sábado, 29 de agosto de 2026

Horácio II

 Me dizes que já não resta saída,

Que a vida é um caminho sem volta,

Uma mão única, sem retorno após a partida.

Dançando com a escuridão,

Nas dobras das areias do tempo,

Te entregastes aos prazeres fáceis

Da droga, do álcool e do fumo,

Tentando te aliviar

Do peso imenso que te vergas:

Este mesmo, o de serdes a ti próprio, 

Mera carne sustentada por nervos e ossos

Perdida, a vagar insone no vácuo

Sem bússola que suporte

O desorientar desse movimento. 


- Queria censurar-te pela desesperança  

E rendição que fazes ao infinito.

Mal a batalha começa

E já te entregas, pusilânime, 

Ao inimigo que é tua mente e tua cultura.

Os antigos nos legaram

As soluções do dilema.

É na construção do caminho

Que teu enigma se dissolve.

O fim, que importa o fim

Se, quando ele chega, 

Nós já seremos a sombra

Da anima outrora viva?

O fim é pouco

Diante de tua tarefa.

O fim só pesa

Em quem já abriu mão do meio,

E somos todo meio

Todo na dobra, todo no fazer-se.


Acalma teu espírito 

Agarra aqueles volumes

Horácio, Pessoa

Maiakóvsky e Anacreonte

Neles, toda sabedoria que precisas

Para encarar o inifinito e vencer,

Para construir tua história 

Enquanto ser único que eres.


Pulsa com o kosmos

Que ele te responderá.

Assim, abres caminho

Na selva do desconhecido

E talha, no seio mesmo do infinito,

O manancial da liberdade dourada

Na qual vives e na qual passarás

Todas as eternidades a devir

Nem que seja dissoluto

Em álcool e moléculas

Átomos e energia.

sábado, 22 de agosto de 2026

Horácio

 No correr do tempo implacável 

Em que, teso de alegria,

Em mim se escondem as rugas da

Preocupação, 

E também na hora mesma

Na qual me verga a agonia,

É a arte das Musas que me sustém,

E, nesta, é em você onde deito meu pensamento, 

Senhor supremo dos poetas,

Molde e modelo inesgotável

Fonte mesma da inspiração. 

Não à toa,  Augusto te honrou

E os líderes onde nos fartamos,

Se rendiam à tua arte.

Abundas naquilo que necessita 

Quem toma a pena como cinzel:

O encanto e a adequação. 

Quando jubilo,

É ao velho das cãs já gastas que me dirijo,

Anacreonte, a lira da orgia;

Mas, nas horas decisivas,

Quando a vida é incerta

E a agonia pesa sobre minhas fibras,

Amolecidas pela sobrevivência, 

Hora na qual é o juízo que balança, 

Não é outro meu apoio.

Assim, nobre senhor, sossegue nos Elísios,

Conquanto nós,

Rebentos de um mundo decaído

Pelo peso de uma cruz e da sede pelo ouro,

Buscamos em vossa grandeza

Sustento e a ocasião 

Para fundarmos a Arcádia dos povos.


RP, inverno de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

Uma nova Fenomenologia do Espírito? Parte I

 

A busca pelo "ponto arquimediano", pela archē, perseguiu a filosofia por séculos.  Não somente a filosofia,  para ser exato, a cultura em geral do Ocidente. Ora, desde meados do século  XIX, sobretudo após Nietzsche,  isso vem sendo cuidadosamente desmontado. Após as tragédias das duas Guerras Mundiais,  cuja racionalidade atuante era a mesma que  conduzia à busca pelo tal princípio,  e as lutas do Terceiro  Mundo, conducentes à descolonização direta, o cânone ocidental,  isto o conjunto de obras formantes da Bildung iluminista,  foi sendo também alargado, a fim de que se abarque as obras de todas as latitudes e longitudes. Se, desde Marx e, a fortiori, Benjamin, a história a contrapelo era tarefa dos dominados, ela foi tomando forma através de uma revisão total de vários aspectos de uma civilização que se impôs ao mundo através das armas e da metis (a astúcia) do em moda Odisseu. Com Freud, se questionou o cogito, por exemplo. Com uma série de autoras, o domínio do macho. Com Foucault,  até mesmo a ascendência da razão sobre a loucura. Se o socialismo questionava já há muito o domíniod os ricos, formou-se uma avalanche de posições e posturas que punham xeque a própria maneira como a modernidade havia organizado as tradições ocidentais, as quais se expandiam e globalizavame. Esse é o processo no qual nos encontramos, no qual novas potências, por tempos obnubiladas, põem em xeque o domínio tradicional da Europa.

