terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sobre o livro "o legado de Foucault"


O legado de Foucault

L. Scavone,  C. Alvarez, R. Miskolci (org.), SP: EDUNESP/FAPESP, 2006

As publicações sobre Foucault e mesmo livros inéditos deste têm se sucedido com grande velocidade, dificultando a tarefa do estudioso ou do diletante em selecionar, no mar de obras, aquelas que valem a pena serem lidas. O legado de Foucault é um livro de comentários, baseado em um Congresso ocorrido na UNESP-Araraquara em 2004. Conta, assim, com textos de especialistas no tema ou de leitores argutos, professores universitários. Sendo um livro de artigos, há variados temas abordados, desde o estado dos arquivos de Foucault, até textos sobre a relação do filósofo francês com outros autores, tais quais Wilde, Hegel e Rousseau. Conste também textos polêmicos, como um que giza os laços de Foucault com a fenomenologia, especialmente em seu primeiro período, ou das relações entre o pensamento foucaultiano e o feminismo contemporâneo, relações estas tensas. O melhor texto do volume, sem dúvida, é o de José Carlos Bruni sobre "Foucault e o silêncio dos sujeitos". Embora seja um texto antigo, fruto de um artigo, o autor busca articular as obras de Foucault em uma totalidade, ao contrário dos demais textos, que focalizam sempre um traço específico das produções do mestre francês. O livro é recomendável para iniciantes ou especialistas, seja pela bibliografia que fornece sobre temas específicos, seja pela qualidade das reflexões. Não se espere, contudo, um fio condutor, que atravessaria os distintos capítulos; eles são independentes, tornando as reflexões rápidas, à exceção dos textos sobre feminismo, que se complementam. Cada capítulo poderia ser desenvolvido em livro independente, e alguns o foram, ou são resultados de teses de doutorado, que empreenderam esta ampliação. Enfim, o livro, facilmente adquirível e disponível em uma boa biblioteca, há de se mostrar útil. Para nossa atual pesquisa, ao menos, ele certamente será.

domingo, 11 de agosto de 2019

Crise do marxismo e irracionalismo pós-moderno

Crise do marxismo e irracionalismo pós-moderno [1992]

João Evangelista, SP: Cortez, 2002, 3ª edição

Trata-se de um pequeno volume, onde o autor expõe as principais críticas ao marxismo des um ponto de vista que ele chama de pós-moderno, e enseja certas respostas. O principal ataque ao marxismo, na contemporaneidade, seria a de que a teoria envelheceu, dadas as mudanças nas sociedades coetâneas, onde o velho proletariado revolucionário teria cedido espaço a novos movimentos, com novos agentes, consequentemente demandando novas teorias para serem analisados e potencializados. Para o autor, de vertente simultaneamente lukásiana e gramsciana, estas seriam balelas propagadas pelo que ele chama de irracionalismo, na esteira de Lukács. O autor dedica exíguas páginas a definir o tal irracionalismo, mas, tomando-o como dado contemporâneo, centra críticas ao pós-estruturalismo francês e a alguns autores marxistóides como Sader, para o qual o movimento operário teria perdido a centralidade nos processos de transformação social. Apoiando-se em clássicos do marxismo, João Evangelista pretende demonstrar que o marxismo abrange estes novos movimentos, os quais devem ser orientados para a luta de classes, na qual o destino de nossos tempos se resolvem. O marxismo não somente não teria envelhecido, como sua resposta aos problemas contemporâneos seria a mais adequada e verdadeira, visto, precisamente, que o marxismo é um dos herdeiros do Iluminismo, capaz de articular conceitos como sujeito, verdade, revolução, etc. A chave para a atualidade do marxismo seria o conceito de práxis, tal como desenvolvidos pelos clássicos desta vertente, que rompe com velhas dicotomias o pensamento ocidental, como sujeito-objeto ou consciência-realidade. Para João Evangelista, o marxismo não só se mantem atual, mesmo frente aos ataques dos irracionalista, como, ademais, é a teoria que deve impulsionar os movimentos sociais, a classe trabalhadora, rumo às transformações revolucionárias, cada vez candentes e necessárias, ao menos a seu ver. Como literatura de divulgação, o livro se presta bem; mas, por ser demasiado pequeno, responde mal aos autores dito pós-modernos, mesmo por que eles não constam em sua bibliografia. O principal foco de atenção do autor é mesmo Emir Sader, teórico do petismo . Sendo livro já antigo, de 1992, não se pode dizer, contudo, que seja datado. Suas ideias podem ser desenvolvidas e ampliadas. Como texto feito para cimentar convicções, se presta bem. Já como crítica minuciosa, deixa a desejar.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O camelo defecando no rio, de Esopo [tradução]

O camelo defecando no rio

"Atravessava rio de forte correnteza um camelo. Tendo defecado, viu as fezes avançarem a ele devido a forte correnteza, e falou: 'Que é isso? O que estava atrás de mim agora vejo me ultrapassando'.

