quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Tradução do sermão da montanha

"À vos eu digo, aos que escutam, amai vossos inimigos, benfazejos sedes aos que vos odeiam, abençoai quem vos amaldiçoa, rezai para aqueles que vos insultam. Quem vos bater na face, fornecei a outra"
Lucas 6:27-29

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Marcela II

marcela,
mais um ano se passou
eu cá estou
sem a sua mão

marcela
nunca escolheremos a miséria
diante da riqueza de seu coração

Marília, inverno de 2019

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A sede


 Sempre gostei de bebidas quentes, desde criança. A origem deste gosto, tão caro aos ingleses, em minha pessoa me parece incerta. Talvez ainda feto informe tenha me afeito ao líquido amniótico, este verdadeiro caldo da vida. Talvez, já infante, o contato com outras bebidas que o engenho humano possibilita seria a verdadeira chave de meu gosto peculiar. Li certa vez que, em quase todas as línguas, as palavras para chá se assemelham, dada a origem comum da difusão deste hábito no sul da China. O certo é que, em polonês, herbata é o termo, e não guarda muitas relações com outros vocábulos, como Tea, Thé ou Tee.

            O mais certo, longe das genealogias bambas, é que o chá foi a continuação de meu vício. Tomava chás de todos os gêneros, de ervas, de legumes, meros caldos, sopas. Nada poderia se interpor entre um homem e sua fixação. Para mim, era necessário sempre mais, e o mero ritual dos chá das cinco eu transformava em uma verdadeira compulsão por me brindar com chá a todo instante, não só de ervas, como dito.

            Meu jantares, ainda na infância, eram sempre regados a sopas. Nunca gaspacho, esta verdadeira heresia ibérica, mas, sim, sopas muito quentes, sem sólidos flutuando, ao contrário: gostava de tudo bem batido, bem homogêneo. Dizem que o universo já foi homogêneo e que tende à homogeneidade, quando a cobra comerá o rabo e a energia se esvairá. Estes impulsos primitivos me guiavam, ainda que inconscientes, na busca pela melhor bebida quente.

            Nascendo os dentes do juízo, e, agora, senhor de minha vida, pude dar vazão acentuada aos meus instintos. Lenta mas firmamente fui me guiando na experimentação de outros tipos de bebidas quentes. Se antes, sopas e caldos eram meu ápice, agora o perigoso álcool se assomava. Como diz Baudelaire, devemos sempre nos embriagar, se não de álcool, de vida. Eu unia a alga com o touro, tal qual Lorca, e me satisfazia com os prazeres que os etílicos podem nos proporcionar.

            Não me confundam com um relés alcoólatra. Não bebia porque era líquido, à moda da tirada de Jânio, mas porque era quente, dando vida ao esqueleto. Como se sabe, em alguns idiomas as bebidas alcoólicas são conhecidas como “spirits”, exatamente porque nos concedem ânimo, dando forças para que a carcomida carcaça cotidiana possa ir adiante, mais uma hora, mais alguns dias. Bebia exatamente para buscar o calor que a bebida, sendo energética, podia proporcionar.

            Eu possuía meu trabalho, estudava, namorava. Mantinha relações humanas normais. Mas a curiosidade é o maior mal e o maior bem do homem. Pela curiosidade nos tornamos a espécie dominante do planeta, quiçá do cosmos; pela mesma curiosidade devemos presas do infortúnio e do desconhecido, afinal, nos expomos a ele. Quem poderia imaginar que, em minha vida de dipsômano quente eu iria me entregar ao inaudito, ao misterioso, ao absolutamente novo, ao menos para mim?

