sábado, 22 de agosto de 2026

Horácio

 No correr do tempo implacável 

Em que, teso de alegria,

Em mim se escondem as rugas da

Preocupação, 

E também na hora mesma

Na qual me verga a agonia,

É a arte das Musas que me sustém,

E, nesta, é em você onde deito meu pensamento, 

Senhor supremo dos poetas,

Molde e modelo inesgotável

Fonte mesma da inspiração. 

Não à toa,  Augusto te honrou

E os líderes onde nos fartamos,

Se rendiam à tua arte.

Abundas naquilo que necessita 

Quem toma a pena como cinzel:

O encanto e a adequação. 

Quando jubilo,

É ao velho das cãs já gastas que me dirijo,

Anacreonte, a lira da orgia;

Mas, nas horas decisivas,

Quando a vida é incerta

E a agonia pesa sobre minhas fibras,

Amolecidas pela sobrevivência, 

Hora na qual é o juízo que balança, 

Não é outro meu apoio.

Assim, nobre senhor, sossegue nos Elísios,

Conquanto nós,

Rebentos de um mundo decaído

Pelo peso de uma cruz e da sede pelo ouro,

Buscamos em vossa grandeza

Sustento e a ocasião 

Para fundarmos a Arcádia dos povos.


RP, inverno de 2026

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