quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Votos a Bolsonaro

Maltrapilho de ditador

malfazejo é teu futuro

ainda vai se sentir da dor

de ser esse bagulho.


Como italiano outrora feliz,

terminará os dias,

com sua imperatriz,

a encarar as terras frias


Pé olhando o universo, pendido.

Sim, nessa hora de glória

estará falsamente arrependido.

Então, serás história!


Para ti, fim inglório.

para a turba, honra e vitória.

Este é teu término simplório,

e chega na melhor hora.


Ribeirão Preto, primavera de 2021 

Religião

Eles pedem a deus

não a paz do mundo

ou piedade com os seus


pedem o dinheiro imundo

pedem o carro do ano

elegem o iracundo


pedem pedra e pano

pagam quantia malfasana

para garantir sua choupana


no céu assim fecundo

e dizem que esta é a resolução

do deus crucificado


do deus cristão.

Outros querem virgem

nova todo dia


Ó universo, que arrelia!

Que loucuras cingem

o mundo em partes doidivanas


sim, são religiões insanas

e gozam do maior prestígio

junto ao povo que se esfaima


e quem discorda é do diabo

é o próprio mal!

ó, inferno astral


me fez nascer no rabo

da história

venha nova era


venha a glória

de um mundo sem religião!

onde a terra seja mera

esfera na imensidão!

Pastiche de Gregório de Mattos

 

O que falta a essa nação? — revolução!

Há quem se lhe oponha? — gente medonha!

O que falta para acontecer? — a gente fazer!

 

Nas terras do Brasil

Correram os dias

Verdadeiro mandril

E o povo sofria!

 

O que é uma revolução? — o povo de arma na mão!

A conjuntura te aborrece? — me entristece!

E o que você espera? — uma nova era!

 

Já o boca do inferno

Cantava na colônia,

Com um tom terno,

Que essa terra é medonha!

 

Qual o primeiro passo? — Dominar o aço!

E depois? — unir os dois!

Quais deles? — o povo e o alferes

 

Chegamos em ponto de virada:

Ou agimos agora

Ou a hora será passada

Ajamos sem mais demora!

 

Você é subversivo!  O mundo que é repulsivo!

Você quer a guerra! — Ela já nos espera!

Você quer a morte! — Prefiro tentar a sorte!

 

Povos do mundo,

Bilionários existem.

Tomar do rico iracundo

Não mais hesitem!

 

O presente é o momento.

Construir um futuro

Sem tanto tormento

— este é meu urro!

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O caminho

 ele acha que é da Europa!

- pobre mestiço,

fique com o que é teu

lhe chama de estrupício

o nobre europeu


Europa velha

velha e medonha

de nossa terra espera

fazer-se ainda mais dona


Ele acha que é gringo

pobre criolo,

nesse bingo

te passam o rolo


ele pensa que é branco

mas, na beira do barranco,

no passado estanco

meteu-se com negro carranco


Esta terra acha que é aceita

só se for como escrava

engordar a receita

de quem lhe tira a escalpa


Para nós só um caminho:

aceitar o sertão,

o sul do mundo, o indiozinho,

e fazer revolução


Ribeirão Preto, Primavera de 2021

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Cuidado com quem se alia: o grou e o lobo, fábula de Fedro

 Qual recompensa merece o ímprobo desejar [o bem]

Duas vezes peca: primeiro, pois ajudaste um indigno

Ir impune porque doutro modo não poderia

Osso devorado pregou-se na garganta do lobo

Vivendo grandes dores singulares começou

a aliciar com ofertas para que se extraísse dele o mal.

Finalmente foi persuadida com os juramentos o grou,

Na garganta [do lobo], confiando, o comprimento de  de seu pescoço [enfiou]

perigosamente fez a cura do lobo

De quem exigiu o prêmio:

"Tu és ingrata", disse [o lobo], "veja que sua cabeça

incólume retirou [de minha garganta] e ainda exige recompensa".

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Fábula de Fedro

 Vaca, cabra, ovelha e leão


Nunca é seguro com poderosos ser sócio em algo:

Comprova essa história meu propósito.

Vaca e cabra e uma paciente ovelha sofredora de injustiça

Sócias foram com o leão no bosque

Eles agarraram cervo com vasto corpo.

Assim é falada a divisão das partes pelo leão:

"Eu, a primeira [parte] levo, pois meu nome é leão;

A segunda, porque eu sou forte, é atribuída a mim;

Então, porque eu sou mais forte, me segue a terceira;

Porque eu gosto mais, a quarta parte pego".

Assim, toda a presa caiu nas garras do ímprobo

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Ser professor: fazer a guerra

A escola não é um lugar isento de disputas, como não o é a sociedade como um todo. Envolta em pugnas de toda ordem, é nesse espaço tumultuoso que o professor deve exercer seu ofício. A escola reflete os conflitos sociais visto que, quando se passa pelos seus portões, não se apagam os estigmas preexistentes, as ideias, as posturas. À essa massa de prélios socais, vem se juntar alguns especificamente pedagógicos, como a relação entre dos professores entre si, com os estudantes e com o corpo diretivo da escola. Não, a escola não é pacífica, mas entremeada de questões e enfrentamentos.

