sábado, 11 de julho de 2020

Epitáfio de Seíkilos

Tradução literal

Imagem de pedra eu sou
Seikílos aqui me pôs
Memória imortal, símbolo duradouro

Enquanto vives, brilha
totalmente não te aflijas
Por pouco dura o viver
no fim, o tempo reclama

Tradução poética

À imagem da pedra, eu sou,
Seikilos, aqui estou
Memória imortal,
imagem que dura,

Se vives, goza,
não sofras por tudo
pois curto é o viver
e o tempo reclama o que finda

Original

Εἰκὼν λίθος εἰμί 
τίθησί με Σεικίλος ἔνθα
μνήμης ἀθανάτου σῆμα πολυχρόνιον 

Ὅσον ζῇς, φαίνου,
μηδὲν ὅλως σὺ λυποῦ·
πρὸς ὀλίγον ἐστὶ τὸ ζῆν
τὸ τέλος ὁ xρόνος ἀπαιτεῖ

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Tigre, de Blake [tradução]

Tigre, tigre, luz flamejante
Nas florestas da noite, 
Que mão ou olho imortal
Poderia formar tua simetria mortal?

Em quais profundezas ou céus, 
Brilha o fogo de teus olhos
À quais asas ousa ele aspirar
Qual mão ousa teu fogo agarrar?

E qual ombro e qual arte
Pode torcer os tendões de teu coração?
E quando teu coração principia a bater
Qual mão e pé temível?

Qual martelo? qual corrente
Em qual fornalha estava teu cérebro?
Qual bigorna? qual venerável poder,
Ousa seu mortal terror apreender!

Quando as estrelas atiram suas lanças
E o aquoso céu com suas lágrimas:
Sorriu Ele ao ver seu trabalho?
Foi a Ele a instruir o Cordeiro a te produzir?

Tigre, tigre, luz flamejante
Nas florestas noite
Qual mão ou olho imortal
Ousa forma tua simetria mortal?

The Tyger 

by William Blake

Tyger Tyger, burning bright, 
In the forests of the night; 
What immortal hand or eye, 
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies. 
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare seize the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain, 
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp, 
Dare its deadly terrors clasp! 

When the stars threw down their spears 
And water'd heaven with their tears: 
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger Tyger burning bright, 
In the forests of the night: 
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

terça-feira, 7 de julho de 2020

Breve lista de livros

Literatura

1. A hora da Estrela - Clarice Lispector
Li muitas vezes. Através do prefácio de Rodrigo S. M. descobri a música erudita contemporânea.

2. O uivo e outros poemas - Allen Ginsberg
Outro livro que li muitas vezes. O poema título é sensacional, mas o meu favorito é América. Criei uma versão própria da segunda parte de O uivo. Já recitei muitas vezes; muitos camaradas ouviram. Qualquer dia, posto aqui.

3. De repente, acidentes - Carl Solomon
O Uivo é dedicado a Carl Solomon, um excelente escritos. Já postei trechos por aqui.

4. Maiákovski: vida e poesia - Vladimir Maiakovski
Uma pequena coletânea de Maiákovski. Se a tradução pode ser criticada, sua poesia não perde o élan ainda assim.

5. Álcoois e outros poemas - Apollinaire
"Homens do futuro, não me esquecereis. Homens do futuro, eu vivi no fim do tempo dos reis". Apollinaire é uma de minhas grandes influências. O poema "Álcoois" é simplesmente inescapável para poetas contemporâneos.

6. Cathay - Ezra Pound
Trata-se de uma série de traduções que Pound fez de poetas chineses clássicos. A canção dos arqueiros de Shu é o melhor poema que já li. O traduzi algumas vezes para o português

7. Poesia russa moderna - Vários autores, em especial Khlébnikov
Entre Lorca e Khlébnikov, escolhi este último. Além deste livro, com algumas de suas poesias, o seu volume Ka é oputro excelente. Quero aprender russo só para lê-lo no original e apreciar mais de perto sua arte.

Teoria

1. Os pré-socráticos - vários autores
Primeiro contato que tive com os pré-socráticos. A tradução é um pouco polêmica, mas Cavalcante sabia o que estava fazendo. Indispensável para filósofos.

2. A verdade e as formas jurídicas - Foucault
Livro básico de Foucault. Quem não leu, não conhece o pós-estruturalismo.

3. É preciso defender a sociedade - Foucault
Radicalização das teses de Foucault. Essencial também para marxistas.