            Um dia, em minha casa, passando pelos canais de televisão, vi uma disputa pela sobrevivência levada aos últimos níveis. Não, nada de corpos dilacerados, mas homens comendo os piores insetos, se sujeito, a troco do vil metal, à situações perigosas, à infâmias mil. Um destes acintes consistia em beber sua própria urina. Terminado o programa, fui me deitar, a fim de dormir e, no dia seguinte, contribuir como produtivo cidadão de nossa sociedade de capitalismo periférico brutal. Mas o sono não vinha. Minha cabeça rodava entre imagens, provenientes de um sonho lúcido, onde eu invadia a privada de meus vizinhos objetivando coletar o mel de seu canal excretor. Somente depois de me fartar com outras bebidas quentes, como nossa boa e velha branquinha, consegui encontrar a paz e me adormecer.

            Mas não foi vitória, somente uma trégua. Dias se passavam e eu era tomado por um impulso crescente de tomar minha própria urina. A idéia me repugnava, eu a rejeitava fisicamente, sentindo fortes ânsias de vômitos quando era chegada a hora de mijar. Se o inferno realmente existir, e tivermos a infelicidade de descer aos domínios do Tinhoso, haverá a hora em que mesmo ele, tornado nossa residência, nos assomará como agradável, e as brasas escorchantes se assemelharão ao fogo de um isqueiro. Assim, com o tempo, fui me acostumando com a idéia, e o que eram náuseas logo se tornou o mais puro desejo. A cachaça, o uísque, o vinho, tudo isso se assemelhava em meus pensamentos a traques, quando as bombas atômicas eram produzidas de hora em hora por mim.

            Destarte, me entreguei ao desejo. Em outra madrugada de insônia entreguei-me a tragar o tão cobiçado néctar. Minha primeira reação foi a do sublime. Kant, em um de seus livros, descreve o sublime como a sensação de se estar diante de algo muito maior que nós mesmos, infinitamente grande, como o mar revolto ou uma grande montanha. Nunca estive em montanhas, mas certamente as sensações devem guardar relações. Aquele caldo de mim mesmo, quente, bem líquido, de cores e fragrâncias variadas, tudo isso me preenche de tal forma que posso dizer que já freqüentei os céus.

            Hoje me vejo na solitária posição de me tornar amigo de cadeirantes apenas para poder afanar suas garrafas de urina e vertê-las em minha goela. Invado banheiros e capto, no auge de minha dipsomania, o suprassumo de desconhecidos, somente para poder apreciá-los com uma boa refeição. Fermento a urina para produzir urina alcoólica e assim, me embriagar duplamente.

            Os dias passam. Nunca conhecemos suficientemente nosso próprio eu, senão diante de experiências extremas. Dizem que a urina possui poderes curativos. Não o posso afirmar medicalmente, mas, em termos de boaventurança, certamente, todos nós guardamos o paraíso em  nossa fábrica daquele líquido dourado com ouro, que inspira os melhores sentimentos e possui o aroma de um deus.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A espuma


