A
filosofia de Bolsonaro
Bolsonaro’s
philosophy
Felipe
Luiz
UNESP-Marília
2022
Resumo:
O objetivo do presente trabalho é analisar algumas produções
teóricas do autodeclarado filósofo brasileiro Olavo de Carvalho,
considerado ideólogo do bolsonarismo e pensador então influente nos
círculos governamentais. Para tanto, a produção de Olavo é
analisada sobre um duplo viés enquanto teoria da conspiração e
discurso de ódio. No final, aponta-se que Olavo é propagador de um
novo misticismo, calcado nas fake
news
e no discurso anti-ciência, e que é tarefa da filosofia combater
esse anti-iluminismo.
Palavras-chave:
Olavo de Carvalho; Anti-iluminismo; discurso de ódio; teoria da
conspiração
Abstract:
The present work’s aim is to analyze some theorical productions of
the self declarad Brazilian philosopher Olavo de Carvalho, taken as
ideologist of bolsonarism and influent thinker into the governamental
circles. For that, the production of Olavo is analyzed in a double
bias, as conspiracy theory and as hate speech. In the end, we point
out that Olavo is a difusor of a new misticism, based in fake news
and in an anti-science discourse, and that is a philosophy job to
fight out angainst these contra-Enlightenment.
Keywords:
Olavo de Carvalho; contra-enlightenment; hate speech; conspiracy
theory.
Introdução
Uma
coisa importante que aprendemos com o filósofo francês Michel
Foucault foi que poder e saber não estão divorciados. Não é, a
bem da verdade, uma asserção nova, mas tampouco é um truísmo. Se
recuarmos bastante, já Platão e suas diatribes com os sofistas
apontavam nessa direção. Se recuarmos ainda mais, veremos que a
própria noção de arché, esse verdadeiro ponto arquimediano que
buscam os filósofos, guarda dois sentidos, tanto o de princípio,
quanto o de comando. Marx apontava também esse casamento entre poder
político e ciência, assim como vários outros pensadores. Mas com
Foucault essa relação é melhor explicitada, chegando ao paroxismo
de se afirmar que não há poder sem saber, nem saber sem poder.
Claro, Foucault tratava de um saber menos grandiloquente que aquele
que trataremos aqui, mas nem por isso menos pungente. Temos insistido
nas relações entre filosofia e poder político em vários textos e
este será mais um deles
Chega,
portanto, a hora de exercitar outra posição de Foucault e realizar
uma pequena ontologia do presente, desta vez voltados à nossa tão
castigada terra
brasilis.
Afinal, há uma filosofia de Bolsonaro?
A
violência parece prescindir da filosofia; mas é como as ilusões de
uma mente cansada: só parece. A filosofia, enquanto atividade
humana, está presente em qualquer ato que se realize. Ela não é
apanágio dos sábios, mas, democrática, puro fruto das massas. Todo
ato, toda atitude pressupõe uma filosofia, mesmo que o agente a
desconheça. Certamente, alguém já abordou filosoficamente dada
ação, já que, entre o céu e a terra, a razão não se cansa de
romper as barreiras históricas e de se reinventar.
A
filosofia popular, que tanto agradava a Porchat Pereira, está
presente nas conversas, nas posturas, nos atos, nas crenças e,
também, na política. Nesse sentido, Bolsonaro possui uma filosofia,
como qualquer outro mortal. Mas, em seu caso específico, essa
filosofia, uma filosofia da ação certamente, lhe antecede e, com
segurança, lhe há de se suceder, perenes que são as condições
que a geraram. A menos que uma verdadeira revolução se processe no
país e as condições de emergência desse gênero de pensamento se
alterem na raiz, outros Bolsonaros virão, outros políticos com
posições semelhantes e o mesmo apelo surgirão e a espiral na qual
nossa terra de sabiás adentrou repetirá erros e acertos.
A
filosofia de Bolsonaro antecede o próprio, na medida em que aquele
que é apontado como o principal ideólogo do governo, o ensaísta
(ou será filósofo? Responderemos ao final) Olavo de Carvalho
escreve desde antes de Bolsonaro e, se não tivesse falecido enquanto
escrevíamos este texto, continuaria escrevendo depois.
