A busca pelo "ponto arquimediano", pela archē, perseguiu a filosofia por séculos. Não somente a filosofia, para ser exato, a cultura em geral do Ocidente. Ora, desde meados do século XIX, sobretudo após Nietzsche, isso vem sendo cuidadosamente desmontado. Após as tragédias das duas Guerras Mundiais, cuja racionalidade atuante era a mesma que conduzia à busca pelo tal princípio, e as lutas do Terceiro Mundo, conducentes à descolonização direta, o cânone ocidental, isto o conjunto de obras formantes da Bildung iluminista, foi sendo também alargado, a fim de que se abarque as obras de todas as latitudes e longitudes. Se, desde Marx e, a fortiori, Benjamin, a história a contrapelo era tarefa dos dominados, ela foi tomando forma através de uma revisão total de vários aspectos de uma civilização que se impôs ao mundo através das armas e da metis (a astúcia) do em moda Odisseu. Com Freud, se questionou o cogito, por exemplo. Com uma série de autoras, o domínio do macho. Com Foucault, até mesmo a ascendência da razão sobre a loucura. Se o socialismo questionava já há muito o domíniod os ricos, formou-se uma avalanche de posições e posturas que punham xeque a própria maneira como a modernidade havia organizado as tradições ocidentais, as quais se expandiam e globalizavame. Esse é o processo no qual nos encontramos, no qual novas potências, por tempos obnubiladas, põem em xeque o domínio tradicional da Europa.
Na Fenomenologia
do espírito, livro que é um dos mais difíceis do cânone ocidental, Hegel
analisa a formação da consciência desse lado do mundo: como, até aquele
momento, a consciência, desde seu modo mais simples, isto é, o imediato, vai se
elevando em movimentos sucessivos, até à compreensão do Absoluto: o todo em si
movente. Há várias etapas desse movimento, alguns que extravasam o círculo dos
iniciados no hegelianês, como a subcapítulo Dominação e servidão,
conhecido como dialética do senhor e do escravo. Nele, Hegel mostra como,
formadas as consciência até um certo nível, o do entendimento, no qual a
realidade é composta por forças (Kräfte), duas consciências se
encontram. Ambas buscam ser reconhecidas pela outra como enquanto consciência autônoma; assim, elas se
engajam em uma luta em busca desse reconhecimento. Nesse embate, uma consciência
está disposta a ir até às últimas consequências: essa consciência prefere
morrer a se submeter à outra, escolhe a morte. Já a outra consciência, diante da
persistência da outra, escolhe viver, selando, com isso, seu papel como
dominada. O texto de Hegel, no entanto, não é estático: ele é em si movente,
ela caminha conforme nele avançamos. Se, em um primeiro momento, a consciência
que escolheu a morte, a do senhor, domina, logo é vê-se na dependência da
consciência que escolheu a vida e, por isso, foi servir. Na labuta servil, essa
última consciência se forma: ela trabalha a coisa, ela é responsável por si
mesma e pelo senhor. O senhor se torna, pois, dependente dela. Com isso, agora
é a consciência do senhor a dependente, e a do escravo o pólo dominante. A
consciência do senhor percebe, ademais, que não basta ser reconhecida por uma
consciência escravizada; antes, precisa ser reconhecida por uma consciência
igual a si própria; destarte, mergulha na consciência infeliz.
Ora,
com o colonialismo, as potências ocidentais submeteram o resto do mundo: eram o
senhor. Já o Terceiro mundo, se submeteu. No pós Segunda Guerra, as indústrias
dos países centrais foram trocando de base e se instalando nos países da
periferia, atrás de lucros espetaculares com a superexploração da mão de obra.
Hoje, contudo, o campeão dos países pobres, a China, aprendeu como fabricar os produtos,
se formou pelo trabalho: Hoje, o mundo depende dela, ela é o pólo dinâmico.
Qual será o desfecho?
Por
outro lado, com o despertar do Terceiro mundo, já não é mais cabível que se
queira reduzir o cânone à história da filosofia ocidental. O mundo é maior que
uma península. Assim, incluir os múltiplos novos autores em uma análise teórica
que dê conta da formação do contemporâneo nas mais distintas latitudes e
longitudes, nas línguas diversas, nas diferentes civilizações, é o caminho para
um mundo democrático de fato, não a democracia dos ricos, mas uma
democracia que integre os povos, os medindo por outros valores além de sua
conta bancária, tom de pele ou matiz ocular.
Essa obra
deverá ser uma nova Fenomenologia do espírito, uma que, após a universalidade
hegeliana oca, que nos conduziu ao colonialismo, e as insurreições
identitárias, que nos cercam no provincialismo, finalmente permita que
construamos uma civilização planetária, que possa singrar o kosmos e
responder a perguntar: O que é o ser?