da constatação
brutal: não gostava de mulheres, queria ser uma.
Enquanto os garotos de sua idade
buscam as fitas pornográficas a fim de satisfazer o desejo sempre crescente por
sexo, ele assistia, escondido e se reprovando, vídeos de travestis. Seu foco
não era o sexo, era a mistura de mundo, era o encontro do céu com a terra, era
a ginga e a maquiagem, era o fato de, ali, acompanhado (admoestando os atores)
ou sozinho, acariciando-se, poder ser reconhecido por si mesmo, ainda que não
soubesse. Ali, era a si próprio, ali podia sair da casca e desabrochar como a
borboleta que sempre quis ser.
O casamento veio por pressão familiar.
Sua mãe e seu pai queriam netos. Ele, queria estabilidade e estar acima de
qualquer suspeita. Com o tempo, se acostumou com o sexo ruim, com a vida de
casado, com a rotina. Sua mulher já não o procurava, nem ele a ela. Viviam como
amigos, amigos íntimos, afinal, gostava dela. Só não queria fodê-la.
O casamento não durou, mas o filho
veio. Arrumou uma desculpa e foi cursar uma faculdade em outra cidade, longe do
filho, longe da ex-mulher. Na nova cidade, podia ser quem sempre fora.
Saía escondido da república. “Vou à
feira”, dizia. Ao mesmo tempo, somente conhecia um único tema de conversas:
travestis. Tudo era travestismo para ela ainda ele, tudo era motivo de abordar o
tema da transsexualidade, de fazer piadas, de apontar o dedo e dizer que seus amigos
gostavam de travestis. E assim, conjurava o sofrimento interno. Porque ela
ainda ele sofria. E sofria tanto que se dedicava a impor-se por meio da onipresente
diminuição de todos, como o fracote da infância. Apelidava os outros, sempre
com apodos jocosos e humilhantes. Era turrão, briguento, falastrão: era uma
pessoa infeliz.
A universidade passou e ele, à parte
algumas amizades mais profundas, não teve nenhuma experiência libertadora além
daquelas que já tivera na infância.
Agora, trabalhando, com o filho
crescido, se sentia diferente. Tudo começou quando, lendo uma reportagem, se
deparou com uma frase que lhe impactou profundamente: “só se vive uma vez”.
“Sim”, recapitulou, “uma única vez por
toda a eternidade”. Acendeu outro cigarro, tomou um gole d’água. Avançou pela
casa cheirando a gozo de macho e pensou: “nunca mais”.
sábado, 27 de junho de 2026
Kdu
O que aconteceu contigo, Carlos?
Qual bicho te mordeu?
Tinhas esperanças, sonhos,
Um futuro, um que era só teu.
Hoje estás destruído
Alquebrado pela vida.
És um longínquo ruído,
Uma coisa puída,
Estás num buraco infindo
Te tornastes uma fruta roída.
Oxalá encontre força
E se recupere.
A festa ainda não acabou.
As pedras do caminho
Só indicam que ninguém passou,
Mas para tudo o povo dá um jeitinho.
Para sair dessa fossa,
Te digo: levanta, lê um livro, te movimentas
Te organizas, não estás sozinho.
Tens a ti mesmo, teus camarás,
Um mundo, um sol com brilho.
Só não há além,
Não, nem um pouquinho.
R.P., inverno de 2026
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Ártemis
No arcabouço das horas
E das eras,
Erra imenso
Pelo kosmo
Aceso,
Pelo voltear dos astros,
Pelos pastos,
Pelos passos,
Da escuridão infensa.
Quedamos aturdidos
Mesmo com aço,
Mesmo sabendo
Os caminhos idos.
Quedamos presa de nós
Próprios, de nosso asco,
Ascese das oportunidades
Perdidas.
Que vida amarga,
Que vida fodida:
De todas as possibilidades,
Deu-nos ser objeto
Deu-nos ser partida
De quem lucra com sofrimento,
De quem só pensa com a lombriga.
Possa o povo se unir,
Possam as eras ceder,
Possa a dor cessar,
Possa o dia, enfim, nascer.
