domingo, 27 de setembro de 2026

Fragmento sobre essencialismo e devir

 A ideia segundo a qual a história da filosofia ocidental nada mais seria senão uma nota de rodapé a Platão é, como se vê, totalmente descabida. O principal discípulo de Sócrates é, claro, fecundo, um desbravador de caminhos, ao menos pelo que sabemos da história da filosofia antiga que podemos reconstituir, dadas as imensas perdas de originais a que fomos submetidos. Platão era realista, ou seja, pensava que havia um mundo exterior aos humanos, objetivamente cognoscível, submetido à uma regularidade própria. Além disso, ele pensava que havia uma distinção fundamental no objeto: aquela entre essência e aparência. A essência é aquilo que se mantém no objeto face às mudanças impostas pela própria realidade, sua Forma, sua Ideia, a qual, para Platão, compõe um mundo à parte, o mundo inteligível, mundo das coisas mesmas, cujo acesso dá-se somente pela via intelectual, através da dialética; restrita, pois, a uns poucos, os filósofos. Essa posição tem grandes implicações. A principal é a exigência de algo externo àquele que conhece, o qual serve como consciência garant do próprio conhecimento, como o deus cartesiano ou berkeliano, o espírito hegeliano ou a realidade material marxista. Por que essa exigência do garant? Ora, caso contrário se cai no relativismo. Se as coisas possuem uma essência, ou seja, uma realidade mais real que o real, e essa realidade somente pode ser alcançada por sujeitos, não há como garantir que cada sujeito não acesse essa realidade tal como ela é não "em si", para usar a expressão do idealismo alemão, mas somente em relação ao próprio sujeito que conhece. Platão é a resposta aos debates de seu tempo, como não poderia deixar de ser. Assim, para responder ao relativismo dos sofistas ("o homem é a medida de todas as coisas", disse o principal dos sofistas, Protágoras), Platão recorre ao expediente de uma essência separada das coisas, as Formas, que, em último caso, possuem como garant o Bem mesmo, o sumo das ideias. 

Aristóteles vê que esse expediente não salva Platão. A ideia platônica é transcendente, ela pressupõe uma outra realidade. Ora, como garantir a ligação da coisa sensível com sua Ideia, diz Aristóteles? Para tanto, seria necessário supor uma outra ideia, que garantisse a ligação entre dois termos com estatuto ontológico diverso, inteligível e sensível. Ou supor, como faz a tradição cristã, uma consciência exterior ao mundo e que o permitiu: Agostinho, Descartes, Berkeley. Ou, ainda, uma realidade material em si movente, da qual nossa consciência é mero reflexo: é o marxismo. Portanto, vê-se as dificuldades nas quais esse gênero de questão nos coloca.

Ao mesmo tempo, contudo, caso se abra mão da suposição de uma essência fixa das coisas, cai-se no relativismo, entregamos tudo ao devir. In extremis, nem mesmo o conhecimento seria possível, já que cada momento ou coisa, por ser único, não pode ser comparado com nada (e boa parte do conhecimento é comparação, já o nota Hobbes). Seríamos como aquele personagem, se bem me lembro do Aleph, de Borges: preocupado em anotar cada instante, passa a vida a fazê-lo e não vive. Há o caso de um pós socrático que chegou a se abster de falar: Pirro, precedido pelo heraclitiano Crátilo. Ou seja, essa posição nos conduz ao ceticismo ou, por excesso de mobilismo, ao imobilismo.

Como escapar do dilema? Há soluções na história da filosofia para esse impasse, o qual assumiu múltiplas formas ao longo do tempo. Aristóteles as fornece, especialmente na Metafísica, que venho de reler, através da distinção entre potência e ato. Mas ele é realista ainda: quem garante a existência do mundo é o primeiro movente. Outra solução é a kantiana, através da suposição de uma nova dimensão do real, aquela transcendental, e da distinção entre coisa em si e fenômeno, que terminará por gerar os grandes debates do idealismo pós-kantiano. 

Deleuze oferece uma solução elegante: as coisas são diferentes mas essa diferença se repete em ser diferente. Ou seja, o mundo é sempre diferente em ser diferente.

Foucault oferece uma outra solução, uma que estou analisando e devo abordar na minha tese.

Talvez, contudo, se trate de uma antinomia: sempre se poderá dar soluções opostas e igualmente justificáveis. Nesse caso, o recuo kantiano faria mais sentido: buscar pelas condições do problema. Assim, resolve-se a questão por inanição: trata-se de um falso problema. A primeira vez que me pus a pesquisar algo já na universidade (a autogestão iuguslava, ainda no curso de história), meu orientador disse: uma pergunta mal feita não tem resposta, uma pergunta bem feita é meia resposta. Será que, nesse caso, é a pergunta que está mal feita? A ver.


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