domingo, 16 de junho de 2024

Estamos em guerra!

A história das relações entre filosofia e guerra é de longa portada: das diatribes de um Tales, na aurora mesmo da filosofia, às escaramuças de um Foucault no Irã, as relações entre filosofia e guerra persistem no mundo. Até mesmo existe a disciplina subvalorizada e escamoteada da filosofia da guerra, que deveria, nos diz um manual do Exército brasileiro, tratar das concepções as mais gerais e teóricas relativas à guerra. Rappaport é claro: quando países entram em guerra, entram em prélio também suas concepções fundamentais de mundo, sociedade, política etc. Ou seja, no campo de batalha são, em último caso, filosofias que aspiram à dominância. A filosofia não é, como querem alguns, nem inerme nem inocente, muito menos candura da aspiração às verdades eternas. Trata-se uma disputa séria, de vida ou morte, sobre os destinos dessa espécie em constituição que é o humano.
Marilena Chauí, no clássico Convite à filosofia, distingue uma certa postura, a filosófica, de outra, a do senso comum. Enquanto este domina e opera através dos marcos da religião e da boca miúda, a filosofia propõe um aparato crítico a fim de nos situarmos no mundo. Ela é, pensa Deleuze, inimiga da tolice e das assim chamadas verdades cotidianas do bom senso e do senso comum, ela é inimiga do agir sem reflexão, da crença em dogmas, da mesquinhez do solipsismo das nossas convicções não refletidas. Não são poucos os manuais que datam a filosofia ou, ao menos, seu ganho de estatura em Sócrates, famoso filósofo ateniense. Ora, o que Sócrates fazia e que lhe custou a vida era precisamente interrogar o senso comum a fim de demovê-lo das crenças fáceis, mas equivocadas daqueles que pretendiam saber e exerciam funções públicas e privadas a partir disso para o peso da vida examinada, crítica, pautada no uso da razão. A clara distinção platônica entre a doxa e a noesis, entre a mera opinião, atada às imagens, e o conhecimento das formas puras é um cartão de visita do inimigo primeiro da filosofia.
Mas não só. A filosofia surge em um contexto de mudanças sociais marcantes em toda a bacia oriental do mediterrâneo, ao menos a filosofia ocidental. Na metrópole, conflitos de toda ordem pela posse de terras em uma sociedade constantemente polarizada obrigaram setores inteiros a abandonar a terra mãe em benefícios de campos incultos em outras paragens. A filosofia, diz Farrington, surge nas colônias porque lá não havia o peso das tradições aristocráticas e mentais que havia em uma Corinto, Esparta ou Athenas. A filosofia é inimiga das tradições, especialmente daquela religiosa, já que ela surge em contraposição ao mito.
Mesmo no momento mais tenebroso da filosofia, quando ela é capturada pela mística oriental naquilo que conhecemos como patrística e escolástica, sua verve atuava contrariamente a essa própria mística religiosa, na medida em que os postulados filosóficos agiam não no sentido prático de fundamentar uma crença religiosa, mas, em sua própria atuação, fortaleciam a razão, a qual, usada de forma crítica, fatalmente há de criticar, como criticou, o mito. A teologia, já disse um sábio, nasce da falta de fé.
Essa disputa contra as forças do mito se estende por toda a histórica da filosofia cujo ápice é, precisamente, o século XVIII, o século decisivo da história do mundo. Com antecedentes importantes no centênio então extinto, os Iluministas definem o que seria uma tarefa filosófica por excelência e o que seria antifilosófico. A noção de antifilosofia surge precisamente em meados do século XVIII a fim de lutar contra os pensadores que sacudiam, por toda a Europa ocidental, as relações milenares entre trono e altar, que redundava em uma massa inculta, atada à terra, débil, de vidas curtas e crentes que o mundo era sofrimento, não gozo, e que pagavam pena nesta terra somente pelo fato de serem como eram: humanos.
Antifilosofia é um nome muito apropriado para dar conta das distintas manifestações que hoje abarcam a maior parte do mundo. De um lado, a velha esquerda e suas frações lutando por um novo mundo, racional, mas não a racionalidade burocrática d’O processo, que esmaga os humanos e lhes impõe uma vida de miséria. Mas contra o irracionalismo que pauta o sistema dominante, o qual vem acabando com a humanidade e o planeta. O liberalismo clássico, que assumiu formas revolucionárias na pena de um Locke, ainda que com os entraves que sua posição enquanto escravocrata implicava, desde muito tempo tornou-se antessala do fascismo.
As pessoas estão cansadas, maltratadas, doentes e desiludidas. Uma esquerda que deveria oferecer alternativas se ocupa em tornar o sistema melhor, como se quisessem borrifar sobre uma pilha de esterco um perfume francês. Ora, os inimigos da filosofia, os antifilósofos, os inimigos da humanidade, se comprazem com isso, uma vez que se alimentam justamente de sentimentos românticos, especialmente aqueles que afirmam a nostalgia por um passado onde as coisas eram melhores.
Trata-se de uma verdadeira contrarrevolução feita em nome de uma outra tradição ocidental contra a qual os filósofos têm se batido: a mística religiosa, os preconceitos de raça, o machismo, a homofobia, e, não menos importante, a guerra aos pobres e às colônias.
