quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Pastiche de Gregório de Mattos

 

O que falta a essa nação? — revolução!

Há quem se lhe oponha? — gente medonha!

O que falta para acontecer? — a gente fazer!

 

Nas terras do Brasil

Correram os dias

Verdadeiro mandril

E o povo sofria!

 

O que é uma revolução? — o povo de arma na mão!

A conjuntura te aborrece? — me entristece!

E o que você espera? — uma nova era!

 

Já o boca do inferno

Cantava na colônia,

Com um tom terno,

Que essa terra é medonha!

 

Qual o primeiro passo? — Dominar o aço!

E depois? — unir os dois!

Quais deles? — o povo e o alferes

 

Chegamos em ponto de virada:

Ou agimos agora

Ou a hora será passada

Ajamos sem mais demora!

 

Você é subversivo!  O mundo que é repulsivo!

Você quer a guerra! — Ela já nos espera!

Você quer a morte! — Prefiro tentar a sorte!

 

Povos do mundo,

Bilionários existem.

Tomar do rico iracundo

Não mais hesitem!

 

O presente é o momento.

Construir um futuro

Sem tanto tormento

— este é meu urro!

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O caminho

 ele acha que é da Europa!

- pobre mestiço,

fique com o que é teu

lhe chama de estrupício

o nobre europeu


Europa velha

velha e medonha

de nossa terra espera

fazer-se ainda mais dona


Ele acha que é gringo

pobre criolo,

nesse bingo

te passam o rolo


ele pensa que é branco

mas, na beira do barranco,

no passado estanco

meteu-se com negro carranco


Esta terra acha que é aceita

só se for como escrava

engordar a receita

de quem lhe tira a escalpa


Para nós só um caminho:

aceitar o sertão,

o sul do mundo, o indiozinho,

e fazer revolução


Ribeirão Preto, Primavera de 2021

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Cuidado com quem se alia: o grou e o lobo, fábula de Fedro

 Qual recompensa merece o ímprobo desejar [o bem]

Duas vezes peca: primeiro, pois ajudaste um indigno

Ir impune porque doutro modo não poderia

Osso devorado pregou-se na garganta do lobo

Vivendo grandes dores singulares começou

a aliciar com ofertas para que se extraísse dele o mal.

Finalmente foi persuadida com os juramentos o grou,

Na garganta [do lobo], confiando, o comprimento de  de seu pescoço [enfiou]

perigosamente fez a cura do lobo

De quem exigiu o prêmio:

"Tu és ingrata", disse [o lobo], "veja que sua cabeça

incólume retirou [de minha garganta] e ainda exige recompensa".

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Fábula de Fedro

 Vaca, cabra, ovelha e leão


Nunca é seguro com poderosos ser sócio em algo:

Comprova essa história meu propósito.

Vaca e cabra e uma paciente ovelha sofredora de injustiça

Sócias foram com o leão no bosque

Eles agarraram cervo com vasto corpo.

Assim é falada a divisão das partes pelo leão:

"Eu, a primeira [parte] levo, pois meu nome é leão;

A segunda, porque eu sou forte, é atribuída a mim;

Então, porque eu sou mais forte, me segue a terceira;

Porque eu gosto mais, a quarta parte pego".

Assim, toda a presa caiu nas garras do ímprobo

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Ser professor: fazer a guerra

A escola não é um lugar isento de disputas, como não o é a sociedade como um todo. Envolta em pugnas de toda ordem, é nesse espaço tumultuoso que o professor deve exercer seu ofício. A escola reflete os conflitos sociais visto que, quando se passa pelos seus portões, não se apagam os estigmas preexistentes, as ideias, as posturas. À essa massa de prélios socais, vem se juntar alguns especificamente pedagógicos, como a relação entre dos professores entre si, com os estudantes e com o corpo diretivo da escola. Não, a escola não é pacífica, mas entremeada de questões e enfrentamentos.

O professor deve seguir um currículo elaborado pelas altas capas governamentais e, assim, formar os estudantes em uma certa perspectiva. A educação, enquanto forma de reprodução dos valores de uma sociedade, é pensada como forma de perpetuar os fundamentos dessa formação social. Não poderia ser diferente: qual sociedade escolheria seu próprio fim, educando as crianças e jovens para destruí-la? Mas, nos interstícios do sistema, ainda é possível encontrar brechas para uma educação que questione os fundamentos mesmos da atual sociedade já que, na sala de aula, são estudantes e professores que se encontram no fazer pedagógico.

Nesse sentido, o professor tem uma escolha a fazer, especialmente os de humanidades: trabalhar no sentido de perpetuar a atual sociedade ou buscar dotar os estudantes de um instrumental crítico que lhes permita deliberar e refletir criticamente sobre as mazelas de nosso mundo e se posicionar no cosmos não como sujeitos inermes e inertes, mas como ativos construtores de um novo mundo — ou defensores conscientes da ordem atual, já que a maio parte das pessoas simplesmente age sem refletir sobre a estrutura social, apenas reproduzindo atitudes e pensamentos herdados ou adquiridos via religião, mídia, educação familiar, convívio com os amigos, etc. Ou seja, é uma reprodução inconsciente de tudo que possuímos de bom — e de ruim, claro.

