quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Uma nova Fenomenologia do espírito II

 Após quase 20 anos, entre idas, vindas, ensaios e recomeços, terminei recentemente a leitura da Fenomenologia do espírito, um dos livros mais difíceis da história da filosofia ocidental. E não só terminei, como, após anos de muito estudo e a utilização de uma gama de ferramentas pedagógicas (para não falar dos escaneadores de preciosos PDFs), pude fazê-lo em alemão. A língua estrangeira, assim, foi a menor das dificuldades, dada a forma como Hegel escolheu para expressar seus pensamentos. Terminei também a leitura de um dos principais textos de comentário da obra, o livro de Jean Hyppolite, Gênese e estrutura da FE. Agora estou encarando o próprio comentário de Foucault, ao qual já fiz alusão aqui. A FE é um texto interessante por vários motivos, não somente por anunciar a Ciência da lógica, mas por colocar em um fio de continuidade a história do pensamento filosófico e extra-filosófico no Ocidente. Hegel aborda, alem disso, religião, arte e política, interconectando tudo, como se todos os fatos ocorridos fizessem parte de um "plano oculto da natureza", para usar a expressão de Kant. Se existe, há razões para existir. É como arazão suficiente de Leibniz. O real é racional, o racional é real. Nosso Pangloss suábio, em outros textos também, considera que a filosofia é relacionada com a religião. Na FE a religião aparece em vários momentos, mas nas últimas cem página é ela que dá as cartas. Como a FE é a "ciência da experiência que a consciência faz da consciência" e essa história é narrada em uma espiral crescente, fica claro que a consciência que precede o saber absoluto, capítulo final da obra, é a consciência que arrebata todo o desenvolvimento do espírito. A dialética hegeliana é onívora e totalizante: se alimenta de tudo, inclusive das críticas e as reinscreve em seu interior. Mas ela é seletiva. Em uma reunião de um grupo de estudos hegelianos, disse o seguinte há mais de dez anos: por que uma sociedade produz Hegel e Clausewitz, que viveram praticamente o mesmo período, e produziram obras seminais em seus campos? O que essa sociedade, que depois geraria Marx e Nietzsche, para não dizer de Hitler, seu píncaro, gestava em seu seio? Para que a FE fosse possível, Hegel teve de excluir de seus momentos, das etapas da constituição do que ele chama de Absoluto, elementos fundamentais. Em outros textos, como nas Preleções sobre a história da filosofia, ele é claríssimo: não há, na China, pensamento filosófico digno do nome. Chamberlain, um inglês que, por nazismo avant la lettre, adotou a Alemanha de fin de siècle como pátria, arrebata no mesmo tom: um cachorro tem mais personalidade que um chinês. Dizem que, em outros textos, Hegel afirma que a África não possui história. Doente de eurocentrismo, ao mesmo tempo não tinha como saber que esse gênero de pensamento seria usado para o que foi e que,  agora, tenta sair de novo do covil, com meia Europa aplaudindo. A ideia de uma FE não é, por isso, ruim. Ao contrário, mostrar que as ideias geram umas às outras a partir do mundo circundante e de si próprias é interessante. Mas alguns ajustes precisam ser feitos, que já fizemos, na verdade, a começar pelo "mundo circundante". Mas aí, talvez, não se trate de uma Fenomenologia, porque está pressupõe uma noumenol9gia, como já indica Hyppolite, ou seja, um mundo da coisa em si, algo fantasioso. A união entre a coisa em si e o pensamento se dá na ação. E não existe consciência "em si" somente consciência de um corpo, seja ele circuitos. Assim, não uma Fenomenologia do espírito, mas uma praxeologia do corpo. Da mesma forma, para nada de restrição a um pedaço de terra, mas que leve em conta as diferentes latitudes  ou, ao menos, as mais representativas. E, para não ser uma falologia, um tipo de pensamento que englobe toda a espécie, não apenas um sexo. Há outras nuances nesse projeto, algumas já expostas, outras a articular. Mas é entorno dele que venho produzindo, expondo partes homeomericamente, para quem sabe, se me for permitifo, unir isso em um trabalho de mais longa portada. Поживём, увидем.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Raízes da greve de 2013 na UNESP