Em cidades onde os últimos e ignorantes reinam em lugar dos primeiros e inteligentes; a estas cidades se aplica esta história".

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio

De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio

Gonçalo Armijos Palácios, Editora UFG, 1997


Demorei muito tempo para começar a ler esse texto. O autor esteve em Marília para debater suas posições, mas eu, infelizmente, não compareci, embora tenha debatido com o professor Lúcio, no mesmo evento, teses que se aproximam muito das defendidas por Palácios, fruto sobremaneira de minha passagem pelo curso de História, exatamente da disciplina de História Econômica, onde se discute a diferença entre métodos de economia e métodos de história econômica, de onde decorre que haja uma diferença entre economistas e historiadores da economia. O ônus pelo atraso na leitura deste livro é todo meu já que, neste curto texto marginal, publicado por uma pequena editora universitária, por um autor desconhecido até mesmo do público filosófico especializado, há uma reflexão metafilosófica que supreende. Surpreende porque o autor vai ao cerne da produção filosófica brasileira, questionando este fazer filosófico nesta terra brasilis marcado por formas, teses e métodos específicos. Já tivemos a oportunidade de apontar que forma e conteúdo estão intimamente relacionados e de como uma determina e é determinada pelo outra. Do mesmo modo, na vasta produção filosófica brasileira, há formas muito bem marcadas que se espera de uma tese, logo, certo conteúdo a ser expresso: o conceito de algo em alguém, eis a forma-conteúdo básica de uma dissertação ou tese de filosofia no Brasil. Outras teses, que rondaram e rondam o panorama filosófico, é o privilégio de certos idiomas, tomados como o suprassumo de veículo filosófico, o que se expressa, muito claramente, nas línguas exigidas nos programas de pós-graduação. Do mesmo modo, certos métodos de leitura filosófica, fundamentalmente o estruturalismo francês, são martelados na cabeça dos neófitos como o método de leitura filosófica por excelência, se não o único. Palácios trabalha com estes problemas, mostrando como estas teses (forma-conteúdo, privilégio linguístico e forma-glosa) moldaram o panorama filosófico nacional, constituindo-se em verdadeiro empecilho nas tentativas de filosofar. Outro entrave à filosofia seria a cultura da formação do erudito em detrimento da escrita; o erudito, isto é, o leitor de muitas obras, não necessariamente será um filósofo, tampouco o escritor, mas este tem a vantagem de expressar suas ideias, torná-las clara, tentar se explicar. Exatamente por quê escrevemos para ser entendidos, deve-se minorar as tentativas de leituras exóticas sobre os autores distintos, especialmente os velhos gregos, ao menos segundo Palácios. O autor também discute a oposição entre filosofia e história da filosofia, chegando a uma posição média: não abandonar nem uma nem outra, ou seja, nem ser meros comentadores de obras que já não interessam a ninguém, à exceção de meia dúzia de especialistas, nem ignorar que outros já trataram de nossos problemas. Há variadas posições filosóficas contidas nas teses do autor, o que não diminui sua importância, aliás, a engrandece, posto que Palácios ousou filosofar, defendendo precisamente isto: chega de nos fiarmos em autores estrangeiros, virando as costas à nossa realidade. A filosofia é característica comum dos humanos, que são curiosos por natureza; neste ínterim, a filosofia deve servir para ajudar-nos a dar novas respostas a velhos problemas, ou, mesmo, criar novos problemas, sempre orientados para o presente, para nossa época, posto que o saber tem história e geografia. Os grandes filósofos se destacaram por se ater a seu tempo, aos problemas prementes de uma era. Façamos como eles: ousemos filosofar, não ignorando o passado, mas sem sermos prisioneiros dele. Orientamos nosso pensamento ao porvir. Este é o caminho para a produção filosófica autoral nesta terra de colonos, sujeita às influências atlânticas, como mostra Cruz Costa, mas com perspectivas do sertão, nossas raízes mais profundas.

sábado, 6 de julho de 2019

A loucura me curou


 Já desde há muito se sabe que as coisas possuem história, que os costumes variam conforme a geografia e os povos, enfim, que há diferentes maneiras de se portar no mundo e se relacionar com ele. Mas há coisas cuja descoberta da historicidade é recente e outras que, talvez, não tenhamos descoberto a história ainda.