    Vamos por partes; começar pelo começo. Aí podemos ver como vamos tratar com a imprensa. O que você acha? Sempre que escrevo os relatórios aqui da INTERPOL é o meio que adotamos.
    OK, tudo bem. Mas é uma história meio maluca. Além disso, não terminamos as investigações. Afinal, não é fácil entender como meio milhão de pessoas morreram de uma hora para outra, sem bombas nem armas de fogo. Ao que parece, tudo começou com aquela espuma estranha que encontramos por toda parte.
    Diga novamente o que era essa espuma.
    Pelos vídeos de segurança que vimos, as mãos das pessoas, pouco antes de morrerem, estavam cheias de uma espuma de cor gelo. Parecia espuma de um bom sabão de coco. Aliás, tudo indica que a infecção, se é que podemos usar este nome, começou em um banheiro público. É de lá que vieram os primeiros vídeos. Bem no centro da cidade, era um banheiro aberto a toda população. Todos o utilizavam.
    Já estive na ilha a trabalho. Era um banheiro ao lado daquele supermercado grande, não é? Creio que o utilizei algumas vezes nas minha estadia por lá.
    Esse mesmo. Tudo começou quando alguém simplesmente lavou suas mãos com esta espuma. Ela gruda na pele, não sai com água nem esfregando. Ao contrário, parece se propagar no ar, vai aumentando.
    Aumenta no ar? Vocês conseguiram alguma amostra? Um material com propriedades únicas, ao que parece.
    Há resquícios dela por toda parte, especialmente nos corpos, nos cadáveres, nos olhos destes. Uma cena muito forte de se vislumbrar.
    Nossa. Também, meio milhão de mortos em algumas horas. Qual arma consegue isso? Uma bomba atômica? Nem o ebola mata tanto, tão rapidamente.
    Depois do primeiro infectado, os vídeos gravaram como tudo se passou. Essa pessoa, que calmamente foi lavar suas mãos depois de utilizar o banheiro, ficou horrorizada. Corria por toda parte. Ela gritava, se debatia, andava por todos os lados. Parece que a infecção pela espuma é extremamente dolorosa.
    E como se espalha?
    O número 1 logo entrou em contato com outra pessoa. A espuma foi parar de suas mãos para outras mãos. Tentaram lavá-la, mas ela ia crescendo, aumentando de tamanho. Logo, eram centenas, correndo pelo centro da cidade, se tocando, se infectando. Em questão de minutos, o número 1 caiu para nunca mais se levantar, todo envolto nesta espuma maléfica.
    Bem, e como se propagou do centro para as periferias?
    Ora, o centro é supermovimentado, ainda mais em um dia de semana. Praticamente toda a ilha se dirigia ao centro, seja para fazer compras, seja para trabalhar. Além disso, reparamos que, depois de contaminada, a pessoa se move freneticamente, sem sentar. Como se sofressem de acatisia aguda. Andando de um lado para outro, você imagina como tudo se passou em uma ilha pequena como aquela. O primeiro caso infectou várias outras pessoas, que foram infectando outras, e outras. Tudo muito rápido, a partir de um núcleo naquele banheiro.
    Acatisia? O que é isso?
    É a impossibilidade de se sentar, de ficar parado. As pernas se mexem freneticamente, a pessoa sente um ímpeto irrefreável de se movimentar, e termina por fazê-lo.
    Entendi. E do que elas morrem exatamente? Esgotamento físico de tanto se mexer?
    Não sabemos, os exames não foram feitos. Diante destas evidências, qual infectologista quer se aproximar disso. Além disso, não era uma ilha tão importante. Pequena, isolada; as mortes doem menos. Mas estamos tentando encontrar médicos que topem se arriscar. O problema é que toda a região central está tomada pela espuma, de modo a estar intransitável. As imagens das câmeras foram obtidas através do sistema online do governo por nossos técnicos de informática e através de drones. Só estivemos nas praias, em algumas casas de periferias menos afetadas. Mas sempre com muitos corpos tomados de espuma.
    E quem ou o quê seria o responsável? Ataque terroristas? Algum governo inimigo? A ilha era pacífica, nem exército possuía.
    Não sabemos. As gravações não mostram nada de extraordinário no banheiro antes do primeiro infectado. Claro, podem estar adulteradas, pode ser que não tenha sido algo no sabão, mas na reação deste com algum produto que a pessoa tinha nas mãos. De todo modo, há uma quarentena declarada, ninguém pode se aproximar. Se for um vírus, ele não sobreviverá tanto tempo sem vetores.
    Vocês pensaram em como noticiar isto? Pode gerar pânico. Quais informações foram passadas à imprensa?
    O que você viu.  A ilha está sem tráfego aéreo ou marítimo por motivos internos. Como provoca acatisia, as pessoas não conseguiram filmar e divulgar na rede. Então, há uma atmosfera de espera. Mas alguns jornalistas já começam a investigar. Por isso a quarentena; a ilha está cercada de navios, nada passa.
    Bem, esperemos então. O importante é que nada saia da ilha. E a história é particularmente horripilante. A pessoa pensava se lavar, se limpar; na verdade, estava se matando. O remédio, no fim das contas, era o mal.
         Verdade. E um mal contagiante, fulminante, mortal. Quantas vezes não fazemos o mal pensando estar fazendo o bem?