 Alliez e Lazzarato, em uma curiosa mistura de marxismo e pós-estruturalismo, e até mesmo Losurdo, mostram bem como o capitalismo faz, fez e se alimenta de guerras. Ora, trata-se de uma guerra civil planetária, cujo alvo é você, sou eu, somos todos, com a intenção de extrair lucros para uma minoria e condenar o restante à estafa, à exploração, à opressão e até mesmo à morte, como o faz a polícia brasileira com os jovens periféricos.
Agamben nos diz, em Stasis, que a guerra civil é um tema filosoficamente pouco desenvolvido e que estaríamos por esperar uma doutrina que dela desse conta. No correr do texto, ele examina Hobbes, autor do mais famoso tratado de apologia do absolutismo. Hobbes é apontado como materialista por muitos comentadores, ainda que dedique parte substancial do Leviatã a tratar de motivos bíblicos. Agamben mostra como a conexão é ainda mais profunda. Se Chevalier já mostrava como a famosa capa da edição original do livro era como que um resumo das ideias contidas no volume, Agamben opera com elementos de iconografia, a fim de mostrar como todo o edifício hobbesiano, famoso por se assentar na noção de que, no estado de natureza, é a guerra de todos contra todos que impera, é religioso de cabo a rabo.
Mas, já notara Foucault em seus cursos, Hobbes não propõe um pensamento que seja belicoso. Muito ao contrário: se há sociedade é porque a guerra de todos contra todos já se extinguiu e todos renunciaram a seu poder natural em benefício do poder soberano, único capa de domar as más paixões do homem lobo do homem. Foucault, por sua vez, opera com toda uma outra gama de conceitos, invertendo a fórmula de Clausewitz segundo a qual a guerra é a política continuada por outros meios. Assim, nos diz Foucault, é a política que é a guerra continuada por outros meios.
Política é um termo com muitas definições, que varia ao gosto do pensador ao qual se dirija a atenção. Ora, se pensarmos que o termo se liga à noção de pólis (termo de tradução ambígua, mas que podemos verter como cidade enquanto sinônimo de país), a política é a arte (porque nem ciência, nem técnica propriamente falando) de administrar a cidade. Tudo que está contido nos limites da cidade interessa a política. Nas relações humanas, bem pouco é ditado pela Ananke impiedosa, como a variedade de costumes, línguas, modos e formas de se portar bem indica. Assim, se tudo no interior da cidade importa e é determinado pela política, tudo poderia ser de outro jeito. Depende da liberdade humana que escolheu que fosse dessa forma, observados, obviamente, limites físicos e históricos.
Ora, essa escolha não se dá de forma clara. Não são sujeitos plenamente conscientes, capazes de avaliar coerente e racionalmente os destinos de seu país, porque o humano, como mostrou Freud, não é só razão. Nele operam forças maiores, anteriores à razão e coparticipes nos processos decisórios nos quais o humano tem seu quinhão. Para alguns, como Mandeville, seria justamente essas forças as mestras do destino da espécie, não a razão cartesiana de um cogito onipotente. Essas conclusões são tanto mais válidas quanto industrializada for uma sociedade, onde as forças do dito mercado operam de maneira constante de modo a forjar sujeitos aptos às exigências desse próprio mercado. A disciplina, como mostrou Foucault, nos aurores da modernidade constitui elemento fundamental para a constituição dos sujeitos propícios à exploração econômica e à servidão política. Hoje, bombardeados por propagandas, treinados desde pequenos ao consumo, manipulados por eslogans e estratégias de marquetim, moldados por um sistema de ensino que lhes prepara para a passividade, as pessoas são enquadradas em uma lógica de aço onde comprar é a medida de todas as coisas. Trata-se, no dizer de Alliez e Lazzaratto, nas pegadas de Foucault, de uma guerra de subjetividades; no jargão marxista, de uma guerra ideológica.
A política, retomando o fio da meada, trata, pois, da administração das coisas da cidade. Ora, todo o planeta se tornou cidade. Já Hakim Bey, no clássico TAZ, observava como já não há mais território selvagem. O Google mapeou todo o planeta, e os satélites captam em tempo real as mais ínfimas mudanças na superfície do globo. Dessa maneira, a Terra toda se tornou um campo de disputa da política. 
Mas só há política justamente porque poderia ser de outra forma, ou, dito de outro modo, porque há liberdade. A administração da cidade faz-se porque o humano é livre e pode escolher que o mundo não seja da forma como é em seu âmbito. Se as coisas tomaram o rumo que tomaram foi porque escolhas existenciais, como diz Vieira Pinto, que refletiram no formatar da sociedade foram tomadas. Essas escolhas, no caso de nossa civilização, têm repercussão estratégica e foram tomadas sem que os sujeitos envolvidos tivessem dimensão do alcance dessas decisões. Quem primeiro plantou uma semente não poderia imaginar que esse singelo ato redundaria em uma agricultura robotizada. 