Felipe Luiz “Guma”

Filosofia FFC-UNESP/Marília

Ex delegado de base e ex membro do DCE-HR

 

EXPANSÃO DAS UNIVERSIDADES EM UM MOMENTO DE RÁPIDAS TRANSFORMAÇÕES NO CAPITALISMO BRASILEIRO

Brasil se desindustrializava desde os anos 1990 e o PT buscava criar, desde sua chegada ao Planalto, uma sociedade de serviços, ao modo de sociedades europeias que também se desindustrializavam, como Alemanha ou França. Para isso era necessário mão de obra. Ademais, o PT buscava criar uma nova base social para si, uma classe média de origem proletária, desancando a classe média tradicional

Além disso, as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa. Quem o faz é o Estado, de modo que se "socializam os riscos e perdas, mas se particulariza o lucro"; a burguesia nunca perde. Assim, começa-se um processo de ampliação das universidades.

O PSDB, cujas origens são intelectuais "ilustrados" paulistas, que seguem os rumos da social-democracia europeia, pelos mesmos motivos principia a expansão de vagas em São Paulo, mas sem aumentar o repasse de verbas. Quer-se que as universidades façam muito mais, mas com o mesmo.

Destarte, segue-se uma série de lutas no período da década de 2000 e 2010, especialmente na UNESP, que foi a universidade estadual que mais expandiu e é a que recebe menos verbas.

A greve de 2013 se insere nesse processo: estudantes pobres, que querem estudar e desfrutar dos mesmos direitos dos estudantes mais ricos, como somente se dedicar aos estudos, e que não tem condições para tanto. Assim, eles exigem da universidade políticas específicas que lhes garantam o direito de estudar, as políticas de permanência.

O velho PSDB planejava um sistema de cotas, em respostas ao sistema de cotas das universidades federais, aprovado em 2012 Sua proposta, entretanto, na verdade excluiria os pobres da universidade, já que eles teriam que ficar em banho-maria antes de entrar nas públicas paulistas, com incentivos para se contentarem somente com uma formação técnica.

Planejava-se, ademais, aumentar o número de estudantes com necessidades de políticas de permanência, sem aumentar a verba de permanência de maneira significativa.

Essas são as origens imediatas da greve estudantil: o fato da UNESP não possuir uma política de permanência estudantil, o que se refletia em seu próprio arranjo institucional, uma vez que não havia um órgão responsável por essas políticas, elas estavam concentradas na Pró-Reitoria de Extensão.

No campo das questões práticas, isto é, organizativas, do lado movimento estudantil, a greve começou a ser preparada muito antes. Após o movimento de 2007, no qual o governo Serra tentou implementar uma política que tornaria o sistema universitário paulista mero apêndice da FIESP ("socializando os riscos e investimentos", mas privatizando os lucros; capitalismo de compadrio), na UNESP a reitoria iniciou a organização de um projeto visando corrigir, desde o ponto de vista dos interesses da burocracia universitária, as distorções pelas quais a UNESP havia sido submetida por imperativos políticos do PSDB, como a expansão desordenada. Essa política tinha o nome de PDI

Esse PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) enquadrava a UNESP em parâmetros internacionais de qualidade, reduzindo a universidade, pois, ás exigências do capital internacional. Ainda que houvesse acenos no sentido de fortalecer a permanência estudantil, eram tímidos. Além do mais, não tocavam no essencial: a expansão de vagas fora feita sem a expansão de verbas, como se quisermos vestir um adulto com suas roupas de criança.

