quarta-feira, 26 de abril de 2023

Numeradores indefinidos, R. O. Wiemer [tradução]

 Todos sabiam

Grande quantidade sabia

Muitos sabiam

Vários sabiam

Alguns sabiam

Poucos sabiam

Ninguém sabia


Unbestimmte zahlwörter


Alle haben gewusst

Viele haben gewusst

Manche haben gewusst

Einige haben gewusst

Ein paar haben gewusst

Wenige haben gewusst

Niemand hat gewusst


Rudolf Otto Wiemer (1905-1998)

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Lucrécio

Em um dia foste criado


Em um dia há de perecer


Um dia como hoje,


Onde havia sol ou chuva


Havia frio?


Fazia quente?


As pessoas labutaram esse dia


E, como qualquer outro dia,


Dormiram,


Amaram,


Odiaram


E, já cabecinha no travesseiro,


Pensaram: mas que dia!


Talvez tenhas tido a sorte


De ser filho da noite,


Quem sabe das madrugadas


(A deusa Embriaguez abençoa


Os filhos da noite).


Se tiveres sorte,


Morrerás dormindo,


Como em um sonho.


E no outro dia,


Será outro dia


E o mundo há de seguir seu curso


Até que a Estrela voraz


Nos engula


E sejamos poeira.


Na escala do tempo,


Tua vida não durou nem um dia


Por isso,


Por seres tão minúsculo,


Aproveita o tempo que tens,


Goza do instante,


Pois, de volta em volta,


A hora da estrela se aproxima

Outono de 2023

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Da utilidade da filosofia

 

“A filosofia não é útil”. Assim começava nosso ex-professor Lúcio Prado a ministrar seu curso de Filosofia moderna na UNESP de Marília. Com isso ele determinava, de uma vez por todas, uma velha questão que remete a séculos, à aurora mesma da filosofia, a questão de sua utilidade. Questão antiga, que nos leva a Tales.

Esopo, o fabulador mais conhecido do mundo, dedicou uma historieta àquilo que ele chama de astrônomo. Vagando pelos campos, observando as estrelas e confabulando consigo, um astrônomo cai em um poço e é vítima da troça geral. Alguns ligam essa fábula a Tales, o dito primeiro filósofo da tradição ocidental.

O mesmo argumento vamos encontrar em Aristófanes, na peça “As nuvens”, onde ele se dedica a descrever as peripécias de um Sócrates. O título seria devido ao fato do personagem alvo viver com a cabeça nas coisas do céu, esquecendo-se de se ligar aos problemas terrenos. Na peça, Sócrates é descrito como tendo preocupações tais quais medir o tamanho do salto de uma pulga.

Essa imagem do filósofo amalucado, preocupado com questões desimportantes, preocupado com coisas as quais não interessam a ninguém é, como se vê, muito antiga. Fora da literatura, na Metafísica de Aristóteles, ele mesmo afirma que a filosofia surge do ócio e que somente após a constituição das ciências da utilidade é que foi se constituir a própria filosofia enquanto tal. Ou seja, a filosofia se oporia ou seria secundária em relação às ciências mais importantes.

A mesma literatura nos oferece contraexemplos. Pesemos ainda em Tales. Diógenes Laércio, que escreveu uma Vida dos filósofos ilustres, nos mostra como Tales, cansado de ser zombado por suas pesquisas, resolveu mostrar que seu saber era de grande valia e que ele somente não se dedicava às coisas ditas “úteis” por escolha própria. Prevendo uma boa colheita de azeitonas, mandou alugar todas as moendas da cidade. Dito e feito: a colheita foi esplendorosa e, como ele estava em usufruto de todo o aparato destinado ao beneficiamento das olivas, ganhou muito dinheiro.

Outros exemplos da Antiguidade podem ser dados, seja o papel que se determina aos filósofos na República de Platão, com o concomitante reconhecimento do mais alto grau de importância que se deve reservar à filosofia, seja com a função terapêutica da filosofia nas escolas de pensamento pós-aristotélicas, ou, ainda, no uso que os sofistas faziam da lógica avant la lettre nas disputas pelo assentimento da assembleia ateniense.