4. Le grec ancien - Guglielmini
Meu primeiro contato com o grego. As notas etimológicas são ótimas. Além disso, faz breve percurso na poesia grega. ótima porta de entrada para helenistas.

5. Introdução ao logos heraclítico - Damião Berge
O frei brasileiro Damião Berge escreveu um livro de comentário a Heráclito muito supoerior aos importados, como Kahn, Kirk, Raven, Schofield e Barnes. Coisa fina da helenística brasileira e mundial.

6. Geopolítica do Brasil - Golbery do Couto e Silva
Golbery, o Corca, traça um quadro da geopolítica na década de 60 e do papel a ocupar o Brasil na cena internacional. O autor é, além de teórico, prático, um militar que merece respeito, ainda que discorde de praticamente toda sua trajetória.

7. Introdução à estratégia - Escola de Comando do Estado-Maior do Exército
Um dos melhores textos de introdução à estratégia. Passa em revistas os principais autores e mostra o que pensa o alto-comando do Exército brasileiro.

Militância

1. Anarco-comunismo italiano - Malatesta e Fabbri
Escritos coligidos de Malatesta e Fabbri

2. O socialismo libertário - Bakunin
Pequenos textos de Bakunin. Melhor introdução ao seu pensamento.

3. Tempos de resistência - Leopoldo Paulino
Livro de memórias de um guerrilheiro durante a ditadura que atuava na região de Ribeirão Preto. Li muitas vezes. Foi meu verdadeiro guia espiritual por anos

4. O que é isso, companheiro? - Gabeira
Livro de memórias de Gabeira, militante que sequestrou o embaixador estadunidense durante a ditadura. Virou filme, mas o livro, como quase sempre, é muito superior.

5. Os carbonários - Alfredo Sirkis
Outro livro de memórias da ditadura. Sirkis, ao contrário de Gabeira, não foi preso nem torturado. Mas pegou em armas e participou de muitas ações ao lado de Lamarca.

7. Paris: Maio de 68 - Grupo Solidarity
Livro de introdução ao 68 francês. Clássico. Era disponibilizado via pdf gratuitamente pela própria editora até bem pouco tempo.


Listas são cruéis. Muitos bons livros foram deixados de fora. Mas, creio que a nata está contemplada.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Sobre a tirania, Sólon [tradução]

as nuvens carregam a neve a alma é tempestade [χαλάζης, que significa tanto ser patife quanto cair granizo]
O trovão do lampejo devém clarão
o homem das grandes cidades perece:  na ditadura
o povo ignorante e escravo se deixa prender

Sólon

ἐκ νεφέλης φέρεται χιόνος μένος ἠδὲ χαλάζης·
βροντή τ’ ἐκ λαμπρῆς γίγνεται ἀστεροπῆς·
ἀνδρῶνδ’ ἐκ μεγάλωνπόλις ὄλλυται· ἐς δὲ μονάρχου
δῆμος ἀϊδρίῃ δουλοσύνην ἔπεσεν.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Apotegma de Tales [Tradução]

Mais velho dos seres [é] deus: sem nascimento, pois
mais belo é o mundo: feito, pois, de deus
maior dos lugares: tudo, pois, move
mais rápido dos espíritos: através de tudo pois corre
mais forte das necessidades: domina, pois, tudo
mais sábio dos tempos: descobre, pois, tudo

Tales de Mileto

πρεσβύτατον τῶν ὄντων θεός· ἀγένητον γάρ.
κάλλιστον κόσμος· ποίημα γὰρ θεοῦ.
μέγιστον τόπος· ἅπαντα. γὰρ χωρεῖ.
τάχιστον νοῦς· διὰ παντὸς γὰρ τρέχει.
ἰσχυρότατον ἀνάγκη· κρατεῖ γὰρ πάντων.

σοφώτατον χρόνος· ἀνευρίσκει γὰρ πάντα.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Estudos

No sol de tantos dias,
deixo mais um dia ao sol,
e na noite que se anuncia
entrego ao mundo
outro pensamento,
outra via,
aquela que nutre
o raiar de um novo dia
no qual se viverá apenas poesia