Além disso, o governo Serra acenava com a questão da UNIVESP, a Universidade Virtual do Estado de São Paulo e boatos corriam de que haveria um fechamento de cursos em benefício do ensino à distância.

O DCE da UNESP, que havia sido reorganizado durante o ano de 2007, adotara um modelo de delegados de base (em resposta á política conciliatória e de falcatruas de certas correntes do movimento estudantil unespiano). Impulsionado por trotskistas, independentes e anarquistas, o DCE-HR preparou a luta contra tanto o PDI, como contra o EaD, além das velhas pautas de luta pela manutenção e ampliação de padrões mínimos na universidade (contratação de professores, laboratório, bibliotecas, etc) e a questão da democratização da universidade.

O campus de Marília, pela excepcional combinação de possuir cursos mais críticos, com muitos professores e esquerda, e uma tradição de luta antiga, encabeçou esse processo de luta no ano de 2009 e saiu em greve e ocupação contra o PDI e o EaD. Afora apoios pontuais de outros setores do m.e., além de professores e servidores técnicos, o m.e. de Marília, do qual eu era delegado de base do DCE, fez a luta sozinho e, assim, seja PDI, seja UNIVESP foram aprovados.

Nos anos seguintes, Marília continuou com vários processos de luta, quase sempre isolados: greve de 2010 contra a terceirização, os entraços no r.u., ocupação do protocolo, Outros campi contribuíam, mas em Marília a radicalização era maior, além da organização.

A diretoria do DCE-HR foi deixando de ser eleita e o movimento adotou uma forma de organização puramente assembleísta, com Conselhos de entidades organizando as lutas e comissões pontuais tocando os trabalhos.

Em 2013, tudo isso explodiu, justamente nos campi mais precarizados, como Ourinhos, Marília e Assis por uma questão imediata de atraso no pagamento de bolsas, mas mirando todas essas questões de precarização da universidade.

Deflagrada a greve nesses três campi, tomei parte na comissão de comunicação da greve, o órgão mais central, já que é ele que articula com os demais campi a organização do movimento. Além disso, fui eleito para a comissão estadual de mobilização, que, depois, se tornaria DCE-HR provisório.

Marília rodou o estado, creio que o pessoal de Ourinhos também. Particularmente, fui para mais de dez campi, sempre ou de caronas ou passando o chapéu, na falta de uma estrutura que permitisse esse trabalho de articulação.

A greve se expandiu. A pauta básica era contra o PIMESP (A proposta do PSDB de falsas cotas nas Públicas Paulistas), por políticas de permanência estudantil, além da democratização da universidade.

Desde o começo eu e meu grupo tínhamos em mente a necessidade de ocupar a reitoria a fim de conseguir a implantação de nossas pautas.

Fazíamos atos por todo o estado, e a reitoria marcava reuniões e enrolava  nossa delegação, protelando a aceitação de nossas reivindicações. A ordem era ganhar do movimento pelo cansaço. Diante de uma greve que parou mais de metade da universidade, a reitoria nos oferecia 200 mil reais para distribuir em bolsas, diante de uma procura muito maior, além de uma ou outra concessão pontual, que não tocava nos problemas por nós aventados.

Maquiavel diz que duas coisas são necessárias ao Princípe a fim de que vença: fortu e virtu, a virtude e a sorte. A virtude organizativa nós tínhamos, estava provado. Organizamos um movimento estadual com muito pouco, fazíamos atos, tínhamos comunicação, estávamos em contato com outros movimentos estaduais, com as entidades do Fórum das Seis, além de movimentos sociais propriamente falando.

As Jornadas de Junho foram nossa fortu. Diante da força da mobilização, a forma como a reitoria lidou com o movimento foi outra. Logo que a repressão massacrou os atos do Passe-livre, que redundaria no movimento, estávamos em um CEEUF em Marília. Decidimos mostrar nossa solidariedade e, influenciados or companheiros da UEG, que tinham vindo assistir nosso Conselho, fizemos um corte de rodovias, que paralisou Marília. A fila de carros e caminhões que se formou foi filmada por um motoqueiro, que postou o vídeo, o qual terminou por viralizar. Não é fácil saber qual a influência de nosso ato nas manifestações seguintes; o fato é que alguma teve. Com isso, desencadeou-se, propriamente, as Jornadas, com manifestações massivas.