Quando Tales resolveu substituir às explicações míticas do mundo uma outra, desdivinizada, ele não poderia estar consciente do impacto de suas ideias, nem os e as milhões de trabalhadores e trabalhadoras que, em um processo multimilenar, foram criaram e aperfeiçoaram as técnicas que redundariam na revolução industrial. Ocorre que essas mudanças se acumulam, são reinterpretadas, alteram o rumo, e têm efeitos sobre a cidade.
Quando os gregos passaram a cultivar um dos tipos de filosofia, eles fizeram uma escolha existencial: privilegiar o logos em detrimento do mito escanteado. Quando os atenienses adotaram a democracia, fizeram outra escolha: declarar a igualdade de todos perante a lei, perante a cidade. Quando os gregos deram justificativas racionais a fim de provar a existência de deus, já se mostrava a maquinaria que estava por se constituir, a racionalização do kosmos visando controlá-lo. O mito, claro, já indica um posicionamento de explicação do mundo, mas há um salto qualitativo entre a cosmogonia hesiódica e o fragmento de Anaximandro. Os gregos optavam, dessa forma, não por uma inspiração divina na forma das musas, por uma verdade revelada pelos deuses para explicar o mundo, mas pelo engendrar de cadeias causais de raciocínio que dessem conta de explicar a totalidade. Ao rei, os atenienses substituíram pelo povo como poder constituinte, à religião, a filosofia, à fantasia e inspiração, a razão.
Já se contou a história do Ocidente como a luta contra o obscurantismo religioso. A Idade Média, cognominada Idade das trevas, onde a teologia era mater suma, foi vencida pela recuperação precisamente dos antigos gregos, naquilo que ficou conhecido como Renascença, raiz mesma da modernidade. Evidentemente, os renascentistas beberam das fontes medievais, mas as rupturas são maiores que as continuidades, as forças que impeliam a mudança foram superiores àquelas conservadoras que queriam manter o mundo como estava. A vitória da luz da razão sobre as trevas do mito parecia ganha no século XVIII, cujo coroamento fora a Revolução francesa.
É comum que se oponha a razão à força. Temos insistido, com Trasímaco, no direito positivo e no fato de que, em uma sociedade, a razão é a conveniência do mais forte. O mais forte não se confunde com a maioria, mas, sim, com o mais organizado, o que facilita que grupos pequenos logrem grande influência caso estejam coesos e determinados. Assim, as massas silenciosas passam o cheque em branco para aqueles que conseguem manipulá-las. Ora, os interesses, outra palavra fundamental da política, que se opunham a uma radicalização do processo de desdivinização e racionalização do mundo, conhecido como socialismo, vertente consequente do Iluminismo, se aperceberam que esse iluminismo jogava contra suas posições. Assim, recuaram e adotaram elementos próprios do mito. Na forma política, isso se transformou no fascismo, nesse romantismo político que paira sobre nossas cabeças no atual momento.
O fascismo declara guerra às raízes mesmas da civilização, declara guerra à razão. Ele não fruto da razão, como querem alguns, somente se vale dela como meio, não como fim. Seu objetivo não é racionalizar o mundo, mas mistificá-lo. Seu objetivo não é, como manda a razão, assumir que os humanos são iguais entre si, mas declarar uma parte superior a outra. Seu objetivo não é garantir a todos as mesmas condições, mas perpetuar as desigualdades. Para tanto o fascismo pode assumir várias formas. No Brasil, as forças fascistas assumiram a forma do bolsonarismo.
Em um verdadeiro movimento preventivo, partes importantes da classe dirigente brasileira tomaram o partido do fascismo, a fim de impedir a radicalização do processo progressista iniciado na década de 70, com as greves operárias do ABC. Em uma lenta maturação, esses interesses foram acumulando forças, com apoio da mídia hegemônica e de embaixadas estrangeiras, até mostrar suas caras há uma década e originar organizações políticas fascistas. Calcados em notícias falsas e domínio das tecnologias de ponta, iniciaram uma guerra aberta contra os poucos avanços que que as forças populares tinham arrancado das classes dirigentes em momento de ascenso.
Esse processo não é só tupiniquim, mas global. Forças espúrias, que querem mitificar o mundo, dotados de recursos providos por bilionários com consciência de classe, atuam para impor uma derrota em todas as frentes às classes trabalhadoras globais e ao próprio planeta entendido como sistema. Como a Terra toda se tornou política e, para que o planeta permaneça habitável, necessitamos racionalizar o uso dos recursos, essa articulação de forças fascistas declarou guerra ao planeta como um todo, a vida mesma. Biopolítica in extremis.
Enquanto as forças iluministas não reconhecerem e agirem como se estivéssemos em uma guerra cujas trincheiras é a possiblidade de vida no planeta continuaremos a perder espaço. Os fascistas estão na ofensiva porque estamos enfraquecidos. Meio século de ataques neoliberais enfraqueceu de tal forma a classe trabalhadora, única força capaz de se opor, com suas organizações, ao avanço fascista, que hoje estamos vivendo uma surra de classes ― e somos nós nas cordas.
Reconhecer que estamos em guerra e que o socialismo é a única saída para os problemas estruturais significa garantir um futuro para o planeta. Socialismo ou destruição da civilização. Eis a palavra de ordem de nossos dias.