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Por um conceito filosófico de estratégia



A filosofia grega nos legou a ideia de logos, introduzida por Heráclito, nos tempos da primeira ontologia grega. O termo é de difícil tradução, mas sempre guarda a ideia de proporção, daí uma de suas traduções por razão, ou a ideia de troca, visto sua relação com o verbo legein, dizer. Heráclito expressa sempre com a ideia de logos a noção de que o cosmos tem um logos, e que é necessário estar atento para ouvir este logos, de modo a desvelar o mundo. Em Heráclito, não encontramos o termo to on, que designaria o ser, mas os termos cosmos e physis, mundo e natureza. Ouvir o logos para desvela-lo significa desvelar a natureza e o mundo, para, enfim, descobrir sua real constituição. Ao mesmo tempo, Heráclito formula um pensamento essencialmente belicoso, colocando a guerra como fundo último do mundo, acima dos deuses e dos mortais, indicando, ao contrário, quem acederá a posição de deus e mortal, e quem será livre ou escravo. Há um caráter cósmico no conflito heraclitiano que deve envolver a própria teoria que o significa.
As teses de Heráclito foram muito debatidas e influenciaram muitos filósofos da Antiguidade. Herdeiro da filosofia milésia, Heráclito dá aos seus pensamentos um caráter de necessidade, tal como já havia feito, antes dele, Anaximandro. Dando um fundo ao mundo, dá-lhe também um fim. Heráclito acreditava que o kosmos passava por ciclos, um grande ano, no qual tudo seria consumido pelo fogo e o mundo poderia recomeçar, ciclo este já previsto, dentre outros, pelo mesmo Anaximandro.
Embora ciosos da sua liberdade, que contrapunham à servidão oriental, em Atenas especialmente, os gregos formularam, em termos de filosofia da natureza, uma tal que salientava os aspectos da ananke (necessidade), no sentido filosófico, isto é, um sine qua non. Primitivamente, as leis guardariam mesmo um caráter divino, indicado pelo vocábulo Themis, uma deusa, segundo a genealogia de Hesíodo.  Todos os campos do saber estudados pelos gregos tomaram este caráter de necessidade, inclusive aqueles da argumentação e da retórica. Assim, os tratados gregos se iniciavam com uma lógica, que era seguido de uma filosofia da natureza e, por fim, de uma ética. Colocavam, assim, toda a vida sob o signo da razão, indicando como proceder. Haviam tratados morais, de dietética, inventaram a gramática, deram azo a uma infinidade de regras para o enquadramento do mundo e da sociedade.
A liberdade de consciência vai ser introduzida com mais força na filosofia no período alexandrino, quando a sabedoria grega se viu diante do misticismo oriental. O pecado, entendido como questão ao mesmo tempo filosófica e teológica, é o grande responsável pelas noções de que somos livres, portanto, podemos ser culpabilizados pelas nossas ações. Não que os gregos clássicos não tivessem estas noções de culpabilização, responsabilidade e liberdade; havia processos, havia tribunais, havia a liberdade da assembleia escolher seus rumos e das cidades escolherem seu destino. Mas é com a intrusão primeiro do judaísmo, depois do cristianismo que estes elementos vão ganhar força inaudita, a ponto de marcar um novo período da filosofia, indicando, ao mesmo tempo, que a força da filosofia antiga esmorecia, e que soava a hora das discussões medievais. Queremos somente ressaltar estes dois aspectos, liberdade (eleutheria) e necessidade (ananke, chre). Um, de vertente grega, outro de vertente judaico-cristã.
            Este conflito entre filosofias da necessidade, ou do objeto, e da liberdade, ou do sujeito, percorreram, desde então, toda a história do Ocidente. Vão se manifestar nas disputas medievais entre realismo e nominalismo; entre o racionalismo, e seu inatismo, e o empirismo, com o liberalismo que é seu corolário. Conciliar a necessidade do mundo com a liberdade da vontade, eis um dos principais temas da filosofia.
            Mais hodiernamente, esta concepção aparece quando se trata das ciências humanas. As coisas, parece claro, não possuem vontade nem responsabilidade; seu comportamento segue regras, leis, que podem ser estudadas e matematizadas. Já quando se trata de analisar as humanidades, instaura-se a polêmica. Existiriam leis apodíticas que regem a sociedade? Leis do desenvolvimento histórico, da economia, da sociologia? Ou, por lidarem com a liberdade da vontade, estas ciências lidam com eventos que não são repetíveis? No mundo anglo-saxão, isto encaminhou para uma pesquisa quantitativa, uma sociografia, que tenta, a partir de dados estatísticos, estabelecer tendências futuras e regras de desenvolvimento. Já no mundo continental a partir dos trabalhos de filosofia da história, buscou-se uma pesquisa qualitativa, que nos provesse de leis do desenvolvimento histórico, sociológico e econômico. Há dissidentes, é claro, dos dois lados e correntes alternativas. Mas a tônica geral das pesquisas, até onde vão nossos conhecimentos, é essa.
