No correr do tempo implacável
Em que, teso de alegria,
Em mim se escondem as rugas da
Preocupação,
E também na hora mesma
Na qual me verga a agonia,
É a arte das Musas que me sustém,
E, nesta, é em você onde deito meu pensamento,
Senhor supremo dos poetas,
Molde e modelo inesgotável
Fonte mesma da inspiração.
Não à toa, Augusto te honrou
E os líderes onde nos fartamos,
Se rendiam à tua arte.
Abundas naquilo que necessita
Quem toma a pena como cinzel:
O encanto e a adequação.
Quando jubilo,
É ao velho das cãs já gastas que me dirijo,
Anacreonte, a lira da orgia;
Mas, nas horas decisivas,
Quando a vida é incerta
E a agonia pesa sobre minhas fibras,
Amolecidas pela sobrevivência,
Hora na qual é o juízo que balança,
Não é outro meu apoio.
Assim, nobre senhor, sossegue nos Elísios,
Conquanto nós,
Rebentos de um mundo decaído
Pelo peso de uma cruz e da sede pelo ouro,
Buscamos em vossa grandeza
Sustento e a ocasião
Para fundarmos a Arcádia dos povos.
RP, inverno de 2026
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