terça-feira, 23 de maio de 2023

Minha terra

 Na minha terra há cervejarias


Onde eu vou para mamar


As brejas que aqui se fazem


Não são como as de outro lugar


Não permita deus que eu morra


Sem antes me embriagar


Na Ribeirão ardente


Na qual o sol vem queimar


Paris dos trópicos


Última geração


Mas como é malvada


Com quem não tem tostão


Ribeirão Preto sua ingrata


Não me dá uma mão


Mas a cerveja é muito boa


Caio, embriagado, no chão


S.C., outono de 2023

Ode ao humano

 O humano

Ser divino profano

Expressa a contradição

Os céus pinta

O inferno faz com a mão.

Não há quem não sinta

Não há quem não se comova

Com sua capacidade.

É o mesmo bicho de alcova

Que mostra sua maldade

Oxalá o mal possa ser arrancado

Para que junto

Humano do norte, do sul, do cerrado

Vigore a paz de conjunto

A paz almejada

A beatitude do real

Sem morte matada

Em uma espiral

Que nos conduza do nada

Ao coração do real


S.C., outono de 2023

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Numeradores indefinidos, R. O. Wiemer [tradução]

 Todos sabiam

Grande quantidade sabia

Muitos sabiam

Vários sabiam

Alguns sabiam

Poucos sabiam

Ninguém sabia


Unbestimmte zahlwörter


Alle haben gewusst

Viele haben gewusst

Manche haben gewusst

Einige haben gewusst

Ein paar haben gewusst

Wenige haben gewusst

Niemand hat gewusst


Rudolf Otto Wiemer (1905-1998)

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Lucrécio

Em um dia foste criado


Em um dia há de perecer


Um dia como hoje,


Onde havia sol ou chuva


Havia frio?


Fazia quente?


As pessoas labutaram esse dia


E, como qualquer outro dia,


Dormiram,


Amaram,


Odiaram


E, já cabecinha no travesseiro,


Pensaram: mas que dia!


Talvez tenhas tido a sorte


De ser filho da noite,


Quem sabe das madrugadas


(A deusa Embriaguez abençoa


Os filhos da noite).


Se tiveres sorte,


Morrerás dormindo,


Como em um sonho.


E no outro dia,


Será outro dia


E o mundo há de seguir seu curso


Até que a Estrela voraz


Nos engula


E sejamos poeira.


Na escala do tempo,


Tua vida não durou nem um dia


Por isso,


Por seres tão minúsculo,


Aproveita o tempo que tens,


Goza do instante,


Pois, de volta em volta,


A hora da estrela se aproxima

Outono de 2023

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Da utilidade da filosofia

 

“A filosofia não é útil”. Assim começava nosso ex-professor Lúcio Prado a ministrar seu curso de Filosofia moderna na UNESP de Marília. Com isso ele determinava, de uma vez por todas, uma velha questão que remete a séculos, à aurora mesma da filosofia, a questão de sua utilidade. Questão antiga, que nos leva a Tales.

Esopo, o fabulador mais conhecido do mundo, dedicou uma historieta àquilo que ele chama de astrônomo. Vagando pelos campos, observando as estrelas e confabulando consigo, um astrônomo cai em um poço e é vítima da troça geral. Alguns ligam essa fábula a Tales, o dito primeiro filósofo da tradição ocidental.

O mesmo argumento vamos encontrar em Aristófanes, na peça “As nuvens”, onde ele se dedica a descrever as peripécias de um Sócrates. O título seria devido ao fato do personagem alvo viver com a cabeça nas coisas do céu, esquecendo-se de se ligar aos problemas terrenos. Na peça, Sócrates é descrito como tendo preocupações tais quais medir o tamanho do salto de uma pulga.

Essa imagem do filósofo amalucado, preocupado com questões desimportantes, preocupado com coisas as quais não interessam a ninguém é, como se vê, muito antiga. Fora da literatura, na Metafísica de Aristóteles, ele mesmo afirma que a filosofia surge do ócio e que somente após a constituição das ciências da utilidade é que foi se constituir a própria filosofia enquanto tal. Ou seja, a filosofia se oporia ou seria secundária em relação às ciências mais importantes.

A mesma literatura nos oferece contraexemplos. Pesemos ainda em Tales. Diógenes Laércio, que escreveu uma Vida dos filósofos ilustres, nos mostra como Tales, cansado de ser zombado por suas pesquisas, resolveu mostrar que seu saber era de grande valia e que ele somente não se dedicava às coisas ditas “úteis” por escolha própria. Prevendo uma boa colheita de azeitonas, mandou alugar todas as moendas da cidade. Dito e feito: a colheita foi esplendorosa e, como ele estava em usufruto de todo o aparato destinado ao beneficiamento das olivas, ganhou muito dinheiro.