O professor crítico luta contra a direção da escola e o currículo oficial. Neste, conforme vimos, se prima pela reprodução da ordem atual. A direção da escola, enquanto porta-voz e lugar-tenente das autoridades do Estado, geralmente irá defender as diretrizes oficiais e buscar enquadrar os professores desviantes. Claro, sempre é possível uma diretoria que entenda o próprio papel questionador das humanidades, mas isto é, cremos, exceção. A maior parte da burocracia escolar está preocupada com a manutenção de sua própria posição e irá lutar para mantê-la assim ou, até mesmo, encontrar outra mais vantajosa.

O professor luta também contra os demais docentes. A maior parte reproduz a ordem, mesmo sem saber. Alguns serão fanáticos prosélitos da direção e de seu papel; outros, simplesmente esgotados pelas condições de sua vida, se deixaram vencer pela rotina e simplesmente desistiram de qualquer briga. O desânimo, a falta de sentido, a repetição dos mesmos conteúdos, os baixos salários, o desprestígio social, etc., tudo isto pode atingir o profissional da educação, como também de outras áreas. Desistentes e renitentes são obstáculos na vida do professor crítico e podem mesmo se tornar inimigos abertos.

Os estudantes são outro empecilho. Destinatários formais da educação, o elã da juventude, uma estrutura burocratizada, as drogas, a descoberta do próprio corpo e da sexualidade, a simples necessidade de se sentir acolhido ou se destacar, etc., tudo isso são barreiras que o professor precisará superar, sendo crítico ou não. O estudante é o tesouro da escola, mas um tesouro que pode se tornar amargo, tal qual fel, e impedir o professor de um trabalho crítico com os demais estudantes interessados.

O próprio Estado e setores conservadores da sociedade podem se constituir sério impedimento ao trabalho do professor. Leis e movimentos, como o Escola sem partido, vêm tentar minar o trabalho crítico que alguns professores entabulam no ambiente escolar em benefício de um ensino pasteurizado, que silencie a luta dos oprimidos e dê vazão ao que de pior as humanidades produziram. Uma escola completamente neutralizada para as forças progressistas, mera extensão da fábrica, da igreja e da família, instituições normalmente conservadoras. Claro, sempre se pode indagar o que se quer conservar de uma sociedade falida; mas é exatamente a possibilidade desta pergunta no ambiente da escola que as forças do atraso tentam impedir.

O professor pugna, portanto. E as condições são adversas. Não se faz a guerra com um exército de um soldado só. No conflito social, não existem heróis, uma concepção que insufla o individualismo e a busca de salvadores, quando a maior lição que podemos dar aos estudantes é que o único que ode salvar o povo é o próprio povo organizado coletivamente. Assim, é mister encontrar aliados; eles existem e não são poucos. Funcionários insatisfeitos, outros docentes críticos, o sindicato, setores progressistas da sociedade. Não te desespera professor. Na tua luta, conta com amigos. Não te deixes abater, mas levanta e pensa que as transformações históricas são feitas por acúmulos que, ora ou outra, explodem e dão vazão aos interesses dos marginalizados. Persiste, que, cedo ou tarde, poderemos vencer e dar à educação um caráter transformador, formando sujeitos que intervenham na sociedade conscientes de si, sujeitos livres. O desespero é o atalho para a vitória do inimigo. Estamos em guerra: porta-te como soldado e resiste. Amanhã, o sol brilha de novo, trazendo esperanças aos que se colocam ao lado dos desprezados do mundo.

domingo, 11 de julho de 2021

Jesus Cristinho

 Jesus cristinho


Lá no seu céu


Enquanto eu amargo o fel

Jesus cristinho


Que o pobre engana


Enquanto a fome me encana

Jesus cristinho


Lá no paraíso


Eu sem dar nenhum sorriso

Jesus cristinho


E seu outro mundo


Eu aqui, iracundo

Jesus cristinho


No mundo encantado


Eu fodido e mal pago

Jesus cristinho


No reino do céu


O Brasil indo pro beleléu

Jesus cristinho


Vai-te embora


Deixe-nos aqui e agora

Jesus cristinho


Você sabe, nunca existiu


Enquanto sofremos, Bolsonaro riu

RP, inverno de 2021

terça-feira, 6 de julho de 2021

Philogelos 28-30

 28. Sábio mordeu um cachorro no dedão; e disse: se tivesse mordido a túnica, a teria apanhado


29. De dois irmãos gêmeos, um morreu. Sábio, pois, ao vivente perguntou: "foi você que morreu ou seu irmão?"


30. Sábio que se preparava para naufragar pediu um papel para que pudesse escrever seu testamento.