segunda-feira, 9 de maio de 2022

Duas fábulas de Fedro

 Rã estourada e boi


Pobre, que enquanto tenta imitar o poderoso, perece. 

No prado uma rã vê um boi 

e, tomada de inveja de tanta magnitude,

 a pele rugosa infla. 

os seus ela interroga se estaria maior que o boi. 

Eles negam. Novamente se esforça para deixar a pele

 maior, e similarmente interroga quem seria maior. Eles disseram o boi.

 Por fim indignada, enquanto tentava se inflar, rompido jazeu o [seu] corpo.


Rana rupta et bos


Inops, potentem dum uult imitari, perit.

In prato quondam rana conspexit bouem,

et, tacta inuidĭa tantae magnitudi!nis,

rugosam inflauit pellem. Tum natos suos

interrogauit an boue esset latĭor.

Illi negarunt. Rursus intendit cutem

maiore nisu, et simĭli quaesiuit modo

quis maĭor esset. Illi dixerunt bouem.

Nouissĭme indignata, dum uult ualidĭus

inflare sese, rupto iacŭit corpŏre.


Cães esfomeados


Conselho estulto não se importa com os efeitos, 

mas ao pernicioso e até mesmo mortal arrasta. 

Couro imerso em um rio os cães veem. 

Ele para comer mais facilmente [para alcançá-lo], 

começaram a beber a água, 

mas estouraram e morreram antes de atingir seus objetivos.


Canes familici


Stultum consilĭum non modo effectu caret,

sed ad pernicĭem quoque mortalis deuo(cat.

Corĭum depressum in fluuĭo uiderunt canes.

Id ut comesse extractum possent facilĭus,

aquam coepere ebibĕre, sed rupti prius

periere quam, quod petiĕrant, contingĕrent

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Canção de Páscoa

Ressuscita!

Te ordeno!

Tu és o verdadeiro

Tu és o real divino

Estás morto há três décadas

enclausurado no covil sujo

das migalhas.

Transforma a migalha em pão

Multiplica!

Tu verdadeiramente transforma

a água em vinho.

Tua força move o mundo

Por que carregar essa cruz da ordem caduca?

Pai, não os perdoai, eles sabem

[o que fazem!

Que renasças,

que apareças, que brilhes.

És o futuro.


Outono de 2022

Losurdo, Foucault, anarquismo e marxismo

     Lendo o Luta de classes, de Domenico Losurdo, surgiram-nos algumas questões, especialmente na parte na qual ele analisa Foucault, parte esta que vem explicitada e comentada abaixo.

    Para Losurdo, o marxismo se constitui em uma lógica que explica o conflito social em três níveis: no nível econômico, na luta entre operários e patrões, no nível nacional (que podemos dizer étnico) entre nações oprimidas e nações opressoras, e no nível de gênero, com a opressão das mulheres pelos homens. Ele ainda acrescenta as preocupações ecológicas de Marx e Engels, segundo ele, adequadas às questões contemporâneas.

    Losurdo considera que Nietzsche comete uma contradição performativa ao criticar o silogismo como plebeu e se valer da mesma razão criticada a fim de construir suas argumentação. Ele também considera que Nietzsche faz um giro nominalista, desconfiando da categoria de homem, a fim de poder tratar os homens como escravos aristotélicos, como meros instrumentos, ao tornar a luta entre senhores e escravos um princípio explicativo transcendente, que explicaria todas as sociedades humanas (p. 77-78)

    O resultado desse nietzscheanismo, que Foucault crê mais radical que a proposta de Marx, é a busca por relações de poder em toda parte, o que se mostrou, diz Losurdo, uma luta contra a razão e uma microfísica do poder que dificultou a comunicação intersubjetiva. A construção de uma sociedade pós-capitalista também se encontra prejudicada, já que novas formas de poder hão de emergir, de modo a não se encarar verdadeiras alternativas, ou seja, nem todo poder é ruim. O resultado é uma perspectiva anárquica, que deixa um espaço aberto, o qual somente pode ser preenchido pela violência direta. (p. 78)