O professor deve seguir um currículo elaborado pelas altas capas governamentais e, assim, formar os estudantes em uma certa perspectiva. A educação, enquanto forma de reprodução dos valores de uma sociedade, é pensada como forma de perpetuar os fundamentos dessa formação social. Não poderia ser diferente: qual sociedade escolheria seu próprio fim, educando as crianças e jovens para destruí-la? Mas, nos interstícios do sistema, ainda é possível encontrar brechas para uma educação que questione os fundamentos mesmos da atual sociedade já que, na sala de aula, são estudantes e professores que se encontram no fazer pedagógico.

Nesse sentido, o professor tem uma escolha a fazer, especialmente os de humanidades: trabalhar no sentido de perpetuar a atual sociedade ou buscar dotar os estudantes de um instrumental crítico que lhes permita deliberar e refletir criticamente sobre as mazelas de nosso mundo e se posicionar no cosmos não como sujeitos inermes e inertes, mas como ativos construtores de um novo mundo — ou defensores conscientes da ordem atual, já que a maio parte das pessoas simplesmente age sem refletir sobre a estrutura social, apenas reproduzindo atitudes e pensamentos herdados ou adquiridos via religião, mídia, educação familiar, convívio com os amigos, etc. Ou seja, é uma reprodução inconsciente de tudo que possuímos de bom — e de ruim, claro.

O professor crítico luta contra a direção da escola e o currículo oficial. Neste, conforme vimos, se prima pela reprodução da ordem atual. A direção da escola, enquanto porta-voz e lugar-tenente das autoridades do Estado, geralmente irá defender as diretrizes oficiais e buscar enquadrar os professores desviantes. Claro, sempre é possível uma diretoria que entenda o próprio papel questionador das humanidades, mas isto é, cremos, exceção. A maior parte da burocracia escolar está preocupada com a manutenção de sua própria posição e irá lutar para mantê-la assim ou, até mesmo, encontrar outra mais vantajosa.

O professor luta também contra os demais docentes. A maior parte reproduz a ordem, mesmo sem saber. Alguns serão fanáticos prosélitos da direção e de seu papel; outros, simplesmente esgotados pelas condições de sua vida, se deixaram vencer pela rotina e simplesmente desistiram de qualquer briga. O desânimo, a falta de sentido, a repetição dos mesmos conteúdos, os baixos salários, o desprestígio social, etc., tudo isto pode atingir o profissional da educação, como também de outras áreas. Desistentes e renitentes são obstáculos na vida do professor crítico e podem mesmo se tornar inimigos abertos.

Os estudantes são outro empecilho. Destinatários formais da educação, o elã da juventude, uma estrutura burocratizada, as drogas, a descoberta do próprio corpo e da sexualidade, a simples necessidade de se sentir acolhido ou se destacar, etc., tudo isso são barreiras que o professor precisará superar, sendo crítico ou não. O estudante é o tesouro da escola, mas um tesouro que pode se tornar amargo, tal qual fel, e impedir o professor de um trabalho crítico com os demais estudantes interessados.

O próprio Estado e setores conservadores da sociedade podem se constituir sério impedimento ao trabalho do professor. Leis e movimentos, como o Escola sem partido, vêm tentar minar o trabalho crítico que alguns professores entabulam no ambiente escolar em benefício de um ensino pasteurizado, que silencie a luta dos oprimidos e dê vazão ao que de pior as humanidades produziram. Uma escola completamente neutralizada para as forças progressistas, mera extensão da fábrica, da igreja e da família, instituições normalmente conservadoras. Claro, sempre se pode indagar o que se quer conservar de uma sociedade falida; mas é exatamente a possibilidade desta pergunta no ambiente da escola que as forças do atraso tentam impedir.

O professor pugna, portanto. E as condições são adversas. Não se faz a guerra com um exército de um soldado só. No conflito social, não existem heróis, uma concepção que insufla o individualismo e a busca de salvadores, quando a maior lição que podemos dar aos estudantes é que o único que ode salvar o povo é o próprio povo organizado coletivamente. Assim, é mister encontrar aliados; eles existem e não são poucos. Funcionários insatisfeitos, outros docentes críticos, o sindicato, setores progressistas da sociedade. Não te desespera professor. Na tua luta, conta com amigos. Não te deixes abater, mas levanta e pensa que as transformações históricas são feitas por acúmulos que, ora ou outra, explodem e dão vazão aos interesses dos marginalizados. Persiste, que, cedo ou tarde, poderemos vencer e dar à educação um caráter transformador, formando sujeitos que intervenham na sociedade conscientes de si, sujeitos livres. O desespero é o atalho para a vitória do inimigo. Estamos em guerra: porta-te como soldado e resiste. Amanhã, o sol brilha de novo, trazendo esperanças aos que se colocam ao lado dos desprezados do mundo.