quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Um relato dos mortos

 [Encontrada no meio de um alfarrábio, um livro velho, contendo verdades da doutrina espírita]

    Eu bem sei que, nestas memórias, já não há originalidade e que meus antecessores já bem demonstraram o que pode um defunto. Sim, estou morto e escrevo estas memórias no além esperando que, de alguma forma meus conhecimentos recém-adquiridos alumiem os demais mortais.

    Fui um bom cristão toda a vida. Literalmente. Seguia todos os preceitos bíblicos, inclusive os mais estranhos a um homem do começo do século XX, como não comer camarão, ou usar roupas de tecidos diferentes. Nem mesmo a barba eu fazia, mas, por sorte, eu era um menino pelado. Sexo, nunca fiz. Era padre. Dediquei os melhores anos de minha vida a propagar minha então fé junto aos incrédulos. Sim, até mesmo para nações no distante Oriente fui enviado, sempre com espírito aguerrido e pronto para os combates mais duros. Quantas coisas vi, quantas tentações passei, quantas mulas-sem-cabeça não ficaram por um triz de virem ao mundo.

    Estive na Grande Guerra também. Não, não para matar, mas para curar; era enfermeiro. Queria aliviar os sofrimentos de todos. Trabalhava para aligeirar as dores que um sofrimento desnecessário causava. Antes da guerra, como depois, fui pacifista, e assim terminei meus dias. Sei o que Nosso Senhor disse sobre a espada, sei dos clérigos lutadores; mas eu era um homem da paz, que acreditava na força do exemplo, na firmeza do caráter, na retitude moral, nos bons costumes e na língua universal do amor incondicional pelo gênero humano e por todos os seres vivos.

    Fui um bem-feitor. Dava de comer aos pobres. Dava teto aos desabrigados. Dava consolo os desesperado. Dava guarida aos homens sem fé. Minhas peregrinações me ensinaram a compreender o sofrimento humano e o desamparo em todas as suas facetas. E não só compreendê-lo como oferecer o divino unguento aos necessitados. E quem não necessita de compreensão, de acolhimento, de esperança? Todos nós, marinheiros em um barco sem guia, neste universo gigantesco feito para a glória de Deus, bendito seja Ele. Assim eu pensava.

    Por onde passava era chamado de Santo. Se pequei, foi por soberba, visto que se amontoavam para beijar minhas mãos,ouvir minhas doces palavras de acalanto, sentir a quentura de meu sangue cálido, e o hálito imorrível das Santas Escrituras. Eu era um homem de fé, um homem movido pelo mais ardente propósito de revigorar a humanidade e pô-la na via segura do amor a deus. Porque meu Deus é um deus de amor, um deus que vela pela sorte dos mais afligidos. Assim eu pensava.

    Tentavam comprar minha indulgência. Mas nunca me vendi, nem mesmo diante de montanhas de vis papéis que o vulgo chama dinheiro. Não era dinheiro que eu queria. Não era um homem mundano. Era um homem voltado ao espírito e ao conhecimento daquilo que de mais elevado se produziu na consciência humana. Assim eu pensava

    Nesta terra de feras, encontrar a cama do repouso, ouvir a palavra de aceite, saber-se amado, saber que sua vida é importante e que há nela um propósito. Sim, e que este propósito nos foi revelado e provado por meio de milagres atestados. A própria vida: um milagre, não? A vil matéria jamais poderia gerar a maravilha da carne trêmula de êxtase no amor divino, os sussurros de arrependimentos e os gritos de glória que rondam as pequenas vitórias cotidianas. A vida, este sobrenatural naturalizado, este manancial de bons impulsos, forte o bastante para conter àqueles carnais e colmatar nosso espírito, esse dom mais elevado, com o arrebatamento divino. A criação, obra do senhor para que o adoremos e enchamos, com nossa boa conduta, o paraíso com nossas almas, a perpetuar pela eternidade seu nome e adorá-lo. Glória pequena? Falha em deus, que precisa ser louvado? Não, assim eu pensava, já que ele nos deu a chance da vida, a dádiva da existência ínfima que se locupleta na infinitude de seus desígnios.