Determinações opostas, portanto, e noções muito diferentes da filosofia. Caso ela seja inútil, não haveria motivos para se destinar o suado dinheiro dos contribuintes ao seu cultivo. Filósofos que defendem esta posição estão, por assim dizer, tomando sua cicuta própria. Afinal, se ela for mero joguete, mero passatempo, um pouco complicado, confessemos, qual a razão de se a entreter, de regar a horta dos amigos da sabedoria? Não estamos tratando do banimento da atividade, mas do financiamento público das pesquisas, já que o mercado, parece concordar com essa afirmação e, assim, reserva poucos empregos fora da docência para os filósofos. Empresas que contratam inúteis? Difícil de encontrar.

Ao mesmo tempo, essa parece ser a prova a mais cabal de se provar que a filosofia é inútil: as empresas não os querem, “eles não fazem dinheiro; ao contrário, vão questionar quem quer ficar rico”, “vão impor entraves e plantar a semente da dúvida nos empresários de si mesmo”. “A filosofia não só é inútil para o mercado, como é até mesmo nociva para o mercado”. “Não são os cursos de filosofia antros de esquerdistas?” “Não são as faculdades de humanas a Meca de tudo aquilo que quer questionar a ordem atual?” “Não, a filosofia é uma desutilidade para a sociedade moderna”, dirão. Quase escuto a voz de Lehmann falando enquanto escrevo estas linhas.

Mas, ali, já encontramos mais determinações. Não é bem que a filosofia seja inútil. Ela o é se considerarmos o modelo de utilidade estabelecido pelos poderes dominantes. Para o mercado, a primeira vista, a filosofia é inútil, já que os filósofos não produzem, ou produziriam, mercadorias, que podem ser vendidas. Sua mão de obra, malgrado altamente especializada, não completa os requisitos para se tornar um bem comercializável, já que o principal efeito da filosofia é sobre os sujeitos. A filosofia, assim, não poderia ser expostas em gôndolas ou negociada na bolsa.

Essa noção, ao que parece, já foi ultrapassada. Quantos cursos de filosofia pagos são ofertados atualmente? Quantos livros de filosofia são vendidos e comprados? Ou seja, mesmo para o mercado, há um nicho de leitores e estudantes muito bem dispostos a oferecer quantias a fim de se instruírem na velha senda da filosofia. Ela não é inútil, nem mesmo para o mercado, que consegue capitalizar em cima da formação das pessoas. Trata-se da noção de capital humano, e, com isso, do savoir-faire das pessoas, já que outro tipo de competências têm sido demandados no mundo corporativo. Ou seja, mesmo para os defensores de um estrito capitalismo, a filosofia tem lá suas belezas. Ela não é inútil.

Até porque, desde meados da Revolução industrial, o saber e os processos produtivos, estes que geram muito dinheiro, originário da exploração dos trabalhadores, se interconectaram de maneira muito profunda. Claro, para produzir qualquer coisa que não seja meramente corporal, é necessário saber. Mas a escala na qual ciência e produção se interconectaram é sem paralelos na história do globo, não só pela ideia mesma de aplicar os saberes daqueles que viviam medindo o pulo da pulga  no fabrico de produtos, como ademais pelos impactos incomensuráveis sobre a vida das pessoas e tudo que daí se seguiu. Como nota Lyotard, o saber é algo da mais extrema importância no mundo moderno. E a filosofia, por conseguinte, também o é. Não como mochileira, que pega carona na boleia alheia, mas como motorista, uma vez que novas ciências só podem nascer de um tipo de atividade na qual os filósofos são mestres: interrogar, duvidar, perguntar as causas, os meios e os fins.

Claro, há um grave problema: quando se começa a perguntar, não se sabe aonde vai parar. As questões se interligam e, de repente, às três da manhã encontrar-nos-emos pesquisando sobre a história da ideia de força. Mas a dúvida, essa sementinha potente que a filosofia faz plantar na mente das pessoas, é o começo da sabedoria. Para Platão e Aristóteles, era o maravilhamento, como preferimos traduzir, ou a admiração ou espanto, como querem outros. Quando se começa a duvidar das coisas e se empreende uma pesquisa a fim de sanar a dúvida, eis um filósofo. Quando se começa a crer com demasiada fé, sem se indagar jamais, eis um noviço.

