sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A ideia de uma polemogênese

 Aos domingos costumo fazer uma pausa, ler outras coisas, fora da pesquisa principal. A maior parte é literatura, mas também me dedico a outros projetos ou estudo textos que, doutro modo, demoraria a ler por pura falta de oportunidade. Assim, pus-me a ler o "Mal-estar na modernidade", do filósofo e diplomata brasileiro Sérgio Paulo Rouanet. Ainda não terminei esse texto, mas ele me inquieta. Rouanet é adepto da Teoria crítica (Frankfurt), especialmente do falecido Habermas. Considera-se um iluminista e é a tradição das Luzes que ele defende. Famoso é seu ensaio, contido no volume, sobre "A coruja e o sambódromo", texto premonitório daquilo que hoje nos assola: de um lado, um liberalismo pós moderno ostensivo, de outro a extrema direita em franca ascensão. Rouanet é um fino conhecedor da tradição  iluminista, cita autores que, em um curso de filosofia, só conhecemos de orelhada e olhe lá, como Raynal ou Bayle. A posição de Rouanet parece ser a seguinte: ele quer defender o universal contra os particularismos, sejam eles de esquerda ou progressistas, sejam eles de direita, como os neofascismos. O progressismo, com sua defesa das minorias, e a direita, com sua defesa das "maiorias" (o macho, branco, cristão, burguês, europeu). Ele é particularmente incisivo na disputa contra os progressistas, esse liberalismo de esquerda. Diz ele que, apesar de se verem como outsiders, essa posição seria, à época, a majoritária, a posição dominante (o livros é de 1996). A posição segundo a qual é nas particularidades que se deve focar, diz, é uma posição historicamente de direita, reacionária, já que sua origem são os escritores conservadores antiiluministas, como Herder, Hamann, Chateaubriand, Burke, etc. Esses pensadores defendiam, contra a universaldade iluminista e revolucionária  (como a Declaração dos direitos do homem e do cidadão), as particularidades nacionais, o que desqualificaria essa mesma universalidade. Desde meados do século passado vem se afirmando os direitos dos particulares, dessas minorias: mulheres, negros, indígenas,  imigrantes, LGBTs, terceiro mundistas, etc e o iluminismo vem sendo denunciado como imperialista, como portador de uma universalidade oca. Afinal, foi em nome de tal universalidade que se cometeram as maiores barbáries desde então, como o colonialismo. Assim, afirmar seu direito a si próprio se tornou a saída para essas populações alijadas de seu direito de se serem em benefício do iluminismo. Da mesma forma, contudo, foi em nome da particularidade (as raças ou nacionalidades escolhidas, como o mito ariano, etc) que grandes malfeitos foram empreendidos. Assim, para onde quer que corramos, particularidade ou universalidade, a maldade parece se adiantar às nossas pernas e se adiantar na chegada. Até aqui, Rouanet propõe a solução  desse dilema através de Habermas, principal fiador teórico do projeto de integração europeu e que está sendo enterrado novamente pela AfD, os neonazistas. O socialismo, especialmente o marxismo, também oferece uma saída: a classe trabalhadora é portadora do universal. Dê-lhe o controle e esses conflitos se desvanecem. Parece ingênuo, na verdade, atualmente. Somente uma análise filosófica das origens dos conflitos, da "polemogênese", pode indicar como acabar com essa guerra civil que nos consome. E essa é uma tarefa urgente de nossos dias. Em um artigo recente, dei indicações da origem dos conflitos em nossa civilização, mas é só um esboço.

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