RP, outono de 2026
terça-feira, 10 de março de 2026
Aquarela do Brasil
― Sou uma boa pessoa, amor?
― Hua, está tarde. Vá dormir.
― Sim, mas antes me responda: sou uma boa pessoa?
― É sim, meu bem. Por que a pergunta?
― Por nada, só uma dúvida.
E beijou-lhe.
― Boa noite.
― Boa
Mas não dormiu. Já era tarde, amanhã havia expediente no quartel. Não era um quartel, claro, mas era assim que chamavam. Apesar de já ser tarde, não conseguia pregar os olhos. Do infinito da noite, remoía-lhe essa dúvida: era boa gente?
Era militar, casado, pai de filhos, católico apostólico romano. Até conhecia o cardeal. Pagava os impostos, contribuía com a caixinha da igreja, tratava bem os animais, quando aparecia uma oportunidade, até mesmo ajudava as velhinhas a atravessar a rua. Vez ou outra chegava a esmolar para o Benedito. Dito era um negrão que morava nas cercanias da Sé, alcoólatra, mendigo, vinha do norte. Tentou a vida por aqui e não conseguiu. Fedia a merda. Mas controlava o asco para poder chegar perto de deus.
Na Escola de Formação de Oficiais, aprendera, com Clausewitz, um alemão do tempo de Napoleão, que na guerra o moral da tropa era importante, talvez o mais importante. Pensa bem: se o soldado não quer lutar, se vacila, se pensa que é inútil resistir ou que já perdeu, para que as armas? De que lhe bastam fuzis, escopetas, metralhadoras? De nada. Essa é a verdade. Na guerra, é todos por um e um por todos. Acima da soldadesca, só deus. Ah, e os oficiais.
Ele era oficial.
E aquilo era uma guerra.
Ou não era? Era sim. Havia tropas em conflito. De um lado, a vagabundagem comunista, essa ralé oriental, paga a ouro por Moscou para nos subtrair a liberdade. Ou a escumalha cubana. Ou quem sabe os malditos amarelos fazedores de pastel. Que se foda, é tudo lixo. São ateus, todos eles. Alguns até comem cachorro, os outros fazem lavagem cerebral desde jovem.
Era guerra.
E na guerra, quem não está disposto a ir até às últimas consequências nem deve se alistar. A guerra é sangue. A guerra é tiro, são tripas. A guerra é morte. Não se mata por prazer na guerra, ou quase ninguém o faz. Na guerra se mata porque se deve. É o dever do soldado matar, como é dever do inimigo morrer. Na guerra tudo é por dever. É assim porque é assim. Nada de questionamento. Ninguém questiona o Sol por ser quente, ninguém questiona a água por molhar. Por que um filha da puta acha que tem o direito de questionar um oficial superior? Ninguém tem esse direito. Obedeço quando sou mandado, mando quando devo e o putedo dos subordinados devem obedecer.
Na guerra vacilar diante da ordem pode colocar a tropa toda em risco. O medo contamina a soldadesca, um depois do outro vão caindo, como moscas diante do inseticida. A confiança tem que ser total.
O alemão que escrevia sobre moral sabia disso. Por isso disse que é essencial para um exército o bom chefe. O oficial de qualidade é aquele que sabe mandar, que faz todo mundo o obedecer com gosto, quase sem ver. É o gênio militar. Nós tínhamos vários chefes desses, ao menos a meu ver, a começar pelo presidente do país, até chegar em mim. Sou um bom chefe? Só não admito ser contrariado, mas não dou castigo injusto.
Talvez no trote. Nos damos um papel para o recruta ler em voz alta; só que, no lugar onde há uma vírgula, ele deve ler “de cu pra cima”, e onde há um ponto, leia-se “de cu pra baixo”:
“A República Federativa do Brasil, [de cu pra cima] ou só Brasil, [de cu pra cima] é um país localizado na porção oriental da América do Sul. [de cu pra baixo] O Brasil é composto por estados e um Distrito Federal, [de cu pra cima] em cujo território se encontra a capital do país, [de cu pra cima], Brasília. [de cu pra baixo]. O atual Presidente do país, [de cu pra cima], General Emílio Garrastazu Médici, [de cu pra cima] tem obtidos êxitos enormes na condução da política econômica, [de cu pra cima], com crescimento robusto, [de cu pra cima], criação de empregos [de cu pra cima] e industrialização do país. [de cu pra baixo.]”
