terça-feira, 1 de março de 2022

Sobre a Ucrânia

 

À exceção do Facebook, ninguém me perguntou o que penso do atual conflito na Ucrânia. Mas, como se trata de evento crucial na Estratégia contemporânea, com significações muito além dos vizinhos e que nos afetam diretamente enquanto formação periférica do capitalismo global, resolvi escrever algumas linhas.


Estratégia é a ciência dos meios, ciência do mais alto interesse para qualquer Estado. Poder, além de um substantivo, é um verbo que indica as possibilidades de cada qual em realizar tal ou qual feito. Assim, não há poder sem estratégia nem estratégia que não se imiscua com algum poder. Claro, devemos distinguir entre força e poder. Força é a capacidade de atuar sobre o mundo físico; é a dynamis dos gregos, muitas vezes traduzida como potência. Recuperemos e distorçamos Aristóteles e pensemos que a força é a capacidade de tornar aquilo que era mera possibilidade em ato. Nesse sentido, todos os entes possuem alguma força, já que constantemente agem sobre o mundo, alterando-o. Tudo está cheio de deuses: o kosmos possui movimento, as partículas vibram, se destroem, dão origem a novas.


O poder é um tipo especial de força, já que ele age em uma sociedade, ou seja, age sobre outros humanos, determinando suas condutas ou insuflando sua reação. Poder é a força em sociedade orientado por uma estratégia. Nem toda força em sociedade é um poder, mas todo poder só existe em sociedade. A força não se vale de estratégias, mas de estrategions, termo nosso, que utiliza o termo estratégia com o diminutivo grego — ion; poderíamos dizer, estrateginhas. Todo poder utiliza estratégia, portanto, mas somente algumas relações de poder são estudadas pela ciência da Estratégia, ciência pristina, velha como as pirâmides, mas que só se firmou ainda muito recentemente.


Para essa ciência, a política fixa os meios e a Estratégia executa. Por isso Estratégia (ciência dos meios) e poder (meios para um fim) se relacionam tão intimamente, orientados pelo skopos (finalidade) determinado pela política. É a submissão dos interesses militares aos civis, do contrário viveríamos todos em ditaduras militares.


Pois bem, para a Estratégia contemporânea o fundamental da ação militar é garantir e ampliar nossa própria liberdade de ação (consequentemente, nosso poder) e restringir a do inimigo. Essa é a definição do general francês André Beaufre, a qual seguimos (e que influencia muito as F.A.s). Essa máxima explica o caso ucraniano: esse conglomerado de países capitalistas reunidos sobre a bandeira da OTAN busca reduzir a liberdade de ação russa e aumentar sua própria. Os russos suportaram esse avanço da OTAN enquanto estavam suficientemente fracos, mas, agora, com a criação de mecanismos de suporte, veem-se na posição de peitar essa mesma OTAN, em território europeu.

Aos russos, interessa uma guerra rápida e impor à Ucrânia uma derrota e um governo pró-Moscou. Aos ucranianos interessa uma guerra de desgaste, talvez abertamente de guerrilha, única forma de um país pequeno resistir a magnitude dos russos sem utilizar armas nucleares, armas estas que a Ucrânia abriu mão. Se possível, atrair aliados para a luta contra os russos e transformar a Ucrânia na tumba fria de seus algozes. A OTAN parece disposta a financiar esta guerra, afinal, não serão os seus morrendo, mas uma entrada direta no conflito parece pouco provável, já que significaria a guerra nuclear e a Ucrânia não é um objetivo tão valioso.


Como diz Clausewitz, a guerra tende aos extremos, mas é modulada pela política, que serve de pelego para as ações. Se Putin usa a bomba atômica, será retaliado. Se Zelensky escolhe uma guerra de resistência, será um massacre de ucranianos. Tudo há de depender da eficiência dos russos e dos ucranianos e da disposição de Zelensky em ceder.