    Essa é a avaliação geral dele de Foucault. Para, ele portanto, o poder político não está, à moda do mestre francês, espalhado nas instituições sociais. É um poder político centrado no Estado. Além disso, como fica claro, todas as relações de poder têm por base o campo da produção econômica: operários e patrões, imperialismo e países dominados, mulher e divisão sexual do trabalho, ecologia e as consequências da indústria ao meio ambiente. Losurdo não procede, destarte, a uma crítica da civilização ocidental enquanto tal, mas a um capítulo dela, aquele da modernização capitalista.

    Não chegamos ainda ao fim do livro e não sabemos como ele terminará sua arguição, mas, por ora, abordemos alguns aspectos de sua argumentação.

    Foucault, é certo, é um nietzschiano, mas um nietzschiano de esquerda, com origens no marxismo e alguém para quem o marxismo é muito importante, um de seus principais interlocutores, especialmente na figura de Althusser, seu antigo professor. Foucault parece não crer em um modelo para analisar o poder, mesmo porque, para ele, não existe um poder político hipostasiado, que alguém possa controlar. Trata-se de uma concepção fluida de poder, um poder que só existe em exercício e que precisa ser constantemente exercitado para se valer. Poder é a capacidade de influir sobre a liberdade alheia, mas tem sempre formas históricas, existe sempre em cada caso. Não existe uma substância do poder, não existe um quid do poder; a pergunta é por um situs: situar as relações de poder historicamente, não crer que um mesmo poder político se repita na história. Por ser sempre em exercício, o poder, nas sociedades contemporâneas, caracterizadas pelo acúmulo de humanos em espaços diminutos, se aplicou sobre o corpo, criando um determinado tipo de sujeitos, os proletários. A questão era, para as classes possuidoras dos princípios da revolução industrial, como transformar o camponês em proletário, como educar esse corpo de modo que ele não seja revolucionário e improdutivo, como se apropriar do tempo dessas populações. Para o mestre francês, a burguesia se valeu de estratégias para tanto.

    Em uma das passagens mais célebres do Tractatus, Wittgenstein afirma, após expor a estrutura das relações entre mundo e linguagem, que suas proposições são como uma escada que se deve jogar fora depois de subir, visto que elas são indizíveis, não podem ser empiricamente provadas. Foucault parece seguir essa lição. Por isso, ele só trabalha com documentos históricos, datados, existentes; com fatos, em duas palavras. Daí que se o digam um empirista histórico. Disso também decorre seu nominalismo.

    A questão de fundo é saber se o poder político possui uma archē, um princípio existente em todas as sociedades. Para o marxismo, esse princípio é a propriedade privada. Foucault não crê nisso. O poder, existindo somente em ato, só pode ser decifrado com a análise histórica de cada sociedade, na história, através de dados. Não que ele ignore a questão da propriedade ou dos conflitos econômicos. Ao contrário, sempre leva em conta dados econômicos, como fica patente em livros como a História da loucura ou nos cursos no Collége de France, isso sem dizer de Vigiar e Punir. Mas o poder não se reduz à economia. Os marxistas parecem sonhar que, com o fim da propriedade privada, acabar-se-ão as relações de poder. Ignoram o que se passou na URSS ou em outros países que fizeram a revolução socialista? Os trotskistas tem a fórmula pronta: Estado operário degenerado. A revolução não foi global, e passou por um termidor, por um 18 Brumário.

    Deixemos a crítica ao trotskismo para outro dia. Nos foquemos no neoestalinismo de Losurdo. A verdade é que em sociedades sem propriedade privada o poder não acabou, ao contrário, bastante ao contrário. Foucault adota algumas precauções de método, como ele chama, a fim de estudar o poder em algumas hipóteses, que ele lança. Por exemplo, que o poder não se reduz à economia, mas sim que ele visa estabelecer relações de força, e que a política é a guerra continuada por outros meios. Trabalhemos, já com nosso toque, essas teses.

