quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Raízes da greve de 2013 na UNESP


Felipe Luiz “Guma”

Filosofia FFC-UNESP/Marília

Ex delegado de base e ex membro do DCE-HR

 

EXPANSÃO DAS UNIVERSIDADES EM UM MOMENTO DE RÁPIDAS TRANSFORMAÇÕES NO CAPITALISMO BRASILEIRO

Brasil se desindustrializava desde os anos 1990 e o PT buscava criar, desde sua chegada ao Planalto, uma sociedade de serviços, ao modo de sociedades europeias que também se desindustrializavam, como Alemanha ou França. Para isso era necessário mão de obra. Ademais, o PT buscava criar uma nova base social para si, uma classe média de origem proletária, desancando a classe média tradicional

Além disso, as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa. Quem o faz é o Estado, de modo que se "socializam os riscos e perdas, mas se particulariza o lucro"; a burguesia nunca perde. Assim, começa-se um processo de ampliação das universidades.

O PSDB, cujas origens são intelectuais "ilustrados" paulistas, que seguem os rumos da social-democracia europeia, pelos mesmos motivos principia a expansão de vagas em São Paulo, mas sem aumentar o repasse de verbas. Quer-se que as universidades façam muito mais, mas com o mesmo.

Destarte, segue-se uma série de lutas no período da década de 2000 e 2010, especialmente na UNESP, que foi a universidade estadual que mais expandiu e é a que recebe menos verbas.

A greve de 2013 se insere nesse processo: estudantes pobres, que querem estudar e desfrutar dos mesmos direitos dos estudantes mais ricos, como somente se dedicar aos estudos, e que não tem condições para tanto. Assim, eles exigem da universidade políticas específicas que lhes garantam o direito de estudar, as políticas de permanência.

O velho PSDB planejava um sistema de cotas, em respostas ao sistema de cotas das universidades federais, aprovado em 2012 Sua proposta, entretanto, na verdade excluiria os pobres da universidade, já que eles teriam que ficar em banho-maria antes de entrar nas públicas paulistas, com incentivos para se contentarem somente com uma formação técnica.

Planejava-se, ademais, aumentar o número de estudantes com necessidades de políticas de permanência, sem aumentar a verba de permanência de maneira significativa.

Essas são as origens imediatas da greve estudantil: o fato da UNESP não possuir uma política de permanência estudantil, o que se refletia em seu próprio arranjo institucional, uma vez que não havia um órgão responsável por essas políticas, elas estavam concentradas na Pró-Reitoria de Extensão.

No campo das questões práticas, isto é, organizativas, do lado movimento estudantil, a greve começou a ser preparada muito antes. Após o movimento de 2007, no qual o governo Serra tentou implementar uma política que tornaria o sistema universitário paulista mero apêndice da FIESP ("socializando os riscos e investimentos", mas privatizando os lucros; capitalismo de compadrio), na UNESP a reitoria iniciou a organização de um projeto visando corrigir, desde o ponto de vista dos interesses da burocracia universitária, as distorções pelas quais a UNESP havia sido submetida por imperativos políticos do PSDB, como a expansão desordenada. Essa política tinha o nome de PDI

Esse PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) enquadrava a UNESP em parâmetros internacionais de qualidade, reduzindo a universidade, pois, ás exigências do capital internacional. Ainda que houvesse acenos no sentido de fortalecer a permanência estudantil, eram tímidos. Além do mais, não tocavam no essencial: a expansão de vagas fora feita sem a expansão de verbas, como se quisermos vestir um adulto com suas roupas de criança.

Além disso, o governo Serra acenava com a questão da UNIVESP, a Universidade Virtual do Estado de São Paulo e boatos corriam de que haveria um fechamento de cursos em benefício do ensino à distância.