Tratamos apenas de uma facetada utilidade da filosofia. Ela ensina habilidades importantes até mesmo para o mundo corporativo. Há outras, mas, essas, ficam para outro texto.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Cada pessoa com a sua Lídia

 

Quando a morte vier,


Marcela,


Que ela me encontre doce


Indisputado, sobre as asas da vida


Para que eu vague,


Nos suspiros finais,


Nos campos de girassóis


Que ambicionamos em nossa juventude.


Que eu saiba estar sereno


Sabendo que esse é o destino


De tudo que respira.


Que as pérolas que o Sol,


Um astro dentre tantos,


Derrama no vasto céu,


Minúsculo perto de teu candor,


Alumiem meus últimos minutos


E mostrem que a vida é um nada,


Mas que é tudo que temos.


Ah, Marcela,


Que em minha última visão


Eu veja a ti,


Inconclusa acerca de Basquiat,


Mas certa de seus poemas


E de sua música.


Que a melodia final seja um gosto de reencontro


E o passaporte da liberdade:


Dissolver-se no todo


E retornar à mansão tranquila


Do primeiro trago de ar.


Outono de 2023


sábado, 11 de março de 2023

Era Foucault um liberal? Breves palavras

 

No final de 2008, quando eu ainda era um jovem estudante em Marília, na UNESP, decidimos, nós da Moradia Estudantil, criar um grupo de estudos e ação que reunisse comunistas e anarquistas, o Moradas Comuna, o qual acabou por render muitos bons frutos, diga-se de passagem. Um dia, já em 2009, estava eu tranquilamente passeando pela universidade quando um estudante marxista mais velho desse grupo falou que havia alguém que queria me conhecer. Era Ivo Tonnet. Este me disse que um autor havia chamado sua atenção no último período e que ele queria conversar sobre ele com um anarquista. O autor era Makhno. Eu logo lhe disse que gostava muito de Makhno, mas que estudava Foucault. Tonnet então replicou: mas este é um liberal!

Tonnet não está só em sua afirmação. Muitos autores, especialmente marxistas, acusavam Foucault de ser um liberal, autores como Bidet, que chega a se perguntar se Foucault não se reconhecia os autores neoliberais que estudou no curso Nascimento da biopolítica. Eu, que sempre entendi, desde o momento que comecei a lê-lo, Foucault como mais próximo do anarquismo, acho descabida a comparação. Mas, como aquele professor marxistas convicto de Marília disse, o anarquismo é um liberalismo. Ou seja, não se pode tomar a régua marxistas como parâmetro já que, tudo aquilo que, para eles, não siga sua rígida cartilha, automaticamente está do lado de lá e é defensor da burguesia, reacionário e outros belos adjetivos que reservam a quem deles discorde.

Mas também há conservadores que pensam Foucault como pertencente ás suas hostes. Já escrevi aqui sobre um deles (https://filosofiabrasileirapolitica.blogspot.com/2020/02/foucault-e-os-aplicativos-de-entrega.html). Este autor, Gonsález, colombiano, pensa Foucault junto a Tomás de Auino e Mises para fazer uma defesa esdrúxula do capitalismo, da Igreja e do machismo. Não vale a pema ler.

Também não estou só em pensar Foucault como um anarquista. Em um curso na mesma UNESP de Marília, há mais de dez anos, Sílvio Gallo disse que considerava Foucault anarquista, mas que ele não se assumira exatamente por ser tão anarquista. Acrescentou o nobre professor que ele também era anarquista, mas se acreditava o único no mundo. Prontamente eu disse: eu também sou anarquista. E logo uns dez outros estudantes, em um auditório com umas 60 pessoas, foram se identificando como anarquistas. Sílvo Gallo estava no ninho das serpentes e não sabia. No final, lhe dei de presente meu exemplar pessoal do Anarquismo Social e Organização da FARJ. Espero que tenha feito bom proveito.

Sílvio Gallo é somente, dentre muitos outros, que não veem liberalismo em Foucault, mas anarquismo, uma lista de autores que arrebanha gente como Vaccaro, Passetti, Avelino, Rago, etc. Afinal, será Foucault um liberal ou um anarquista?