    Há muitas definições de política. O termo nos reenvia para a polis, termo grosseiramente traduzida como cidade-estado. Mas a polis não é isso, já que a maior parte dos domínios de Atenas não era urbano, mas rural, por exemplo. A polis indica a união das diferentes tribos, divididas em famílias, que habitam o oikos, e que guardam interesses comum, sejam econômicos, de defesa, culturais, etc. A política é a ciência e a technē que nos fornece os elementos capazes de contribuir com a gestão da pólis. A política é a gestão da vida em sociedade. Onde há sociedade, há política, porque há interesses em comum. Falar em fim da política significa assinar o suicídio da comunidade. Do mesmo modo Estado; não podemos cair no anacronismo e no etnocentrismo de identificar como Estado somente aquelas formas que se desenvolveram na Europa, cujo paroxismo é a ditadura. Estado é o nome do âmbito onde os conflitos sociais são administrados. Enquanto houver sociedade humana haverá Estado, já que haverá conflitos. O Estado possui muitas forma históricas e não necessariamente precisa guardar o caráter de administrar os bens comuns, como estes não precisam ser públicos.

    Assim, a política e o Estado não se ancoram na propriedade privada somente. Pode existir Estado sem propriedade privada, como podem existir sociedades sem a mesma. Como o marxismo crê que a propriedade privada é a origem do Estado, defende que a chave interpretativa da política é essa mesma propriedade, subsumindo os conflitos aos seus assim ditos “interesses materiais”, como se pudessem existir interesses não materiais.

    Foucault afirma que quer adotar um modelo belicoso, da guerra civil. Esse modelo ele retira de Nietzsche, que possua vez o retirou de Heráclito. Marx trabalha seu modelo a partir de Hegel, que, por sua vez, também o retirou de Heráclito. Este, conhecido como o obscuro na Antiguidade, defendia a guerra como princípio supraempírico, nas palavras do frei brasileiro Damião Berge, capaz de explicar até mesmo os deuses, além de dar os esclarecimentos de porquê alguém se torna rei ou escravo. Heráclito torna a guerra princípio cósmico de explicação, princípio que, como se vê ressoa até o presente. Ele por sua vez foi beber em fontes mais antigas, como Anaximandro e a épica grega; afinal, a Ilíada e a Odisseia tem como background uma guerra.

    Anaximandro buscou no jargão dos tribunais um vocabulário para descrever o mundo. Segundo ele, os contrários se enfrentam e pagam pena pelos seus atos, retornando, no final, ao princípio, à mesma archē de onde advieram. Trata-se de uma asserção do cosmo como, ao mesmo tempo, belicoso e cíclico. Heráclito pensa o mesmo, mas acrescenta que, por trás dos conflitos, há uma unidade. Essa unidade, cujo nome é ser, ressoa em Hegel; os contrários lutam, mas em um eixo espiralado que conduz adiante, rumo à realização do Absoluto. Ou seja, não se trata de um conflito que vai até as últimas consequências. Pensemos em uma guerra; há adversários, mas há, também, o campo de batalha, que possibilita a guerra, sem a qual esta não é possível. Essa conceitualização se marcou em Marx, que vê as lutas de classe se desenrolarem nos marcos do desenvolvimento das forças produtivas.

    Nietzsche, embora também seja herdeiro de Heráclito, radicaliza suas posições. Isso porque Nietzsche não parte de uma ontologia do trabalho, mas de uma ontologia do saber. Assim, ele se pergunta sobre o valor de todos os valores e vê no ato mesmo de aquilatar algo um valor. Dar sentido a algo, para Nietzsche, em um momento de neokantismo na Alemanha, é já impor uma certa ordenação à coisa. Foucault é herdeiro dessa posição nominalista.