Conforme dito, desde o princípio sabíamos que teríamos de ocupar a reitoria. No final de junho, já com as Jornadas acontecendo, com ampla participação de unespianos por todo o interior e capital, fizemos um ato na reitoria e ocupamos. O desespero nos setores dirigentes era patente: nossa vitória foi completa, visto que tudo aquilo que exigíamos para a desocupação, como pagamento de toda a demanda de bolsas, criação de políticas de permanência e recusa do PIMESP foi atendido. Diante do movimento de massas, a ordem era ceder.

No começo de julho, em reunião do DCE em Ourinhos, avaliamos que uma coisa ainda não havia sido conquistada: as moradias e os r.u.'s. Por todo estado, as condições das moradias eram horríveis, isto onde elas existiam, visto que campi com alta taxa de estudantes pobres, como Ourinhos, não contavam nem com moradia nem com r.u. Além disso, a questão da paridade era premente: democratizar a própria forma como a universidade se organiza.

Assim, decidimos que ocuparíamos novamente.

Organizamos uma plenária do DCE em São Paulo, no IA ocupado, e tocamos adiante a ocupação. Desta vez, com as Jornadas já extintas, a reitoria, que havia rachado diante da primeira ocupação, se unificou na necessidade de reprimir. Essa segunda ocupação foi, além disso, um tanto quanto desorganizada, visto que não conseguimos sequer estruturar a contento nossa pauta de reivindicações.

Digno de nota foi o fato da Vice-reitora ter se encastelado em seu gabinete e negociado diretamente conosco. Não disposta a ceder, abandonou o prédio já com a reintegração em vista. No saguão da reitoria, os estudantes gritavam enquanto ela passava: “vergonha! Vergonha!” episódio que ela lembraria em reuniões de negociação posteriores.

Decididos a não desocupar diante da reintegração de posse, eu saí do edifício, pois já não era réu primário, havendo sido condenado justamente por militância no m.e. da UNESP. O Choque chegou quebrando tudo, já de madrugada. Mesmo fora do prédio, fui preso com outro companheiro. Os policiais que nos levaram, em separado dos demais estudantes, faziam pressão psicológica. Quando cheguei na delegacia, encontrei os estudantes, cerca de 100 pessoas, chorando e desanimados. Diante de todos, disse aos policiais que me trouxeram: por que vocês não continuam fazendo aqui, na frente de todos, o que faziam quando eu estava na viatura? Assim, começou uma situação insólita. Transformamos nossa detenção na delegacia em ato político: ocupamos a delegacia.

Após ser fichado, sem dormir há quase 48 horas, eu estava particularmente cansado. Dormi um dia inteiro na ocupação do IA e, assim, já muito debilitado por quatro meses de greve, vagando de campi em campi, de ocupação em ocupação, com princípio de pneumonia, me afastei do movimento e deixei que fosse tocado pelos mais novos.

Minhas últimas tarefas na greve foram algumas reuniões de negociação, onde a reitoria oficializou a proposta de criação da COPE (Coordenadoria de Permanência Estudantil) e da CPPE, órgão consultivo paritário sobre permanência.

O legado da greve foram conquistas duradouras para o movimento, com ao princípio da formulação da política unespiana de permanência e do esboço de um processo de democratização da universidade. Ademais, os estudantes voltaram a ocupar espaços no Conselho Universitário e em outros órgãos da deliberação da UNESP. O DCE-HR, que estava sem diretoria desde 2010, saiu com uma organização provisória. Fato é que esse legado não foi bem aproveitado pelas gerações vindouras do m.e., que regrediram desde um ponto de vista organizativo e, também, de pautas, pelo menos até a greve desse ano, 2026. Mas esta já uma história para outra ocasião.