            No final do século XIX, e por todo o século XX, no entanto, com as pesquisas filológicas empreendidas, se recuperou uma das correntes de filosofia mais injustiçadas, os sofistas, bem como suas teses, que relativizavam a verdade e a ligavam ao poder.  Na República, diante das inquietações de Sócrates sobre o conceito de justiça e a cidade ideal, Trasímaco aponta que a justiça é o que convêm ao mais forte. Os dialógos socráticos são cheios dessa disputa entre os sofistas e sua plaidoirie do relativismo, e a defesa platônica de uma verdade realmente existente, no sentido mais forte que isto pode guardar. Esta recuperação do relativismo vem no momento mesmo do auge do cientificismo, quando as ideias de progresso e da necessidade de fundamentar-se em ciência pareciam mais fortes.
            Nesta linha e seguimento de debates aparece Foucault. Este, se apoiando na epistemologia francesa, nega o progresso nas ciências, preferindo as noções de descontinuidade. Calcado nos debates linguísticos, contudo, dissolve o real em práticas discursivas e, posteriormente, num poder onívoro, onde a verdade aparece tematizada sempre em termos relativos às disputas de forças e de narrativa. Os princípios ordenadores do mundo grego, como arché e logos, são desfeitos de um só golpe, e a velha oposição entre liberdade e necessidade, ou sujeito e objeto, é relegada para uma asserção sobre as relações. É na relação entre um sujeito, histórico e imerso em tramas de poder, e um objeto, também histórico e também social, que o conhecimento emerge, sempre interessado. A velha filosofia da história é descartada em benefício de uma filosofia do métier historiográfico, abrindo mão de encontrar no decurso dos acontecimento históricos e da sociedade qualquer lógica além do mero conflito de forças. A realidade social, porque não encontramos uma filosofia da natureza em Foucault, é tomada como conflito entre distintos interesses, que não deixa nada de fora, nem mesmo o corpo, que é fruto dos conflitos. Explicar algo, nesta acepção, é mostrar como e quando foi constituído em uma correlação de forças, e em quais correlações se entrou. Como sua filosofia das ciências é, também, apoiada nestas noções, podemos tentar chegar a uma tese filosófica passível de ser mais seriamente debatida; em homenagem a Wittgenstein podemos asseverar que o mundo não é totalidade nem das coisas nem dos fatos, mas das estratégias.
            Na História da loucura, em Doença mental e psicologia e n’O Poder psiquiátrico Foucault nos fornece teses radicalmente relacionais acerca da constituição da loucura enquanto doença mental, objeto da psiquiatria, que adotou uma verdadeira estratégia para poder tratar dos loucos. Nestes marcos, abstraindo, poderíamos dizer o que é uma estratégia; esta será a constituição do devir do objeto em uma correlação de forças. É necessário aparar as arestas para não soarmos confusos. Há muitos sentidos de estratégia, e faz-se mister distingui-los. Para a definição que acabamos de dar, utilizaremos o termo estratégia histórica.
            Foucault não abstraiu suas teses como estamos a fazer, posto acreditar que uma teoria totalitária conduz a uma sociedade totalitária. Antes, preferiu elaborar “flechas genealógicas”, fragmentos de crítica. Para nós, no entanto, o ofício de filósofo exige teses claras, passíveis de serem argumentadas. Fazendo profissão de fé é que, portanto, tratamos estas proposições.
            Primeiramente, um acerto com nossa terminologia. Estratégia. O conceito tem longa carreira. Surgido entre os gregos, designava as coisas do general, o stratego, originado do termo stratos, “exército, segundo CHANTRAINE (1968, p. 1061). Estava ligado à ideia de condução de exércitos. Como todo conceito, sua história passa por muitas vicissitudes até assumir a forma contemporânea. Até meados do século XIX, nem sempre foi utilizado, posto que alguns, como o próprio Napoleão, preferiam o termo “grande tática” para designar o que hoje chamamos de estratégia. Foi com Bülow, um autor militar da virada do século XVIII para o XIX, que se popularizou o termo, e Clausewitz e Jomini, dois dos maiores pensadores da guerra, já o utilizam abundantemente no sentido contemporâneo.

