Felipe
Luiz “Guma”
Filosofia
FFC-UNESP/Marília
Ex delegado
de base e ex membro do DCE-HR
EXPANSÃO
DAS UNIVERSIDADES EM UM MOMENTO DE RÁPIDAS TRANSFORMAÇÕES NO CAPITALISMO
BRASILEIRO
Brasil
se desindustrializava desde os anos 1990 e o PT buscava criar, desde sua
chegada ao Planalto, uma sociedade de serviços, ao modo de sociedades europeias
que também se desindustrializavam, como Alemanha ou França. Para isso era
necessário mão de obra. Ademais, o PT buscava criar uma nova base social para
si, uma classe média de origem proletária, desancando a classe média
tradicional
Além
disso, as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa. Quem o faz é o
Estado, de modo que se "socializam os riscos e perdas, mas se
particulariza o lucro"; a burguesia nunca perde. Assim, começa-se um
processo de ampliação das universidades.
O
PSDB, cujas origens são intelectuais "ilustrados" paulistas, que
seguem os rumos da social-democracia europeia, pelos mesmos motivos principia a
expansão de vagas em São Paulo, mas sem aumentar o repasse de verbas. Quer-se
que as universidades façam muito mais, mas com o mesmo.
Destarte,
segue-se uma série de lutas no período da década de 2000 e 2010, especialmente
na UNESP, que foi a universidade estadual que mais expandiu e é a que recebe
menos verbas.
A
greve de 2013 se insere nesse processo: estudantes pobres, que querem estudar e
desfrutar dos mesmos direitos dos estudantes mais ricos, como somente se
dedicar aos estudos, e que não tem condições para tanto. Assim, eles exigem da
universidade políticas específicas que lhes garantam o direito de estudar, as
políticas de permanência.
O
velho PSDB planejava um sistema de cotas, em respostas ao sistema de cotas das
universidades federais, aprovado em 2012 Sua proposta, entretanto, na verdade
excluiria os pobres da universidade, já que eles teriam que ficar em
banho-maria antes de entrar nas públicas paulistas, com incentivos para se
contentarem somente com uma formação técnica.
Planejava-se,
ademais, aumentar o número de estudantes com necessidades de políticas de
permanência, sem aumentar a verba de permanência de maneira significativa.
Essas
são as origens imediatas da greve estudantil: o fato da UNESP não possuir uma política
de permanência estudantil, o que se refletia em seu próprio arranjo
institucional, uma vez que não havia um órgão responsável por essas políticas,
elas estavam concentradas na Pró-Reitoria de Extensão.
No
campo das questões práticas, isto é, organizativas, do lado movimento
estudantil, a greve começou a ser preparada muito antes. Após o movimento de
2007, no qual o governo Serra tentou implementar uma política que tornaria o
sistema universitário paulista mero apêndice da FIESP ("socializando os
riscos e investimentos", mas privatizando os lucros; capitalismo de
compadrio), na UNESP a reitoria iniciou a organização de um projeto visando
corrigir, desde o ponto de vista dos interesses da burocracia universitária, as
distorções pelas quais a UNESP havia sido submetida por imperativos políticos
do PSDB, como a expansão desordenada. Essa política tinha o nome de PDI
Esse
PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) enquadrava a UNESP em parâmetros
internacionais de qualidade, reduzindo a universidade, pois, ás exigências do
capital internacional. Ainda que houvesse acenos no sentido de fortalecer a
permanência estudantil, eram tímidos. Além do mais, não tocavam no essencial: a
expansão de vagas fora feita sem a expansão de verbas, como se quisermos vestir
um adulto com suas roupas de criança.
Além
disso, o governo Serra acenava com a questão da UNIVESP, a Universidade Virtual
do Estado de São Paulo e boatos corriam de que haveria um fechamento de cursos
em benefício do ensino à distância.