    Nem mesmo as bestialidades da guerra me demoveram de minha fé, nem mesmo as torturas que sofri nas mãos de acólitos de outros cultos e de autoridades, pela minha defesa da vida e da dignidade da pessoa humana. Nada. Eu era uma rocha e, cria, eternamente plantada, senão pela carne, pela memória e feitos que deixaria, na imensidão do negro infindo do cosmos. Assim eu pensava.

    Mas as horas passam. Os dias correm. Os anos se acumulam tornando moles os músculos, débeis as fibras do cérebro, quebradiços os ossos, bambas as pernas, frágeis as mãos. Somente o espírito permanece. E, assim, um dia, pregando, fui apunhalado por um adepto de outra religião, também cristã, mas que me cria nocivo à sua confissão. Sem esperança de salvamento, sangrei até a morte. Fui um mártir, um campeão da fé cristã. Fiz minha passagem com glória, com honras e paguei com minha vida a defesa encarniçada que realizei, por obras e pensamentos, da verdadeira religião. Assim eu pensava. Eis-me aqui, do outro lado do rio.

    E, qual surpresa!

    Descobri-me em um lugar cheio de sevícias, rodeados de monstros, apunhalado nos lugares mais frágeis, queimado com doses de enxofre e chumbo derretido. Feridas que sangram e não fecham, dores que aumentam e não diminuem. Barulhos insuportáveis. Gemidos indizíveis de dor, luzes cegantes. Mantemos o corpo do lado de cá; ele só deixa de ser perecível. Mas ele sente, vê, experimenta. Um gosto permanente de excrementos na boca e um odor de carniça que não cessa. Um sensação constante de sufocamento, como se nos afogássemos no ar circundante. A dor e o desconforto é tudo que nos domina, a mente tomada pela dor constante; quase não resta espaço para pensamentos outros. Mas eu os tinha. Pensava onde tinha errado, que males tinha feito, como aquilo era possível. Onde estava deus que não me acudia?

    Décadas se passaram até que obtive as respostas.

    Fui conduzido por animais monstruosos que nem Dante poderia imaginar através de um corredor ascendente. A caminhada durou semanas, sempre sobre brasa quente e espinhos. Cada passo era uma provação. No estômago, a sensação perene de fome de dias e a boca seca, com uma sede que nem todos os oceanos poderiam saciar.

    Repentinamente, depois de outro passo, seguido de meus gritos habituais, tudo mudou. O chão transformou-se em refinados tapetes. As luzes penetrantes se tornaram um agradável lume, capaz de iluminar sem ofuscar. O aroma do ar misturava as fragrâncias de todos os perfumes mais finos, inundando minhas narinas com o frescor de dias felizes. O estômago repentinamente sentiu-se pleno, a boca cheia de uma saliva que ao mesmo tempo misturava todos os gostos, em uma harmonização perfeita. As dores sumiram e senti-me revigorado. Caminhava nas nuvens, os passo leves. As bizarras criaturas que me acompanhavam transformaram-se em seres de pura luz. Um cântico suave preenchia o ar. Bosques verdejantes e campinas plenas de flores de todos os tipos, algumas que eu nunca vira, cercadas por animais belíssimos, todos mansos e benfazejos, se estendiam a perder de vista.

    Estava no paraíso, pensei. Estivera no purgatório.

    Caminhei por segundos, que se mo assomaram séculos, tamanha era a sensação que não existem palavras para descrever. Plenitude é a ideia que mais se aproxima. No caminho reconheci, ao longe, o homem que me apunhalara, e que selou meu destino. O que estava acontecendo?

    De repente, estava diante de uma figura que não é fácil descrever. Um corpo definido, estável, e ao mesmo tempo borrado, etéreo, do qual emanava uma força gigantesca. Logo percebi que a benfeitoria do local emanava dele, que sua presença enchia o local com harmonia.

    Era deus, tive certeza na hora.

    Perguntei-lhe: “senhor, desde que morri somente sofro. Estou entregue às maiores torturas e fui um servo exemplar em vida. Por que me provas mesmo depois de morto?”

    Ele não precisou falar. De repente, a resposta estava em minha mente.

    Deus é mau.