O
objetivo desse trabalho é analisar as posições filosóficas de
Olavo naquilo que seja pertinente para a compreensão do Brasil atual
e que ajude a desenhar o que pensa Bolsonaro e quais as bases
teóricas do bolsonarismo, enquanto fenômeno político aterrado no
Brasil e seus conflitos. Para tanto, analisaremos uma série de
livros de Olavo e alguns poucos comentadores já que Olavo, outsider
maior do pensamento brasileiro, segue restrito no que tange às
publicações a seu respeito.
Retrato
e posição do polemista
A
primeira coisa que salta aos olhos do leitor de Olavo é como ele
está correto em muitas posições. Explique-se: o tom de Olavo é um
anticomunismo virulento, que enxerga por toda parte um plano das
esquerdas para o domínio global. Mas, boa parte daquilo que ele
afirma das esquerdas, se aplica perfeitamente aos seguidores de
Bolsonaro. Vejamos alguns exemplos. Em Tudo
que você precisa saber para não ser um idiota
ele afirma que:
No
Brasil de hoje, todos os “formadores de opinião” mais salientes,
sem exceção visível — comentaristas de mídia, acadêmicos,
políticos, figuras do show business — pensam por figuras de
linguagem, sem a mínima preocupação — ou capacidade — de
distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem
seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem
uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem
entre emissor e receptor da mensagem. A discussão racional fica
assim inviabilizada na base, sendo substituída pelo mero confronto
entre modos de sentir, uma demonstração mútua de força psíquica
bruta que dá a vitória, quase que necessariamente, ao lado mais
barulhento, histriônico, fanático e intolerante (CARVALHO, 2013, p.
351)
Ora,
são justamente os seguidores de Bolsonaro que gritam mais alto e
repetem, à exaustão, o mesmo gênero de pensamentos, muitos dos
quais originados em Olavo, com uma série de fórmulas prontas que só
esperam a claque, já igualmente convertida, para se afirmar
vitoriosos. Foi assim que, em 2018, falsidades repetidas em mensagens
instantâneas conseguiram hipnotizar o país, em nome de uma luta
contra a corrupção que se mostrou, na verdade, cortina de fumaça
para atos inescusáveis.
Em
outro trecho, Olavo critica os fanáticos, afirmando que eles
deixaram-se dissolver em grupos, de onde tiram conforto e aceitação,
em troca de submeter-se a um líder, considerado quase-divino, acima
da história (CARVAHO, 2013, p. 84). Não é precisamente esse o
status
concedido a Bolsonaro no meio de suas hostes? De um líder
invencível, incorruptível, grande enxadrista da política, que tem
um plano preparado para tudo?
Examinemos
outro trecho:
Já
observei mil vezes que no Brasil de hoje a linguagem da elite soi
disant
alfabetizada se reduziu a um sistema formal de pressões e
contrapressões, onde as palavras valem pela sua carga emocional
acumulada, com pouca ou nenhuma referência aos dados correspondentes
na experiência real de falantes e ouvintes (CARVALHO, 2013, p. 176)
Ora,
é exatamente dessa maneira que se portam os olavistas, enxergando em
um suposto comunismo ubíquo uma ameaça iminente para o Brasil,
sentimento esse alimentado pelo próprio Olavo a todo instante.
Em
outra passagem, o escritor afirma: "A facilidade mesma com que
uma teoria se converte em sua contrária é louvada como prova do
mais alto mérito intelectual: o que importa não é a “veracidade”,
mas a “fecundidade”" (CARVALHO, 2013, p. 189). Olavo
defendia um governo de direita, que lutasse contra a corrupção e
combatesse as esquerdas. Repete a todo instante que o comunismo matou
milhões de pessoas, etc. Mas, na gestão da pandemia no Brasil, foi
o governo apoiado por Olavo que foi culpado, direta ou indiretamente,
pela morte de centenas de milhares de brasileiros.
Em
outro trecho, ele assevera:
Desde
a decapitação de Luís XVI o movimento revolucionário mundial vive
de proxenetar seus próprios crimes e vexames, atribuindo-os às suas
vítimas, a circunstâncias fortuitas ou à ação de traidores.