O DCE da UNESP, que havia sido reorganizado durante o ano de 2007, adotara um modelo de delegados de base (em resposta á política conciliatória e de falcatruas de certas correntes do movimento estudantil unespiano). Impulsionado por trotskistas, independentes e anarquistas, o DCE-HR preparou a luta contra tanto o PDI, como contra o EaD, além das velhas pautas de luta pela manutenção e ampliação de padrões mínimos na universidade (contratação de professores, laboratório, bibliotecas, etc) e a questão da democratização da universidade.

O campus de Marília, pela excepcional combinação de possuir cursos mais críticos, com muitos professores e esquerda, e uma tradição de luta antiga, encabeçou esse processo de luta no ano de 2009 e saiu em greve e ocupação contra o PDI e o EaD. Afora apoios pontuais de outros setores do m.e., além de professores e servidores técnicos, o m.e. de Marília, do qual eu era delegado de base do DCE, fez a luta sozinho e, assim, seja PDI, seja UNIVESP foram aprovados.

Nos anos seguintes, Marília continuou com vários processos de luta, quase sempre isolados: greve de 2010 contra a terceirização, os entraços no r.u., ocupação do protocolo, Outros campi contribuíam, mas em Marília a radicalização era maior, além da organização.

A diretoria do DCE-HR foi deixando de ser eleita e o movimento adotou uma forma de organização puramente assembleísta, com Conselhos de entidades organizando as lutas e comissões pontuais tocando os trabalhos.

Em 2013, tudo isso explodiu, justamente nos campi mais precarizados, como Ourinhos, Marília e Assis por uma questão imediata de atraso no pagamento de bolsas, mas mirando todas essas questões de precarização da universidade.

Deflagrada a greve nesses três campi, tomei parte na comissão de comunicação da greve, o órgão mais central, já que é ele que articula com os demais campi a organização do movimento. Além disso, fui eleito para a comissão estadual de mobilização, que, depois, se tornaria DCE-HR provisório.

Marília rodou o estado, creio que o pessoal de Ourinhos também. Particularmente, fui para mais de dez campi, sempre ou de caronas ou passando o chapéu, na falta de uma estrutura que permitisse esse trabalho de articulação.

A greve se expandiu. A pauta básica era contra o PIMESP (A proposta do PSDB de falsas cotas nas Públicas Paulistas), por políticas de permanência estudantil, além da democratização da universidade.

Desde o começo eu e meu grupo tínhamos em mente a necessidade de ocupar a reitoria a fim de conseguir a implantação de nossas pautas.

Fazíamos atos por todo o estado, e a reitoria marcava reuniões e enrolava  nossa delegação, protelando a aceitação de nossas reivindicações. A ordem era ganhar do movimento pelo cansaço. Diante de uma greve que parou mais de metade da universidade, a reitoria nos oferecia 200 mil reais para distribuir em bolsas, diante de uma procura muito maior, além de uma ou outra concessão pontual, que não tocava nos problemas por nós aventados.

Maquiavel diz que duas coisas são necessárias ao Princípe a fim de que vença: fortu e virtu, a virtude e a sorte. A virtude organizativa nós tínhamos, estava provado. Organizamos um movimento estadual com muito pouco, fazíamos atos, tínhamos comunicação, estávamos em contato com outros movimentos estaduais, com as entidades do Fórum das Seis, além de movimentos sociais propriamente falando.

As Jornadas de Junho foram nossa fortu. Diante da força da mobilização, a forma como a reitoria lidou com o movimento foi outra. Logo que a repressão massacrou os atos do Passe-livre, que redundaria no movimento, estávamos em um CEEUF em Marília. Decidimos mostrar nossa solidariedade e, influenciados or companheiros da UEG, que tinham vindo assistir nosso Conselho, fizemos um corte de rodovias, que paralisou Marília. A fila de carros e caminhões que se formou foi filmada por um motoqueiro, que postou o vídeo, o qual terminou por viralizar. Não é fácil saber qual a influência de nosso ato nas manifestações seguintes; o fato é que alguma teve. Com isso, desencadeou-se, propriamente, as Jornadas, com manifestações massivas.