sábado, 27 de janeiro de 2024

Pontos críticos da relação psicanálise e homossexualidade

 Introdução


    Está registrado nos livros de história que, quando o processo de Oscar Wilde, do qual ele sairia preso sob a rigorosa lei britânica que proibia atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, Lord Alfred, seu amante, teria dito: “o amor que não ousa dizer seu nome:. Esse processo mundialmente famoso ocorreu em fins do século XIX. Rápidas mudanças se abatiam sobre o mundo, tendo a Europa como centro. Nos séculos precedentes, vários acontecimentos tinham decretado o fim do Ancien Régime e do feudalismo, bem como das expressões sociais deses fenômenos, cujo desenlace viria a ser o mundo contemporâneo tal o conhecemos.

    Como se sabe, um desses acontecimentos foi, justamente, a assim chamada revolução científica. De um mundo calcado na glosa de textos de Aristóteles e de suas distintas interpretações cristãs, passou-se a privilegiar a leitura do livro aberto da natureza. Nas palavras de Galileu, os novos tempos anunciavam que não mais os savants se fiariam na autoridade, mas, sim, na experiência, o que indicava uma disposição em conhecer mundo tal qual ele se dava, a experiência indicava e a razão, através de novos métodos, chancelava.

    O século XVII, além disso, viu, no campo da filosofia, ao qual a psicologia estava subscrita quando de então, a emergência de um novo modus philosophndi, o qual colocava no centro de suas preocupações a questão da interioridade, visto que, com Descartes, era o cogito que garantia a existência do mundo e, até mesmo, de deus. O cartesianismo e o debate sobre o estatuto do sujeito marcariam o devir filosófico desde então, ao mesmos em uma certa tradição, a qual desemboca na fenomenologia e no existencialismo.

    Ao passo que essas mudanças de monta ocorriam na filosofia, o cercamento dos campos, o êxodo rural e a concentração de seres humanos nas cidades, redundado em aglomerações humanas nunca antes vistas, também impunham novos caminhos, seja para os povos tantos, seja para o campo da reflexão teórica e científica, a qual via-se diante de novos desafios.

    Foucault (1975) mostra bem como esse acúmulo de humanos teria redundado nas ciência humanas. Ao passo que Marx estudou o processo de acumulação de capital e seus efeitos, Foucault estudou a acumulação de pessoas e seus efeitos. O indivíduo, imerso em novas relações sociais, er transformado em sujeito. O homem, como figura do saber, enfim deslocava deus e sua representação em benefício da centralidade nas coisas terrenas e mortais: nasciam as ciências humanas.

    Colocado no centro de uma nova cosmologia, o homem impunha uma série de novos campos de estudo, como, por exemplo, a sociologia, a linguística ou a economia política, além, é claro, da própria psicologia (Foucault, 1966). Data de finais do século XIX a certidão de nascimento da psicologia enquanto saber autônomo, desligada da filosofia. Seu objeto, como nota Foucault (1972), foi sobretudo o negativo do sujeito cartesiano, desqualificado pelo estudante de La Flèche, como incapaz de pensamento. Ao contrario, o homem louco, o homem sem estribeiras, surge como a figura em torno do qual a nova ciência vai se firmar.

    Da mesma foma, outra ciência dedicada ao homem, a medicina, também tem seu batismo científico não em torno da pessoa saudável, mas, sim, em torno do corpo doente, do corpo cujas membranas já não se comportam bem, cujo funcionamento está comprometido; além, é claro, dos efeitos que essa concentração de corpos impunha à política, como a questão dos cemitérios, da salubridade das águas ou dos miasmas dos matadouros e hospitais. Todo um novo mundo des possibilidades no estudos dos humanos se abriam, pautado, geralmente, no negativo do homem, não naquilo que se poderia chamar, à moda nietzschiana, ao redor de algo que afirmasse sua potência.