Quem rir toma logo uma bofetada. Não é pra rir, porra, é para se segurar. Isso aqui é guerra, tem gente morrendo e arriscando a vida e o porra vem dar risada. Tem que se controlar. Militar tem de ser macho.
Se é guerra, meu serviço é necessário. Os comunistas são terroristas. Eles querem fazer de tudo para ganhar, roubam, batem, matam. E o pobre Tenente que o comunista traidor Lamarca matou a golpes de coronha? E o pobre Mário? E o dinheiro roubado, economia da vida toda de milhares de aposentados e trabalhadores? Os comunistas não tem vergonha na cara, são uns filhas da puta. Vendilhões da pátria, trocaram o país por uma merda de garrafa de vodca e um fumo cubano. Bando de filha da puta. Eu os odeio.
Quem se opõe ao mal só pode ser bom. O mal se mescla com o mal, como o bem mescla com o bem. É uma luta eterna.
Faço parte dessa luta, sou não soldado, sou guerreiro, luto não só pelo ordenado. Luto porque preciso, porque quero. Porque é o certo. Luto pelos meus filhos, por minha esposa, por minha família, colegas, por minha pátria. Luto por deus. Em nome de deus, o que não é permitido? A boa causa enobrece até o inferno.
Em nome de deus faço de tudo. É deus no céu, meu comandante na Terra. E meu comandante diz: não meça esforços; faço o necessário mas debele esses comunistas. In nominis patri, fili et spiritus sancti. Por todos os meios. Os comunistas tomaram metade do mundo. Se ganham aqui é pum, vai sobrar pra todos nós. Eles não tem misericórdia, não reconhecem Cristo-rei. Se bem que tem até padre no meio. Quer dizer, padre não: arremedo de padre, vermelho infiltrado, vagabundo.
Amor por todos é o caralho. Amor por quem nos ama. E quem nos ama, nos apoia. Foram às ruas pedir que viéssemos. E mesmo que não tivéssemos pedido. Juramos proteger nosso ver e amarelo, juramos dar a vida. Veja bem: verde e amarelo, não tem nada de vermelho. Vermelho é país que faz a guerra, vermelho são os comunistas. Queremos a paz, nossa guerra é contra aqueles que querem a guerra os subversivos. Nossa guerra é para não ter guerra.
São de muitos tipos. Tem os cubanos, os chineses, os russos, tem até de tipo europeu. Só não tem cristão. Corrompem a juventude, fodem com o negócio todo, lavagem cerebral, maldizem Nossa Senhora, cospem no papa. Temos que resistir.
Já disse: toda arma é santa na guerra santa quando o inimigo é o mal. Eles mesmos se odeiam, faz lá vinte anos que se denunciaram. O tal Stálin perseguia os próprios comunistas nos confins da Rússia. Foi caçar um lá no México. Nem eles se suportam. Proteger nossa juventude, evitar a contaminação.
Comandante disse: faça o que for necessário. Sigo ordens, sou soldado, sou guerreiro, desço a porrada. Fui treinado para não sentir fome, frio, calor ou medo. Eu obedeço e faço obedecer. Contra a escroqueria comunista vale tudo.
Que é uma unha arrancada perto da salvação de dezenas de milhões? Que são uns cabelos puxados? Queimaduras? Uns ossos quebrados. Na guerra mata-se. Que eles farão, se ganharem, com gente como nós? São ladrões. A propriedade é santa¹ A família é santa! Na guerra, toda arma é boa se benzida. O capelão a benze para nós. A boa sociedade está conosco.
Há excessos? Talvez! É o preço a se pagar.
Morrem inocentes? Não há inocentes na guerra. Se é amigo do inimigo, é meu inimigo, merece morrer.