Na Fenomenologia do espírito, livro que é um dos mais difíceis do cânone ocidental, Hegel analisa a formação da consciência desse lado do mundo: como, até aquele momento, a consciência, desde seu modo mais simples, isto é, o imediato, vai se elevando em movimentos sucessivos, até à compreensão do Absoluto: o todo em si movente. Há várias etapas desse movimento, alguns que extravasam o círculo dos iniciados no hegelianês, como a subcapítulo Dominação e servidão, conhecido como dialética do senhor e do escravo. Nele, Hegel mostra como, formadas as consciência até um certo nível, o do entendimento, no qual a realidade é composta por forças (Kräfte), duas consciências se encontram. Ambas buscam ser reconhecidas pela outra como  enquanto consciência autônoma; assim, elas se engajam em uma luta em busca desse reconhecimento. Nesse embate, uma consciência está disposta a ir até às últimas consequências: essa consciência prefere morrer a se submeter à outra, escolhe a morte. Já a outra consciência, diante da persistência da outra, escolhe viver, selando, com isso, seu papel como dominada. O texto de Hegel, no entanto, não é estático: ele é em si movente, ela caminha conforme nele avançamos. Se, em um primeiro momento, a consciência que escolheu a morte, a do senhor, domina, logo é vê-se na dependência da consciência que escolheu a vida e, por isso, foi servir. Na labuta servil, essa última consciência se forma: ela trabalha a coisa, ela é responsável por si mesma e pelo senhor. O senhor se torna, pois, dependente dela. Com isso, agora é a consciência do senhor a dependente, e a do escravo o pólo dominante. A consciência do senhor percebe, ademais, que não basta ser reconhecida por uma consciência escravizada; antes, precisa ser reconhecida por uma consciência igual a si própria; destarte, mergulha na consciência infeliz.

Ora, com o colonialismo, as potências ocidentais submeteram o resto do mundo: eram o senhor. Já o Terceiro mundo, se submeteu. No pós Segunda Guerra, as indústrias dos países centrais foram trocando de base e se instalando nos países da periferia, atrás de lucros espetaculares com a superexploração da mão de obra. Hoje, contudo, o campeão dos países pobres, a China, aprendeu como fabricar os produtos, se formou pelo trabalho: Hoje, o mundo depende dela, ela é o pólo dinâmico. Qual será o desfecho?

Por outro lado, com o despertar do Terceiro mundo, já não é mais cabível que se queira reduzir o cânone à história da filosofia ocidental. O mundo é maior que uma península. Assim, incluir os múltiplos novos autores em uma análise teórica que dê conta da formação do contemporâneo nas mais distintas latitudes e longitudes, nas línguas diversas, nas diferentes civilizações, é o caminho para um mundo democrático de fato, não a democracia dos ricos, mas uma democracia que integre os povos, os medindo por outros valores além de sua conta bancária, tom de pele ou matiz ocular.

Essa obra deverá ser uma nova Fenomenologia do espírito, uma que, após a universalidade hegeliana oca, que nos conduziu ao colonialismo, e as insurreições identitárias, que nos cercam no provincialismo, finalmente permita que construamos uma civilização planetária, que possa singrar o kosmos e responder a perguntar: O que é o ser?