Outros exemplos da Antiguidade podem ser dados, seja o papel que se determina aos filósofos na República de Platão, com o concomitante reconhecimento do mais alto grau de importância que se deve reservar à filosofia, seja com a função terapêutica da filosofia nas escolas de pensamento pós-aristotélicas, ou, ainda, no uso que os sofistas faziam da lógica avant la lettre nas disputas pelo assentimento da assembleia ateniense.

Determinações opostas, portanto, e noções muito diferentes da filosofia. Caso ela seja inútil, não haveria motivos para se destinar o suado dinheiro dos contribuintes ao seu cultivo. Filósofos que defendem esta posição estão, por assim dizer, tomando sua cicuta própria. Afinal, se ela for mero joguete, mero passatempo, um pouco complicado, confessemos, qual a razão de se a entreter, de regar a horta dos amigos da sabedoria? Não estamos tratando do banimento da atividade, mas do financiamento público das pesquisas, já que o mercado, parece concordar com essa afirmação e, assim, reserva poucos empregos fora da docência para os filósofos. Empresas que contratam inúteis? Difícil de encontrar.

Ao mesmo tempo, essa parece ser a prova a mais cabal de se provar que a filosofia é inútil: as empresas não os querem, “eles não fazem dinheiro; ao contrário, vão questionar quem quer ficar rico”, “vão impor entraves e plantar a semente da dúvida nos empresários de si mesmo”. “A filosofia não só é inútil para o mercado, como é até mesmo nociva para o mercado”. “Não são os cursos de filosofia antros de esquerdistas?” “Não são as faculdades de humanas a Meca de tudo aquilo que quer questionar a ordem atual?” “Não, a filosofia é uma desutilidade para a sociedade moderna”, dirão. Quase escuto a voz de Lehmann falando enquanto escrevo estas linhas.

Mas, ali, já encontramos mais determinações. Não é bem que a filosofia seja inútil. Ela o é se considerarmos o modelo de utilidade estabelecido pelos poderes dominantes. Para o mercado, a primeira vista, a filosofia é inútil, já que os filósofos não produzem, ou produziriam, mercadorias, que podem ser vendidas. Sua mão de obra, malgrado altamente especializada, não completa os requisitos para se tornar um bem comercializável, já que o principal efeito da filosofia é sobre os sujeitos. A filosofia, assim, não poderia ser expostas em gôndolas ou negociada na bolsa.

Essa noção, ao que parece, já foi ultrapassada. Quantos cursos de filosofia pagos são ofertados atualmente? Quantos livros de filosofia são vendidos e comprados? Ou seja, mesmo para o mercado, há um nicho de leitores e estudantes muito bem dispostos a oferecer quantias a fim de se instruírem na velha senda da filosofia. Ela não é inútil, nem mesmo para o mercado, que consegue capitalizar em cima da formação das pessoas. Trata-se da noção de capital humano, e, com isso, do savoir-faire das pessoas, já que outro tipo de competências têm sido demandados no mundo corporativo. Ou seja, mesmo para os defensores de um estrito capitalismo, a filosofia tem lá suas belezas. Ela não é inútil.

Até porque, desde meados da Revolução industrial, o saber e os processos produtivos, estes que geram muito dinheiro, originário da exploração dos trabalhadores, se interconectaram de maneira muito profunda. Claro, para produzir qualquer coisa que não seja meramente corporal, é necessário saber. Mas a escala na qual ciência e produção se interconectaram é sem paralelos na história do globo, não só pela ideia mesma de aplicar os saberes daqueles que viviam medindo o pulo da pulga  no fabrico de produtos, como ademais pelos impactos incomensuráveis sobre a vida das pessoas e tudo que daí se seguiu. Como nota Lyotard, o saber é algo da mais extrema importância no mundo moderno. E a filosofia, por conseguinte, também o é. Não como mochileira, que pega carona na boleia alheia, mas como motorista, uma vez que novas ciências só podem nascer de um tipo de atividade na qual os filósofos são mestres: interrogar, duvidar, perguntar as causas, os meios e os fins.