Como Estratégia lida com poder, é natural que ela percorra até mesmo a mídia, esse quarto poder nas sociedades assim ditas livres. Cantam alguns que Zelensky venceu a guerra midiática. Mas, quando foi que a mídia ocidental, os grandes conglomerados, trataram Putin bem? Quando não o chamam abertamente de ditador, o veem como autocrata e a elite russa, tão oligárquica quanto as plutocracias do Oeste, é retratada como uma oligarquia.

O que gera esse ódio contra Putin é o fato de ser presidente de um país que enterrou o ideário neoliberal e de se tratar de uma sociedade organizada fortemente em torno do Estado, entendido como ponto nodal das relações sociais, ao contrário dos EUA ou da UE. Na Rússia, o Estado ocupa papel central na sociedade. Além disso, A Rússia de Putin é um Estado que tem grande liberdade de ação e apoia e é apoiada por todos os regimes-pária, quer dizer, anti-Ocidente, ou seja, que resistem ao imperialismo yankee. A Rússia é um poder autônomo em um mundo onde o poder dominante, malgrado se diga democrático, está nas mãos de alguns plutocratas, que querem terminar de ocidentalizar o mundo, quer dizer, de abrir mercados para suas empresas e explorar recursos naturais, tendo como eixo a Europa Ocidental-EUA-Canadá-Japão-Austrália-Nova Zelândia-Coréia do Sul-Israel.

Mas a Rússia também é um regime capitalista, somente mais estatizado. Trata-se, portanto, de uma guerra interimperialista, com a particularidade de que há décadas a OTAN não era desafiada tão abertamente, por um Estado capaz de opor resistência. Esse é o único ponto positivo do conflito, já que a vitória russa significa o enfraquecimento da OTAN e, com isso, do neoliberalismo; talvez haja outro ponto positivo, se acrescentarmos as relações entre o governo da Ucrânia e as forças neonazistas de lá, as quais os russos dizem querer esmagar. Mas o regime russo não nos oferece nenhuma real alternativa ao pesadelo neoliberal. Ao contrário, seria a escolha de um regime menos pior ou, sob alguns aspectos, até mesmo pior, o que não deve nos impedir de condenar a hipocrisia do assim dito Ocidente, suas organizações e sua mídia que mistura jornalismo com tomada de posição. Dito de outro modo: Putin é inimigo estratégico, mas pode ser aliado tático, dependendo da orientação política de cada qual; escrevo este texto para pessoas de esquerda, como sempre. Já os neoliberais são, no Brasil, inimigos estratégicos e táticos.

Não rebaixemos, no entanto, nossos objetivos para a realpolitik que o mundo nos impõe. Temos direito a mais do que o menos pior. Organizemo-nos para alcançá-lo.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Patranha

 Bolsonaro e sua sanha


patranha! patranha!


com Olavo, seu doutor


que horror, que horror!


E Ernesto, o pequeno


veneno, veneno!


Eis a maldade espargida sobre a nação


em vão, em vão!


Vamos encontrar um caminho


com espinho, com espinho!


Sim, mas será nosso!


bom negócio, bom negócio!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Olavo de Carvalho

 

Estou escrevendo um trabalho sobre Olavo de Carvalho. Tarefa inglória, que exige disposição e estômago. Somente em condições muito especiais alguém como Olavo poderia ganhar alguma proeminência, somente uma direita muito órfã de pensadores se deixaria fiar em alguém com tão poucas qualidades e tantos defeitos.


Tudo o que se diz de Olavo à boca miúda pude comprová-lo. Grosseiro, mal fundamentado, delirante, teórico da conspiração. Olavo é tudo isso e mais um pouco. Suas concepções não resistem ao exame crítico, de modo que não pretendo escrever o texto para aqueles que, ao lê-lo, percebem as falácias, mas para aqueles que não são capazes de per si de enxergar os erros primários de Olavo.


Ele se situa em uma direita que é antimoderna. Com isto quer-se dizer: anti-iluminista. Para esse setor, o mal maior da humanidade moderna é o abandono da fé como princípio regulador. Kant e seu ceticismo naturalista implicam que se ouse saber e o abando da religião como princípio aceitável de organização social são inaceitáveis. A revolução francesa, o golpe de misericórdia. Nem se diga da revolução russa.