            Os estudos sobre a guerra eram dominados pela busca da estratégia perfeita, aplicável aos distintos conflitos, que sempre resultariam em vitória. Entendia-se a estratégia como um ciência à moda cartesiana, fundada em princípios que, se observados, seriam a chave da vitória. É nesse espírito que escrevem Jomini, Clausewitz, Liddell Hart e muitos outros. Nestes marcos, a estratégia aparecia como uma ciência praticamente exata. Caberia ao general aplicar seus fundamentos e vencer, ou ignorá-los e se condenar à derrota.
            Ao mesmo tempo, desde a Revolução Francesa, a guerra apareceria não mais como outrora, como mera guerra dinástica, restrita a exércitos pequenos de mercenários. A defesa da Revolução obrigou os generais franceses a travar uma guerra de mobilização total, onde toda a sociedade francesa se viu envolta. Prenunciava-se, assim, o que viriam a ser as guerras de fim absoluto, como diz Clausewitz, ou guerras totais, onde todos os recursos da nação são postos a serviço do conflito. Abandona-se a guerra entre casas reais, para se travar guerras entre nações, como outrora lutavam os gregos, romanos e egípcios, espírito este perdido desde meados da Antiguidade tardia e Idade Média.
            Como a guerra se tornou total, também a estratégia passou a ser vista como não estando restrita aos generais, mas envolvendo todos os recursos do país, ou, mais acertadamente, como diz MARTINS (1983), das Unidades Políticas, dadas as guerras irregulares, isto é, guerras entre exércitos regulares e formações não regulares, por exemplo, guerra de guerrilhas ou lutas contra o terrorismo. O conceito de estratégia, histórico, se adaptou aos novos tempos, se expandindo, dando azo, mesmo, a abusos. Passou-se a falar de estratégia comercial, estratégia de marketing, estratégia disso, estratégia daquilo. Neste sentido, estratégia é entendida como a adequação dos meios aos fins, ou como a coordenação de certos meios para se atingir o fim almejado. Segundo CASTRO, Foucault faz uma utilização de estratégia neste sentido, dentre outros.
            Com o general Beaufre, ganha força a ideia de que não existe uma estratégia universalmente válida, isto é, que abarque todas as situações. A estratégia é entendida como um método de pensamento, que deve se adequar as distintas situações para, assim, saber coordenar os recursos, em adequação a certa situação, destarte atingindo  a finalidade desejada, que é a submissão do inimigo à nossa vontade. Esta submissão não precisa ser obtida, diz Beaufre, pelas armas necessariamente, podendo ser fruto de uma estratégia comercial, diplomática, etc. Há muitos modos de obter a concreção de nossa vontade, sendo as armas apenas uma delas. A boa estratégia coordena todos os meios disponíveis para alcançar seus objetivos
            Desde pelo menos Sun Tzu se sabe que a guerra está submetida à política. Enquanto disciplina, é aparentada à Ciências Políticas, na verdade, é-lhe submissa. A filosofia política trata dos temas mais gerais de uma sociedade. A Ciência Política os operacionaliza e a Estratégia executa. Política e estratégia guardam, portanto, amplas relações.
            Foucault leu Clausewitz e o comenta. A proposição de Clausewitz segundo a qual a guerra é a política continuada por outros meios, é invertida por Foucault; para ele, a política é a guerra continuada por outros meios. Como o pensador francês é radicalmente historicista, resolvendo os problemas no binômio história-sociedade, podemos entender que, sendo a estratégia ciência que aborda a guerra, e sendo esta coextensiva ao corpo social, a estratégia também é coextensiva ao corpo social. Assim, os fatos sociais devem ser explicados em termos de estratégia, quer dizer, de luta entre posições e interesses distintos que vão, no próprio combate, encaminhando a sociedade a certa via ou outra. Por isso o mundo social é a totalidade das estratégia que se enfrentaram; por isso também a estratégia é a constituição do devir do objeto em certa correlação de forças.
            Assim, a história guarda uma lógica, a dos combates que a constituem enquanto tal. É na correlação de forças que se pode explicar certa característica. Explicar algo é mostrar as sucessivas correlações de força que o constituíram. Assim, conforme a coisa vai se forjando taticamente, ela aponta para certa finalidade estratégica. É isto que chamamos de estratégia histórica. Ela resolve aquele velho problema entre a liberdade e a necessidade; há liberdade de ação, nos marcos que a correlação permite. Há racionalidade nos fatos sociais, o da luta entre os diferentes interesses que clivam uma formação social. O logos da história é um polemos; com isto, retornamos a Heráclito e suas palavras que estão na aurora da filosofia: a guerra é de todas as coisas pai.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Sobre o livro Les misérables, de Victor Hugo, Tome I (contém spoilers)