Tantas confissões repetidas da incapacidade de governar o curso das
coisas já bastam, é claro, para impugnar a presunção do poder
absoluto e infalível de forjar um futuro melhor." (CARVALHO,
2013, p. 232)
Ora,
afirmar que não governa por culpa da esquerda ou do Supremo Tribunal
Federal é o expediente de praxe dos olavistas e bolsonaristas. Mais
uma vez, Olavo descreve nos outros as ações que seus apoiadores
executam.
Noutro
recorte diz nosso autor (2013):
A
Bíblia, mito fundador da civilização ocidental, está no fundo de
toda a nossa compreensão de nós mesmos e de todas as nossas
possibilidades de ação. Fora disso, não há senão ideologia,
erro, loucura. A desorientação radical da sociedade brasileira vem
da ligação tênue, cada vez mais distante, cada vez mais
evanescente, que nossa história tem com as raízes bíblicas da
civilização do Ocidente. Tanto perdemos a compreensão do nosso
mito fundador que chegamos a querer substituí-lo por mitos tribais,
indígenas ou africanos, belos e sugestivos o quanto sejam, mas
ineptos a dar forma a uma civilização vasta e complexa. Mas hoje
descemos abaixo dos mitos tribais, que, limitados o quanto fossem,
tinham a sua verdade. Já não queremos nem mesmo construir o Brasil
em cima de verdades parciais. Queremos a mentira total. Queremos uma
ideologia." (p. 328)
Olavo
descreve perfeitamente o que ocorre no Brasil desde antes de 2013:
como a mentira foi elevada à categoria de verdade institucional e a
verdade, no caso científica, foi escanteada em benefício de um
projeto de poder, movimento este acentuado após as eleições de
2018. Mas, como ele próprio aponta: “É a receita infalível da
propaganda revolucionária: ‘Xingue-os do que você é, acuse-os do
que você faz’" (CARVALHO, 2013, p. 296), aliás, uma falsa
citação de Lênin.
Olavo
se coloca na posição de um vate: a verdade está oculta e só ele a
enxerga. Reaviva assim a figura literária do poeta-profeta, sem os
dotes literários que a posição exige.
A
destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de
favelização intelectual onde a função de respiradouro para a
grande circulação de ideias no mundo, que caberia à classe
acadêmica como um todo, é exercida praticamente por um único
indivíduo, um último sobrevivente, que em retribuição leva
pedradas e cuspidas por todo lado, especialmente dos plagiários e
usurpadores que vivem de parasitar o seu trabalho (CARVALHO, 2013, p.
237)
Neste
texto, de 2011, fica clara a psicologia de Olavo: ele seria o
cavaleiro solitário dos conservadores contra a conspiração
comunista de destruir as bases mesmas da civilização ocidental.
Apresentada a figura, passemos a outros aspectos de seu pensamento.
Teoria
da conspiração
O
tom profético de Olavo faz uma mixórdia entre filosofia e senso
comum, alimentado por publicações hegemônicas
da direita tupiniquim, como Veja,
Folha
de São Paulo
e Estadão.
Foi a grande mídia que nutriu Olavo, abrindo-lhe portas e ecoando
sua voz que, com o advento da internet, saiu do controle, a ponto de
Olavo enxergar na mídia um reduto de comunistas empenhados na
revolução cultural que ele afirmava estar em processamento. O tema
da esquerda que controla tudo, chegando mesmo ao ponto de se afirmar
que os bilionários do mundo são comunistas, indica um pénchant
de Olavo pelas teorias da conspiração.
Como
observa Byford (2011) os teóricos da conspiração nunca admitem que
o são, e o mesmo faz Olavo, para o qual a mancomunação da esquerda
para dominar o país e tolher a voz de uma direita tornada vítima é
tão real quanto o brilho do sol. É vão buscar raízes psicológicas
para esse traço de Olavo, o que somente seu psiquiatra, se é que
ele frequentava algum, poderia explicar. Além disso, ainda que fosse
provado que Olavo era um monomaníaco, isso não explicaria como suas
posições encontraram eco na sociedade brasileira, a ponto de terem
ajudado a eleger um presidente.
