quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fragmento sobre ontologia e marxismo

 Em seu doutorado, sobre materialismo antigo, Marx trabalha uma importante diferença entre Demócrito e Epicuro. Embora ambos sejam atomistas (o primeiro, um de seus inventores, junto a Leucipo, também originário da cidade de Abdera, do qual não sabemos quase nada), Demócrito é determinista. O mundo, para ambos, é formado átomos e vazio, mas Epicuro acrescenta que os átomos, em sua queda, podem sofrer um desvio, o clínamen. Com isso, introduz-se o acaso ou, se se quiser, a liberdade. Li os fragmentos completos de Demócrito ainda em meu primeiro ano de doutorado. Sua obra era gigantesca e cobria inúmeros tópicos, mas, além dos títulos, quase todos seus fragmentos extantes são de ética, muitas vezes meros apotegmas (sentenças). De Epicuro há mais fragmentos, também li completo, por ocasião da investigação da (abre aspas) obra prima (fecha aspas) de Olavo, que trata justamente de Epicuro; texto surrealista, pode-se dizer. Mas não é disso que quero falar, mas, sim, de uma outra polêmica. Kant, na primeira Crítica, trata como antinomia o par liberdade da vontade e determinismo. Assim, irresolúvel. O mundo das ciências naturais é considerado há muito o reino da necessidade. Já as ciências humanas são o reino da liberdade. Para os positivistas, contudo, não há, a rigor, essa separação: as mesmas leis presidem ambos os campos, e essas leis são aquelas da necessidade. Engels, como se sabe, deixou incompleta uma Dialética da natureza, onde se aproxima, nesse aspecto, justamente do determinismo positivista; se já no Anti-Dühring ele fornecia leis da dialética, extraídas da Ciência da lógica, na Dialética da natureza ele vai mostrar, a seu ver, como os mais recentes avanços científicos comprovavam essa dialética. O resultado disso tudo é o mais estrito determinismo, que redundou no marxismo da II Internacional combatido por quase todos os clássicos dessa linha teórica no século passado. Quase todos, porque, além de Kautsky, que formulou um certo materialismo histórico biológico, Stálin, em seu curto texto "Materialismo histórico e materialismo dialético" subscreve essa visão. É o marxismo-leninismo-estalinismo, origem da diamat. As consequências para a ação política são severas. Os marxistas mais espertos anteviram isso e tentaram poupar Marx dessa empreitada engelsiana. Marx, dizem, formulou uma teoria social, histórica, nada de dialética da natureza. Creio eu, no entanto, que, se Marx o fez ou não, talvez seja difícil mensurar. Contudo, Engels é um marxista consequente por defender essa visão. Ou seria sustentável defender que a sociedade é histórica, muda no tempo, mas a natureza não? Sem contar que na origem da dialética marxista encontra-se aquela hegeliana, que é uma ontologia, inclusive com uma filosofia da natureza. Hegel começa o segundo volume da Enciclopédia justificando a necessidade de uma filosofia da natureza. Assim, e falo como alguém que teve muito pouco contato com Lukács, ontologia em sentido amplo, não somente "do ser social".(mas também dele).

Nenhum comentário:

Postar um comentário