Les misérables, de Victor Hugo, Tome I (contém spoilers)

disponível em https://beq.ebooksgratuits.com/vents/Hugo-miserables-1.pdf

Audiobook no Youtube e no Librivox

Na verdade, não li este livro, mas o escutei, a fim de treinar a audition em francês. No rol dos grandes literatos da humanidade, Victor Hugo ocupa um papel de cimeira, sendo muito lido e muito citado mundo afora. Les misérables é um de seus maiores romances, onde ele, através das desventuras de Jean Valjean, faz ácida crítica da sociedade francesa do século XIX, mostrando como os marginais, os que vivem à margem da sociedade, como prostitutas e ladrões, são frutos dessa própria sociedade, que lhes vira as costas. Jean Valjean é um galerien, um ladrão condenado a trabalhos forçados, que toma contato com Fantine, uma jovem que, por vários motivos, se viu compelida a prostituição. O livro principia com a narrativa da vida de Monsieur Bienvenu, bispo de uma pequena localidade no interior francês. Bievenu, "bem vindo" em português, é um homem santo, dedicando sua vida a cuidar dos pobres e maltrapilhos de sua vila, e, embora rico, leva uma vida frugal com sua irmã. Um dos pontos altos do livro, um volume com mais de setecentas páginas, é a discussão de Bienvenu com um antigo revolucionário das vagas de 1789. O discurso do velho revolucionário, à beira de morte, é completamente eletrizante, e constitui uma crítica mordaz do Antigo Regime e suas castas. Jean Vajean, antigo camponês preso por roubar para saciar sua fome em um ato de quase ingenuidade e desespero, após cumprir uma pena de mais de uma década nas galeras, entra em contato com Bienvenu e se torna outra pessoa. As relações com o bispo lhe entamam uma profunda revolução espiritual, verdadeira epifania, e Valjean se emenda, passando a levar uma vida honesta, também dedicada aos pobres e a remediar os males da nascente sociedade urbano-industrial francesa. Já Fantine, após uma juventude de alegrias, se vê criando uma criança sozinha. Enquanto mãe solteira, carrega um estigma, o que a impede de conseguir um emprego para sustentar sua filha, forçando-a a vagar de cidade em cidade e, por fim, abrir de mão de cuidar de sua filha, entregue a um casal de camponeses maldosos. Fantine é empregada em uma das fábricas que Valjean fundou em uma cidade do interior, e, como sua condição de mãe solteira é logo descoberta, se vê forçada a vender seus dentes para sustentar sua filha, à qual envia regularmente dinheiro, outro ponto alto do livro. Valjean, agora sob nova identidade, garante o sustento de muitas famílias na localidade de Montreuil-sur-mer. Logo, reduzida ao opróbrio, Fantine é acusada de um crime que não cometeu e perseguida pelo inspetor de polícia Javert, um homem dotado de verdadeiro espírito juncker prussiano. Valjean, sob o nome de Madeleine, tornado prefeito da cidade graças a sua ação benfazeja, intervem e salva Fantine da prisão, onde esta não poderia sustentar sua filha. Deste encontro, surgem novos fios do enredo, que não contaremos até o fim. Embora tenhamos exposto de uma forma