    Criou o universo para se divertir, já que a eternidade lhe parecia tediosa. Seu maior prazer é fazer suas criaturas sofrerem. Por isso ele, mesmo onipotente, permite o mal. Por isso ele criou um universo imperfeito, onde o fraco é devorado pelo vivo, onde o mal sempre ganha no final, onde a mentira é rainha e a justiça é a conveniência do mais forte, onde armas são mais acessíveis do que livros e o sangue jorra com mais facilidade que o mel. Ele, com todo seu poder, poderia ter criado um universo onde fossemos livres e o mal não existisse, um universo onde as criaturas se nutrissem todas de luz, acabando com a matança e a selvageria da natureza. Mas ele não quis. Optou pelo massacre, optou em que o justo sofra. Permitiu as religiões do amor apenas para se rir ainda mais, dedicando uma eternidade de sofrimento aos que as seguem. E, por um ínfimo momento, permite que elas vejam o que espera para quem pratica o mal.

    De repente, me vi de volta às minhas sevícias habituais. Agora, muito piores, já que sabia que estava sofrendo por teR sido bom. Ó miséria, ó sofrimento, ó angústia. Mas eu mereço! Sim, mereço. Que esta mensagem que consegui enviar, sirva para aleitar os maus instintos nos homens. As religiões, todas falsas. O que vale é que nos revoltemos contra um deus tão cruel, tão maligno. Oxalá consigamos nos rebelar contra a tirania.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Ode à cerveja

 Loira áurea,

Néctar dos deuses

A ti amam

Os pobres e os burgueses


De leste a oeste

De norte a sul

Vais bem

Com carne ou angu


Nas horas frias

E também nas quentes

Vais bem tépida

Ou trincando os dentes


És uma amiga inseparável

Cria coragem

Dá conforto

És admirável


O mal é que és comprada.

Não deixou o universo

Que se vertesse da terra

Pelas fontes jorrada


Mesmo assim, te amo,

Líquido bendito.

Quero que esse amor cresça

Ao infinito


Primavera de 2022

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Gourmetização e a nova aristocracia

 

Lembro-me de ter visto na adolescência um filme na Sessão de Gala. Não me recordo o título, mas era um filme antigo, bem ao gosto da Guerra Fria. Na verdade, um libelo anti-soviético. Nele, um professor estadunidense, um físico, estava na incapacidade de resolver um teorema e recebe notícias de que, na Alemanha do Leste, outro pesquisador havia conseguido resolver o dito problema. Assim, ele se faz de dissidente do capitalismo e logra ser aceito na Universidade do dito pesquisador. Uma vez que começam a trocar figurinhas, o estadunidense descobre a solução para o que lhe afligia e passa a tentar fugir do “pesadelo comunista”, o que ele, após muitos percalços, consegue lograr. Uma das passagens que mais me marcou do filme foi o momento em que ele está no bar e encontra uma moradora local. Anterior às descobertas da relação do cigarro com o câncer, o filme mostra os dois fumando, ele, cigarros da gringa, ela cigarros locais. Ela pega um dos cigarros e lhe mostra — eles têm fumo só até a metade. A ideia de que à elite comunista era reservado o melhor, enquanto que ao povo restava o pior está presente também em Orwell. Inesquecíveis as passagens onde ele descreve o oleoso gim que lhe era destinado ou a sacarina, ou a fuga para tomar café e usar açúcar. Já li em fontes mais confiáveis que estes armazéns especiais realmente existiam, destinados à elite do partido. Mas, por estas bandas tropicais, é diferente?

Hoje provei o “café gourmet”. Uma delícia, café de verdade. Estou até agora aquecido pela boa bebida e totalmente alerta. Tomei duas xícaras. Paguei o dobro do preço, mas, pela primeira vez, desde a ocupação da Prefeitura do Campus São Carlos da USP, em 2010, onde tínhamos um grande estoque de café moído na hora, tomei um produto de primeiro. Tinha me esquecido do gosto, dos aromas, da consistência, da cor. Acostumei-me a tomar o nada bom café Caboclo, que de café só tem a cor e o nome.