Claro, há um grave problema: quando se começa a perguntar, não se sabe aonde vai parar. As questões se interligam e, de repente, às três da manhã encontrar-nos-emos pesquisando sobre a história da ideia de força. Mas a dúvida, essa sementinha potente que a filosofia faz plantar na mente das pessoas, é o começo da sabedoria. Para Platão e Aristóteles, era o maravilhamento, como preferimos traduzir, ou a admiração ou espanto, como querem outros. Quando se começa a duvidar das coisas e se empreende uma pesquisa a fim de sanar a dúvida, eis um filósofo. Quando se começa a crer com demasiada fé, sem se indagar jamais, eis um noviço.

Tratamos apenas de uma facetada utilidade da filosofia. Ela ensina habilidades importantes até mesmo para o mundo corporativo. Há outras, mas, essas, ficam para outro texto.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Cada pessoa com a sua Lídia

 

Quando a morte vier,


Marcela,


Que ela me encontre doce


Indisputado, sobre as asas da vida


Para que eu vague,


Nos suspiros finais,


Nos campos de girassóis


Que ambicionamos em nossa juventude.


Que eu saiba estar sereno


Sabendo que esse é o destino


De tudo que respira.


Que as pérolas que o Sol,


Um astro dentre tantos,


Derrama no vasto céu,


Minúsculo perto de teu candor,


Alumiem meus últimos minutos


E mostrem que a vida é um nada,


Mas que é tudo que temos.


Ah, Marcela,


Que em minha última visão


Eu veja a ti,


Inconclusa acerca de Basquiat,


Mas certa de seus poemas


E de sua música.


Que a melodia final seja um gosto de reencontro


E o passaporte da liberdade:


Dissolver-se no todo


E retornar à mansão tranquila


Do primeiro trago de ar.


Outono de 2023


sábado, 11 de março de 2023

Era Foucault um liberal? Breves palavras

 

No final de 2008, quando eu ainda era um jovem estudante em Marília, na UNESP, decidimos, nós da Moradia Estudantil, criar um grupo de estudos e ação que reunisse comunistas e anarquistas, o Moradas Comuna, o qual acabou por render muitos bons frutos, diga-se de passagem. Um dia, já em 2009, estava eu tranquilamente passeando pela universidade quando um estudante marxista mais velho desse grupo falou que havia alguém que queria me conhecer. Era Ivo Tonnet. Este me disse que um autor havia chamado sua atenção no último período e que ele queria conversar sobre ele com um anarquista. O autor era Makhno. Eu logo lhe disse que gostava muito de Makhno, mas que estudava Foucault. Tonnet então replicou: mas este é um liberal!

Tonnet não está só em sua afirmação. Muitos autores, especialmente marxistas, acusavam Foucault de ser um liberal, autores como Bidet, que chega a se perguntar se Foucault não se reconhecia os autores neoliberais que estudou no curso Nascimento da biopolítica. Eu, que sempre entendi, desde o momento que comecei a lê-lo, Foucault como mais próximo do anarquismo, acho descabida a comparação. Mas, como aquele professor marxistas convicto de Marília disse, o anarquismo é um liberalismo. Ou seja, não se pode tomar a régua marxistas como parâmetro já que, tudo aquilo que, para eles, não siga sua rígida cartilha, automaticamente está do lado de lá e é defensor da burguesia, reacionário e outros belos adjetivos que reservam a quem deles discorde.

Mas também há conservadores que pensam Foucault como pertencente ás suas hostes. Já escrevi aqui sobre um deles (https://filosofiabrasileirapolitica.blogspot.com/2020/02/foucault-e-os-aplicativos-de-entrega.html). Este autor, Gonsález, colombiano, pensa Foucault junto a Tomás de Auino e Mises para fazer uma defesa esdrúxula do capitalismo, da Igreja e do machismo. Não vale a pema ler.

Também não estou só em pensar Foucault como um anarquista. Em um curso na mesma UNESP de Marília, há mais de dez anos, Sílvio Gallo disse que considerava Foucault anarquista, mas que ele não se assumira exatamente por ser tão anarquista. Acrescentou o nobre professor que ele também era anarquista, mas se acreditava o único no mundo. Prontamente eu disse: eu também sou anarquista. E logo uns dez outros estudantes, em um auditório com umas 60 pessoas, foram se identificando como anarquistas. Sílvo Gallo estava no ninho das serpentes e não sabia. No final, lhe dei de presente meu exemplar pessoal do Anarquismo Social e Organização da FARJ. Espero que tenha feito bom proveito.

Sílvio Gallo é somente, dentre muitos outros, que não veem liberalismo em Foucault, mas anarquismo, uma lista de autores que arrebanha gente como Vaccaro, Passetti, Avelino, Rago, etc. Afinal, será Foucault um liberal ou um anarquista?