Seguiremos
Byford (2011) e veremos as teorias da conspiração, como aquela que
advogava Olavo, como uma tradição de explicação, tradição esta
já velha de muitos séculos. Ainda durante o processo da Revolução
francesa surgiram pensadores dispostos a explicá-la enquanto
artimanha de um grupo coeso e secreto, os Iluminatti e a
Franco-Maçonaria, empenhados em acabar com o cristianismo, o Antigo
regime e as bases mesmas do mundo ocidental. O tema da decadência do
Ocidente é também muito velho —
e muito atual —,
e essa rama política somente o trabalhava mesclando-o com novos
tropos.
Durante
o século XIX ganhou força as velhas narrativas segundo as quais os
judeus conspiravam contra o mundo cristão, como teriam conspirado
contra Cristo ele mesmo, e que se preparavam um golpe visando abolir
a cristandade. Esse discurso de ódio contra judeus, sobre o qual
tornaremos, ganha sua força máxima no entreguerras, deixando sempre
atrás de si um rastro de sangue. Outros personagens ocuparam o papel
de conspiradores, como asiáticos, o clube Bildeberg, muçulmanos, a
Nova Ordem Mundial, etc.
No
caso brasileiro, depois de uma ditadura militar sangrenta e de seus
crimes, imprescritíveis por sinal, a esquerda ganhou um novo fôlego,
mas muito longe de se tornar a força hegemônica. Ao contrário, as
forças que governaram todo o país desde a redemocratização foram
segmentos de um liberalismo social, mais ou menos destacado, mas
sempre mantendo a economia de mercado e a democracia liberal burguesa
como foco. Do ponto de vista econômico, o país não conheceu outro
regime em sua história além do capitalismo. Do ponto de vista
político, a esquerda sempre foi força política escanteada e,
durante os governos do PT, governava com um Congresso de maioria
conservadora, sempre seguiu os mais estritos cânones do
republicanismo, ao acatar ordens judiciais e decisões políticas,
ainda que contrárias aos seus interesses, privatizando empresas,
etc. As tímidas medidas de inclusão social que o PT pôs em prática
são estritamente neoliberais, até mesmo recatadas em relação a
este.
Segundo
Olavo, no entanto, o PT seria um perigoso partido comunista, com
ramificações em todas as esferas da vida social brasileira, prontos
para implantar uma ditadura socialista no país. Ele afirma que a
esquerda brasileira teria se tornado gramsciana e estaria pondo em
prática um plano de revolução cultural, destinado a ganhar os
corações dos brasileiros, momento que antecederia a tomada do poder
propriamente falando. Olavo não oferece provas para isto —
e nem precisa. Como mostra Byford (2011) uma teoria da conspiração
não demanda provas, ela se retroalimenta e, até mesmo, provas que a
contradigam são encardas em um modelo que somente fortalece a
própria narrativa conspiratória. Ou seja, ainda que não haja
indícios de que tal conspiração esquerdista ocorra e, ao
contrário, o fato de que os governos do PT tenham feito alianças
inclusive com setores evangélicos mais conservadores, sem falar da
própria CNBB, Olavo pensa que bilionários tupiniquins e membros do
partido estariam empenhados em destruir a fé cristã.
Avançamos
mínimos em matérias de direitos humanos, convenções contra a
tortura, reconhecimento da dignidade da pessoa humana, são tratadas
como ofensivas comunistas contra a Bíblia. Em uma palavra, um
delírio. Mas um delírio perigoso, já que engaveta conquistas
civilizacionais brasileiras como perigo à nossa própria existência
enquanto formação social.
Uma
das fontes de Olavo são escritores fascistas ou criptofascistas,
como René Guénon e Julius Évola. Para esses autores, o mundo
moderno, com todas as benesses materiais e de pensamento que trouxe,
seria pernicioso, já que outros períodos, quando a fé orientava
toda a vida social, seriam preferíveis. Não à toa, as teorias da
conspiração se formam primeiro contra a Revolução francesa e a
ideologia que a sustentava, o Iluminismo. Olavo não é um liberal,
preocupado com igualdade de todos perante a lei ou com a dignidade da
pessoa humana, ainda que o afirme. Olavo é um reacionário
antiiluminista, em uma cruzada contra o mundo moderno, se valendo de
meios que esse mesmo mundo moderno disponibiliza para lutar contra
ele.
