domingo, 10 de agosto de 2025

Descrição sumária dos inimigos

 Não,

Não é a fome que me preocupa,

Mas a sede.

A sede de sangue.

Intensa, fatal.

A obsessão com o sofrimento

O modo como se organiza o mundo

Para a dor.

Não há o que baste para saciar

Essa sanha.

Melhor seria se nosso dever fosse

O gozo.

Gozo intenso, gozo forte

Fruir fundo a vida,

Essa brisa que nos leva

Esse furacão que arrasta

Essa tempestade que assola.

Os negadores,

Os anacoretas do desconforto,

Os senhores do tormento,

Os profetas dos seres imaginários,

Os escravos do papel,

Os duques da moeda:

Eis o inimigos que não gozam.

Quando o humano aproveita,

É o próprio tempo que para.

É o tecido do universo

Que conosco vibra.

É a vida mesma que pulsa.

Não,

eles não gozam.


RP, inverão de 2024

Compromisso

 Quase não canto

A beleza da vida

Talvez por que a terra

Me pareça sofrida


Quase não falo

Da graça da população.

Se ela tivesse unidade,

Seríamos nação


Raramente digo

Como é bom respirar.

Pudera: tempo todo

Me concentro em não sufocar.


Mas há os os animais

Os bichinhos, as plantas

O solo mesmo e tais.


Estamos convosco.

Se vencermos,

Terão muito mais.


S.C. verão de 2024

Abstratinho II

 A fumaça eleva-se tórrida

Das plantações.

O sol já deitou seus raios

Que fulminam a terra

Cessando, enfim, o calor.

Mas, nas dobras do peito,

Há uma brasa, um ardor.

Não é solar

Nem puro fruto do coração.

É o desenrolar da vida

E do sentimento,

São os espíritos animais

Levando movimento aos membros.

É o cio da sensação

Que arrebata e conduz.

É o pensamento fixo,

Não nas montanhas ou nos lagos

Ou nos arcaicos paradoxos,

Mas pregado no corpo: no teu.

Mira certa na alma: a tua.

Desejo de expandir o quentume,

De me locupletar

Nas suas reentrâncias e protuberâncias,

De me saciar na tua fonte coberta

Oásis no deserto do ser.


S.C., verão de 2024

Máxima da razão libertina

 Comida e água

Bebida e mamada

Não se nega a ninguém,

Não se nega por nada.


Verão de 2024

Abstratinho

 A carruagem penetra na escuridão da estrada

Me afastando de você.

Outra vez, o mesmo erro:

O espelho que não reflete

A mão que não aperta

A boca que não beija.

Busca que segue.

Prendo a respiração,

E sou carregado para a treva funda.


Estrada, verão de 2023

Petit III

Ó Petit

Gigante

Entre os anões

Não descrito por Dante

Nem por Camões

Quero aprofundar

Nossas relações

Me entremelar

aos seus pelos

Reduzir-me a objeto

Estar aos seus joelhos

Estar sob o mesmo teto

Sentir-te no meu reto

De prazer arrancar-me os cabelos


Outono de 2022


Petit II

 Petit,

Meu amigo

Quero descer

Para abaixo de seu umbigo

Quero ver crescer

A vara túrgida

Me encontrar enfeitiçado

Pela peça úmida

Pelo pau rosado

Acima dos giôlhos

Ó, sim, gozar

Até virar os olhos

Me espatifar

Na pedra em riste, meu abrolho


Outono de 2022