Uma das fontes de Olavo é Guénon, pouco conhecido nos círculos de esquerda, mas que faz extraordinário sucesso naquela diminuta parcela da direita que lê alguma coisa, já que a maioria destes sequazes simplesmente perpetua discursos prontos. Para Guénon, francês cristão que terminou a vida como muçulmano fanático, o mundo moderno está em crise porque abandonou os princípios universais em benefício do mundo material. A verdadeira inteligência, que teria existido na Antiguidade e Idade Média, foi preterida. Em troca, ganhamos meras benesses materiais, e perdemos o verdadeiro conhecimento. A humanidade ansiaria por conhecimentos imutáveis, que a ciência materialista e humanista seria incapaz de fornecer. Mas no Oriente, entre hindus, chineses e muçulmanos, ainda se encontrariam a verdadeira sabedoria.


Guénon despreza as “meras conquistas materiais da ciência”. É de se estranhar, já que, fora da matéria, não há nada e os n´veis de vida e prosperidade deram um salto desde que se principiou a modernidade. Nosso conhecimento do universo nunca foi tão vasto e, ainda assim, é diminuto. Mas é amplo o suficiente para saber que as religiões estão todas equivocadas. Para discursos que se dizem inspirados na divindade, todas erraram grosseiramente sobre as formas de organização do mundo. Para começar, supõe uma archē do cosmos, como ademais, boa parte da filosofia, quando atualmente se sabe que a chave para explicação do mundo é a relação. Além disso, as teorias da auto-organização da matéria avançaram, de modo que não é mais necessário supor essa archē.


É exatamente por que a ciência contemporânea já não busca essa archē que Guénon e Olavo são contra a ciência ou a minimizam. Para eles, deveríamos debater o sexo dos anjos, deveríamos debater o primeiro motor imóvel, e não a cura do câncer, por exemplo, a melhor forma de organização social ou o aquecimento do planeta. Essas questões mais prosaicas já foram respondidas nos livros religiosos, inspirador por deus. Homem manda, mulher obedece, homossexual é aberração e espíritos infestam o mundo. Deus criou o mundo em sete dias e sua palavra está na Bíblia, no Corão, nos Vedas, etc.


É inacreditável que, diante de tantas evidências da inexistência de deuses, Olavo e Guénon se aferrem, com o tempo e possibilidades que tiveram para estudar, em uma mitologia em tudo superada pelo andar dos fatos.


A religião foi muito importante historicamente, especialmente o cristianismo, na medida em que afirmou a igualdade radical dos humanos, contra as religiões elitistas e étnicas da antiguidade. Não foi posta em prática e, ainda na Antiguidade, viu-se sua inter-relação com os poderosos do mundo em um regime de opressão aos servos. Mais tarde, se tornou justificativa dos massacres colonialistas. Enquanto religião dos poderosos, foi criticada por aqueles que querem aplicar suas ideias não em um mundo após este, encarado como de sofrimento, mas criar o reino dos céus na terra, nesta vida. O nome dessas teorias é socialismo, nas suas múltiplas formas, que são aquilo que de melhor a humanidade produziu em termos de exequibilidade de um novo mundo.


A crítica às religiões mantém-se na ordem do dia. A espiritualidade moderna deve ser organizada em torno da filosofia, e, nesse sentido, a filosofia segue mais atual do que nunca. Revoluções podem ocorrer, mas a espiritualidade dos humanos há de se manter. Nesse sentido, as teorias éticas antigas podem ser de grande auxílio, especialmente o epicurismo. Outras forma de ética também são centrais na superação de um mundo religioso. Pensamos na ética que Foucault analisa no segundo volume da história da sexualidade e no dandismo: encarar a própria vida, a própria biografia como forma obra de arte.