Para provarmos um produto de qualidade, é necessário desembolsar mais dinheiro, ou seja, mais tempo de vida. Para quem não pode pagar, e são muitos nos dias atuais, um produto de segundo, misturando café e sabe-se lá o que, pois o produto não é puro. Criou-se uma nova aristocracia, pior que a velha nobreza de pescoços tão atraentes. Fico imaginando o que as verdadeiras elites bebem e comem. Uma nobreza pautada no dinheiro e, além disso, nas heranças. Não, não estou falando da sua casa de COHAB, mas da herança que terão os filhos de Elon Musk, de outros bilionários e, em breve, trilionários. Um abuso, não?

Essa discrepância entre os produtos de elite os produtos para as classes baixas era justamente o que a direita criticava nos países socialistas e, veja-se, reprodu-la exatamente, cada vez mais. Treslendo Olavo (estou preparando um trabalho sobre ele) é comum que ele repita um bordão falsamente atribuído a Lênin: acuse-os do que você é, aja como você os acusa de agir. A citação é mais ou menos esta. A ideia é clara: seja um hipócrita. O dito aplica-se perfeitamente aos bolsonaristas, falsos moralistas e falsos cristãos em geral, sem contar os membros da milícia ora no Planalto.

A dicotomia popular-elite é que deveria acabar. Foi justamente contra os privilégios da velha aristocracia de sangue que a burguesia e o povo se uniram para deitar abaixo. Por que os endinheirados têm que ter a prerrogativa de beber café de primeira, enquanto a maioria amarga (porque isso que eles chamam de café é amargo; o café de verdade tem notas doces, ao menos do terroir de onde o que eu bebi veio) um produto indigno? Por que? Há alguma boa razão? Por que temos que beber bebida láctea ao invés de leite, mistura condensada em vez de leite condensado, preparo sabor queijo em vez de queijo, sobrevivência em vez de vivência?

Isso só dá mais azo para o óbvio ululante: não vivemos em uma democracia se as pessoas são divididas em categorias no que tange ao acesso a bens. Classe A, B, C, etc.: subdivisões que escondem o simples fato de que, na república das bananas, todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais que os outros, como escreveu Orwell, mirando os países socialistas e acertando em cheio a miséria do capitalismo.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A felicidade

 

    Uma das ramas mais vendáveis da literatura atual é a autoajuda. Basta entrar em uma livraria para encontrar os livros desse segmento em primeiro plano. Por trás da autoajuda, toda uma série de concepções que nos informam sobre as perspectivas de uma sociedade. Toda uma filosofia social poderia ser pensada em torno das noções que uma formação social se impõe. Invariavelmente, os títulos trazem noções sobre deus, riqueza, sucesso, a lida com os filhos, etc. As expectativas de um mundo em transformação.

É um tropo da historiografia dividir a história da filosofia antiga entre pré-socrática e socrática e, depois desta, nos compêndios mais requintados, precisar a filosofia helenística, época, injustamente, considerada menor. Aos grandes sistemas de Platão e Aristóteles, se opõe as filosofia menores de Epicuro e Zenão, como se fossem filosofias de menor valor. Dizemos injustamente, não só porque o estoicismo e o epicurismo exerceram muita influência, como, ademais, por serem filosofias muito ricas. Mas, enquanto os mestres sistemáticos estavam preocupados com as grande questões da filosofia, Epicuro e Zenão eram filosofias mais dedicadas á busca pela felicidade, questão mais comezinha, como se quis, mas nem por isso, a nosso ver, menos importante.

É claro, Aristóteles também colocava como o fim da ética a felicidade e mesmo do Estado. Não à toa é chamado de eudaimonista. O termo eudaimoia, é composto de prefixo e raiz. “Eu” significa “bem”: “eu legeis, ō phile”, “bem dizeis”, ó amigo; “eu mathes, ō pais”, “bem aprendes, criança”. Já daimonia é um derivado de daimon, vocábulo que está na origem donosso termo “demônio”, visto as mudanças etimológicas pelas quais passou. Daimon, quando Aristóteles escreve significa divino; é esse termo que Sócrates usa para indicar a voz que conversa com ele e que, no dia de sua execução, lhe ordenou que escrevesse poesia, fato notado por Nietzsche, ao indicar o temível espírito inquisidor doo mestre de Platão. Assim, o termo eudaimonia estaria ligado com o ser segundo a dividida, de estar alinhado com os desígnios do mundo. Para o grego, de acordo com nossa bamba filologia, não deveríamos sofrer, nem mesmo na Idade decaída de nossa era, em comparação com a mítica idade do ouro, que nos conta Hesíodo. Até mesmo o Estado deveria se preocupar com nossa felicidade, diz o Estagirita; afinal, se tudo tem um fim, o fim da comunidade é assegurar o bem viver de seus membros.