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Elementos para a análise de conjuntura em setembro de 2026

 A ordem global está um balaio de gato. Andei-me ocupando, no começo do ano, com Julien Freund, um pensador francês da polemologia, i.e., sociologia da guerra. Ele busca formular as leis de todo conflito. Um desses postulados é aquele da polaridade, ou seja, todo conflito tende a assumir uma forma polar, quer dizer, dois oolos se enfrentando. Até pouco, havia dois blocos muito claros: OTAN e Organização do Tratado de Xangai (OTX, Rússia, China, e uma série de outros países asiáticos). A OTAN vinha buscando se expandir para o leste, razão pela qual os russos reagiram e invadiram a Ucrânia em uma guerra imperialista. Conflito, pois, interimperialista. Ocorre, entretanto,  que a Rússia, ainda que inimiga estratégia (o regime é criptofascista), é aliada tática do Brasil, uma vez que nosso principal inimigo são os EUA, que também é o principal inimigo dos russos e de nosso principal parceiro comercial,  os chineses. Não há mudança popular possível no Brasil e na AL, em geral (mudança de fato, não social-democracia) enquanto os EUA forem o hegemon, já que possuem múltiplas garras em nosso país, aliados das elites mais arcaicas desta terrinha. Assim, a ordem multipolar nos interessa, uma vez que há constante produção de subdesenvolvimento por obra dos próprios  EUA e aliados. Ora, um boato ronda a internet: o boato do acordão. Diz-se que  EUA, Rússia  e China dividiram o mundo em esferas de influência: Leste asiático para a China, Europa para a Rússia, América para .... os EUA, nosso principal inimigo na luta pelo desenvolvimento. Assim, aqueles (Rússia  e China)que  são nossos aliados estratégicos, nos BRICS, por um mundo multipolar, são nossos inimigos táticos na luta contra os EUA. Desta maneira,  a social:democracia brasileira  (o PT), busca aliados internacionais que a ajude a manter a independência,  por exemplo, a UE, entregue à sanha russa. Ocorre que a UE é, junto com os EUA, uma das principais produtoras de subdesenvolvimento em nosso país é inimiga estratégica, mas aliada tática. Nessa confusão, a política interna brasileira se debate. Há  dois partidos: o partido dos EUA, sempre forte (é o partido do agro), e o partido brasileiro.  O partido dos EUA é, conforme dito, o partido do agro; contudo, nosso principal parceiro no agro é a China, inimiga dos amigos do agro brasileiro,  os EUA. Ao mesmo tempo, nossa possibilidade de desenvolvimento,  que reside em nossa indústria,  concentrada em SP, tem como principal parceiro  os EUA, inimigo estratégico dessa indústria, que foi dizimada pela China, parceira do agro e inimiga dos EUA, que é inimigo da indústria brasileira estrategicamente,  mas depende dela taticamente.  Não há, especialmente nesse momento de elevada tensão,  terceira via socialista para nós,  do campo da esquerda socialista. A Ciência da Estratégia consiste, dentre outras coisas, em hierarquizar meios, fins, tática e objetivo de longo prazo. Nosso objetivo de longo prazo é a revolução socialista global. O principal empecilho para ela é o domínio dos EUA. O que enfraquecer os EUA e nos aproximar da revolução socialista  é estrategicamente correto. Em um momento de disputa entre partido dos EUA, totalmente subordinado a Washington, e a tímida social-democracia brasileira, inimiga da hegemonia dos EUA, e que acena com ganhos de direitos concretos às massas, a escolha para todos aqueles preocupados com a derrubada do domínio do capitalismo,  que ameaça a vida na terra, o futuro das espécies,  e rifa o bem-estar estar de bilhões para enriquecer meio dúzia de bilionários,  já está dada: é Lula 13, com todos os defeitos. Porque se o PT é inimigo estratégico,  é aliado tático.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Questão premente