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fragmento sobre ontologia e marxismo

 Em seu doutorado, sobre materialismo antigo, Marx trabalha uma importante diferença entre Demócrito e Epicuro. Embora ambos sejam atomistas (o primeiro, um de seus inventores, junto a Leucipo, também originário da cidade de Abdera, do qual não sabemos quase nada), Demócrito é determinista. O mundo, para ambos, é formado átomos e vazio, mas Epicuro acrescenta que os átomos, em sua queda, podem sofrer um desvio, o clínamen. Com isso, introduz-se o acaso ou, se se quiser, a liberdade. Li os fragmentos completos de Demócrito ainda em meu primeiro ano de doutorado. Sua obra era gigantesca e cobria inúmeros tópicos, mas, além dos títulos, quase todos seus fragmentos extantes são de ética, muitas vezes meros apotegmas (sentenças). De Epicuro há mais fragmentos, também li completo, por ocasião da investigação da (abre aspas) obra prima (fecha aspas) de Olavo, que trata justamente de Epicuro; texto surrealista, pode-se dizer. Mas não é disso que quero falar, mas, sim, de uma outra polêmica. Kant, na primeira Crítica, trata como antinomia o par liberdade da vontade e determinismo. Assim, irresolúvel. O mundo das ciências naturais é considerado há muito o reino da necessidade. Já as ciências humanas são o reino da liberdade. Para os positivistas, contudo, não há, a rigor, essa separação: as mesmas leis presidem ambos os campos, e essas leis são aquelas da necessidade. Engels, como se sabe, deixou incompleta uma Dialética da natureza, onde se aproxima, nesse aspecto, justamente do determinismo positivista; se já no Anti-Dühring ele fornecia leis da dialética, extraídas da Ciência da lógica, na Dialética da natureza ele vai mostrar, a seu ver, como os mais recentes avanços científicos comprovavam essa dialética. O resultado disso tudo é o mais estrito determinismo, que redundou no marxismo da II Internacional combatido por quase todos os clássicos dessa linha teórica no século passado. Quase todos, porque, além de Kautsky, que formulou um certo materialismo histórico biológico, Stálin, em seu curto texto "Materialismo histórico e materialismo dialético" subscreve essa visão. É o marxismo-leninismo-estalinismo, origem da diamat. As consequências para a ação política são severas. Os marxistas mais espertos anteviram isso e tentaram poupar Marx dessa empreitada engelsiana. Marx, dizem, formulou uma teoria social, histórica, nada de dialética da natureza. Creio eu, no entanto, que, se Marx o fez ou não, talvez seja difícil mensurar. Contudo, Engels é um marxista consequente por defender essa visão. Ou seria sustentável defender que a sociedade é histórica, muda no tempo, mas a natureza não? Sem contar que na origem da dialética marxista encontra-se aquela hegeliana, que é uma ontologia, inclusive com uma filosofia da natureza. Hegel começa o segundo volume da Enciclopédia justificando a necessidade de uma filosofia da natureza. Assim, e falo como alguém que teve muito pouco contato com Lukács, ontologia em sentido amplo, não somente "do ser social".(mas também dele).

terça-feira, 7 de julho de 2026

A metamontagem

          

                                                           Para Kdu, com carinho


 Ao acordar uma manhã de sonhos inquietos, Eduardo Pamsa encontrou-se em sua cama transformado em uma lindíssima travesti. Estava deitada, de peruca, toda montada, um pouco indisposta, pois tinha batido cabelo por toda a noite, além de ter bebido todas. Estava sozinha no quarto, mas o cheiro que tomava o ar era de um dulçor imenso, lembrando-a de que não era mais Eduardo, mas, sim, Eduarda, a terrível, ou Duda Sanguínea, para os íntimos.

          Um gosto de boas memórias subiu-lhe à boca, misturada com certos efeitos da ressaca. Ao lado, no criado-mudo, um pacote de camisinhas usadas e duas delas no chão, cheias de marcas de intenso manuseio. Sentou-se à beira da cama, tomou um copo d’água e sorriu: havia se liberto?