Mas com as filosofias do helenismo a preocupação com a felicidade é muito mais acentuada. Das obras extantes de Epicuro, uma delas é a Carta a Meneceu, onde o filósofo aborda a questão da felicidade. Os estoicos, como Sêneca e Epicteto, á no período romano, trataram abundantemente do tema. Epicteto chegou a escrever um texto, o famoso Egcheiridion, o Manual, onde a questão da felicidade é o fio condutor do texto. Para Epicteto, a chave da felicidade consiste em não se preocupar com as coisas que não estão a nosso alcance, mas, sim, de se ocupar com aquilo que nós mesmos podemos alcançar por nosso esforço.

A própria ideia de felicidade, na filologia que esboçamos, já dá algumas indicações de como pode ser pensada. Se a felicidade envolve certa consonância, para o grego, com a divindade, isso implica certo acordo com a religião, ao que parece. Isto para os primórdios da língua. A filosofia parece ter contribuído para mudar essa concepção.

Na Antiguidade clássica foram introduzidos os ditos dos setes sábios, que já tratei em outros textos. Um desses sábios, Tales de Mileto, afirmou o famoso “conhece-te a ti mesmo”, depois gravado no templo de Delfos e, por fim, eternizado por Platão na boca de Sócrates. Uma sociedade que expressa esse dito já indica que a noção de felicidade envolta passa pelo indivíduo, já desligado ou mais independente das aspirações sociais. Como fora gravado no templo de Delfos, a própria divindade parecia indicar que a felicidade somente seria possível para alguém com certa independência, alguém dotado de julgamento.

Outro sábio da Grécia, Sólon de Atenas, poeta e legislador, também parece ter uma lição para nos dar sobre a felicidade. Heródoto é que nos narra o episódio do encontro de Sólon, o qual estudara no Egito, e Creso, rei dos lídios, povo famoso por ter inventado o dinheiro, e cujo reino se situava na atual Turquia, com capital em Sardes, cidade famoso por sua opulência. Em visita à Sardes, Sólon foi indagado pelo grande rei quem seria o homem mais bem-aventurado, olbios, quer dizer, rico, benquisto pelos deuses ou, se quisermos, feliz, do mundo. Com a pergunta, Creso esperava que Sólon, após ver todo o poder e magnificência de seu reinado e de sua corte, lhe indicasse como tal homem. Para sua surpresa, não e a resposta de Sólon, que lhe responde que somente quando uma vida termina se pode dar o veredito se foi uma vida feliz.

Anos depois, Creso se preocupava com o crescimento do império persa em suas fronteiras. Manda a Delfos um emissário, que lhe responde que, caso ele cruzasse o rio Halys, na marca entre o Império persa e seus domínios, um império cairia. Creso, animado, invade o reino persa, somente para ser derrotado fragorosamente. Ciro, imperador dos persas, decide queimá-lo vivo. Já na fogueira, Creso se lembra das palavras de Sólon somente para dar-lhe razão. O final dessa história se encontra em Heródoto.

A ideia de que o indivíduo deve buscar a felicidade é, assim, antiga. Dentre os hebreus e em Platão compete ao líder do rebanho ajudá-lo a alcançá-la, de todos os membros e de cada um. Em Aristóteles a própria razão de ser da comunidade política é a felicidade de seus membros. Mas também para o judaísmo e, assim, para o cristianismo, dado que a marca do homem é o pecado, ele deve sofrer; a vida é sofrimento. O homem é indigno da felicidade nesta vida. Disse o papa Inocêncio III: “andas pesquisando ervas e árvores; mas estas produzem flores, folhas e frutos, e tu produz lêndeas, piolhos e vermes; elas emitem de seu interior azeite, vinho e bálsamo, e você de seu corpo, escarro, urina e excrementos”. Caberá ao Renascimento recuperar a antiga dignidade do homem e, assim, dotar-lhe novamente de acesso possível à felicidade, à sua dignidade.

