terça-feira, 7 de julho de 2026

A metamontagem

          

                                                           Para Kdu, com carinho


 Ao acordar uma manhã de sonhos inquietos, Eduardo Pamsa encontrou-se em sua cama transformado em uma lindíssima travesti. Estava deitada, de peruca, toda montada, um pouco indisposta, pois tinha batido cabelo por toda a noite, além de ter bebido todas. Estava sozinha no quarto, mas o cheiro que tomava o ar era de um dulçor imenso, lembrando-a de que não era mais Eduardo, mas, sim, Eduarda, a terrível, ou Duda Sanguínea, para os íntimos.

          Um gosto de boas memórias subiu-lhe à boca, misturada com certos efeitos da ressaca. Ao lado, no criado-mudo, um pacote de camisinhas usadas e duas delas no chão, cheias de marcas de intenso manuseio. Sentou-se à beira da cama, tomou um copo d’água e sorriu: havia se liberto?

          Pamsa buscou recapitular a vida nos últimos anos. Ainda era jovem, relativamente: não chegará aos quarenta. “Quarenta anos!”, pensou, “estou quase lá. Mas ainda posso me divertir”. Seus quarenta haviam transcorrido de forma terrível, entre casos fingidos com mulheres, só para inglês ver, e desejos reprimidos. “Quarenta, não; trinta e oito, e pronta para atirar”.. Na balada ontem atirou mais que Clint Eastwood em algum spaghetti. Atirou como se fosse cangaceira, Maria Bonita rediviva e ativa; atirou como um franco atirador, atirou como um soldado soviético na frente oriental, em Stalingrado, lutando contra os nazistas, em plena guerra. Atirou como uma metralhadora, como se sua vida dependesse disso. E, no fundo, era isso: sua vida estava no jogo, sua vida dependia disso.

          “Nunca mais”, essa frase, como estribilho, como ritornelo, aparecia em sua mente. “Nunca mais”. Havia, à muitas custas, vencido a repressão, ou a parte mais difícil: a si mesma. Um casamento furado e muitos namoros até compreender que a vida não volta, vai para um lugar muito longe, para as aluviões do barqueiro sombrio, para depois da terra firme. Perdera trinta e oito anos se escondendo. E as mulheres que enganou? Aliás, as havia enganado? O mentiroso que crê na própria mentira se engana? Não sabia, não era filósofo. Era apenas um homem, quer dizer, uma mulher, quer dizer, era apenas um ser humano em busca de si mesmo, disposto a vencer o mundo para se realizar.

          Eduard Pamsa, ou melhor, Duda Sanguínea não tinha nas veias um de barata. Não se iludia: apenas a primeira batalha havia sido ganha. Ea guerra, aprendera quando serviu no Exército, a guerra é feita de muitas batalhas. Como um inseto, a noite passada serviu para que rompesse o casulo do enrustimento. E quanto tempo levou a incubação.

          Hoje, sentada na cama, pronta para fumar um cigarro, Duda reviu sua vida até ali, em um flash, como em um filme. A infância livre, cercada de amigos e amigas, as primeiras brincadeiras; fora muito feliz, pais amorosos, inteligentes. Teve contato com uma cultura que somente muito depois descobrira que outras crianças nem sonhavam, autores e artistas que elas não conseguiam nem falar, que dirá escrever.

          Levantou-se, foi até a sacada de sua casa em uma sobreloja no centro da cidade. Acendeu o cigarro. “Preciso mijar”, pensou.

          Se a infância fora prenhe de alegrias, a adolescência foi um terror, pelo menos até que entendesse. Em um primeiro momento, começou o desconforto. Via os outros meninos de namorico, apaixonado pelas moças da rua e da escola. E ele, digo, ela? Apaixonada em seu melhor amigo. As brincadeiras dos rapazes, passar a mão na bunda, simular o coito, disputar quem tem o maior membro etc., eram mais que brincadeiras para ela. Eram um deleite, o único momento em que podia ser quem sempre fora: Duda Sanguínea. Mas, por dentro, se sentia dilacerado. Um rapaz mais fracote da rua, ela batia e chamava de bichinha: “assim, ninguém descobriria, nem eu”, foi a conclusão que se lha assomou agora, já entrando na idade da loba.