    Dentre os campos de saber assim formados, a psiquiatria, data de meados do século XVIII, quando Pinel desce até as masmorras da Salpêtrière e liberta os loucos das correntes. Ao longo do século seguinte, a disciplina passará por importantes mudanças e deslocamento, buscando um estatuto científico e uma visão de uma terapêutica das desordens mentais (Foucault, 2006).

    Essa busca pela saúde da psyché redunda, claro, em uma nosologia daquilo que se considerava anormal ou mórbido. Assim, Kraft-Ebbing, no final do século, publica sua Psychopathologia sexualis descrevendo alguns dos comportamentos mórbidos em matéria de relações e comportamentos sexuais. Dentre esses, ele cita a homossexualidade, termo recente e que, na época, concorria com outros, como uranismo ou inversão. Analisamos trechos do livro de Ebbing tangentes a nosso objeto; marca-lhe uma postura que, de forma alguma, poderia ser chamada de científica. Ao invés de descrever fatos e buscar-lhes a etiologia a partir de uma sintomática, impõem uma axiológica calcada nos valores morais e sociais dominantes da época e, destarte, mais julga que descreve. Aos olhos modernos, suas considerações sobre a homossexualidade, possuem pouco ou nenhum valor científico, servindo antes como contramodelos desse fazer e como registro histórico de uma impostura. Mas seu livro fez sucesso e se tornou, no período e muito depois, fonte de consulta da análise do tema e uma espécie de bestiário das práticas mórbidas, com toda a teratologia envolvida (Borrillo, Colas, 2005).

    Conforma apontado, essa obra influente determinou boa parte da produção posterior (Herzmann, Newbigin, 2023), especialmente as considerações do tema daquilo que Lantéri-Laura (1994) chama de psiquiatria positivista. Não faltam, no rol desses psiquiatras, considerações moralistas, trocando, destarte, o jaleco de cientista pela batina de padre.


Freud e a homossexulidade


    Nesse sentido, a obra de Freud foi uma pérola em meio à lama. Freud dedicou vários textos ao tema, inclusive tendo recebido em seu divã vários homossexuais, masculinos e femininos. Segundo Lantéri-Laura (2004), o texto de maior fôlego e influência onde ele aborda o tema são os Três ensaios sobre teoria sexual. Nesse texto, Freud (2015) faz uma série de apontamentos relativos àquilo que ele chama de Abirrungen, normalmente vertido por perversão. A formação do termo é significativa, uma vez que, nele, encontramos os termos ab- e irrun. O primeiro pode indicar, dentre outras coisas, origem, pertença; irrungen pode ser aproximado do verbo irren, errar, substantivado em Irrtum ou Irrung. Assim, ara sermos mais fiéis à filologia, talvez a tradução a mais correta seria aberração, do latim ab e errare. O sentido é claro: oriundo do erro, advindo do erro. Há, pois, uma certa carga que hoje chamaríamos de normativa ou heteronormativa no termo, o que se repete com a noção de inversão, a qual Freud também utiliza a fim de indicar a homossexualidade. O mesmo pode se dizer quanto ao terceiro termo que Freud se vale e que ficou consagrado, até bem pouco tempo, no tocante à homossexualidade: perversão. Também de origem latina, como inversão, significa mudar a direção, bagunçar, desarrumar, etc (Ernout, Meillet, 2001, p. 497).

    Mas, a nosso ver, assim como de boa parte da literatura consultada, essa tipologia freudiana vai na contramão daquilo que pensava, por exemplo, o dito Kraft-Ebbing, bem como boa parte das teorias e asserções relativas à homossexualidade na época. Mas, e este é o ponto fundamental, a teoria de Freud é suficientemente ambígua, em parte precisamente por essa terminologia, a ponto de os psicanalistas que lhe sucederam, inclusive sua própria filha, terem tido uma postura condenatória da homossexualidade, contribuindo, assim, com as perseguições às quais esses grupos foram expostos, e, até mesmo se opondo à ramas da medicina ou do direito mais progressistas e, para tocar na ferida, científicas do que a psicanálise ela mesma, a qual se proclama justamente ciência. Borrillo, Cola, 2005)

    Freud, como dito, chama, nos Três ensaios, a homossexualidade de Abirrungen, pressupondo, pois, que ela é um desvio da sexualidade dita normal, aquela sexual. Nesse momento, sua teoria está em desenvolvimento, por exemplo, o complexo de Édipo ou outros elementos, como a castração ou a inveja do pênis, todos nodais para a psicanálise, ao menos para àquela de corte freudiano. Mesmo assim, Freud identifica que haveria uma via pela qual toda a criança passaria no sentido de se desenvolver enquanto ser sexuado e que, nos homossexuais, essa via não se encontraria plenamente desenvolvida.