Conforme dito, desde o princípio sabíamos que teríamos de ocupar a reitoria. No final de junho, já com as Jornadas acontecendo, com ampla participação de unespianos por todo o interior e capital, fizemos um ato na reitoria e ocupamos. O desespero nos setores dirigentes era patente: nossa vitória foi completa, visto que tudo aquilo que exigíamos para a desocupação, como pagamento de toda a demanda de bolsas, criação de políticas de permanência e recusa do PIMESP foi atendido. Diante do movimento de massas, a ordem era ceder.

No começo de julho, em reunião do DCE em Ourinhos, avaliamos que uma coisa ainda não havia sido conquistada: as moradias e os r.u.'s. Por todo estado, as condições das moradias eram horríveis, isto onde elas existiam, visto que campi com alta taxa de estudantes pobres, como Ourinhos, não contavam nem com moradia nem com r.u. Além disso, a questão da paridade era premente: democratizar a própria forma como a universidade se organiza.

Assim, decidimos que ocuparíamos novamente.

Organizamos uma plenária do DCE em São Paulo, no IA ocupado, e tocamos adiante a ocupação. Desta vez, com as Jornadas já extintas, a reitoria, que havia rachado diante da primeira ocupação, se unificou na necessidade de reprimir. Essa segunda ocupação foi, além disso, um tanto quanto desorganizada, visto que não conseguimos sequer estruturar a contento nossa pauta de reivindicações.

Digno de nota foi o fato da Vice-reitora ter se encastelado em seu gabinete e negociado diretamente conosco. Não disposta a ceder, abandonou o prédio já com a reintegração em vista. No saguão da reitoria, os estudantes gritavam enquanto ela passava: “vergonha! Vergonha!” episódio que ela lembraria em reuniões de negociação posteriores.

Decididos a não desocupar diante da reintegração de posse, eu saí do edifício, pois já não era réu primário, havendo sido condenado justamente por militância no m.e. da UNESP. O Choque chegou quebrando tudo, já de madrugada. Mesmo fora do prédio, fui preso com outro companheiro. Os policiais que nos levaram, em separado dos demais estudantes, faziam pressão psicológica. Quando cheguei na delegacia, encontrei os estudantes, cerca de 100 pessoas, chorando e desanimados. Diante de todos, disse aos policiais que me trouxeram: por que vocês não continuam fazendo aqui, na frente de todos, o que faziam quando eu estava na viatura? Assim, começou uma situação insólita. Transformamos nossa detenção na delegacia em ato político: ocupamos a delegacia.

Após ser fichado, sem dormir há quase 48 horas, eu estava particularmente cansado. Dormi um dia inteiro na ocupação do IA e, assim, já muito debilitado por quatro meses de greve, vagando de campi em campi, de ocupação em ocupação, com princípio de pneumonia, me afastei do movimento e deixei que fosse tocado pelos mais novos.

Minhas últimas tarefas na greve foram algumas reuniões de negociação, onde a reitoria oficializou a proposta de criação da COPE (Coordenadoria de Permanência Estudantil) e da CPPE, órgão consultivo paritário sobre permanência.

O legado da greve foram conquistas duradouras para o movimento, com ao princípio da formulação da política unespiana de permanência e do esboço de um processo de democratização da universidade. Ademais, os estudantes voltaram a ocupar espaços no Conselho Universitário e em outros órgãos da deliberação da UNESP. O DCE-HR, que estava sem diretoria desde 2010, saiu com uma organização provisória. Fato é que esse legado não foi bem aproveitado pelas gerações vindouras do m.e., que regrediram desde um ponto de vista organizativo e, também, de pautas, pelo menos até a greve desse ano, 2026. Mas esta já uma história para outra ocasião.

 

 

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