          Lobo veio a primeira vez, com 16 anos, idade em que os rapazes estão à flor da pele. Duda evitou o máximo que pode, mas tomou um enquadro da menina. Tentou escapar pela última vez: “não tenho camisinha”, disse. “Não tem problema”, foi-lhe objetado, “tomo anticoncepcional e sou virgem”. Os amigos do lado de fora do quarto saberiam se ela saísse rápido demais, coisas que nem mesmo a inexperiência, o balbucio peniano explicaria. A moça era um diaba: se lha agarrou, fez preliminares, buscou o poste túrgido. Em vão. Faltou-lhe ânimo. Explicou-se, até para si mesmo: “estava nervoso, primeira vez”.

          Logo descobriu que isso podia ser vencido com meios artificiais: remédios para importência, usados por senhores de alta idade, se tornaram sua companhia. Assi, podia fugir da constatação brutal: não gostava de mulheres, queria ser uma.

          Enquanto os garotos de sua idade buscam as fitas pornográficas a fim de satisfazer o desejo sempre crescente por sexo, ele assistia, escondido e se reprovando, vídeos de travestis. Seu foco não era o sexo, era a mistura de mundo, era o encontro do céu com a terra, era a ginga e a maquiagem, era o fato de, ali, acompanhado (admoestando os atores) ou sozinho, acariciando-se, poder ser reconhecido por si mesmo, ainda que não soubesse. Ali, era a si próprio, ali podia sair da casca e desabrochar como a borboleta que sempre quis ser.

          O casamento veio por pressão familiar. Sua mãe e seu pai queriam netos. Ele, queria estabilidade e estar acima de qualquer suspeita. Com o tempo, se acostumou com o sexo ruim, com a vida de casado, com a rotina. Sua mulher já não o procurava, nem ele a ela. Viviam como amigos, amigos íntimos, afinal, gostava dela. Só não queria fodê-la.

          O casamento não durou, mas o filho veio. Arrumou uma desculpa e foi cursar uma faculdade em outra cidade, longe do filho, longe da ex-mulher. Na nova cidade, podia ser quem sempre fora.

          Saía escondido da república. “Vou à feira”, dizia. Ao mesmo tempo, somente conhecia um único tema de conversas: travestis. Tudo era travestismo para ela ainda ele, tudo era motivo de abordar o tema da transsexualidade, de fazer piadas, de apontar o dedo e dizer que seus amigos gostavam de travestis. E assim, conjurava o sofrimento interno. Porque ela ainda ele sofria. E sofria tanto que se dedicava a impor-se por meio da onipresente diminuição de todos, como o fracote da infância. Apelidava os outros, sempre com apodos jocosos e humilhantes. Era turrão, briguento, falastrão: era uma pessoa infeliz.

          A universidade passou e ele, à parte algumas amizades mais profundas, não teve nenhuma experiência libertadora além daquelas que já tivera na infância.

          Agora, trabalhando, com o filho crescido, se sentia diferente. Tudo começou quando, lendo uma reportagem, se deparou com uma frase que lhe impactou profundamente: “só se vive uma vez”.       

          “Sim”, recapitulou, “uma única vez por toda a eternidade”. Acendeu outro cigarro, tomou um gole d’água. Avançou pela casa cheirando a gozo de macho e pensou: “nunca mais”.

sábado, 27 de junho de 2026

Kdu

 O que aconteceu contigo, Carlos?

Qual bicho te mordeu?

Tinhas esperanças, sonhos,

Um futuro, um que era só teu.

Hoje estás destruído

Alquebrado pela vida.

És um longínquo ruído,

Uma coisa puída,

Estás num buraco infindo

Te tornastes uma fruta roída.

Oxalá encontre força

E se recupere.

A festa ainda não acabou.

As pedras do caminho

Só indicam que ninguém passou,

Mas para tudo o povo dá um jeitinho.

Para sair dessa fossa,

Te digo: levanta, lê um livro, te movimentas

Te organizas, não estás sozinho.

Tens a ti mesmo, teus camarás,

Um mundo, um sol com brilho.

Só não há além,

Não, nem um pouquinho.


R.P., inverno de 2026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Ártemis

 No arcabouço das horas

E das eras,

Erra imenso

Pelo kosmo

Aceso,

Pelo voltear dos astros,

Pelos pastos,

Pelos passos,

Da escuridão infensa.

Quedamos aturdidos

Mesmo com aço,

Mesmo sabendo

Os caminhos idos.

Quedamos presa de nós

Próprios, de nosso asco,

Ascese das oportunidades

Perdidas.

Que vida amarga,

Que vida fodida:

De todas as possibilidades,

Deu-nos ser objeto

Deu-nos ser partida

De quem lucra com sofrimento,

De quem só pensa com a lombriga.