O
DCE da UNESP, que havia sido reorganizado durante o ano de 2007, adotara um
modelo de delegados de base (em resposta á política conciliatória e de
falcatruas de certas correntes do movimento estudantil unespiano). Impulsionado
por trotskistas, independentes e anarquistas, o DCE-HR preparou a luta contra
tanto o PDI, como contra o EaD, além das velhas pautas de luta pela manutenção
e ampliação de padrões mínimos na universidade (contratação de professores,
laboratório, bibliotecas, etc) e a questão da democratização da universidade.
O
campus de Marília, pela excepcional combinação de possuir cursos mais
críticos, com muitos professores e esquerda, e uma tradição de luta antiga,
encabeçou esse processo de luta no ano de 2009 e saiu em greve e ocupação
contra o PDI e o EaD. Afora apoios pontuais de outros setores do m.e., além de
professores e servidores técnicos, o m.e. de Marília, do qual eu era delegado
de base do DCE, fez a luta sozinho e, assim, seja PDI, seja UNIVESP foram
aprovados.
Nos
anos seguintes, Marília continuou com vários processos de luta, quase sempre
isolados: greve de 2010 contra a terceirização, os entraços no r.u., ocupação
do protocolo, Outros campi contribuíam, mas em Marília a radicalização
era maior, além da organização.
A
diretoria do DCE-HR foi deixando de ser eleita e o movimento adotou uma forma
de organização puramente assembleísta, com Conselhos de entidades organizando
as lutas e comissões pontuais tocando os trabalhos.
Em
2013, tudo isso explodiu, justamente nos campi mais precarizados, como
Ourinhos, Marília e Assis por uma questão imediata de atraso no pagamento de
bolsas, mas mirando todas essas questões de precarização da universidade.
Deflagrada
a greve nesses três campi, tomei parte na comissão de comunicação da
greve, o órgão mais central, já que é ele que articula com os demais campi
a organização do movimento. Além disso, fui eleito para a comissão estadual de
mobilização, que, depois, se tornaria DCE-HR provisório.
Marília
rodou o estado, creio que o pessoal de Ourinhos também. Particularmente, fui
para mais de dez campi, sempre ou de caronas ou passando o chapéu, na
falta de uma estrutura que permitisse esse trabalho de articulação.
A
greve se expandiu. A pauta básica era contra o PIMESP (A proposta do PSDB de
falsas cotas nas Públicas Paulistas), por políticas de permanência estudantil,
além da democratização da universidade.
Desde
o começo eu e meu grupo tínhamos em mente a necessidade de ocupar a reitoria a
fim de conseguir a implantação de nossas pautas.
Fazíamos
atos por todo o estado, e a reitoria marcava reuniões e enrolava nossa delegação, protelando a aceitação de
nossas reivindicações. A ordem era ganhar do movimento pelo cansaço. Diante de
uma greve que parou mais de metade da universidade, a reitoria nos oferecia 200
mil reais para distribuir em bolsas, diante de uma procura muito maior, além de
uma ou outra concessão pontual, que não tocava nos problemas por nós aventados.
Maquiavel
diz que duas coisas são necessárias ao Princípe a fim de que vença: fortu
e virtu, a virtude e a sorte. A virtude organizativa nós tínhamos,
estava provado. Organizamos um movimento estadual com muito pouco, fazíamos
atos, tínhamos comunicação, estávamos em contato com outros movimentos
estaduais, com as entidades do Fórum das Seis, além de movimentos sociais
propriamente falando.
As
Jornadas de Junho foram nossa fortu. Diante da força da mobilização, a
forma como a reitoria lidou com o movimento foi outra. Logo que a repressão
massacrou os atos do Passe-livre, que redundaria no movimento, estávamos em um
CEEUF em Marília. Decidimos mostrar nossa solidariedade e, influenciados or
companheiros da UEG, que tinham vindo assistir nosso Conselho, fizemos um corte
de rodovias, que paralisou Marília. A fila de carros e caminhões que se formou
foi filmada por um motoqueiro, que postou o vídeo, o qual terminou por
viralizar. Não é fácil saber qual a influência de nosso ato nas manifestações
seguintes; o fato é que alguma teve. Com isso, desencadeou-se, propriamente, as
Jornadas, com manifestações massivas.