          Pamsa buscou recapitular a vida nos últimos anos. Ainda era jovem, relativamente: não chegará aos quarenta. “Quarenta anos!”, pensou, “estou quase lá. Mas ainda posso me divertir”. Seus quarenta haviam transcorrido de forma terrível, entre casos fingidos com mulheres, só para inglês ver, e desejos reprimidos. “Quarenta, não; trinta e oito, e pronta para atirar”.. Na balada ontem atirou mais que Clint Eastwood em algum spaghetti. Atirou como se fosse cangaceira, Maria Bonita rediviva e ativa; atirou como um franco atirador, atirou como um soldado soviético na frente oriental, em Stalingrado, lutando contra os nazistas, em plena guerra. Atirou como uma metralhadora, como se sua vida dependesse disso. E, no fundo, era isso: sua vida estava no jogo, sua vida dependia disso.

          “Nunca mais”, essa frase, como estribilho, como ritornelo, aparecia em sua mente. “Nunca mais”. Havia, à muitas custas, vencido a repressão, ou a parte mais difícil: a si mesma. Um casamento furado e muitos namoros até compreender que a vida não volta, vai para um lugar muito longe, para as aluviões do barqueiro sombrio, para depois da terra firme. Perdera trinta e oito anos se escondendo. E as mulheres que enganou? Aliás, as havia enganado? O mentiroso que crê na própria mentira se engana? Não sabia, não era filósofo. Era apenas um homem, quer dizer, uma mulher, quer dizer, era apenas um ser humano em busca de si mesmo, disposto a vencer o mundo para se realizar.

          Eduard Pamsa, ou melhor, Duda Sanguínea não tinha nas veias um de barata. Não se iludia: apenas a primeira batalha havia sido ganha. Ea guerra, aprendera quando serviu no Exército, a guerra é feita de muitas batalhas. Como um inseto, a noite passada serviu para que rompesse o casulo do enrustimento. E quanto tempo levou a incubação.

          Hoje, sentada na cama, pronta para fumar um cigarro, Duda reviu sua vida até ali, em um flash, como em um filme. A infância livre, cercada de amigos e amigas, as primeiras brincadeiras; fora muito feliz, pais amorosos, inteligentes. Teve contato com uma cultura que somente muito depois descobrira que outras crianças nem sonhavam, autores e artistas que elas não conseguiam nem falar, que dirá escrever.

          Levantou-se, foi até a sacada de sua casa em uma sobreloja no centro da cidade. Acendeu o cigarro. “Preciso mijar”, pensou.

          Se a infância fora prenhe de alegrias, a adolescência foi um terror, pelo menos até que entendesse. Em um primeiro momento, começou o desconforto. Via os outros meninos de namorico, apaixonado pelas moças da rua e da escola. E ele, digo, ela? Apaixonada em seu melhor amigo. As brincadeiras dos rapazes, passar a mão na bunda, simular o coito, disputar quem tem o maior membro etc., eram mais que brincadeiras para ela. Eram um deleite, o único momento em que podia ser quem sempre fora: Duda Sanguínea. Mas, por dentro, se sentia dilacerado. Um rapaz mais fracote da rua, ela batia e chamava de bichinha: “assim, ninguém descobriria, nem eu”, foi a conclusão que se lha assomou agora, já entrando na idade da loba.

          Lobo veio a primeira vez, com 16 anos, idade em que os rapazes estão à flor da pele. Duda evitou o máximo que pode, mas tomou um enquadro da menina. Tentou escapar pela última vez: “não tenho camisinha”, disse. “Não tem problema”, foi-lhe objetado, “tomo anticoncepcional e sou virgem”. Os amigos do lado de fora do quarto saberiam se ela saísse rápido demais, coisas que nem mesmo a inexperiência, o balbucio peniano explicaria. A moça era um diaba: se lha agarrou, fez preliminares, buscou o poste túrgido. Em vão. Faltou-lhe ânimo. Explicou-se, até para si mesmo: “estava nervoso, primeira vez”.

          Logo descobriu que isso podia ser vencido com meios artificiais: remédios para importência, usados por senhores de alta idade, se tornaram sua companhia. Assi, podia fugir da constatação brutal: não gostava de mulheres, queria ser uma.