Possa o povo se unir,

Possam as eras ceder,

Possa a dor cessar,

Possa o dia, enfim, nascer.


RP, outono de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Aquarela do Brasil

  Sou uma boa pessoa, amor?

― Hua, está tarde. Vá dormir.

― Sim, mas antes me responda: sou uma boa pessoa?

― É sim, meu bem. Por que a pergunta?

― Por nada, só uma dúvida.

E beijou-lhe.

― Boa noite.

― Boa

    Mas não dormiu. Já era tarde, amanhã havia expediente no quartel. Não era um quartel, claro, mas era assim que chamavam. Apesar de já ser tarde, não conseguia pregar os olhos. Do infinito da noite, remoía-lhe essa dúvida: era boa gente?

    Era militar, casado, pai de filhos, católico apostólico romano. Até conhecia o cardeal. Pagava os impostos, contribuía com a caixinha da igreja, tratava bem os animais, quando aparecia uma oportunidade, até mesmo ajudava as velhinhas a atravessar a rua. Vez ou outra chegava a esmolar para o Benedito. Dito era um negrão que morava nas cercanias da Sé, alcoólatra, mendigo, vinha do norte. Tentou a vida por aqui e não conseguiu. Fedia a merda. Mas controlava o asco para poder chegar perto de deus.

    Na Escola de Formação de Oficiais, aprendera, com Clausewitz, um alemão do tempo de Napoleão, que na guerra o moral da tropa era importante, talvez o mais importante. Pensa bem: se o soldado não quer lutar, se vacila, se pensa que é inútil resistir ou que já perdeu, para que as armas? De que lhe bastam fuzis, escopetas, metralhadoras? De nada. Essa é a verdade. Na guerra, é todos por um e um por todos. Acima da soldadesca, só deus. Ah, e os oficiais.

    Ele era oficial.

    E aquilo era uma guerra.

    Ou não era? Era sim. Havia tropas em conflito. De um lado, a vagabundagem comunista, essa ralé oriental, paga a ouro por Moscou para nos subtrair a liberdade. Ou a escumalha cubana. Ou quem sabe os malditos amarelos fazedores de pastel. Que se foda, é tudo lixo. São ateus, todos eles. Alguns até comem cachorro, os outros fazem lavagem cerebral desde jovem.

    Era guerra.

    E na guerra, quem não está disposto a ir até às últimas consequências nem deve se alistar. A guerra é sangue. A guerra é tiro, são tripas. A guerra é morte. Não se mata por prazer na guerra, ou quase ninguém o faz. Na guerra se mata porque se deve. É o dever do soldado matar, como é dever do inimigo morrer. Na guerra tudo é por dever. É assim porque é assim. Nada de questionamento. Ninguém questiona o Sol por ser quente, ninguém questiona a água por molhar. Por que um filha da puta acha que tem o direito de questionar um oficial superior? Ninguém tem esse direito. Obedeço quando sou mandado, mando quando devo e o putedo dos subordinados devem obedecer.

    Na guerra vacilar diante da ordem pode colocar a tropa toda em risco. O medo contamina a soldadesca, um depois do outro vão caindo, como moscas diante do inseticida. A confiança tem que ser total.

    O alemão que escrevia sobre moral sabia disso. Por isso disse que é essencial para um exército o bom chefe. O oficial de qualidade é aquele que sabe mandar, que faz todo mundo o obedecer com gosto, quase sem ver. É o gênio militar. Nós tínhamos vários chefes desses, ao menos a meu ver, a começar pelo presidente do país, até chegar em mim. Sou um bom chefe? Só não admito ser contrariado, mas não dou castigo injusto.

    Talvez no trote. Nos damos um papel para o recruta ler em voz alta; só que, no lugar onde há uma vírgula, ele deve ler “de cu pra cima”, e onde há um ponto, leia-se “de cu pra baixo”:

    “A República Federativa do Brasil, [de cu pra cima] ou só Brasil, [de cu pra cima] é um país localizado na porção oriental da América do Sul. [de cu pra baixo] O Brasil é composto por estados e um Distrito Federal, [de cu pra cima] em cujo território se encontra a capital do país, [de cu pra cima], Brasília. [de cu pra baixo]. O atual Presidente do país, [de cu pra cima], General Emílio Garrastazu Médici, [de cu pra cima] tem obtidos êxitos enormes na condução da política econômica, [de cu pra cima], com crescimento robusto, [de cu pra cima], criação de empregos [de cu pra cima] e industrialização do país. [de cu pra baixo.]”