Os olhos doem ao ler Olavo. Mas ele responde a uma sociedade que transformou toda espiritualidade no ato de comprar. Até deus, hoje em dia, se compra, no débito ou no crédito. Superar Olavo, do ponto de vista político, implica superar uma sociedade vazia de valores, onde tudo se resume ao vil metal e a vida humana se reduz àquilo que ela possui. E, do ponto de vista ético, superar Olavo é uma tarefa contemporânea da filosofia, e exige uma construção socialista de valores e de espiritualidade. Do contrário, outros Olavos surgirão, talvez ainda piores, se é que isto é possível.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Ano novo

 Amanhece,

deus meu, 

outro dia.

É ano novo,

mas nada muda


o mundo ainda gira na mesma rota

e as rosas não se tornaram mais perfumadas.

deus meu, que loucura!


todos bebemos,

nos embriagamos,

fizemos amor


e o chicote segue açoitando


ah, mais quantos anos dessa agonia?

mais quantas manhãs,

iguais em substância,

onde os pássaros não cantarão mais bonito

e as flores não serão mais doces?


Permita, deus meu,

minha ilusão comum,

meu deus que não existe,

permita que um verdadeiro novo ano comece:


brumários, nevários, floral

sim, um novo ano.

Um brinde à era que podemos começar.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Artigos publicados em 2021

 