De um começo marxista, com O trabalho, no PT recém chegado ao Planalto, e com um grupo de gramscianos da terrinha, à conversão, já universitária, ao legado de Malatesta, de um lado, e de Foucault,  de outro, foi sob a sombra de Marx que construí meu universo teórico e político. No movimento estudantil,  ora aliado, ora contra grupos marxistas, mas sempre em um encontro nem sempre sadio. Já mais velho, ainda ferrenho defensor da autogestão, e fora da vida militante,  é forçoso a complacência. O mundo está mudando rapidamente e pessoas muito gananciosas parecem não ter planos bons para nós, do sertão ou do litoral. Ou bem resistimos com todas as nossas forças,  nos aliando com quem também busca sobreviver, tanto enquanto indivíduo quanto enquanto civilização, ou soçobraremos na hora mesmo em que vislumbramos uma saída. Trata-se de nazistas, gente que se crê superior por conta de um ou dois genes, que nos saqueou e nos escravizou, que continua a fazê-lo, agora sob nova roupagem, mas que se cansou das firulas e da enrolação: eles virão para tomar. Assim, são belas as palavras de Foucault e mais belas as do anarquismo, mas no presente temos de saber hierarquizar as prioridades; essa hierarquização tem um nome: estratégia. Ou bem admitimos que nossas melhores alianças residem nos chineses e que a tarefa do dia passa por reorganizar e criar uma força estratégica na terrinha, que possua capacidade política nos preparar para a dura batalha que se anuncia, ou já estaremos vencidos, condenados a nos reduzir a objetos de nazistas. Tudo que não esteja subordinado a essa objetivo estratégico parece-me fútil, no momento. Qual organização tem essa potencialidade no Brasil,  no presente?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fragmento sobre marxismo e método

Estou lendo o "Pour Marx" ("A favor de Marx"), já disse. A ambição de Althusser é colmatar os vazios filosóficos do marxismo, dar estofo teórico a uma corrente de pensamento empobrecida pelo estalinismo. Ora, uma das questões que mais lhe tocam é a do método. Marx não escreveu o texto de método prometido, tão-somente uma pequena nota metodológica e indicações do mesmo calibre. As mais famosas são o texto "O método da economia política " e o prefácio da segunda edição d'"O capital". Nesta, Marx fala que ele "inverteu Hegel", metáfora que Engels recuperará em textos mais tardios. Ora, já há muito venho repetindo que "a metafísica hegeliana de ponta-cabeça nada mais é senão a metafísica hegeliana de ponta-cabeça". Ao que parece, Althusser pensou o mesmo muito antes e com um cabedal filosófico superior. Para ele, não há estalão de comparação,  porque a dialética hegeliana e a marxista são totalmente diferentes. A "Ciência da lógica", de Hegel, por exemplo, começa com a famosa divisão entre Ser e Nada, que redundan no Werden, no devir. Trata-se,  assim, de um simples, de um elemento, um "nec plus minor". Ora, diz Althusser, para o marxismo nada há dessa simplicidade, porque o real é "uma síntese de múltiplas determinações", isto é, o objeto é um composto e os compostos são compostos de outros compostos. Haveria aqui, a meu ver, certa relação a ser feita com o pensamento de Foucault e Deleuze (especialmente). O primeiro livro de Deleuze que li (depois reli muitas vezes) é o "Diálogos", obra que me causou grande impacto; passava tardes e mais tardes pelos corredores da UNESP lendo-o e debatendo-o após a greve de 2013. Ora, esse texto me inspirou a ideia de "dizímas filosóficas", algo que já publiquei, e que seria o horror de Aristóteles. Bem, não é sobre isso, no entanto, que gostaria de chamar a atenção. Por que Marx não  escreveu o livro sobre método  e o mais próximo disso que temos é a parte sobre filosofia do "Anti-Dühring", de Engels (texto que basicamente transcreve indicações da "Ciência da lógica")? Marx não o fez pelo simples motivo de que para ele o real é essa "síntese de múltiplas determinações ", isto é, é tudo "junto e misturado", "tudo no mesmo lugar, ao mesmo tempo". Não há,  como em Descartes, um objeto e um método, uma res extensa e uma res cogitans: é tudo matéria em movimento, o real é um complexo de complexos de complexos, etc, que redunda em dízimas filosóficas. Assim, há dois procederes, o método de análise e o de exposição, porque somente na exposição se divide o real, uma vez que ele é uma síntese. Bem, são reflexões parciais, tenho alguns meses para amadurecê-las