direta, a narrativa é mais longa, e faz uma grande sondagem psicológica dos personagens, muito profundos, explicando suas ações segundo a personalidade de cada qual. O tema do livro, a miséria na França do século XIX e sua origem social, pode ligar o autor àquilo que Engels e depois Lênin viram como uma das contribuições da França à humanidade, as preocupações socialistas com o bem-estar do gênero humano, embora Hugo não mostre nem luta de classes nem a crença na transformação revolucionária da espécie, ao menos no primeiro tomo, posto que o segundo vai abordar alguns processos revolucionários, como analisaremos na sequência. É mister lembrar que a preocupação com as misérias sociais era constante no século XIX, atingindo mesmo autores liberais, como os ricardianos de esquerda, tal qual Sismondi, ou mesmo um liberal reformador, como Stuart Mill, e até mesmo a Igreja Católica, com suas encíclicas e tratados. O livro de Hugo possui qualidades literárias inegáveis e, como todo clássico, merece ser lido, ou ouvido, de preferência em sua língua original, que guarda belezas e dá uma tônica própria aos discursos e pensamentos dos personagens.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Sobre o livro "História da doutrina Militar"

História da Doutrina Militar (Da Antiguidade a II GM), RJ: AMAN, 1979

Trata-se de um manual já antigo do Exército brasileiro (1979), o que não diminui o valor dos seus ensinamentos, visto que ele abrange desde a Antiguidade Clássica até a Segunda Guerra Mundial. Por "doutrina militar" compreende-se a junção da ciência militar com a arte da guerra. A ciência militar inclui a estratégia, a logística, a geografia militar, etc. Já a arte da guerra é a própria utilização dos exércitos no Teatro de Operações, sendo este conceito mais recente, mas já amplamente difundido na doutrina. O livro é sumário, muito resumido, e deve ser complementado com um bom atlas e uma história militar. Mas, sendo livro de formação, contém boas indicações de como se travou a guerra ao longo dos séculos, resumindo pensamento de líderes, tipos de tropas empregadas, situações políticas e desenvolvimento técnico. É um livro excessivamente centrado na Europa, deixando de lado doutrinas importantes, como as tribais, como os maori, e de civilizações mais expressivos, como indianos e chineses, que tem muito a contribuir à doutrina, como mostra Sun Tzu e Kautilya. Por isso os livros de Keagan (Uma história da guerra) e de Chaliand (Anthologie mondiale de la stratégie) são bons complementos à leitura. Neste manual do exército encontra-se algumas asserções estratégias, que já revelam a própria doutrina do exército brasileiro, sistematizada em autores como Golbery e Meira Mattos. O livro fornece boas informações, no entanto, aos estudiosos da estratégia, de história militar e de Brasil. Raro, somente pode ser encontrado em sebos. No site da ECEME havia uma versão com muitas diferenças até bem pouco tempo; a possuo e posso disponibilizar aos interessados. O livro é bastante recomendável a neófitos e especialistas.