  1. A estratégia como móbil - UNIFAP

  2. A possibilidade da filosofia africana segundo Foucault - Seara filosófica

  3. Verdade, pós-verdade, notícias falsas e poder: Foucault e as fake news - Ipseitas

  4. Michel Foucault: uma ontologia bélica? - Ipseitas

  5. O papel da filosofia na crise contemporânea - Eleuthería

  6. O conceito filosófico de estratégia de Michel Foucault - Revista Outra Margem

  7. As armas dos filósofos - Kinesis

Lista de livros lidos em 2021

 Janeiro


  1. Dits et écrits 3 - Michel Foucault

  2. O que é estalinismo? - José Paulo Netto

  3. Marx through post-structuralism - Simon Choat

  4. Oxford Practice Grammar Basic - Coe, Harrison, Paterson

  5. Metodologia do trabalho científico - Eva Lakatos, Marina Marconi

  6. A filosofia a partir de seus problemas - Mario Porta


Fevereiro

  1. Metodologia filosófica - D. Folscheid, J.-J. Wunenberg

  2. Guide to publish a scientific paper - Ann Körner

  3. Filosofia da Mente - Cláudio Costa

  4. Filosofia da história - Rossano Pecoraro

  5. Philosophical writing - A. P. Martinich

  6. Die Leiden des jungen Werther - Goethe

  7. Formação do Brasil contemporâneo - Caio Prado Júnior

  8. Vocabulary in use - Stuart Redman

  9. Immanuel Kant - Otfried Höffe

  10. Filosofando - Maria Aranha, Maria Martins


Março


  1. Impressões de Foucault - Roberto Machado

  2. Capítulos de história colonial - Capistrano de Abreu

  3. O analista de Bagé - Luís Fernando Veríssimo

  4. Formação econômica do Brasil - Celso Furtado

  5. Fatos do espírito humano - Gonçalves de Magalhães

  6. A ontologia em debate no pensamento contemporâneo - Manfredo A. de Oliveira


Abril


  1. O mistério do cinco estrelas - Marcos Rey

  2. Consciência e realidade nacional vol I - Álvaro Vieira Pinto

  3. Filosofia política e liberdade - Roland Corbisier

  4. Essais vol.I  - Montaigne

  5. Novum Organum - Francis Bacon

  6. New Atlantis - Francis Bacon

  7. Ensaios e estudos de Philosophia e crítica - Tobias Barreto

  8. O romantismo no Brasil - Antônio Cândido

  9. Discours de la méthode - René Descartes

  10. Méditations métaphysiques - René Descartes

  11. 1492: El encubrimiento del Otro - Ensique Dussel

  12. El giro decolonial - Grosfoguel, Castro-Gómez

  13. Early Greek science. Thales to Aristotle - G.E.R. Lloyd


Maio


  1. World-Systems Analysis - I. Wallerstein

  2. A consciência conservadora no Brasil - Paulo Mercadante

  3. Greek science after Aristotle - .G.E.R. Lloyd

  4. La edad heroica de la ciencia - Heidel

  5. Pensamentos metafísicos - Espinosa

  6. Tratado da correção do intelecto - Espinosa

  7. Tratado Político - Espinosa

  8. The art of war and military thought - Martin van Creveld

  9. Leviathan or the Matter, Forme, & Power of a Common-wealth Ecclesiasticall and Civill -  Thomas Hobbes

  10. Anaximander and the origins of Greek cosmology - Charles Kahn

  11. Ἀνακρεοντεια - Anacreonte

  12. The world of Odysseus - Moses Finley

  13. Theogonia - Hesíodo


Junho


  1. Ética demonstrada à maneira dos geômetras - Spinoza

  2. Iniciação ao latim - Zelia de Almeida Cardoso

  3. Le grec ancien - Jean-Pierre Guglielmi

  4. A philosophia no Brasil - Sylvio Romero

  5. Historia de la dialectica - Paul Sandor

  6. Ontologia - Achille Varzi

  7. História das ideias filosóficas no Brasil - Antônio Paim

  8. Noções de história da filosofia - Pe. Leonel Franca

  9. Nietzsche e a ontologia do vir-a-ser - Eduardo Nasser


Julho


  1.  A Greek prose reading course for post-beginners - Malcolm Campbell

  2. Process Philosophy - Nicholas Rescher

  3. História da filosofia do Brasil vol I. - Paulo Margutti

  4. A reading course in Homeric Greek vol. I -  R. Schoder e V. Horrigan

  5. Manual de Campanha: Estratégia - Estado-Maior do Exército

  6. Fundamentos do Poder Nacional - Escola Superior de Guerra


Agosto


  1. Griechisch für das Philosophiestudium - Alfred Dunshirn

  2. Filosofia brasileira - Luiz Alberto Cerqueira

  3. Ἐυθυφρων ἠ περι ὀσιου - Platão

  4. O discurso e a história - Júlio Canhada

  5. Introdução à lógica simbólica - Paulo Margutti Pinto

  6. Ludus Primus - Pe. Milton Valente

  7. Two treatises of government - John Locke



Setembro


  1. Le chinois sans peine vol I - Assimil

  2. ΑΠΟΛΟΓΙΑ ΣΩΚΡΑΤΟΥΣ - Platão

  3. Sovereignty - F.H. Hinsley

  4. Parlez chinois en 40 leçons - Michel Désirat

  5. A significação educativa do romantismo brasileiro: Gonçalves de Magalhães - Roque Spencer Maciel de Barros

  6. Reading Homeric Greek vol II - Leslie Collin Edwards


Outubro

  1. Tudo que você precisa saber para não ser um idiota - Olavo de Carvalho

  2. Mission Sphinx - Glenn Meade