Neste quadro, não é de se espantar o impacto que Foucault causou ao publicar uma história da loucura, mostrando que, até bem pouco tempo, tendo em vista os parâmetros históricos, o Ocidente tinha uma outra experiência da loucura, quando os loucos vagavam pelas cidades comunicando com o divino. O racionalismo clássico deitou isto por terra, criando as bases para o internamento da loucura, em uma experiência que ainda é nossa, onde a sociedade, em parâmetros higienistas, que varrer o diferente para debaixo do tapete, medicalizando os comportamentos ditos anormais e causando extremo sofrimento psíquico nos desviantes.

Diz-se que a juventude é o momento da desmesura. “Aos vinte, se é incendiário, aos trinta, bombeiro”. O raiar da vida seria o momento do excesso, e as faltas do jovens muitas vezes são perdoadas por essa atmosfera de que, no princípio, as faltas são justificáveis, afinal, ainda não aprendemos a ter a medida das coisas, nos falta o tato da moderação, da mediação; enfim, nos falta a capacidade de mensurar, nos falta a razão das coisas. Razão, como se sabe, guarda muitos sentidos, indicando tanto uma faculdade, quanto os motivos e, também, a proporção. O jovem não saberia ter proporção, e o dente do juízo marca quando esta começa a se manifestar, dando seus primeiros sinais.

Esta perspectiva, certa ou errada, pode ser aplicada a muitos casos. Minha juventude foi marcada pelos excessos de toda ordem. Poeta, dedicava-me a versificar a vida, a morte, as delícias do sexo, as drogas, a política, enfim, queria-me na posição que, n’As Horas, Virginia Woolf profere; querendo matar alguém em seu romance, ela escolhe o poeta, segundo ela, o visionário. Eu acreditava firmemente que minha poesia deveria comunicar com o desenrolar da história; meu ideal era exprimir em poucas palavras, ditas em um tom profético e grandissonante, o deslindar das coisas, sua estrutura última, A Verdade do Ser. Influenciado pelos poetas, especialmente Ginsberg e Solomon, com os quais, à noitinha, eu me comunicava, ditava em versos a armação do real. Até mesmo um dos livros de poesia que escrevi, nenhum publicado, chamei de profesia.

Em meu périplo poético, valiam-me as noites com meu petit comité, nosso poeta sonhador Júnior, e nosso outro amigo, este mais prático e libidinoso, o bom e velho Alonso. Regadas a vinho, nossas soirées, que em nada deviam às noitadas de Marinetti, se davam em sucessivas epifanias alcoólicas, influenciados pelos marginais de outrora, pela psicogeografia, pela experiência do 68 francês. Nada podia nos parar, nada deveria estar no caminho de nossa triunfante marcha poética rumo à essência das coisas e o cristalino do universo. Guiava-me por Pessoa: “para ser todo, sê inteiro, nada teu, ou exagera ou exclui...”.

Este ethos do excessivo, com a arrogância que lhe acompanha, também me guiava na militância. Pudera, comecei cedo, aos treze anos, não organizando apoio aos republicanos espanhóis, como fazia Ginsberg e os seus, mas marchando contra as guerras do imperialismo, lutando pelas melhorias na escola, pelo passe-livre, pela educação. Tampouco distribuímos panfletos hipercomunistas na Times Square, mas, sim, imprimimos às centenas, com a verba do Grêmio estudantil do qual eu era presidente, poemas de Brecht, o analfabeto político, e entregamos pelas ruas de Ribeirão Preto, nossa pequena Paris do sertão. Na universidade, no curso de história, guiávamo-nos pela luta contra a precarização da educação e a exclusão dos pobres, e assim, também como outro louco, fui expulso da universidade, com outros, por desafiar o reitor, mostrando-lhe a merda que ele estava fazendo. Nosso reitor parecia não muito afeito a poesia, ou certamente teria se lembrado de Artaud e suas transmissões alucinadas pelas noites da França: “aonde há merda, há ser”.

