Para Kdu, com carinho
Ao acordar uma manhã de sonhos inquietos, Eduardo Pamsa encontrou-se em sua cama transformado em uma lindíssima travesti. Estava deitada, de peruca, toda montada, um pouco indisposta, pois tinha batido cabelo por toda a noite, além de ter bebido todas. Estava sozinha no quarto, mas o cheiro que tomava o ar era de um dulçor imenso, lembrando-a de que não era mais Eduardo, mas, sim, Eduarda, a terrível, ou Duda Sanguínea, para os íntimos.
Um gosto de boas memórias subiu-lhe à
boca, misturada com certos efeitos da ressaca. Ao lado, no criado-mudo, um
pacote de camisinhas usadas e duas delas no chão, cheias de marcas de intenso
manuseio. Sentou-se à beira da cama, tomou um copo d’água e sorriu: havia se
liberto?
Pamsa buscou recapitular a vida nos últimos
anos. Ainda era jovem, relativamente: não chegará aos quarenta. “Quarenta anos!”,
pensou, “estou quase lá. Mas ainda posso me divertir”. Seus quarenta haviam
transcorrido de forma terrível, entre casos fingidos com mulheres, só para
inglês ver, e desejos reprimidos. “Quarenta, não; trinta e oito, e pronta para
atirar”.. Na balada ontem atirou mais que Clint Eastwood em algum spaghetti.
Atirou como se fosse cangaceira, Maria Bonita rediviva e ativa; atirou como um
franco atirador, atirou como um soldado soviético na frente oriental, em
Stalingrado, lutando contra os nazistas, em plena guerra. Atirou como uma
metralhadora, como se sua vida dependesse disso. E, no fundo, era isso: sua
vida estava no jogo, sua vida dependia disso.
“Nunca mais”, essa frase, como
estribilho, como ritornelo, aparecia em sua mente. “Nunca mais”. Havia, à
muitas custas, vencido a repressão, ou a parte mais difícil: a si mesma. Um
casamento furado e muitos namoros até compreender que a vida não volta, vai
para um lugar muito longe, para as aluviões do barqueiro sombrio, para depois da
terra firme. Perdera trinta e oito anos se escondendo. E as mulheres que
enganou? Aliás, as havia enganado? O mentiroso que crê na própria mentira se
engana? Não sabia, não era filósofo. Era apenas um homem, quer dizer, uma
mulher, quer dizer, era apenas um ser humano em busca de si mesmo, disposto a
vencer o mundo para se realizar.
Eduard Pamsa, ou melhor, Duda
Sanguínea não tinha nas veias um de barata. Não se iludia: apenas a primeira
batalha havia sido ganha. Ea guerra, aprendera quando serviu no Exército, a
guerra é feita de muitas batalhas. Como um inseto, a noite passada serviu para
que rompesse o casulo do enrustimento. E quanto tempo levou a incubação.
Hoje, sentada na cama, pronta para
fumar um cigarro, Duda reviu sua vida até ali, em um flash, como em um filme. A
infância livre, cercada de amigos e amigas, as primeiras brincadeiras; fora
muito feliz, pais amorosos, inteligentes. Teve contato com uma cultura que
somente muito depois descobrira que outras crianças nem sonhavam, autores e
artistas que elas não conseguiam nem falar, que dirá escrever.
Levantou-se, foi até a sacada de sua
casa em uma sobreloja no centro da cidade. Acendeu o cigarro. “Preciso mijar”,
pensou.
Se a infância fora prenhe de alegrias,
a adolescência foi um terror, pelo menos até que entendesse. Em um primeiro
momento, começou o desconforto. Via os outros meninos de namorico, apaixonado
pelas moças da rua e da escola. E ele, digo, ela? Apaixonada em seu melhor
amigo. As brincadeiras dos rapazes, passar a mão na bunda, simular o coito, disputar
quem tem o maior membro etc., eram mais que brincadeiras para ela. Eram um
deleite, o único momento em que podia ser quem sempre fora: Duda Sanguínea.
Mas, por dentro, se sentia dilacerado. Um rapaz mais fracote da rua, ela batia
e chamava de bichinha: “assim, ninguém descobriria, nem eu”, foi a conclusão
que se lha assomou agora, já entrando na idade da loba.
Lobo veio a primeira vez, com 16 anos,
idade em que os rapazes estão à flor da pele. Duda evitou o máximo que pode,
mas tomou um enquadro da menina. Tentou escapar pela última vez: “não tenho
camisinha”, disse. “Não tem problema”, foi-lhe objetado, “tomo anticoncepcional
e sou virgem”. Os amigos do lado de fora do quarto saberiam se ela saísse
rápido demais, coisas que nem mesmo a inexperiência, o balbucio peniano
explicaria. A moça era um diaba: se lha agarrou, fez preliminares, buscou o
poste túrgido. Em vão. Faltou-lhe ânimo. Explicou-se, até para si mesmo: “estava
nervoso, primeira vez”.
Logo descobriu que isso podia ser
vencido com meios artificiais: remédios para importência, usados por senhores
de alta idade, se tornaram sua companhia. Assi, podia fugir da constatação
brutal: não gostava de mulheres, queria ser uma.
Enquanto os garotos de sua idade
buscam as fitas pornográficas a fim de satisfazer o desejo sempre crescente por
sexo, ele assistia, escondido e se reprovando, vídeos de travestis. Seu foco
não era o sexo, era a mistura de mundo, era o encontro do céu com a terra, era
a ginga e a maquiagem, era o fato de, ali, acompanhado (admoestando os atores)
ou sozinho, acariciando-se, poder ser reconhecido por si mesmo, ainda que não
soubesse. Ali, era a si próprio, ali podia sair da casca e desabrochar como a
borboleta que sempre quis ser.
O casamento veio por pressão familiar.
Sua mãe e seu pai queriam netos. Ele, queria estabilidade e estar acima de
qualquer suspeita. Com o tempo, se acostumou com o sexo ruim, com a vida de
casado, com a rotina. Sua mulher já não o procurava, nem ele a ela. Viviam como
amigos, amigos íntimos, afinal, gostava dela. Só não queria fodê-la.
O casamento não durou, mas o filho
veio. Arrumou uma desculpa e foi cursar uma faculdade em outra cidade, longe do
filho, longe da ex-mulher. Na nova cidade, podia ser quem sempre fora.
Saía escondido da república. “Vou à
feira”, dizia. Ao mesmo tempo, somente conhecia um único tema de conversas:
travestis. Tudo era travestismo para ela ainda ele, tudo era motivo de abordar o
tema da transsexualidade, de fazer piadas, de apontar o dedo e dizer que seus amigos
gostavam de travestis. E assim, conjurava o sofrimento interno. Porque ela
ainda ele sofria. E sofria tanto que se dedicava a impor-se por meio da onipresente
diminuição de todos, como o fracote da infância. Apelidava os outros, sempre
com apodos jocosos e humilhantes. Era turrão, briguento, falastrão: era uma
pessoa infeliz.
A universidade passou e ele, à parte
algumas amizades mais profundas, não teve nenhuma experiência libertadora além
daquelas que já tivera na infância.
Agora, trabalhando, com o filho
crescido, se sentia diferente. Tudo começou quando, lendo uma reportagem, se
deparou com uma frase que lhe impactou profundamente: “só se vive uma vez”.
“Sim”, recapitulou, “uma única vez por
toda a eternidade”. Acendeu outro cigarro, tomou um gole d’água. Avançou pela
casa cheirando a gozo de macho e pensou: “nunca mais”.
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