  3. Κριτων - Platão

  4. Novo Olhar Geografia vol. I - Rogério Martinez, Wanessa Garcia

  5. Le latins sans peine - Assimil

  6. Novo Olhar Geografia vol.II - Rogério Martinez, Wanessa Garcia

  7. The Tao of physics - Fritjof Capra

  8. Oxford Latin Course vol I - Maurice Balme, James Morwood


Novembro

  1. Novo Olhar Geografia vol.III - Rogério Martinez, Wanessa Garcia

  2. O Ateneu - Raul Pompéia

  3. Carta do achamento do Brasil - Pero Vaz de Caminha

  4. O marinheiro - Fernando pessoa

  5. Seminário dos ratos - Lygia Fagundes Telles

  6. Sobrevivendo no inferno - Racionais MC

  7. Alguma poesia - Carlos Drummond de Andrade

  8. Nove noites - Bernardo de Carvalho

  9. Propedêutica ao grego - Hilda Penteado de Barros

  10. Grammaire Grecque - E. Ragon

  11. Ludus secundus - Milton Valente

  12. Campo Geral - João Guimarães Rosa

  13. Mensagem - Fernando Pessoa

  14. Discours sur le colonialisme - Aimé Césaire

  15. Portrait du colonisé précédé du portrait du colonisateur - Albert Memmi

  16. Grund- und Aufbauwortschatz Griechisch - Thomas Meyer, Hermann Steinthal


Dezembro


  1. Romanceiro da inconfidência - Cecília Meirelles

  2. The turning point - Fritjof Capra

  3. Oxford Latin Course vol II - Maurice Balme, James Morwood

  4. What Is Populism? - Jan-Werner Müller

  5. Quincas Borba - Machado de Assis

  6. Gramsci - Carlos Nelson Coutinho

  7. Terra sonâmbula - Mia Couto

  8. Angústia - Graciliano Ramos

  9. Bons dias - Machado de Assis

  10. Tarde -Olavo Bilac

  11. Le bergsonisme - Gilles Deleuze

  12. Réflexions sur la violence - Georges Sorel

  13. Il principe - Niccolò Machiavelli

  14. Niketche -  Paulina Chiziane

  15. Oxford Latin Course vol III - Maurice Balme, James Morwood

  16. A Nova Era e a Revolução Cultural - Fritjof Capra & Antonio Gramsci - Olavo de Carvalho

sábado, 18 de dezembro de 2021

A revolução, é ela desejável?

O Petit Gaffiot, um dos principais dicionários de latim, não dá entradapara o termo revolutio, mas para os termos revolutus, partícipio do verbo revolvo, e este último, que significa voltar, retornar, ou seja, re, indicativo de repetição, e volvere, voltar, mexer. Sabe-se que a utilização do termo revolução para indicar mudanças sociais é recente. Até bem pouco tempo, essa palavra indicava o movimento dos astros, que sempre retornam suas posições prévias, em um tempo onde a física moderna ainda engatinhava e antes disso. Atualmente, o termo indica a mudança brusca de rumo de algo, e, nas ciências humanas, a emergência de uma nova racionalidade de organização. Assim, termos como revolução científica e revolução dos costumes, vieram se juntar às ideias de alteração repentina de um governo ou sociedade ou do movimento dos astros, esta última acepção caindo em desuso.

Em um de seus textos, não me lembro ao certo qual, Foucault vaticina: se a era contemporânea principiou por uma revolução, outra há de dar-lhe cabo. Com isto, Foucault prossegue uma tradição, de cariz socialista, que indicava a necessidade de uma revolução, nos dois sentidos que o termo comporta: a inexorabilidade da revolução ou a carência que dela padece as sociedades hodiernas. E, em meados do século passado, essa dupla acepção pareceu se confirmar, já que, em todos os continentes, revoluções se processaram, governos caíram, sociedades se transformaram.

Como diz Emília Viotti, o século XIX viu as revoluções liberais, o XX, as revoluções socialistas. E o XXI? Permanece válida a ideia de revolução? Mais que a ideia, o objetivo da revolução, como panaceia de nossos males, é ele atual? Caso não, como se processarão as mudanças sociais? Somente por revoltas, insurreições? Ou as lutas sociais devem ser absolvidas pelos debates parlamentares, local de criação de importante nicho de normatividade? Caso sim, quem será o sujeito dessa revolução, quem a fará? Ou compete às forças interessadas criar esse sujeito? Mais ainda: qual há de ser o caráter dessa revolução e como esse caráter se adaptada ao Zeitgeist, visto as demandas emergentes que se materializaram em nossa sociedade desde a queda da URSS, evento considerado marco nessa seara? Quais seus objetivos? E seus métodos? Ainda há necessidade, no sentido bígamo do termo, de revolução, enfim?

É nesse debate, com muitos autores envolvidos, verdadeira messe teórica, que queremos nos posicionar. Nosso estudo é parcial e há de subsidiar um artigo e, pretendido, um livro. Assim, estudo em progresso, por hora esboçaremos algumas reflexões prévios, expondo à sala escura da crítica nossas ideias e, destarte, incentivando um debate importante para o conjunto da sociedade, sem pretensões de originalidade ou de abrangência.