    Quem rir toma logo uma bofetada. Não é pra rir, porra, é para se segurar. Isso aqui é guerra, tem gente morrendo e arriscando a vida e o porra vem dar risada. Tem que se controlar. Militar tem de ser macho.

    Se é guerra, meu serviço é necessário. Os comunistas são terroristas. Eles querem fazer de tudo para ganhar, roubam, batem, matam. E o pobre Tenente que o comunista traidor Lamarca matou a golpes de coronha? E o pobre Mário? E o dinheiro roubado, economia da vida toda de milhares de aposentados e trabalhadores? Os comunistas não tem vergonha na cara, são uns filhas da puta. Vendilhões da pátria, trocaram o país por uma merda de garrafa de vodca e um fumo cubano. Bando de filha da puta. Eu os odeio.

    Quem se opõe ao mal só pode ser bom. O mal se mescla com o mal, como o bem mescla com o bem. É uma luta eterna.

    Faço parte dessa luta, sou não soldado, sou guerreiro, luto não só pelo ordenado. Luto porque preciso, porque quero. Porque é o certo. Luto pelos meus filhos, por minha esposa, por minha família, colegas, por minha pátria. Luto por deus. Em nome de deus, o que não é permitido? A boa causa enobrece até o inferno.

    Em nome de deus faço de tudo. É deus no céu, meu comandante na Terra. E meu comandante diz: não meça esforços; faço o necessário mas debele esses comunistas. In nominis patri, fili et spiritus sancti. Por todos os meios. Os comunistas tomaram metade do mundo. Se ganham aqui é pum, vai sobrar pra todos nós. Eles não tem misericórdia, não reconhecem Cristo-rei. Se bem que tem até padre no meio. Quer dizer, padre não: arremedo de padre, vermelho infiltrado, vagabundo.

    Amor por todos é o caralho. Amor por quem nos ama. E quem nos ama, nos apoia. Foram às ruas pedir que viéssemos. E mesmo que não tivéssemos pedido. Juramos proteger nosso ver e amarelo, juramos dar a vida. Veja bem: verde e amarelo, não tem nada de vermelho. Vermelho é país que faz a guerra, vermelho são os comunistas. Queremos a paz, nossa guerra é contra aqueles que querem a guerra os subversivos. Nossa guerra é para não ter guerra.

    São de muitos tipos. Tem os cubanos, os chineses, os russos, tem até de tipo europeu. Só não tem cristão. Corrompem a juventude, fodem com o negócio todo, lavagem cerebral, maldizem Nossa Senhora, cospem no papa. Temos que resistir.

    Já disse: toda arma é santa na guerra santa quando o inimigo é o mal. Eles mesmos se odeiam, faz lá vinte anos que se denunciaram. O tal Stálin perseguia os próprios comunistas nos confins da Rússia. Foi caçar um lá no México. Nem eles se suportam. Proteger nossa juventude, evitar a contaminação.

        Comandante disse: faça o que for necessário. Sigo ordens, sou soldado, sou guerreiro, desço a porrada. Fui treinado para não sentir fome, frio, calor ou medo. Eu obedeço e faço obedecer. Contra a escroqueria comunista vale tudo.

    Que é uma unha arrancada perto da salvação de dezenas de milhões? Que são uns cabelos puxados? Queimaduras? Uns ossos quebrados. Na guerra mata-se. Que eles farão, se ganharem, com gente como nós? São ladrões. A propriedade é santa¹ A família é santa! Na guerra, toda arma é boa se benzida. O capelão a benze para nós. A boa sociedade está conosco.

    Há excessos? Talvez! É o preço a se pagar.

    Morrem inocentes? Não há inocentes na guerra. Se é amigo do inimigo, é meu inimigo, merece morrer.

    Quem causa tudo são eles mesmos. Por que não se filiam à oposição? Por que se op~em ao que está acontecendo? Há crescimento, todos estão ganhando dinheiro, o país anda pra frente, vencemos a Copa, somos os melhores, somos os primeiros. Somos o país do futuro. Por que se opor? Que haja lá pobreza, mas os que sofrem nessa vida vão ser recompensados. Assim, até ajudamos o putedo comunista os fazendo sofre: deus se compadece. Expiam os pecados na Terra, vão direto para o purgatório. Do contrário, seria o inferno, do contrário, sofreriam no garfo do capeta.

