Estou lendo o "Pour Marx" ("A favor de Marx"), já disse. A ambição de Althusser é colmatar os vazios filosóficos do marxismo, dar estofo teórico a uma corrente de pensamento empobrecida pelo estalinismo. Ora, uma das questões que mais lhe tocam é a do método. Marx não escreveu o texto de método prometido, tão-somente uma pequena nota metodológica e indicações do mesmo calibre. As mais famosas são o texto "O método da economia política " e o prefácio da segunda edição d'"O capital". Nesta, Marx fala que ele "inverteu Hegel", metáfora que Engels recuperará em textos mais tardios. Ora, já há muito venho repetindo que "a metafísica hegeliana de ponta-cabeça nada mais é senão a metafísica hegeliana de ponta-cabeça". Ao que parece, Althusser pensou o mesmo muito antes e com um cabedal filosófico superior. Para ele, não há estalão de comparação, porque a dialética hegeliana e a marxista são totalmente diferentes. A "Ciência da lógica", de Hegel, por exemplo, começa com a famosa divisão entre Ser e Nada, que redundan no Werden, no devir. Trata-se, assim, de um simples, de um elemento, um "nec plus minor". Ora, diz Althusser, para o marxismo nada há dessa simplicidade, porque o real é "uma síntese de múltiplas determinações", isto é, o objeto é um composto e os compostos são compostos de outros compostos. Haveria aqui, a meu ver, certa relação a ser feita com o pensamento de Foucault e Deleuze (especialmente). O primeiro livro de Deleuze que li (depois reli muitas vezes) é o "Diálogos", obra que me causou grande impacto; passava tardes e mais tardes pelos corredores da UNESP lendo-o e debatendo-o após a greve de 2013. Ora, esse texto me inspirou a ideia de "dizímas filosóficas", algo que já publiquei, e que seria o horror de Aristóteles. Bem, não é sobre isso, no entanto, que gostaria de chamar a atenção. Por que Marx não escreveu o livro sobre método e o mais próximo disso que temos é a parte sobre filosofia do "Anti-Dühring", de Engels (texto que basicamente transcreve indicações da "Ciência da lógica")? Marx não o fez pelo simples motivo de que para ele o real é essa "síntese de múltiplas determinações ", isto é, é tudo "junto e misturado", "tudo no mesmo lugar, ao mesmo tempo". Não há, como em Descartes, um objeto e um método, uma res extensa e uma res cogitans: é tudo matéria em movimento, o real é um complexo de complexos de complexos, etc, que redunda em dízimas filosóficas. Assim, há dois procederes, o método de análise e o de exposição, porque somente na exposição se divide o real, uma vez que ele é uma síntese. Bem, são reflexões parciais, tenho alguns meses para amadurecê-las