Os problemas se avolumam; nisto todos estão de acordo. Liberais, fascistas, comunistas, anarquistas. Cada qual a seu modo pensa que a sociedade global está em um rumo equivocado e necessita de mudanças imperiosas. A diferença entre esses grupos é que o hegemon é liberal e possui poder de facto para impor ao restante do planeta um rumo. Nesse sentido, os liberais não acreditam em revolução como respostas às questões prementes. A burguesia liberal abandonou as armas da oposição, tornando-se a posição que todos atacam, o extremo-centro; assim, as mudanças propostas pelo hegemon nada mais são do que dar os anéis para não perder os dedos. Pequenas concessões e, se o mundo se prepara para sair da era dos combustíveis fósseis, as mudanças serão paulatinas, não bruscas, como geralmente se associa a uma revolução.

Restam os extremos. Uma extrema-direita fascistas, com cariz diferente conforme se esteja de um ou outro lado do planeta, mas associadas à noções saudosistas, de restauração de um passado ido, onde não havia migração, não havia tantos negros em Paris, e o Ocidente reinava indiscutivelmente, assentado nas colônias. A fé era o principal denominador comum das diferentes sociedades, constituindo a religião a raison d’être da vida de milhões. Ou seja, trata-se de uma revolta contra o mundo moderno, contra a ciência, contra o materialismo crescente, do liberalismo e socialismo que trocaram as considerações ética, uns pelo vil metal, outros pelo interesse de classe. A extrema-direita e, assim, reacionária; quer restaurar o passado idealizado, seja da ditadura no Brasil, seja quando a América era great ou a Europa tinha colônias.

Já a extrema-esquerda repete a mesma ladainha: socialismo ou barbárie. Só ele pode nos salvar da destruição certa para a qual nos leva o capitalismo: guerras, massacres, genocídio e, mais recentemente, ecocídio. O que é esse socialismo é questão sobre a qual essa esquerda não se põe de acordo. Para uns, estatização dos meios de produção. Para outros, autogestão dos mesmos.

Fascistas querem a revolução dentro da ordem: contrarrevolução política, utilizar o Estado para impor uma ordem regressiva, por exemplo, através de golpes de Estado. Já a extrema-esquerda quer se valer de agitações populares a fim de, para uns, controlar o Estado, para outros, extingui-lo. São as forças contrarrevolucionárias e revolucionárias de nossa sociedade.

Nos concentremos na extrema-esquerda. Conforme é de conhecimento comum, as teorias revolucionárias tomam corpo em um momento de ascensão da indústria, com a formação de grandes contingentes operários, mas com uma importante base camponesa, em uma Europa onde o feudalismo ainda não tinha sido completamente enterrado. Ao contrário, é em contraposição aos privilégios feudais que o socialismo revolucionário primeiro se insinua, indo se assentar somente com a delineação do capitalismo industrial, no entanto. Mas, se pensarmos nos Enragés, nos Diggers e nos Levellers, vê-se que a massa camponesa já era revolucionária avant la lettre, no seio mesmo dos movimentos subversivos burgueses. No século XIX o que eram intuições ou escritos menos claros dá lugar claro á teorias subversivas da ordem, nas forma do marxismo e do anarquismo. A revolução ganha as massas definitivamente e, desde então, exerce atração sobre parte das populações, dando origem a distintas teorias de como operacionaliza-la.

Com o ciclo revolucionário que principia com a Comuna, as revoluções socialistas sacodem o mundo em vagas sucessivas. Após a Revolução espanhola, no entanto, a Europa deixa de ser o centro revolucionário, com este se transferindo para a periferia do sistema, em revoluções anticoloniais, muitas com caráter socialista. A queda da URSS significa um duro golpe aos revolucionários uma vez que a sociedade socialista ou assim dita que por mais tempo se firmou, deu lugar a um capitalismo mafioso, com altos índices de miséria, concentração de renda e opressão.

Tivemos que esperar décadas até que processos revolucionários se desencadeassem, descontado o movimento zapatista, no vãmente na periferia do sistema. No centro, os outrora grandes partidos comunistas se viram reduzidos a pequenas agremiações e os anarquistas já não constituem força expressiva em quase nenhum lugar.