Em
termos lukácsianos, Olavo é um irracionalista. O velho magiar dá
como características do irracionalismo: “rebaixamento do
entendimento e da razão, afirmação sem crítica da intuição,
teoria do conhecimento aristocrática, renúncia dos progressos
sociais e históricos, criação de mitos, etc.” (LUKÁCS, 1962, p.
15, tradução nossa). Olavo defende verdades reveladas, ou seja, que
aceitemos proposições intuitivas como verdades óbvias; além
disso, recusa o mundo moderno; por fim, criou o mito do domínio da
esquerda na sociedade brasileira. Claro, a definição de Lukács
guarda problemas, como o patente teleologismo histórico, com o qual
não concordamos, de modo que fazemos o presente apontamento a título
de ilustração. Para os marxistas e congêneres, uma história do
irracionalismo brasileiro não pode passar sem um capítulo especial
dedicado a Olavo, o mestre contemporâneo dessa atitude em terras
tropicais.
O
delírio conspiracionista de Olavo chega ao ponto de afirmar que
haveria uma conjuração homossexual (“gayzista”, em seus termos)
que se infiltraria nas igrejas e cometeria atos de pedofilia tão
somente a fim de desacreditar as instituições religiosas frente a
sociedade (CARVALHO, 2013). Ou seja, a comunidade LGBT, já bastante
marginalizada, seria uma elite tão bem organizada a ponto de
conseguir secretamente se organizar e atuar nas distintas agremiações
religiosas. Dados são inúteis, como mostra Byford (2011): quem quer
acreditar, acredita.
Discurso
de ódio
Esse
ponto nos conduz ao presente tópico, marcando outra característica
do pensamento político de Olavo, o discurso de ódio. Segundo
Carlson (2021)
(…)
discurso de ódio deveria ser definido como uma expressão que busca
difamar um indivíduo por suas características imutáveis, como sua
raça, sua etnicidade, origem nacional, religião, gênero,
identidade de gênero, orientação sexual, idade ou deficiência. Eu
uso o termo “expressão porque o discurso de ódio inclui não
somente palavras ditas, mas também símbolos e imagens que degradam
pessoas pelas qualidades com as quais nasceram (p. 9, tradução
nossa).
Olavo
dedica páginas e páginas a atacar a comunidade LGBT e defender uma
moralidade reacionária, tornando a defesa dos direitos LGBT,
direitos tão básicos, com expressão de suas afinidades naturais,
em uma suposta posição política, o assim dito gayzismo. Os LGBT
formariam um poderoso lobby,
uma verdadeira maçonaria que contaria com membros infiltrados em
todas as esferas da vida social do Ocidente, capazes de influenciar
pensamentos, posturas e ações.
Haveria,
além disso, um componente tão maligno no movimento LGBT, que este
teria criado uma doutrina para influenciar crianças na idade mais
tenra a se tornarem LGBT através da educação e do movimento de
professores. Esta posição seria expressa na assim chamada ideologia
de gênero, a qual afirmaria que qualquer um pode ser qualquer coisa,
enquanto o correto, diz Olavo, seria se adequar ao sexo biológico e
funções designadas na Bíblia aos sexos. Às mulheres, os papéis
tradicionais; aos homossexuais, o “armário”; tudo em nome da
defesa da família contra o perigo comunista.
Que
políticos conservadores tenham se assumido LGBT em várias partes do
mundo, que a própria Igreja Católica tenha feito chamados contra a
violência a esse segmento e que o Novo Testamento não traga
palavras contra a prática, para a qual sequer existia termo preciso
na época, pouco importa. A conspiração LGBT e feminista (chamada
de “feminazista”) visaria acabar com as bases da sociedade,
preparando o terreno para o advento do comunismo. Tudo isso seria
condensado no “marxismo cultural”, uma guarda-chuvas teórico que
coloca no mesmo balaio autores com diferenças tão grandes como
Foucault e Marx, mas que estariam empenhados em destruir a família
cristã.