Com os desenvolvimentos do Estado absolutista, da estatística (ciência do Estado) e da biopolítica, além da economia capitalista e do socialismo, a busca pela felicidade volta á ordem do dia. Os filósofos malditos desembocam nos libertinos, não sem antes redescobrir os epicuristas e estoicos. Já Condillac, no século das Luzes, aponta para uma economia política sensualista, que há de desembocar o próprio utilitarismo, o qual divide as coisas entre aquelas que nos causam prazer e nas que causam desprazer.

Assim, o capitalismo, com a profusão de imagens, sons, e, hodiernamente, curtidas, reduzem a busca pela felicidade ao possuir bens materiais, exatamente o que Epicteto nos vetava enquanto via da felicidade, uma vez que não dependem de nós a aquisição e preservação dessas coisas materiais. Não se trata, pois, de felicidade, mas de mero prazer, efêmero.

Com o liberalismo, a felicidade dos membros da comunidade deixa de ser uma preocupação do Estado enquanto meta primeira, mas, sim, algo com o qual os indivíduos devem se ocupar em seus negócios privados. Para Aristóteles, o fim de toda ação é a felicidade, já que é a única coisa que vale como fim por si mesma, não como meio para outra coisa. Que diferença entre a ética antiga e a moderna, entre uma ética eudemonística e a utilitária. A própria ideia de comunidade se desfaz a cada dia, e o Estado, dominado por interesses alheios aos desta, se deixa consumir na oferta de prazeres efêmeros, em vez de possibilitar a fruição da felicidade perene. Esta não pode vir das religiões abraâmicas, para as quais o homem foi feito para sofrer.

Somente encontraremos a via da felicidade, em nossa tradições, nos caminhos das filosofias antigas, que assim a pensaram e a desejara. De resto, seremos instrumentos de interesses escusos, não fruidores, mas clientes; ou meros pecadores pagando pena. Quando nos libertamos dessas éticas do útil e do sofrimento estaremos um passo mais perto de um autêntico gozo. E mais próximos da felicidade

sábado, 4 de junho de 2022

O Iluminismo radical

 ISRAEL, J.I. Radical Enlightenment. Philosophy and the Making of Modernity 1650-1750. USA: Oxford University Press, 2001


Se todas as coisas fossem iguais, seria impossível a vida. Notar as diferenças, treinar os sentidos e a razão a fim de percebê-las é um traço distintivo de uma mente arguta. Não que notar as semelhanças também não o seja, mas “não entramos duas vezes no mesmo rio”, de modo que, a rigor, nada é igual a nada, nem mesmo o leitor ou o escritor dessas palavras. As coisas ocorrem no tempo e no espaço, de modo que todos somos diferentes a cada instante. Uma das coisas mais interessantes da História é justamente o lançar de luzes sobre as diferenças, sobre como os humanos de outrora pensavam, agiam, se organizam, se rebelavam. Confiar na memória, esse autêntico Judas, que nos trai por muito menos do que trinta moedas, é vão: de vidas curtas, relativamente à grandeza do universo, não poderíamos experienciar o passado senão pela mediação do presente. Assim, nos acostumamos, criamos um ethos de apreciação das coisas profundamente ancorado em nossa vivência histórica, nas forças que nos moldam.

Eu havia parado de escrever textos sobre livros aqui no blog, espécies de pequenas resenhas, já que, pelos metadados, não eram muito lidos. Escreve-se para os leitores e, se estes não gostam daquilo que a pena verte, mais vale trocar de tópico ou de meios. Mas o livro de Jonathan Israel merece uma exceção.