No Brasil, as força de esquerda derrotadas durante a Ditadura parecem ter tomado, em sua ala majoritária, os rumos de uma via parlamentar sequer reformista, já que não está em seus planos uma sociedade capitalista, somente a mitigação dos efeitos dispersivos e nefandos do capitalismo.

Desde a ascensão do neoliberalismo, a desigualdade aumenta. A velha classe trabalhadora ocidental, gloriosa de tantas batalhas, viu os empregos industriais serem transferidos para o outro lado do planeta, para nações que já fizeram revolução e se identificam, gostemos ou não, como comunistas. Aproveitando-se da precarização das relações de trabalhos, as classes dominantes tocaram adiante um programa que desmembrou a classe trabalhadora, através da terceirização, e, mais recentemente, da uberização. O Estado, que representa a ideia de público na propriedade das coisas e no interesse defendido, foi apontado como fonte maior dos males, ineficiente e fonte de corrupção. Assim, importantes empresas públicas foram privatizadas e a lógica de mercado se aprofundou em todos os ramos da vida social. O neoliberalismo se fez escrever nas constituições ou tratados, se tornando, assim, norma legal a ser seguida por não importa qual governo.

Se o neoliberalismo reina e já não há, no Ocidente, o clássico inimigo do capital, o operariado fabril, com os postos de trabalho mecanizados e os empregos restantes sendo muito bem pagos, de forma a garantir ascensão social e jogar para as traças a memória de uma classe trabalhadora revolucionária; enfim, nesse cenário é possível a revolução?

Aprendi no curso de filosofia que, desde que não logicamente contraditório, tudo é possível. Então, melhor dizendo, é provável? Os novos sujeitos que tem tocado as lutas no último período (estudantes, imigrantes, mulheres, LGBT’s, indígenas) parecem ter a força para realizar revoltas, mas não revoluções, já que lhes falta uma característica central da velha classe trabalhadora: o poder de suspender a produção. Também outras formas de militância, como associações de bairro, sofrem da falta de poder de barganha ou mobilização.

Ou seja, o neoliberalismo aprofundou as mazelas do capitalismo, mas destruiu, com astúcia, aqueles que poderiam se opor a ele. Nessas condições, é provável uma revolução, por exemplo, na Alemanha, nos EUA ou na França? Não somos futurólogos, mas acreditamos que essas sociedades se preparam para mudanças drásticas no próximo período. A crise ambiental imporá alterações de grande magnitude em todas as sociedades. Para o próximo período, se anuncia uma mutação verdade; se será revolucionária, baseada nas periferias do sistema, ou se será meramente mudar algo para manter tudo como está, vai depender da correlação. No último período, vimos movimentos de massa nos EUA (onde as condições de vida são particularmente brutais) e na França (com os Gilets Jaunes), mas o futuro pós-pandemia desses surtos de manifestação é incerto. Falta-lhes organicidade, organização, enraizamento.

As alterações no mundo do trabalho tornaram a velha classe trabalhadora e seus órgãos de classe parte do sistema. Hoje, poder se sindicalizar já indica certa condição privilegiada, já que os novos empregos são precarizados, isto quando não há outras formas de emprego, onde o trabalhador trabalha por conta própria, com a ilusória impressão de ser senhor de si, destruindo por completo a chances de organização enquanto classe. A classe não é somente um dado econômico, ela deve ser construída. Por estas vias, como diziam meus amigos Marcelo Bigode e Vinícius Millhouse, vivemos uma surra de classes — e não estamos a bater.

A crise dos setores espoliados não é de direção, mas de organização, à moda sindicalista revolucionária: estamos desorganizados, e somente muita militância pode reverter esse quadro. Criar o antagonista das elites, a partir de uma massa repleta de ilusões, que defende com unhas e dentes os setores que a oprimem e sem tradição de luta. Eis as tarefas dos revolucionários. Ao mesmo tempo, a partir da reflexão sobre as experiências socialistas até aqui, chegar no programa correto, socialista, e não em arremedos. Nesse sentido, a proposta da construção do comum parece promissora. Mas isto é debate para outro texto.