    Assim temos duas visões sobre o poder político, uma orientada à uma ontologia do trabalho, que reintegra os conflitos no interior de uma sociedade, a outra que os radicaliza e pensa que o próprio pensar sobre o conflito já é conflituoso. Podemos abstrair ainda mais esta última posição (contra os desejos de Foucault). Para sermos consequentes, pensemos que força é um fenômeno da natureza; as moléculas, as partículas têm força, são capazes de agir e mudar o rumo umas das outras. Força, em sociedade, se torna poder. Como as relações sociais são geohistóricas, nada é natural ou vão; ao contrário, tudo pode ser politizado: a forma da família, a relação com o corpo, o que se ingere, como nos comportamos, como nos relacionamos uns com os outros. A pergunta pelo quid, já dissemos, é uma pergunta pelo situs, quer dizer, a pergunta pela essência deve ser situada: só existe essência em uma forma geohistórica.

    Por isso Foucault afirma que é nas microrrelações de poder (e na sua alteração) que podemos encontrara chave para a mudança social. Como um corpo, que todos somos, pode mudar uma sociedade se não for um corpo rebelde? Daí que se possa aproximar Foucault do anarquismo, como faz Losurdo. Os anarquistas tinham uma preocupação com questões como vegetarianismo, educação, sexismo, etc., ou seja, uma preocupação com ser você mesmo a mudança. Favor não confundir com slogans de autoajuda. Para os anarquistas, o meio contem os fins: a mudança social só vai acontecer se adotarmos meios condizentes com ela. Para os marxistas ou, antes, para os leninistas, os fins justificam os meios, id est, a fim de que tomemos o Estado, qualquer meio é válido, inclusive dizer todo poder aos soviets para depois se desfazer deles.

    Os marxistas esperam organizar o ethos, a organização da sociedade através de uma ação que venha de cima; os anarquistas (e Foucault, que não era propriamente falando anarquista) pensam que se deve organizar por baixo: um rebelde é um corpo rebelde. Mudar a sociedade a partir do centro ou da periferia, de cima ou de baixo; depende das preferências de cada um, que devem ser baseadas na análise histórica, na casuística dos processos históricos, tendo em vista os fins almejados. Os marxistas tendem a se focar nas questões econômicas salientadas, que são muito importantes. Os foucaultianos tendem a ter uma visão libertária de política, o que também é muito importante.

    É possível unir as duas visões, em uma estratégia que dê conta dos dois campos de ação? Alguns, como Bidet, Dardot e Laval, Negri e Hardt, creem que sim. Mas a resposta a essa pergunta só teremos ao cabo de uma nova pesquisa, a ser feita.

terça-feira, 1 de março de 2022

Sobre a Ucrânia

 

À exceção do Facebook, ninguém me perguntou o que penso do atual conflito na Ucrânia. Mas, como se trata de evento crucial na Estratégia contemporânea, com significações muito além dos vizinhos e que nos afetam diretamente enquanto formação periférica do capitalismo global, resolvi escrever algumas linhas.


Estratégia é a ciência dos meios, ciência do mais alto interesse para qualquer Estado. Poder, além de um substantivo, é um verbo que indica as possibilidades de cada qual em realizar tal ou qual feito. Assim, não há poder sem estratégia nem estratégia que não se imiscua com algum poder. Claro, devemos distinguir entre força e poder. Força é a capacidade de atuar sobre o mundo físico; é a dynamis dos gregos, muitas vezes traduzida como potência. Recuperemos e distorçamos Aristóteles e pensemos que a força é a capacidade de tornar aquilo que era mera possibilidade em ato. Nesse sentido, todos os entes possuem alguma força, já que constantemente agem sobre o mundo, alterando-o. Tudo está cheio de deuses: o kosmos possui movimento, as partículas vibram, se destroem, dão origem a novas.