Ingressando no curso de filosofia, minha vida oscilava entre os pólos da loucura induzida por substâncias, teoria e política. Particularmente, eu me locupletava enfrentando a autoridade, sentindo-me vivo ao ver que pulsava com as massas estudantis e nossas pequenas rebeliões, nossas assembleias, nossos atos. Tudo que me cheirava a autoritarismo, eu enfrentava, mesmo correndo o risco de cacetadas; na verdade, apanhando muito, tomando tiros de bala de borracha e respirando o ar contaminado de sprays e bombas. Fizemos grandes manifestações, tomamos de assalto o ápice do poder acadêmico no estado de São Paulo, a reitoria da USP. Enfrentando o governo, fizemos ele recuar, derrotamos os neoliberais. Corria o ano de 2007, eu tinha 19 anos e era um primeiranista efusivo e completamente dedicado à subversão da ordem.

No ano seguinte, comecei a sentir os primeiros sinais da loucura. Ataques de pânico, sudorese, mal-estar. Leitor da psicanálise, pensava que estava desenvolvendo alguma neurose. Assim, cortei as drogas e passei a me dedicar a somente dois excessos, os da política e os da teoria, sendo agraciado com uma bolsa de iniciação científica para estudar, ironia da história, epistemologia política da psiquiatria, ciência da qual eu era muito crítico. Eleito para o DCE da UNESP, organizamos atos, greves, ocupações, trancaços, enfim, lutas contra o poder reitoral, o empresariado e o governo neoliberal de plantão. Dedicava-me com afinco na construção do poder estudantil e do anarquismo organizado. Seguia a senda de On the road, e rodava o estado de carona, construindo as lutas estudantis e populares. Orador hábil, conquistava a audiência por onde passava, construindo uma biografia militante e organizações políticas.

Nosso ápice foi a greve no ano louco de 2013, quando a força das massas se mostrou. Nesse ano, paralisamos quase toda a UNESP, lutando por uma universidade popular e democrática. Fomos presos, sindicados, apanhamos, fomos roubados, mas vencemos a batalha. Meus pequenos excessos com as drogas davam sinais, e, nas belas praias de Ubatuba, eu acreditava estar sendo perseguido pela polícia, grampeado, vigiado e admoestado pelas forças da ordem. Tudo delírio? Em partes sim, mas que revelavam a potência que havia se manifestado.

Então, tempos depois, já no ano de 2015, estes pensamentos paranoicos foram tomando vida. Agora, não apenas eu acreditava firmemente estar sendo treinado pelos russos, para o grande combate contra as trevas neoliberais, como conseguia me comunicar, graças a aparelhos de rádio instalados em minha cabeça, com outros espiões. Tornado agente de uma potência estrangeira, eu via as conspirações por todo lado, nos pequenos atos, nas disposições do móveis, nos olhares tortos. Logo, estava completamente enredado em uma grande trama internacional, com Putin, Dilma e Lula.

Logo, o que era apenas algo de minha cabeça se manifestou externamente. Para não ter que militar defendendo o governo, que eu tomava como pouco radical, rasguei e incinerei todas as minhas roupas. Vendi livros, os quais eu demorara anos para comprar. Meus amigos me diziam que eu estava mal, que precisava de ajuda; mas eu, em meu excesso, em minha empáfia, do alto de minha arrogância, dizia que, tendo estudado a psiquiatria, eu não precisava de médicos. Destarte, em uma longa noite de 2015, passei doze horas andando em círculos em uma casa da moradia estudantil da UNESP-Marília, acreditando estar sendo orientada por uma psiquiatra telepaticamente.

Fui medicado e psiquiatrizado, reduzido a objeto de cientistas. Deram o diagnóstico: esquizofrenia paranoide. Na anamnese, emergiram os pródromos da moléstia. Senti-me vencido, envergonhado, entrei em depressão. Aos poucos, me recuperei, aceitei o diagnóstico, retomei os estudos, reconquistei minha vida.

Para os antigos gregos, a falta maior era a hybris. A tradução não é simples. Se tomarmos que a virtude superior era a moderação, podemos traduzir a hybris como desmesura. É ser excessivo: comer demais, beber demais, ler demais. Enfim, exagerar, desafiar os deuses, chamar o universo à luta. Mas, a experiência da loucura fez com que eu me sentisse frágil, sujeito a doenças, dependente de medicamentos; enfim, humano. Antes, eu estava acima da história, inclusive querendo ditar os rumos desta, determinar o próprio ser. A loucura me ensinou a moderação; não abrir mão de seus projetos, mas modulá-los de acordo com suas forças, com os limites humanos que nos marcam. Aprendi, enfim, a lição da humildade. A loucura me curou de minha arrogância, de minha hybris. Preparou-me para a vida de acordo com a medida, aproximando-me dos gregos, que eu amo tanto, não só por ser filósofo, mas pelo brilhantismo de sua civilização, pelas marcas que deixaram.Inclusive, aprendi o grego depois de minha lição; e não só o grego, como o alemão e o italiano. Formei-me, hoje curso mestrado. Rompendo com a hybris por força da loucura, curei-me e me tornei humano.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Fragmento filosófico: uma resposta a Porchat