Quem causa tudo são eles mesmos. Por que não se filiam à oposição? Por que se op~em ao que está acontecendo? Há crescimento, todos estão ganhando dinheiro, o país anda pra frente, vencemos a Copa, somos os melhores, somos os primeiros. Somos o país do futuro. Por que se opor? Que haja lá pobreza, mas os que sofrem nessa vida vão ser recompensados. Assim, até ajudamos o putedo comunista os fazendo sofre: deus se compadece. Expiam os pecados na Terra, vão direto para o purgatório. Do contrário, seria o inferno, do contrário, sofreriam no garfo do capeta.
Eu gosto mesmo é do choque. A carne do vagabundo fica mole, mole, abre tudo, diz até o que não sabe. Estupro não faço e sob minhas ordens não se faz. Um cassetete não é estupro, só com o pau e por prazer é que é. Não temos prazer, temos contentamento por servir a pátria, por salvá-la, por por nos trilhos esse Brasilzão. Vamos cumprir nosso dever, vamos impedir que isso aqui vire um país vermelho, vamos crescer primeiro e depois distribuir, como disse o ministro. E quem não quiser, pode ir embora, os aeroportos estão à disposição, vão pro cu do Judas, mas não atrapalhem a maioria. A maioria nos apoia, é católica, a Igreja já proibiu o comunismo. A maioria é silenciosa e apática, e sua apatia é sinal que tudo está bem.
Em cinquenta anos, seremos a segunda maior potência. Vamos ultrapassar até a Rússia. Vocês verão. Então os netos dos comunistas, se deixarmos algum sobrar, lamentarão os erros de seus avós. Porque aqui é Brasil. Aqui é verde-amarelo, não vermelho. Aqui é ordem e progresso. Aqui é o país do futuro. E o futuro demora, mas chega. Ele chegará.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Z.
- Armamos as choupanas,
Sorvemos o licor da terra,
Extraímos o néctar o mais puro da natureza,
Provamos o tutano das bestas
E os frutos do solo,
Os quais, de prévio, apascentamos e domamos.
Crescemos sob o uso do humus mesmo.
E tudo para que?
Para nos tornarmos pasto de vermes e pousio das moscas,
Para nos misturarmos com tudo aquilo que vivo,
Jaz morto, entremeado à poeira,
Para ter nossa dignidade reduzida ao chorume
Que envenena o corpo do planeta
E polui a água mesma,
Este vinho da vida.
...
- Mas o que esperavas?
O divino encarnado?
O diamante vivo?
O cristalino do eterno?
Queres demais,
Foste mal acostumado
Pelas tontarias dos platônicos de batina.
Senta em tua poltrona,
Traga a aguardente que te faz sentir vivo
E prova do manjar que te é ofertado.
A vida é curta e insensível
Somente para os autômatos
Que já não refletem
E matam o presente
Na futura frialdade da tumba.
RP, verão de 2026
[Tradução] Que é a vida? Menandro / Tí έστι ò βίος; Μενάνδρου
Que é a vida?
Menandro
Quando desejares ver a si mesmo como és,
olhe dentro dos monumentos enquanto viajas.
Lá há osso e ligeiro pó
dos homens, reis e dos tiranos e dos sabios
[que] muito se preocuparam sobre a estirpe e as coisas
[e da] deles opinião pois sobre os belos corpos.
Nada dessa coisas concerne o tempo.
Vazio o Hades tinham todos os mortais
Sabendo isto, conheça de você mesmo o que és..
Tí έστι ò βίος;
Μενάνδρου
Ό ταν είδέναι θέλης σαυτόν 'όστις εΐ,
έμβλεψόν εις τά μνήμαθ’ ώς όδοιτορεϊς.
Ένταϋθ' ενεστ'όστά τε καί κούφη χόνις
άνδρών βασιλέων χφί τυράννων καί σοφών
καί μέγα φρονοϋντων έτί γένει καί χρήμασιν
αυτών τε δόξη κάτι χάλλει σωμάτων.
Κ ίτ' ούδέν αΰτοϊς τώνδ' έτήρχεσεν χρόνον.
Κοινόν τόν “Αιδην έσχον οί τάντες βροτοί.
Προ? ταΰθ’ όρών γίγνωσχε σαυτόν όστις εϊ.