O poder é um tipo especial de força, já que ele age em uma sociedade, ou seja, age sobre outros humanos, determinando suas condutas ou insuflando sua reação. Poder é a força em sociedade orientado por uma estratégia. Nem toda força em sociedade é um poder, mas todo poder só existe em sociedade. A força não se vale de estratégias, mas de estrategions, termo nosso, que utiliza o termo estratégia com o diminutivo grego — ion; poderíamos dizer, estrateginhas. Todo poder utiliza estratégia, portanto, mas somente algumas relações de poder são estudadas pela ciência da Estratégia, ciência pristina, velha como as pirâmides, mas que só se firmou ainda muito recentemente.


Para essa ciência, a política fixa os meios e a Estratégia executa. Por isso Estratégia (ciência dos meios) e poder (meios para um fim) se relacionam tão intimamente, orientados pelo skopos (finalidade) determinado pela política. É a submissão dos interesses militares aos civis, do contrário viveríamos todos em ditaduras militares.


Pois bem, para a Estratégia contemporânea o fundamental da ação militar é garantir e ampliar nossa própria liberdade de ação (consequentemente, nosso poder) e restringir a do inimigo. Essa é a definição do general francês André Beaufre, a qual seguimos (e que influencia muito as F.A.s). Essa máxima explica o caso ucraniano: esse conglomerado de países capitalistas reunidos sobre a bandeira da OTAN busca reduzir a liberdade de ação russa e aumentar sua própria. Os russos suportaram esse avanço da OTAN enquanto estavam suficientemente fracos, mas, agora, com a criação de mecanismos de suporte, veem-se na posição de peitar essa mesma OTAN, em território europeu.

Aos russos, interessa uma guerra rápida e impor à Ucrânia uma derrota e um governo pró-Moscou. Aos ucranianos interessa uma guerra de desgaste, talvez abertamente de guerrilha, única forma de um país pequeno resistir a magnitude dos russos sem utilizar armas nucleares, armas estas que a Ucrânia abriu mão. Se possível, atrair aliados para a luta contra os russos e transformar a Ucrânia na tumba fria de seus algozes. A OTAN parece disposta a financiar esta guerra, afinal, não serão os seus morrendo, mas uma entrada direta no conflito parece pouco provável, já que significaria a guerra nuclear e a Ucrânia não é um objetivo tão valioso.


Como diz Clausewitz, a guerra tende aos extremos, mas é modulada pela política, que serve de pelego para as ações. Se Putin usa a bomba atômica, será retaliado. Se Zelensky escolhe uma guerra de resistência, será um massacre de ucranianos. Tudo há de depender da eficiência dos russos e dos ucranianos e da disposição de Zelensky em ceder.


Como Estratégia lida com poder, é natural que ela percorra até mesmo a mídia, esse quarto poder nas sociedades assim ditas livres. Cantam alguns que Zelensky venceu a guerra midiática. Mas, quando foi que a mídia ocidental, os grandes conglomerados, trataram Putin bem? Quando não o chamam abertamente de ditador, o veem como autocrata e a elite russa, tão oligárquica quanto as plutocracias do Oeste, é retratada como uma oligarquia.

O que gera esse ódio contra Putin é o fato de ser presidente de um país que enterrou o ideário neoliberal e de se tratar de uma sociedade organizada fortemente em torno do Estado, entendido como ponto nodal das relações sociais, ao contrário dos EUA ou da UE. Na Rússia, o Estado ocupa papel central na sociedade. Além disso, A Rússia de Putin é um Estado que tem grande liberdade de ação e apoia e é apoiada por todos os regimes-pária, quer dizer, anti-Ocidente, ou seja, que resistem ao imperialismo yankee. A Rússia é um poder autônomo em um mundo onde o poder dominante, malgrado se diga democrático, está nas mãos de alguns plutocratas, que querem terminar de ocidentalizar o mundo, quer dizer, de abrir mercados para suas empresas e explorar recursos naturais, tendo como eixo a Europa Ocidental-EUA-Canadá-Japão-Austrália-Nova Zelândia-Coréia do Sul-Israel.