Conforme
dito, desde o princípio sabíamos que teríamos de ocupar a reitoria. No final de
junho, já com as Jornadas acontecendo, com ampla participação de unespianos por
todo o interior e capital, fizemos um ato na reitoria e ocupamos. O desespero
nos setores dirigentes era patente: nossa vitória foi completa, visto que tudo
aquilo que exigíamos para a desocupação, como pagamento de toda a demanda de
bolsas, criação de políticas de permanência e recusa do PIMESP foi atendido.
Diante do movimento de massas, a ordem era ceder.
No
começo de julho, em reunião do DCE em Ourinhos, avaliamos que uma coisa ainda
não havia sido conquistada: as moradias e os r.u.'s. Por todo estado, as condições das moradias
eram horríveis, isto onde elas existiam, visto que campi com alta taxa de
estudantes pobres, como Ourinhos, não contavam nem com moradia nem com r.u.
Além disso, a questão da paridade era premente: democratizar a própria forma
como a universidade se organiza.
Assim,
decidimos que ocuparíamos novamente.
Organizamos
uma plenária do DCE em São Paulo, no IA ocupado, e tocamos adiante a ocupação.
Desta vez, com as Jornadas já extintas, a reitoria, que havia rachado diante da
primeira ocupação, se unificou na necessidade de reprimir. Essa segunda
ocupação foi, além disso, um tanto quanto desorganizada, visto que não
conseguimos sequer estruturar a contento nossa pauta de reivindicações.
Digno
de nota foi o fato da Vice-reitora ter se encastelado em seu gabinete e
negociado diretamente conosco. Não disposta a ceder, abandonou o prédio já com
a reintegração em vista. No saguão da reitoria, os estudantes gritavam enquanto
ela passava: “vergonha! Vergonha!” episódio que ela lembraria em reuniões de
negociação posteriores.
Decididos
a não desocupar diante da reintegração de posse, eu saí do edifício, pois já
não era réu primário, havendo sido condenado justamente por militância no m.e.
da UNESP. O Choque chegou quebrando tudo, já de madrugada. Mesmo fora do
prédio, fui preso com outro companheiro. Os policiais que nos levaram, em
separado dos demais estudantes, faziam pressão psicológica. Quando cheguei na
delegacia, encontrei os estudantes, cerca de 100 pessoas, chorando e
desanimados. Diante de todos, disse aos policiais que me trouxeram: por que
vocês não continuam fazendo aqui, na frente de todos, o que faziam quando eu
estava na viatura? Assim, começou uma situação insólita. Transformamos nossa detenção
na delegacia em ato político: ocupamos a delegacia.
Após
ser fichado, sem dormir há quase 48 horas, eu estava particularmente cansado.
Dormi um dia inteiro na ocupação do IA e, assim, já muito debilitado por quatro
meses de greve, vagando de campi em campi, de ocupação em ocupação, com
princípio de pneumonia, me afastei do movimento e deixei que fosse tocado pelos
mais novos.
Minhas últimas tarefas na greve foram algumas reuniões de negociação, onde a reitoria oficializou a proposta de criação da COPE (Coordenadoria de Permanência Estudantil) e da CPPE, órgão consultivo paritário sobre permanência.
O
legado da greve foram conquistas duradouras para o movimento, com ao princípio
da formulação da política unespiana de permanência e do esboço de um processo
de democratização da universidade. Ademais, os estudantes voltaram a ocupar
espaços no Conselho Universitário e em outros órgãos da deliberação da UNESP. O
DCE-HR, que estava sem diretoria desde 2010, saiu com uma organização
provisória. Fato é que esse legado não foi bem aproveitado pelas gerações
vindouras do m.e., que regrediram desde um ponto de vista organizativo e,
também, de pautas, pelo menos até a greve desse ano, 2026. Mas esta já uma história para outra ocasião.
Nenhum comentário:
Postar um comentário