    Para Freud, a título de exemplo, a homossexualidade masculina seria fruto de uma incapacidade da criança em eleger um objeto sexual adequado. Ao contrário, as crianças homossexuais seriam aquelas muito apegadas à figura materna e que, após a fase de latência da sexualidade, na puberdade se colocariam no lugar da mãe e buscariam amar tal como a mãe os amou. Ou seja, na origem da homossexualidade estaria o narcisismo, o autoamor. Com isso, pressupondo, pois, que seria como que natural amar escolher um outro como objeto, ao passo que o homossexual elege a si próprio, ele perverteria, inverteria a sexualidade normal, em benefício de si mesmo (Freud, 2015).

    Mas Freud, em um mesmo golpe, na terceira parte do texto identifica não ó o homossexual como perverso, mas toda criança; etas seriam perversos polimorfos, posto que podem se desenvolver e se tornar perversos, desviando da boa rota da heterossexualidade normal. Assim, todos nós teríamos uma espécie de perversidade latente; nesse mar de perversões, o homossexual não estaria sozinho.

    A estes apontamento se pode juntar outros, também presentes na teoria freudiana em vários textos, inclusive nos Três ensaios, tal seja, o da bissexualidade natural dos humanos. Freud se apoiava na ciência de sua época e pensava, dessa forma, que nos estágios iniciais haveria uma espécie de indiferenciação sexual; o clitóris seria, a seu ver, um pênis não desenvolvido, atrofiado; ou, nos homens, os mamilos também seria mostras dessa bissexualidade congênita. Ou seja, tanto ninguém nasceria heterossexual ou homossexual, como, ademais, as pessoas teriam em si uma homossexualidade latente (no caso dos heterossexuais) ou um heterossexualidade do mesmo gênero. Com isto, descortina-se ainda outra via a fim de mostrar que todos somos perversos latentes.

    Apesar disso, em textos mais tardios, Freud não acreditava que se poderia curar alguém da homossexualidade. Ao contrário, diz ele em resposta à carta de uma mãe que lhe procurara a fim de que tratasse seu filho homossexual na Inglaterra (onde na época essa forma de amor era crime), ele defendia que essa condição seria normal e saudável, sendo sua desqualificação e repressão um mal social, não psíquico. Para ele, no caso desse jovem rapaz, ele poderia esclarecer as origens de sua homossexualidade e ajudá-lo a lidar com ela, mas ão curá-lo.

    De conjunto, portanto, podemos afirmar que, ao passo que Freud se baseia em uma heteronormatividade, ele rejeita vários elementos que serão caros à psicanálise posterior. Ele não crê que a homossexualidade seja uma doença e, portanto, ela não pode ser curada. Identifica nas relações sociais que cercam o sujeito homossexual boa parte dos sofrimentos dela advindos, ao mesmo tempo que indica a alta proporção de homossexuais com vidas absolutamente normais e que contribuem com à comunidade, distinguindo-lhes da maioria somente pelo detalhe de sua homossexualidade.

Psicanálise homossexualidade e críticas após Freud


    Saltemos 100 anos. Em 2005, Graciela Barbero, psicanalista brasileira, publicou um curioso livro sobre o estatuto da homossexualidade (que não seria um conceito psicanalítico, nos diz) na psicanálise. Os primeiros capítulos de seu livro são dedicados a mostrar como, graças às ambiguidades de Freud, os psicanalistas posteriores consideraram a homossexualidade uma perversão e se propuseram a tratá-la. Ela indica, como também o fazem Herztmann e Newbigin (2023) como a patologização da homossexualidade pelos psicanalistas chegou ao ponto deles se oporem à sua exclusão do catálogo de doenças do DSM ou, especialmente nos países de língua inglesa, o veto ao treinamento de homossexuais enquanto analistas. Para que se tenha uma ideia, Herztmann e Newbigin (2023) incluem nos anexos de seu livro uma carta de retratação da Sociedade Britânica de Psicanálise, onde ela se desculpa elos malfeitos e maltratos dirigidos aos homossexuais; o detalhe é que a carta data de 2021!

    Lantéri-Laura (1994), em seu estudo clássico sobre a patologização da sexualidade, originalmente publicado em 1979, nos conduz pela mesma via. Segundo ele, o fato de Freud ter caracterizado a homossexualidade como perversão, implicou na patologização da mesma, na discriminação, no preconceito e no sofrimento a muitos sujeitos ao longo de praticamente todo o século XX. Para Lantéri-Laura, esse quadro era drástico e ele não enxergava na psicanálise de então mudanças de monta relativas ao tópico. Contudo, nas sombras, essas mudanças já começavam a aparecer.