Mas a Rússia também é um regime capitalista, somente mais estatizado. Trata-se, portanto, de uma guerra interimperialista, com a particularidade de que há décadas a OTAN não era desafiada tão abertamente, por um Estado capaz de opor resistência. Esse é o único ponto positivo do conflito, já que a vitória russa significa o enfraquecimento da OTAN e, com isso, do neoliberalismo; talvez haja outro ponto positivo, se acrescentarmos as relações entre o governo da Ucrânia e as forças neonazistas de lá, as quais os russos dizem querer esmagar. Mas o regime russo não nos oferece nenhuma real alternativa ao pesadelo neoliberal. Ao contrário, seria a escolha de um regime menos pior ou, sob alguns aspectos, até mesmo pior, o que não deve nos impedir de condenar a hipocrisia do assim dito Ocidente, suas organizações e sua mídia que mistura jornalismo com tomada de posição. Dito de outro modo: Putin é inimigo estratégico, mas pode ser aliado tático, dependendo da orientação política de cada qual; escrevo este texto para pessoas de esquerda, como sempre. Já os neoliberais são, no Brasil, inimigos estratégicos e táticos.

Não rebaixemos, no entanto, nossos objetivos para a realpolitik que o mundo nos impõe. Temos direito a mais do que o menos pior. Organizemo-nos para alcançá-lo.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Patranha

 Bolsonaro e sua sanha


patranha! patranha!


com Olavo, seu doutor


que horror, que horror!


E Ernesto, o pequeno


veneno, veneno!


Eis a maldade espargida sobre a nação


em vão, em vão!


Vamos encontrar um caminho


com espinho, com espinho!


Sim, mas será nosso!


bom negócio, bom negócio!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Olavo de Carvalho

 

Estou escrevendo um trabalho sobre Olavo de Carvalho. Tarefa inglória, que exige disposição e estômago. Somente em condições muito especiais alguém como Olavo poderia ganhar alguma proeminência, somente uma direita muito órfã de pensadores se deixaria fiar em alguém com tão poucas qualidades e tantos defeitos.


Tudo o que se diz de Olavo à boca miúda pude comprová-lo. Grosseiro, mal fundamentado, delirante, teórico da conspiração. Olavo é tudo isso e mais um pouco. Suas concepções não resistem ao exame crítico, de modo que não pretendo escrever o texto para aqueles que, ao lê-lo, percebem as falácias, mas para aqueles que não são capazes de per si de enxergar os erros primários de Olavo.


Ele se situa em uma direita que é antimoderna. Com isto quer-se dizer: anti-iluminista. Para esse setor, o mal maior da humanidade moderna é o abandono da fé como princípio regulador. Kant e seu ceticismo naturalista implicam que se ouse saber e o abando da religião como princípio aceitável de organização social são inaceitáveis. A revolução francesa, o golpe de misericórdia. Nem se diga da revolução russa.


Uma das fontes de Olavo é Guénon, pouco conhecido nos círculos de esquerda, mas que faz extraordinário sucesso naquela diminuta parcela da direita que lê alguma coisa, já que a maioria destes sequazes simplesmente perpetua discursos prontos. Para Guénon, francês cristão que terminou a vida como muçulmano fanático, o mundo moderno está em crise porque abandonou os princípios universais em benefício do mundo material. A verdadeira inteligência, que teria existido na Antiguidade e Idade Média, foi preterida. Em troca, ganhamos meras benesses materiais, e perdemos o verdadeiro conhecimento. A humanidade ansiaria por conhecimentos imutáveis, que a ciência materialista e humanista seria incapaz de fornecer. Mas no Oriente, entre hindus, chineses e muçulmanos, ainda se encontrariam a verdadeira sabedoria.