          Enquanto os garotos de sua idade buscam as fitas pornográficas a fim de satisfazer o desejo sempre crescente por sexo, ele assistia, escondido e se reprovando, vídeos de travestis. Seu foco não era o sexo, era a mistura de mundo, era o encontro do céu com a terra, era a ginga e a maquiagem, era o fato de, ali, acompanhado (admoestando os atores) ou sozinho, acariciando-se, poder ser reconhecido por si mesmo, ainda que não soubesse. Ali, era a si próprio, ali podia sair da casca e desabrochar como a borboleta que sempre quis ser.

          O casamento veio por pressão familiar. Sua mãe e seu pai queriam netos. Ele, queria estabilidade e estar acima de qualquer suspeita. Com o tempo, se acostumou com o sexo ruim, com a vida de casado, com a rotina. Sua mulher já não o procurava, nem ele a ela. Viviam como amigos, amigos íntimos, afinal, gostava dela. Só não queria fodê-la.

          O casamento não durou, mas o filho veio. Arrumou uma desculpa e foi cursar uma faculdade em outra cidade, longe do filho, longe da ex-mulher. Na nova cidade, podia ser quem sempre fora.

          Saía escondido da república. “Vou à feira”, dizia. Ao mesmo tempo, somente conhecia um único tema de conversas: travestis. Tudo era travestismo para ela ainda ele, tudo era motivo de abordar o tema da transsexualidade, de fazer piadas, de apontar o dedo e dizer que seus amigos gostavam de travestis. E assim, conjurava o sofrimento interno. Porque ela ainda ele sofria. E sofria tanto que se dedicava a impor-se por meio da onipresente diminuição de todos, como o fracote da infância. Apelidava os outros, sempre com apodos jocosos e humilhantes. Era turrão, briguento, falastrão: era uma pessoa infeliz.

          A universidade passou e ele, à parte algumas amizades mais profundas, não teve nenhuma experiência libertadora além daquelas que já tivera na infância.

          Agora, trabalhando, com o filho crescido, se sentia diferente. Tudo começou quando, lendo uma reportagem, se deparou com uma frase que lhe impactou profundamente: “só se vive uma vez”.       

          “Sim”, recapitulou, “uma única vez por toda a eternidade”. Acendeu outro cigarro, tomou um gole d’água. Avançou pela casa cheirando a gozo de macho e pensou: “nunca mais”.

sábado, 27 de junho de 2026

Kdu

 O que aconteceu contigo, Carlos?

Qual bicho te mordeu?

Tinhas esperanças, sonhos,

Um futuro, um que era só teu.

Hoje estás destruído

Alquebrado pela vida.

És um longínquo ruído,

Uma coisa puída,

Estás num buraco infindo

Te tornastes uma fruta roída.

Oxalá encontre força

E se recupere.

A festa ainda não acabou.

As pedras do caminho

Só indicam que ninguém passou,

Mas para tudo o povo dá um jeitinho.

Para sair dessa fossa,

Te digo: levanta, lê um livro, te movimentas

Te organizas, não estás sozinho.

Tens a ti mesmo, teus camarás,

Um mundo, um sol com brilho.

Só não há além,

Não, nem um pouquinho.


R.P., inverno de 2026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Ártemis

 No arcabouço das horas

E das eras,

Erra imenso

Pelo kosmo

Aceso,

Pelo voltear dos astros,

Pelos pastos,

Pelos passos,

Da escuridão infensa.

Quedamos aturdidos

Mesmo com aço,

Mesmo sabendo

Os caminhos idos.

Quedamos presa de nós

Próprios, de nosso asco,

Ascese das oportunidades

Perdidas.

Que vida amarga,

Que vida fodida:

De todas as possibilidades,

Deu-nos ser objeto

Deu-nos ser partida

De quem lucra com sofrimento,

De quem só pensa com a lombriga.

Possa o povo se unir,

Possam as eras ceder,

Possa a dor cessar,

Possa o dia, enfim, nascer.


RP, outono de 2026