O tema é interessante: o Iluminismo radical. Lemos em clássicos como Cassirer, Peter Gay ou, no caso dos autores da terrinha, de Salinas Fortes, uma visão do Iluminismo focada em seus grandes nomes: Voltaire, Rousseau, Diderot, D’Alembert, Montesquieu. Quando muito, chega-se a Kant, cita-se Locke de passagem e um ou outro autor. Referências ao Despotismo Esclarecido também são recorrentes. O mérito de Israel é lançar luzes sobre um setor do movimento altamente importante e desconhecido do grande público: os iluministas radicais, ancorados, sobremaneira, em Espinosa, o filósofo judeu renegado que criou um dos grandes sistemas de pensamento da filosofia. Do ponto de vista técnico, o livro é impecável, assim como é grande: quase 900 páginas, onde nem mesmo Portugal é esquecido. Sim, Verney é citado em algumas passagens lembrando-nos dos atrasos de Portugal, e da colônia, em relação aos debates do restante da Europa. Utilização de fontes originais e uma vasta gama de comentadores tornam o livro um trabalho primoroso de crítica e de filosofia, que cobre toda a Europa (ou quase toda) no período de 1650-1750, alargando um pouco o Século das Luzes, mas com uma precisão invejável

Quando lemos Cassirer estamos lendo, nos diz Israel, a história do Iluminismo moderado, do Iluminismo courtois, que encontrava espaço na anturragem de certos reis e rainhas. Para Cassirer, por exemplo, não seria La Mettrie, um radical materialista, do tipo que Marx chamou de vulgar; não seria D’Holbach ou mesmo Diderot os píncaros do movimento, mas sim, um moderado D’Alembert, o qual, diante das primeiras dificuldades com as autoridades na publicação da Enciclopédia, abandonou Diderot, e terminou seus dias acolhido na Academia Francesa, posto de prestígio. Não, nos diz Cassirer, o Iluminismo foi um movimento moderado, pautado na luta não contra a religião e seus delírios, não contra o Absolutismo e seus arbítrios, mas contra as fraquezas no uso da razão, por exemplo. O Iluminismo seria um movimento reformista, em suma, não revolucionário.

Para Israel há elefantes na sala. Ele descortina o mundo dos autores proibidos, daqueles dos quais não se editam mais as obras, dos proscritos, dos malditos, de quem nunca ouvimos falar. Segundo ele, quatro correntes teriam disputado o movimento: os Newtoniamos-Lockeanos, os partidários do sistema Leibniz-Wollf, os cartesianos-malebranchianos e, por fim , os espinosistas. Diz o autor que é uma crença comum de que Newton e Locke seriam as fontes primeiras do Século das Luzes, impulsionados pela anglomania que varreu os meios cultos da Europa em meados do XVIII. Mas, baseado em extensa documentação, ele nos mostra como foram as teses espinosistas que lastrearam o Iluminismo.

Em vida, Espinosa foi bastante perseguido, tendo seus textos sido censurados e ele mesmo expulso da Sinagoga, este último fato muito conhecido. Mas a anturragem espinosista, aqueles que compartilhavam suas preocupações filosóficas, o são muito menos. Espinosa não era ateu, mas negava postulados fundamentais das religiões abraâmicas, como os milagres. Opunha-se também a dualidade corpo-espírito e outras mirabolices do gênero, que atentam contra o bom uso da razão. Por estes motivos seus pensamentos foram perseguidos. Vivia-se tempos de absolutismo, censura e privilégios; não à toa, um filósofo que defendeu a democracia, ainda que limitada, e a noção de que deus e natureza são o mesmo fosse tão escanteado e perseguido. Não fossem seus amigos, discípulos e admiradores, a obra de Espinosa, queimada publicamente, teria sido toda destruída.

Segundo Israel, não foram os ingleses a maior inspiração do Iluminismo, mas os holandeses. Os Países Baixos eram o centro da vida intelectual clandestina da Europa, para onde convergiam todos os philosophes, todos os livre-pensadores que buscam ares frescos para filosofar, debater e publicar. De lá afluíam livros que inundavam o continente com materialismo, em um momento de extrema-crendice da população. Lembremo-nos: o feudalismo, com toda gama de privilégios que o rondam, ainda vivia, e era em uma Europa repressiva, onde o tráfico de seres humanos era feito à luz do dia, que estes filósofos se posicionavam. No centro das polêmicas, a religião. O combate à superstição, à queima de pessoas na fogueira, ao rei ungido por deus, à censura, ao despotismo estava na ordem do dia.