Carlson
(2011) observa como esse tipo de discurso que diminui a dignidade
humana de grupos sociais é anteparo para a violência física, já
que empodera o ódio. Caso acrescentemos na definição dada acima o
ódio contra outras formas de pensamento, chegamos em uma posição
onde o olavismo, a mixórdia de ideias equivocadas calcadas em Olavo,
se mostra como um claro discurso de ódio. Basta pensarmos no
verdadeiro linchamento virtual que sofre a esquerda e qualquer setor
minimamente progressista no Brasil atual, linchamento este que, por
vezes, descamba para violência física, assédio e até mesmo
assassinato. O olavismo alimenta uma cultura do ódio no país, cujo
desfecho, caso não seja contido, não pode terminar bem. O resultado
do desprezo e do ódio às minorias, à democracia e a tudo quanto
tenha o mínimo aspecto de modernidade, como a ciência, são quase
700 mil mortos oficiais (número que pode ser muito maior) por
COVID-19 no momento em que este texto é escrito (março de 2022).
Sem contar as vítimas de LGBTfobia, feminicídio, e o genocídio
contra os povos indígenas. Todos os setores mais retrógrados da
sociedade brasileira se sentiram empoderados diante da difusão do
olavismo, e como que autorizados a transformar a aspereza das
palavras em atos daninhos e até mesmo criminosos.
E
a filosofia?
Conforme
dito, Olavo é anti-iluminista. Definir Iluminismo passa por
distinguir, no período em questão, as principais correntes
envolvidas. Cassirer (1932), em seu famoso estudo sobre o período,
não faz isto; ele toma os pensadores mais moderados como a vitrine
do movimento e deixa de fora as vertentes radicais. É exatamente
essa vertente que Israel (2001) considera. Assim, pode-se considerar
que Cassirer, bem como Gay (1966) analisam o Iluminismo mainstream,
o Iluminismo moderado, e não as capas mais avançadas do movimento.
Por isso, Cassirer (1932) pode dizer que o Iluminismo não era contra
a religião nem necessariamente materialista, mas, sim, se opunha à
superstição. Do mesmo modo, ele afirma, no que aliás Olavo
(CARVALHO, 1994) o segue, que o mecanicismo não era a filosofia
dominante do período, mas restrito a determinados setores, ou seja,
ao radical
Enlightenment de
que nos fala Israel (2001).
A
fonte primeiro dos radicais do Iluminismo é Espinosa. Este, como se
sabe, forjou uma filosofia monista, anti-superstição e que não
divide deus e natureza. Mecanicista, Espinosa negava os milagres e
elaborou um forte criticismo das Escrituras, opiniões que, na época,
poderiam resultar em punição até mesmo na liberal Holanda, onde
ele vivia. A filosofia de Espinosa foi proibida em vários países no
período, e a acusação de espinosismo marca maior de perseguição.
Em fato, ser taxado de espinosista significava ser considerado uma
pária social, alguém atentando contra os fundamentos mesmos da
sociedade, já que a crença em um deus transcendente, que
recompensaria os bons e puniria os maus, e cuja maior prova de
existência seriam os milagres narrados nas Escrituras —
e
negados por Espinosa —,
era tomada como guardiã da paz social, do reinado dos reis e da
pregação dos curas. Muitos pereceram no período por defenderem
posições progressistas ou minimamente divergentes da religião
majoritária, em um período de absolutismo, teocracia e desmandos.
Sem
esses verdadeiros campeões do livre pensar as sociedades ocidentais
contemporâneas seriam bem diferentes. Provavelmente, a ideia de uma
democracia com múltiplas vozes sendo ouvidas, as noções de
tolerância, o reconhecimento da igualdade de todos perante a lei, a
separação entre Estado e igreja e o direito de divergir da maioria
não seriam tal qual hoje se dão. Sem contar os incríveis avanços
em termos materiais que sentimos desde o Iluminismo, verdadeiros
fundadores do mundo moderno.