Guénon despreza as “meras conquistas materiais da ciência”. É de se estranhar, já que, fora da matéria, não há nada e os n´veis de vida e prosperidade deram um salto desde que se principiou a modernidade. Nosso conhecimento do universo nunca foi tão vasto e, ainda assim, é diminuto. Mas é amplo o suficiente para saber que as religiões estão todas equivocadas. Para discursos que se dizem inspirados na divindade, todas erraram grosseiramente sobre as formas de organização do mundo. Para começar, supõe uma archē do cosmos, como ademais, boa parte da filosofia, quando atualmente se sabe que a chave para explicação do mundo é a relação. Além disso, as teorias da auto-organização da matéria avançaram, de modo que não é mais necessário supor essa archē.


É exatamente por que a ciência contemporânea já não busca essa archē que Guénon e Olavo são contra a ciência ou a minimizam. Para eles, deveríamos debater o sexo dos anjos, deveríamos debater o primeiro motor imóvel, e não a cura do câncer, por exemplo, a melhor forma de organização social ou o aquecimento do planeta. Essas questões mais prosaicas já foram respondidas nos livros religiosos, inspirador por deus. Homem manda, mulher obedece, homossexual é aberração e espíritos infestam o mundo. Deus criou o mundo em sete dias e sua palavra está na Bíblia, no Corão, nos Vedas, etc.


É inacreditável que, diante de tantas evidências da inexistência de deuses, Olavo e Guénon se aferrem, com o tempo e possibilidades que tiveram para estudar, em uma mitologia em tudo superada pelo andar dos fatos.


A religião foi muito importante historicamente, especialmente o cristianismo, na medida em que afirmou a igualdade radical dos humanos, contra as religiões elitistas e étnicas da antiguidade. Não foi posta em prática e, ainda na Antiguidade, viu-se sua inter-relação com os poderosos do mundo em um regime de opressão aos servos. Mais tarde, se tornou justificativa dos massacres colonialistas. Enquanto religião dos poderosos, foi criticada por aqueles que querem aplicar suas ideias não em um mundo após este, encarado como de sofrimento, mas criar o reino dos céus na terra, nesta vida. O nome dessas teorias é socialismo, nas suas múltiplas formas, que são aquilo que de melhor a humanidade produziu em termos de exequibilidade de um novo mundo.


A crítica às religiões mantém-se na ordem do dia. A espiritualidade moderna deve ser organizada em torno da filosofia, e, nesse sentido, a filosofia segue mais atual do que nunca. Revoluções podem ocorrer, mas a espiritualidade dos humanos há de se manter. Nesse sentido, as teorias éticas antigas podem ser de grande auxílio, especialmente o epicurismo. Outras forma de ética também são centrais na superação de um mundo religioso. Pensamos na ética que Foucault analisa no segundo volume da história da sexualidade e no dandismo: encarar a própria vida, a própria biografia como forma obra de arte.


Os olhos doem ao ler Olavo. Mas ele responde a uma sociedade que transformou toda espiritualidade no ato de comprar. Até deus, hoje em dia, se compra, no débito ou no crédito. Superar Olavo, do ponto de vista político, implica superar uma sociedade vazia de valores, onde tudo se resume ao vil metal e a vida humana se reduz àquilo que ela possui. E, do ponto de vista ético, superar Olavo é uma tarefa contemporânea da filosofia, e exige uma construção socialista de valores e de espiritualidade. Do contrário, outros Olavos surgirão, talvez ainda piores, se é que isto é possível.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Ano novo

 Amanhece,

deus meu, 

outro dia.

É ano novo,

mas nada muda


o mundo ainda gira na mesma rota

e as rosas não se tornaram mais perfumadas.

deus meu, que loucura!


todos bebemos,

nos embriagamos,

fizemos amor


e o chicote segue açoitando


ah, mais quantos anos dessa agonia?

mais quantas manhãs,

iguais em substância,

onde os pássaros não cantarão mais bonito

e as flores não serão mais doces?


Permita, deus meu,

minha ilusão comum,

meu deus que não existe,

permita que um verdadeiro novo ano comece:


brumários, nevários, floral

sim, um novo ano.

Um brinde à era que podemos começar.