Na biografia que Eribon redigiu sobre Foucault há um trecho interessante onde Foucault e Vuillemin, um filósofo da matemática, trocam um diálogo. Foucaultt diz a Vuillemin, segundo Eribon, algo do gênero: “o que nos separa é que você é um anarquista de direita, enquanto eu sou um anarquista de esquerda”. Essa afirmação é o ponto de partida do famoso texto de Vaccaro sobre Foucault e o anarquismo, como se sabe.

O que seri um anarquista de direita, é difícil de aquilatar, já que o anarquismo é um tipo de socialismo. Claro, há aqueles liberais delirantes que pensam a divisão esquerda-direita como ligada à defesa do Estado ativo ou não na economia: quanto mais ativo, mais à esquerda, quanto menos, até sua completa extinção, mais à direita. Nesses termos, o anarquismo seria uma teoria de extrema direita. Fantasia completa, uma vez que a dita divisão se resolve na questão da divisão do produto social e da defesa das tradições (opressões) sociais. Ou seja, quanto mais igualitário, mais libertário.

Para pensarmos se Foucault pode, fora da régua marxista, ser pensado como um liberal, deveríamos, em primeiro lugar, exigir uma definição de liberalismo. Esse se divide em liberalismo econômico, cujos primórdios vão longe, mas cuja expressão madura se encontra em Smith; e liberalismo político, vincado pela defesa da propriedade privada como fundamento do poder político, e certamente sua origem é mais antiga, remontando a Hobbes e Locke. Em ambos os casos, a defesa da propriedade privada e do sujeito de direito são fundamentais para ambos.

Quanto ao liberalismo econômico, Fooucault não pode ser assimilado. Não há, em sua obra, defesa da propriedade privada. Ao contrário, ele aponta como o liberalismo se constitui em um primeiro marco da biopolítica enquanto gestão da diversidade humana em sua multiplicidade, em benefício de políticas que privilegiem uma população saudável. No segundo caso, Foucault tampouco pode ser entendido enquanto um liberal, uma vez que não se encontra uma apologia da democracia burguesa, muito menos das ditaduras de tipo Pinochet em seus escritos.

Além da denúncia do liberalismo como desencadeador da biopolítica, Foucault ainda denuncia, em Vigiar e Punir e outras obras e intervenções, o momento de triunfo maior do liberalismo, o século XIX, enquanto sociedades disciplinares, com raízes mais antigas, mas que correspondem ao próprio processo de formação do capitalismo. A disciplina deve ser entendida como uma tecnologia de poder que visa obter “corpos politicamente dóceis e economicamente úteis”.

Foucault se especializou, em sua fase de estudos mais políticos, e até mesmo antes, a criticar o tratamento o qual se reservava aos desviantes, como os loucos, as bruxas e os criminosos,; as perseguições que sofriam as minorias, como mulheres e homossexuais. Ele apontou o racismo como constituinte da governamentalidade moderna; se aliou, na vida política prática, com aqueles que lutavam contra ditaduras, como no caso brasileiro, tunisiano ou espanhol, dentre outros; denunciou a tirania e os regimes do leste ou oeste, ou seja, estalinista ou capitalista. O próprio fato de pensar Foucault como um teórico do liberalismo não possui consistência ou base histórica.

Mas, se Foucault não é um pensador de direita, nem comunista, o que seria? A nosso ver, Foucault pode ser pensado, com maior justiça, como um anarquista, mas um tipo com não muitas ligações com o anarquismo tradicional. De alguma Forma, Foucault e outros pós-estruturalistas, refundam o anarquismo. Lembremos que este havia sido praticamente dizimado após a derrotada Revolução espanhola (1936-1939). É no pós-68, sobretudo, que o anarquismo vai renascer mundo afora.

Mas, a maior parte das obras políticas de Foucault é descritiva. Ele chegou a afirmar que era um “positivista feliz”, e Veyne, em seu livro de memórias com Foucault, o descreve como alguém que amava os fatos. Por Foucault recursar-se a exercer um papel de diretor de consciência e muitas vezes se calar quando deveria falar (a nosso ver), ele deu azo a muitos enganos e más interpretações. Foucault faz lembrar a nós mesmos, quando pensávamos que os anarquistas não deveriam dirigir processos. Com seu conceito amplo de governo como “arte de conduzir condutas”, Foucault fez de tudo para evitar se tornar um governante. Ao contrário, preferiu lutar e escrever ao lado dos governados.