René
Guénon foi um pensador místico francês que enxergava uma
decadência no mundo moderno, conforme dito. Para ele, a perda de
centralidade dos saberes tradicionais, como a alquimia e a
astrologia, marcaria o mergulhar da sociedade contemporânea em um
abismo. Por isso, Guénon estudou as sociedades tradicionais da época
(primeira metade do século XX), nas quais o espírito moderno não
tinha chegado, como a indiana (de castas) e a muçulmana
(teocrática). Outro traço que, para ele, marcaria o declínio do
Ocidente seria a perda do papel de deus e da fé enquanto pontos
focais dessas sociedades, o que as arrastaria para um mar de lama.
Por isso, Guénon se converteu ao islamismo e foi terminar seus dias
no Egito muçulmano (GUÉNON, 2013).
Diz
Guénon (2013) que “o espírito especificamente moderno não é,
com efeito, como nos o mostraremos mais a frente, nada outro senão o
espírito antitradicional” (p. 17). Olavo recomendava Guénon para
os adeptos de seu curso e o tinha como uma de suas principais
influências. Olavo é, assim, amigo do rei, partidário de uma
sociedade antimoderna. É a revolta da intuição contra a razão, a
revolta dos mais reacionários partidários da antiga ordem contra o
novo mundo que se perfila à nossa frente. Não à toa,
criptofascista, já que, para os fascistas, o passado sempre é
melhor que o presente e o melhor que o futuro pode nos proporcionar é
o reviver do passado, ainda que em novas bases.
O
problema é que esse passado que se quer reviver é um passado de
violência, autoritarismo, medo, desconfiança e repressão. Um
passado onde mulheres não tinham vida pública, negros eram vendidos
em mercados, LGBT’s eram queimados vivos e qualquer pensamento
dissidente punido. Um passado onde não haviam direitos trabalhistas
e liberdade de pensamento era um privilégio ao qual nem todos podiam
se dar o luxo. Um passado que custou muito sangue para que nos
livrássemos e que pode ser contemplado em países como Arábia
Saudita. Um passado que a maioria dos brasileiros, acreditamos,
realmente não deseja.
Conclusões
Olavo
é a expressão, no campo do pensamento, das camadas mais
reacionárias da sociedade brasileira: neonazistas, integralistas,
fascistas, anarcocapitalistas, saudosistas da ditadura militar.
Enquanto servia para atacar os governos de centro-esquerda do PT,
encontrava voz na grande mídia. Depois da massificação da
internet, migrou para as plataformas digitais e, aos poucos, acumulou
forças, formando gerações de pessoas pseudo intelectualizadas e,
ao mesmo tempo, radicalizadas em suas posturas de extrema-direita. O
fato da maior parte da mídia ser liberal e apoiar a ordem
internacional do pós-guerra, com seu lastro em direitos humanos,
tornou os contrários a esta ordem vozes minoritárias, o que
alimentava o discurso de Olavo de que ele seria um paladino da
direita contra a ameaça esquerdista.
Caso
leiamos Locke, vemos ali um liberalismo muito diferente daquele
praticado hodiernamente. Locke ecoa os interesses de capas sociais
ciosas por mais poder político e em luta com o Antigo regime e suas
bases feudais. Em outros termos, Locke expressa uma posição de uma
burguesia ainda revolucionária. Olavo expressa os interesses de
camadas que foram tolhidas pelas vagas revolucionárias de séculos
atrás. Por isso, para ele, os direitos humanos, expressão de um
liberalismo ilustrado, se constituem em “pensamento esquerdista”.
Se vivêssemos no século XVIII, Olavo estaria contra o fim do Antigo
regime e a separação entre Estado e Igreja.