    Eu gosto mesmo é do choque. A carne do vagabundo fica mole, mole, abre tudo, diz até o que não sabe. Estupro não faço e sob minhas ordens não se faz. Um cassetete não é estupro, só com o pau e por prazer é que é. Não temos prazer, temos contentamento por servir a pátria, por salvá-la, por por nos trilhos esse Brasilzão. Vamos cumprir nosso dever, vamos impedir que isso aqui vire um país vermelho, vamos crescer primeiro e depois distribuir, como disse o ministro. E quem não quiser, pode ir embora, os aeroportos estão à disposição, vão pro cu do Judas, mas não atrapalhem a maioria. A maioria nos apoia, é católica, a Igreja já proibiu o comunismo. A maioria é silenciosa e apática, e sua apatia é sinal que tudo está bem.

    Em cinquenta anos, seremos a segunda maior potência. Vamos ultrapassar até a Rússia. Vocês verão. Então os netos dos comunistas, se deixarmos algum sobrar, lamentarão os erros de seus avós. Porque aqui é Brasil. Aqui é verde-amarelo, não vermelho. Aqui é ordem e progresso. Aqui é o país do futuro. E o futuro demora, mas chega. Ele chegará.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Z.

 - Armamos as choupanas,

Sorvemos o licor da terra,

Extraímos o néctar o mais puro da natureza,

Provamos o tutano das bestas

E os frutos do solo,

Os quais, de prévio, apascentamos e domamos.

Crescemos sob o uso do humus mesmo.

E tudo para que?

Para nos tornarmos pasto de vermes e pousio das moscas,

Para nos misturarmos com tudo aquilo que vivo,

Jaz morto, entremeado à  poeira,

Para ter nossa dignidade reduzida ao chorume

Que envenena o corpo do planeta

E polui a água mesma,

Este vinho da vida.

...

- Mas o que esperavas?

O divino encarnado?

O diamante vivo?

O cristalino do eterno?

Queres demais,

Foste mal acostumado

Pelas tontarias dos platônicos de batina.

Senta em tua poltrona,

Traga a aguardente que te faz sentir vivo

E prova do manjar que te é ofertado.

A vida é curta e insensível

Somente para os autômatos

Que já não refletem

E matam o presente

Na futura frialdade da tumba.


RP, verão de 2026

[Tradução] Que é a vida? Menandro / Tí έστι ò βίος; Μενάνδρου

 Que é a vida? 


Menandro


Quando desejares ver a si mesmo como és,
olhe dentro dos monumentos enquanto viajas.
Lá há osso e ligeiro pó
dos homens, reis e dos tiranos e dos sabios
[que] muito se preocuparam sobre a estirpe e as coisas
[e da] deles opinião pois sobre os belos corpos.
Nada dessa coisas concerne o tempo.
Vazio o Hades tinham todos os mortais
Sabendo isto, conheça de você mesmo o que és..


Tí έστι ò βίος; 


Μενάνδρου


Ό ταν είδέναι θέλης σαυτόν 'όστις εΐ, 

έμβλεψόν εις τά μνήμαθ’ ώς όδοιτορεϊς.

Ένταϋθ' ενεστ'όστά τε καί κούφη χόνις 

άνδρών βασιλέων χφί τυράννων καί σοφών 

καί μέγα φρονοϋντων έτί γένει καί χρήμασιν 

αυτών τε δόξη κάτι χάλλει σωμάτων.

Κ ίτ' ούδέν αΰτοϊς τώνδ' έτήρχεσεν χρόνον.

Κοινόν τόν “Αιδην έσχον οί τάντες βροτοί.

Προ? ταΰθ’ όρών γίγνωσχε σαυτόν όστις εϊ.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Venezuela

Quando o mundo for dos povos

E a ganância,

- Triste, triste,

Mas não de dar dó -

For os restos da festa,

Choverá néctar na pérgola

Conduzente à festa de comunhão da humanidade.

Estes são os votos.

Para tanto,

Há de se romper a espessa crosta

Que nos divide, separa e sujeita.

Essa crosta tem nome, endereço e cama.

A vida é um sopro curto

Para desperdiçarmo-la com intrigas

E pequenezas.

O que vale é o vivo.

Eles disto sabem;

Mas, para os senhores do desprezo,

Mais vale a morte.

Que triste!

Vamos lhes opor nossa mais tenaz resistência.

Até a vitória do riso,

Camarada.


RP, verão de 2026