Imaginemos uma situação: cada pessoa afirma seu ponto de vista unilateralmente, baseado nas evidências que possui e em sua própria formação. Dizem verdades sobre o universo, asseveram os fundamentos da história e fazem constar como se deve agir diante dos fatos. Como adquirir seu próprio ponto de vista nesta discussão? Aristóteles afirmaria que se deve fugir do extremos, buscando o justo-meio. Kant se interrogaria sobre as condições em que cada ponto de vista foi gerado. Já Hegel pensa que ambos estão corretos, são momentos de expressão de uma mesma verdade mais fundamental. Marx demandaria as posições de classe de cada um. Nietzsche clamaria pela história das diferentes posições. Essa anedota exprime um pouco a história da filosofia e das ciências, com a vantagem de que esta última desenvolveu metodologias para fugir da mera expressão de opinião. Como descobrir a episteme (ciência) por trás das distintas doxas (opiniões)? Ou o problema esta na própria ideia de que existe uma Verdade, última e redentora? Parece que, diante de tudo isto, devemos nos valer do método dos cientistas. Já entre os gregos os hipocráticos prescreviam o método experimental. O problema é que a experiência é dúbia, dando margem para muitas interpretações, como mostra Descartes; mas, ao invés de nos refugiarmos no cogito, talvez devamos aprender com Francis Bacon. Para este, o saber serve para dominar. Então, colocando o saber nos marcos da dominação, das lutas sociais que os produziram, em uma mixórdia de Kant, Marx e Nietzsche, estes doutos teutões, cheguemos a um resultado satisfatório. Então, daríamos razão a Hegel: cada um revela um pouco o ser, cada um expressa um aspecto da verdade. Para chegar a esta, é necessário compreender que o próprio ser se dá como conflito, sempre aberto, sempre renovado. No final, talvez cheguemos ao começo, com a cobra comendo o rabo: a rediviva frase de Heráclito, "a guerra é de todas as coisas pai...". Eis belo exemplo de atavismo filosófico.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Sabedoria grega: Kleóbulos de Lindos

A [justa] medida é o melhor

Cleóbulos de Lindos

[Na tradução de Cleóbulo, achei correto colocar "justa" para qualificar "medida", porque é como ficou conhecida na tradução brasileira] Antes do surgimento da filosofia, por volta do século VI, a Grécia produzia outras formas de sabedoria. Além da poesia gnômica (oracular) e da poesia épica, havia os sete sábios da Grécia. Houve muitas listas com as frases dos sábios, e os próprios sábios também mudaram ao longo do tempo, alterando-se segundo o autor que os compilava. São famosos por suas frases curtas, expressando máximas morais ou simples conselhos para a vida. São efígie do espírito grego. Nessa máxima que traduzi hoje, por exemplo, está manifesta algo que traduz o que um aspecto central da vida psíquica grega: o amor pela moderação. Ou um dos aspectos, se seguirmos Nietzsche, que afirma que, além do amor pela moderação, pela luz, pela correta medida, havia o extático, o ressoante, como expressão da cultura grega. Seria na dialética entre estes dois modos de vida, o apolíneo e o dionisíaco, que se teria forjado a cultura grega. A filosofia de Platão já marcaria a decadência da cultura grega, posto que apagaria o dionisíaco para passar tudo pelo crivo da razão. O curioso é que este espírito apolíneo foi o que ficou marcado como o tipicamente grego, sendo recuperado mais tarde pelos neoclassicistas e renascentistas, na luta contra as tradições religiosas. Pode ser definido também pela fala do mais famosos dos sete sábios, Sólon de Athenas: μηδεν ἀγαν, ou, nada em excesso, nada em demasia. Vê-se que são característica próprias da cultura grega, que Platão e Aristóteles somente expressam em caráter filosófico, sem nada criar de novo (para um grego).. Quando Sade vai definir o libertino, ele nos dá outra visão: o libertino é excessivo, é pela desmesura. Por isso Sade é tão chocante: vai contra os valores que herdamos da Grécia clássica e que influenciaram a démarche do Ocidente.