Diz
Olavo que
Ideologia
é isso: um discurso que, partindo de uma falsa visão do presente,
atrai os homens para a construção de um futuro que, depois de
pronto, é feio demais para que suportem reconhecer nele a obra de
suas mãos. Por isso os desiludidos de ideologias criminosas
raramente se apresentam como aquilo que são: cúmplices fracassados
de um crime sem recompensa. Apresentam-se como vítimas traídas pelo
destino. Falseiam o passado como falsearam o futuro (CARVALHO, 2013,
p. 328-329)
É
impressionante como as palavras de Olavo, destinadas a combater a
esquerda, se adéquam tão bem a seu próprio percurso. Olavo, que
ganhou fama maior após as Jornadas de Junho, saindo das trevas da
internet para as grandes editoras e livrarias, ajudou a dar
consistência teórica ao bolsonarismo, fornecendo uma cabeça àquilo
que só tinha mãos. Um pensamento, quando se apropria das massas, se
torna força política. As Jornadas de Junho, que eram, na prática
,manifestações contra o governo que demandavam mais direitos, foram
apropriadas pela direita. Havia uma correlação de forças desde o
fim da ditadura empresarial-militar que colocara a esquerda em uma
posição de combate, em um crescendum
que terminou nas eleições dos ultracautelosos governos do PT. As
Jornadas quebram essa situação e colocaram a direita na ofensiva.
Por uma série de manobras, que envolvem, em fato, conspiração de
derrotados,
lawfare,
interesses escusos e, certamente, dólares, construiu-se um governo
antipovo, que somente pôde ganharas eleições a partir de fraudes e
de uma população constantemente exposta aos malfeitos do PT,
através de uma campanha orquestrada pelos bilionários do país, que
buscavam, a todo custo, maximizar seus lucros. O resultado foram as
eleições de 2018, onde Olavo tinha candidato.
O
governo deste candidato, desastroso como não poderia deixar de ser,
acabou por escantear Olavo, malgrado o pensamento deste o abastecesse
com um fundo ideológico que a família presidencial, deficitária em
termos cognitivos, não seria capaz de prover. Olavo, como Dr.
Frankenstein, se assustou com a criatura, a qual constantemente
atiçava para medidas aventureiras, como um golpe de Estado, mas que
permanecia fiel aos militares que, no fim das contas, detém a
vice-presidência. Assim, renegou ele sua criação e, opositor das
vacinas e da Pepsi-Cola, provavelmente terminou morto por uma doença
para a qual já existiam medidas
profiláticas.
A profecia de Olavo, exposta acima, cumpriu-se. Pelo menos uma.
Olavo
trabalhava com temas de filosofia, mas não era filósofo. Não pelo
caso de sua ausência de educação formal, mas pelo fato do trato
que dava aos textos, faltando-lhe rigor, linguagem adequada e
reconhecimento dos pares. Byford (2011) afirma que é inútil e até
mesmo pernicioso debater com teóricos da conspiração, o que
termina por considerá-los interlocutores sérios. O livro dele data
de uma década atrás; quanta coisa mudou em uma década. As teorias
da conspiração chegaram à Casa Branca, ao Planalto, dentre outros
palácios presidenciais. Criticar Olavo significa mostrar como sua
“teoria” é desprovida de bases, meios, e que só possui fins:
restaurar um mundo caduco, manter privilégios de super-ricos, matar
pessoas, acabar com a diversidade humana. A ausência de
interlocutores foi sentida como superioridade argumentativa pela
sociedade, o que redundou na força que o olavismo, parte
intelectualizada do bolsonarismo, ganhou, trazendo-nos à presente
situação.
Conforme
dito, para Cassirer, o alvo primeiro do Iluminismo foi a superstição,
o misticismo, em uma Europa que ainda queimava pessoas na fogueira
por bruxaria. Olavo perpetua o novo mistiscismo, calcado nas inúmeras
fake
news
e delírios. Assim como naquele período, o principal combatente
contra o novo misticismo, turbinado por mensagens instântaneas e
poderosos interesses, é a filosofia. Assim, esperamos dar nossa
contribuição à luta contra esse misticismo ao mostrar como Olavo
nada mais foi senão um ideólogo, defensor do indefensável, sem
bases para afirmar o que afirmava, e que somente acertou em suas
análises caso estas sejam dirigidas contra ele mesmo. Afinal, ate
relógio quebrado acerta as horas duas vezes por dia. E Olavo era um
baita de um relógio quebrado.
Bibliografia
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O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. RJ:
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