    Mieli (1977), por exemplo, publicara seu influente livro sobre o tema, pautando em uma leitura marxista da psicanálise, um tanto quanto reicheana, mas distinta da mesma. Reich, como se sabe, considerava a homossexualidade natural, mas, no mesmo golpe, a pensava como fruto da decadência da sociedade burguesa, destinada a desaparecer com o socialismo. Mieli (1977) faz uma crítica profunda aos pressupostos heteronormativos da psicanálise de então, mostrando como a homossexualidade é social tal qual a heterossexualidade, mas em uma via diferente daquela de Foucault, do qual trataremos na sequência. Mieli pensa que a sociedade de então era marcada pela homofobia, e que somente uma profunda mudança social poderia alterar esse quadro. Para ele, as pessoas eram encaminhadas à heterossexualidade através de uma série de mecanismo, naquilo que ele chama de educastrzione, ou seja, educastração.

    Foucault foi outro que dirigiu críticas muito severas à psicanálise e, não somente, ao freudomarxismo em particular. Para Foucault, pode-se aduzir de seus textos, a psicanálise seria a continuação de técnicas muito antigas no Ocidentes, nascidas no final da Antiguidade e na Antiguidade tardia, bem como no movimento da Contrarreforma. As ciências psi, nesse sentido, seriam, pode-se dizer, “coisa de padre”, preocupadas em normalizar os sujeitos. Nesse movimento, ela se confunde com uma série de técnicas destinadas a adequar os indivíduos às sociedades contemporâneas, no marco tanto de uma anatomopolítica quando de uma biopolítica. Deleuze e Guattari, assim como Foucault, introduziram críticas severas à psicanálise, as quais não abordaremos.

    Graciela Barbero (2005), entretanto, enxergava em uma figura contemporâneo aos três autores acima citados uma outra visão da homossexualidade, mais coincidente com àquela original e não comprometida nem com a homofobia nem com uma visão heteronormativa: a de Lacan. O texto de Barbero é eivado de citações do mesmo, que chega a replicar Foucault, trabalhando com o mesmo gênero de posições de Freud: universalidade da perversão, impossibilidade de se fornecer uma terapêutica para a homossexualidade, etc. Remetemos os leitores a esse livro a fim de maiores informações.

    O livro de Barbero (2005) é um verdadeiro compêndio de homofobias mascaradas de ciência. Ela chega a citar um psicanalista que afirma que os homossexuais, quando brigam, gostam de se valer de armas pontiagudas a fim de causar vaginas artificiais nos seus parceiros e, destarte, substituir a vagina que eles conscientemente rejeitam.

    Também Herztmann e Newbigin (2023) mostram como a homofobia se fez presente na psicanálise, mas seu estudo é focado em países de língua inglesa. Sua coletânea de causos e análises indicam que até mesmo Anna Freud, filha do mestre de todos nós, não foi fiel aos ensinamentos do pai. Assim como Guérin (2013) indica a homofobia internalizada como fator preponderante para as posições de Reich, também Herztmann e Newbigin (2023) fazem o mesmo, ao salientar traços lésbicos na psyché de Anna Freud.


Considerações finais


    À guisa de balanço,notemos que a data de dois livros que tratam do tema, os quais citamos, são muito recentes: Barbero (2005) e Herztmann e Newbigin (2023). Disso se pode aduzir que a psicanálise tem muito passado em seu futuro e que uma grande mudança de perspectiva está em curso. É fato de monta que, nesses dois livros, sejam dadas orientações a fim de que se proceda a uma psicanálise livre de homofobia, no caso de Barbero (2005) através de Lacan; já em Herztmann e Newbigin (2023) através de uma análise de caso e outras indicações pautadas na experiência das autoras no mundo analítico anglo-saxão.

    De toda forma, se essas mudanças já começaram e se, atualmente, uma série de mecanismos de proteção e acolhimento de uma população historicamente marginalizada já estão em marca, é patente que a psicanálise, de forma, a nosso ver, surpreendente, contribui com sua exclusão, opressão e, em alguns casos, eliminação física.

    Reza a tradição que Santo Agostinho teria escrito Errare humanum est, perseverare autem diabolicum. Como as mudanças já ocorreram e estão em andamento, cremos que a psicanálise contemporânea já se encaminha no sentido de remediar os erros do passados e cumprir sua missão tal qual pensada por seus criadores: mitigar o sofrimento humano.