Israel acompanha o período mais tenso dessa dura luta que nos permitiu e que gerou coisas que hoje, no Ocidente expandido, são tomados como pilares. Inclusive acompanha as execuções, as prisões, as fugas, as proibições, enfim, o destino trágico de campeões das causas hoje novamente at stake. Ler o livro de Israel, disponível no libgen somente pode nos fazer valorizar as liberdades que hoje usufruíamos e dar o gosto de um mundo onde essas liberdades valham para todas e todos e onde novas liberdades, que hoje sonhamos, como anteriormente sonharam os iluministas radicais, sejam realidade.

Curiosamente, ele termina o livro com Rousseau, assim como Salinas Fortes termina o seu. Coincidência? Ou será que o idealismo de Rousseau e sua defesa da igualdade, com as consequências na Revolução francesa, não são um chamado à ação e uma lembrança de que a filosofia ajuda a mudar o mundo, mas o combate essencial se dá fora dos livros?

O livro é grande, mas vale a pena cada página. Informativo, rico, documentado, enfim, uma leitura incontornável nos dias de hoje, especialmente quando a herança do Iluminismo está no centro de todas as polêmicas, com seus inimigos a frente do Planalto. Compreender melhor o Iluminismo em suas cepas que, afinal de contas, o impulsionaram correndo risco de vida, já que era contra os espinosistas que se voltaram as garras mais duras da repressão, constitui uma das tarefas de qualquer pessoa honesta, que valorize efetivamente a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A libertas philosophandi custou vidas. Saibamos valorizá-la e expandi-la. Saibamos ver as diferenças que guardamos com aquele período e perceber que expandir as liberdades, socialmente referenciadas, é pauta do dia. Lutar contra o misticismo, especialmente contra o novo misticismo, que quer nos manter nas trevas de um mundo caduco, é urgente. Leiamos Israel, aprendamos a história daquilo que gerou a modernidade, mas com os olhos em nosso presente e no autêntico herdeiro do Iluminismo: o socialismo.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Duas fábulas de Fedro

 Rã estourada e boi


Pobre, que enquanto tenta imitar o poderoso, perece. 

No prado uma rã vê um boi 

e, tomada de inveja de tanta magnitude,

 a pele rugosa infla. 

os seus ela interroga se estaria maior que o boi. 

Eles negam. Novamente se esforça para deixar a pele

 maior, e similarmente interroga quem seria maior. Eles disseram o boi.

 Por fim indignada, enquanto tentava se inflar, rompido jazeu o [seu] corpo.


Rana rupta et bos


Inops, potentem dum uult imitari, perit.

In prato quondam rana conspexit bouem,

et, tacta inuidĭa tantae magnitudi!nis,

rugosam inflauit pellem. Tum natos suos

interrogauit an boue esset latĭor.

Illi negarunt. Rursus intendit cutem

maiore nisu, et simĭli quaesiuit modo

quis maĭor esset. Illi dixerunt bouem.

Nouissĭme indignata, dum uult ualidĭus

inflare sese, rupto iacŭit corpŏre.


Cães esfomeados


Conselho estulto não se importa com os efeitos, 

mas ao pernicioso e até mesmo mortal arrasta. 

Couro imerso em um rio os cães veem. 

Ele para comer mais facilmente [para alcançá-lo], 

começaram a beber a água, 

mas estouraram e morreram antes de atingir seus objetivos.


Canes familici


Stultum consilĭum non modo effectu caret,

sed ad pernicĭem quoque mortalis deuo(cat.

Corĭum depressum in fluuĭo uiderunt canes.

Id ut comesse extractum possent facilĭus,

aquam coepere ebibĕre, sed rupti prius

periere quam, quod petiĕrant, contingĕrent

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Canção de Páscoa

Ressuscita!

Te ordeno!

Tu és o verdadeiro

Tu és o real divino

Estás morto há três décadas

enclausurado no covil sujo

das migalhas.

Transforma a migalha em pão

Multiplica!

Tu verdadeiramente transforma

a água em vinho.

Tua força move o mundo

Por que carregar essa cruz da ordem caduca?

Pai, não os perdoai, eles sabem

[o que fazem!

Que renasças,

que apareças, que brilhes.

És o futuro.


Outono de 2022