Me dizes que já não resta saída,
Que a vida é um caminho sem volta,
Uma mão única, sem retorno após a partida.
Dançando com a escuridão,
Nas dobras das areias do tempo,
Te entregastes aos prazeres fáceis
Da droga, do álcool e do fumo,
Tentando te aliviar
Do peso imenso que te vergas:
Este mesmo, o de serdes a ti próprio,
Mera carne sustentada por nervos e ossos
Perdida, a vagar insone no vácuo
Sem bússola que suporte
O desorientar desse movimento.
- Queria censurar-te pela desesperança
E rendição que fazes ao infinito.
Mal a batalha começa
E já te entregas, pusilânime,
Ao inimigo que é tua mente e tua cultura.
Os antigos nos legaram
As soluções do dilema.
É na construção do caminho
Que teu enigma se dissolve.
O fim, que importa o fim
Se, quando ele chega,
Nós já seremos a sombra
Da anima outrora viva?
O fim é pouco
Diante de tua tarefa.
O fim só pesa
Em quem já abriu mão do meio,
E somos todo meio
Todo na dobra, todo no fazer-se.
Acalma teu espírito
Agarra aqueles volumes
Horácio, Pessoa
Maiakóvsky e Anacreonte
Neles, toda sabedoria que precisas
Para encarar o inifinito e vencer,
Para construir tua história
Enquanto ser único que eres.
Pulsa com o kosmos
Que ele te responderá.
Assim, abres caminho
Na selva do desconhecido
E talha, no seio mesmo do infinito,
O manancial da liberdade dourada
Na qual vives e na qual passarás
Todas as eternidades a devir
Nem que seja dissoluto
Em álcool e moléculas
Átomos e energia.
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