Referências bibliográficas


BARBERO, Graciela Haydée. Homossexualidade e perversão na psicanálise: uma resposta ao Gay & Lesbian Studies. São Paulo: FAPESP/Casa do Psicológo Livraria e Editora, 2005

BORRILLO, Daniel. COLAS, Dominique. L'homosexualité de Platon à Foucault. Anthologie critique. Paris: Plon, 2005

ERNOUT, Alfred. MEILLET, Antoine (2001). Dictionnare étymologique de la langue latine: histoire des mots. Paris: Klincksieck, 4ª ed.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la folie à l’âge classique. Paris: Gallimard, 1972

_________________. Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966

_________________. Naissance de la biopolitique. Paris: Gallimard/Seuil, 2004

_________________. O poder psiquiátrico (1973-1974). Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006

_________________. Surveiller et Punir. Paris: Gallimard, 1975

FREUD, Sigmund. Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Sigmund Freuds Werke Band 2. Göttingen: Vienna University Press, 2015

GUÉRIN, Daniel. Homosexualité et révolution. Paris: Spartacus, 2013

HERTZMANN. Leezah. NEWBIGIN, Juliet. Psychoanalysis and Homosexuality: a contemporary introduction. London/New York: Routledge, 2023

LANTERI-LAURA, Georges. Leitura das perversões. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994

MIELI, Mario. Elementi di critica omosessuale. Torino: Einaudi, 1977

domingo, 21 de janeiro de 2024

Dolmancé

 Nada como introduzir-se

Em um buraco oco,

Oco e quente,

Um buraco desses que pertence

A toda gente


Nada como se sentir preenchido

Por um membro túrgido,

Forte e rijo

Um membro endurecido


Nada como tomar o sumo

Do pendular de um macho

Essência a qual sugo

E, nesse trago, me desfaço.


Melhor que tudo isso

É estar ao seu lado,

Princípe em tudo castiço,

Rei de meu coração devastado.


S.C. verão de 2024

У нас

 A fumaça eleva-se tórrida

Das plantações.

O sol já deitou seus raios

Que fulminam a terra

Cessando, enfim, o calor.

Mas, nas dobras do peito,

Há uma brasa, um ardor.

Não é solar

Nem puro fruto do coração.

É o desenrolar da vida

E do sentimento,

São os espíritos animais

Levando movimento aos membros.

É o cio da sensação

Que arrebata e conduz.

É o pensamento fixo,

Não nas montanhas ou nos lagos

Ou nos arcaicos paradoxos,

Mas pregado no corpo: no teu.

Mira certa na alma: a tua.

Desejo de expandir o quentume,

De me locupletar

Nas suas reentrâncias e protuberâncias,

De me saciar na tua fonte coberta

Oásis no deserto do ser.


S.C., verão de 2024

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Lamento

Chorou a vó

Chorou a tia

Chorou a mãe

Chorou a prima

Chorou a amiga

E chorou até

A desconhecida.

Só não chorou a vontade

D'eu ser o que quiser

Na vida.


S.C. verão de 2024

domingo, 14 de janeiro de 2024

MKNS VIII

 Já não sinto triste

Quando penso em você.

Sinto tua falta,

Mas me sinto abraçado.

Sinto teu hálito muito vivo,

Mas sei que o odor é morte.

Sinto teu desespero

Fundo, ósseo,

Mas também sei que o abraço final

Que tanto almejou

Foi para ti o alívio do fardo.

A vida é bela, MKNS,

Com você ou não.

Sem ti os dias são mais agressivos

Mas ainda são dias.

O ser é implacável:

Nos mastiga e digere

Mesmo na evasão

Então, para que a pressa?

Para que conjurar

Aquilo que está sempre aqui?

Regredistes a pó de estrelas.

Mas as estrelas brilham

Por muito tempo.

Teu brilho foi breve,

Ainda que intenso.

Quero brilhar bem mais que ti.

E eu, do brilho a conquistar,

Te farei parte do meu todo,

Te darei o tranquilo das estrelas,

Que você não soube esperar.

Assim, no firmamento infinito,

que nos apequena e engrandece,

Tornaremos a nos rever,

Eu, com meu brilho de estrela mambembe,

E você, estrela alta e fúlgura,

Sensação do céu noturno.


S.C., verão de 2024

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

MKNS VII

 Goza comigo esse instante,

com o astro a se derramar

Tornando pleno o horizonte


Seja comigo a jovem

Que partilhava um futuro

Sem nenhuma nuvem


Esquece o mundo

Além dos olhos

E do dinheiro imundo


Toma o instante pelo pescoço

Sente a brisa

Deixa o zéfiro entrar no teu osso


Agora, tempo corrido,

É só uma sombra

Na minha mente, na minha libido


Sim, tornastes a pó

Sim, estais morta

E sua vida, obra rococó


Agora, pesa sobre mim,

Pesa sobre os vivos

Com peso sem fim


O que resta é te comemorar

Quando de ti me lembro

Quando sinto o coração pesar.


S.C., verão de 2024