Ribeirão Preto, 15/06/2020

sábado, 23 de maio de 2020

A maioria é má

Na tradição, aponta-se que a filosofia surgiu no século VI, nas colônias gregas da Jônia, atual Turquia. Antes dos primeiros filosófos, os pensadores de Mileto, havia outras formas de sabedoria que são, por muitos, aparentadas à filosofia. Adorno e Horkheimer, no clássico Dialética do Esclarecimento, afirmam que o mito já é uma forma de explicação racional. Estudos mais técnicos (apoiados na filologia, de helenistas) vão no mesmo sentido, como Kirk e Raven, no seu clássico "Os filósofos pré-socráticos". O mito, enquanto tentativa de explicar a totalidade, já indicaria um esforço de racionalizar o mundo, de dotá-lo de causas assinaláveis, ainda que transcendentes ou antropomorfizadas ou, até mesmo, animistas. Lévi-Strauss concorda com esse raciocínio, como, ademais, outros antropólogos. Antes da filosofia, ainda imbuídos com o espírito mítico, havia na Grécia uma espécie de pensadores que se expressavam sobretudo através da poesia, uma poesia densa, codificada, que tentava resumir máximas de sabedoria em poucas palavras; é a chamada poesia gnômica, escrita em um grego bem erudito, por vezes de difícil compreensão, visto que utiliza todos os recursos da língua. Embora muitos filósofos se expressem através da poesia, como Xenófanes, o desenvolvimento da prosa, que começa já com Anaximandro, é tido como particularmente filosófico, mesmo porque se inseria nas historie, nas investigações científicas que autores como Heródoto ou os médicos, hipocráticos ou não, empreendiam. Esses poetas-sábios foram aglutinados nas listas dos chamados sete sábios da Grécia. Houve muitas listas, com sábios diferentes. O mais famoso deles certamente é Sólon, que foi chamado para resolver os conflitos em Atenas, atuando também como legislador. Aqui, gostaria de chamar atenção para um desses sábios, Bias de Priene. Bias é um nome interessante, porque parece guardar relações com o verbo biazdein, que significa ser violento, agir com força. Bias é violência. Dos poucos fragmentos que restaram de Bias, um dos mais interessantes é aquele no qual ele afirma, no espírito de Horácio, que "a maioria é má" [hoi polloi kakoi]. A poesia gnômica, conforme dito, guarda o sentido de ser moral ou moralizante, se aproximando do sentido de textos como os de Esopo, que quase sempre terminam com algum tipo de lição de moral. Como decifrar as palavras de Bias à luz da história do mundo? Guardam elas atualidade? Para nós, influenciados pelas posições que relativizam o comportamento, dando razões sociais e históricas para explicar o móbil da ação das pessoas, talvez Bias esteja errado. Mas, se notarmos bem, Bias não afirma que a maioria sempre é má ou que por natureza a maioria é má. Afirma, apenas que, naquele momento, a maioria na Grécia era má. Bias viveu um momento de particulares tensões na Grécia, que redundariam na diáspora grega pelo mundo antigo, provocando o surgimento de colônias gregas desde a Península Ibérica até as costas do mar Negro, na atual Rússia. O motivo dessa dispersão da população era a ausência de terras. Sabe-se que o solo grego, além de pobre, é pedregoso, entrecortado por montanhas e, ademais, constitui uma pequena região; uma terra ruim para o cultivo. E os gregos estavam em plena expansão demográfica, após a chamada Idade das Trevas grega, período no qual sucessivas hordas de invasores derrubam o potentado micênico, dando azo à formação da pólis, com o fechamento do mundo grego. Penso que Bias pode ser lido de uma maneira diferente da habitual, mas, talvez, torcendo o autor; não é nossa culpa: indicamos que a poesia gnômica, por ser condensada, abre espaço para múltiplas interpretações; foi justamente essa característica que, talvez, tenha despertado a admiração de Heráclito que escreve aforismos gnômicos, condensados, com palavras dúbias. A maioria é má já que não quis lutar pela reforma das condições da vida na Grécia, se rendendo aos latifundiários e indo embora do país, abandonando seus concidadãos nas mãos da minoria aristocrata, detentora das melhores terras. Nesses termos, nós tornamos maus quando preferimos fugir à lutar, quando passamos a nos centrar somente em nós mesmos, virando as costas para aqueles que precisam, levando uma vida totalmente idiota. Idios, como se sabe, significa, em grego, "particular", "próprio"; o idiotes é aquele que leva sua vida sem se ater aos negócios da pólis. Nesse sentido, estamos cheios de idiotes, seja aqueles que não tomam preocupações contra a pandemia, seja aqueles que pedem uma reabertura de um fechamento que nem ocorreu de fato, por pressão desses mesmos que querem a reabertura. Trocar os deveres da pólis pelo interesse próprio é o que torna alguém idiotes. Como esses são a maioria, podemos afirmar, no legado de Bias, que a maioria, no Brasil, continua sendo má.