sábado, 29 de agosto de 2026

Horácio II

 Me dizes que já não resta saída,

Que a vida é um caminho sem volta,

Uma mão única, sem retorno após a partida.

Dançando com a escuridão,

Nas dobras das areias do tempo,

Te entregastes aos prazeres fáceis

Da droga, do álcool e do fumo,

Tentando te aliviar

Do peso imenso que te vergas:

Este mesmo, o de serdes a ti próprio, 

Mera carne sustentada por nervos e ossos

Perdida, a vagar insone no vácuo

Sem bússola que suporte

O desorientar desse movimento. 


- Queria censurar-te pela desesperança  

E rendição que fazes ao infinito.

Mal a batalha começa

E já te entregas, pusilânime, 

Ao inimigo que é tua mente e tua cultura.

Os antigos nos legaram

As soluções do dilema.

É na construção do caminho

Que teu enigma se dissolve.

O fim, que importa o fim

Se, quando ele chega, 

Nós já seremos a sombra

Da anima outrora viva?

O fim é pouco

Diante de tua tarefa.

O fim só pesa

Em quem já abriu mão do meio,

E somos todo meio

Todo na dobra, todo no fazer-se.


Acalma teu espírito 

Agarra aqueles volumes

Horácio, Pessoa

Maiakóvsky e Anacreonte

Neles, toda sabedoria que precisas

Para encarar o inifinito e vencer,

Para construir tua história 

Enquanto ser único que eres.


Pulsa com o kosmos

Que ele te responderá.

Assim, abres caminho

Na selva do desconhecido

E talha, no seio mesmo do infinito,

O manancial da liberdade dourada

Na qual vives e na qual passarás

Todas as eternidades a devir

Nem que seja dissoluto

Em álcool e moléculas

Átomos e energia.

sábado, 22 de agosto de 2026

Horácio

 No correr do tempo implacável 

Em que, teso de alegria,

Em mim se escondem as rugas da

Preocupação, 

E também na hora mesma

Na qual me verga a agonia,

É a arte das Musas que me sustém,

E, nesta, é em você onde deito meu pensamento, 

Senhor supremo dos poetas,

Molde e modelo inesgotável

Fonte mesma da inspiração. 

Não à toa,  Augusto te honrou

E os líderes onde nos fartamos,

Se rendiam à tua arte.

Abundas naquilo que necessita 

Quem toma a pena como cinzel:

O encanto e a adequação. 

Quando jubilo,

É ao velho das cãs já gastas que me dirijo,

Anacreonte, a lira da orgia;

Mas, nas horas decisivas,

Quando a vida é incerta

E a agonia pesa sobre minhas fibras,

Amolecidas pela sobrevivência, 

Hora na qual é o juízo que balança, 

Não é outro meu apoio.

Assim, nobre senhor, sossegue nos Elísios,

Conquanto nós,

Rebentos de um mundo decaído

Pelo peso de uma cruz e da sede pelo ouro,

Buscamos em vossa grandeza

Sustento e a ocasião 

Para fundarmos a Arcádia dos povos.


RP, inverno de 2026