Na biografia que Eribon redigiu sobre Foucault há um trecho interessante onde Foucault e Vuillemin, um filósofo da matemática, trocam um diálogo. Foucaultt diz a Vuillemin, segundo Eribon, algo do gênero: “o que nos separa é que você é um anarquista de direita, enquanto eu sou um anarquista de esquerda”. Essa afirmação é o ponto de partida do famoso texto de Vaccaro sobre Foucault e o anarquismo, como se sabe.

O que seri um anarquista de direita, é difícil de aquilatar, já que o anarquismo é um tipo de socialismo. Claro, há aqueles liberais delirantes que pensam a divisão esquerda-direita como ligada à defesa do Estado ativo ou não na economia: quanto mais ativo, mais à esquerda, quanto menos, até sua completa extinção, mais à direita. Nesses termos, o anarquismo seria uma teoria de extrema direita. Fantasia completa, uma vez que a dita divisão se resolve na questão da divisão do produto social e da defesa das tradições (opressões) sociais. Ou seja, quanto mais igualitário, mais libertário.

Para pensarmos se Foucault pode, fora da régua marxista, ser pensado como um liberal, deveríamos, em primeiro lugar, exigir uma definição de liberalismo. Esse se divide em liberalismo econômico, cujos primórdios vão longe, mas cuja expressão madura se encontra em Smith; e liberalismo político, vincado pela defesa da propriedade privada como fundamento do poder político, e certamente sua origem é mais antiga, remontando a Hobbes e Locke. Em ambos os casos, a defesa da propriedade privada e do sujeito de direito são fundamentais para ambos.

Quanto ao liberalismo econômico, Fooucault não pode ser assimilado. Não há, em sua obra, defesa da propriedade privada. Ao contrário, ele aponta como o liberalismo se constitui em um primeiro marco da biopolítica enquanto gestão da diversidade humana em sua multiplicidade, em benefício de políticas que privilegiem uma população saudável. No segundo caso, Foucault tampouco pode ser entendido enquanto um liberal, uma vez que não se encontra uma apologia da democracia burguesa, muito menos das ditaduras de tipo Pinochet em seus escritos.

Além da denúncia do liberalismo como desencadeador da biopolítica, Foucault ainda denuncia, em Vigiar e Punir e outras obras e intervenções, o momento de triunfo maior do liberalismo, o século XIX, enquanto sociedades disciplinares, com raízes mais antigas, mas que correspondem ao próprio processo de formação do capitalismo. A disciplina deve ser entendida como uma tecnologia de poder que visa obter “corpos politicamente dóceis e economicamente úteis”.

Foucault se especializou, em sua fase de estudos mais políticos, e até mesmo antes, a criticar o tratamento o qual se reservava aos desviantes, como os loucos, as bruxas e os criminosos,; as perseguições que sofriam as minorias, como mulheres e homossexuais. Ele apontou o racismo como constituinte da governamentalidade moderna; se aliou, na vida política prática, com aqueles que lutavam contra ditaduras, como no caso brasileiro, tunisiano ou espanhol, dentre outros; denunciou a tirania e os regimes do leste ou oeste, ou seja, estalinista ou capitalista. O próprio fato de pensar Foucault como um teórico do liberalismo não possui consistência ou base histórica.

Mas, se Foucault não é um pensador de direita, nem comunista, o que seria? A nosso ver, Foucault pode ser pensado, com maior justiça, como um anarquista, mas um tipo com não muitas ligações com o anarquismo tradicional. De alguma Forma, Foucault e outros pós-estruturalistas, refundam o anarquismo. Lembremos que este havia sido praticamente dizimado após a derrotada Revolução espanhola (1936-1939). É no pós-68, sobretudo, que o anarquismo vai renascer mundo afora.

Mas, a maior parte das obras políticas de Foucault é descritiva. Ele chegou a afirmar que era um “positivista feliz”, e Veyne, em seu livro de memórias com Foucault, o descreve como alguém que amava os fatos. Por Foucault recursar-se a exercer um papel de diretor de consciência e muitas vezes se calar quando deveria falar (a nosso ver), ele deu azo a muitos enganos e más interpretações. Foucault faz lembrar a nós mesmos, quando pensávamos que os anarquistas não deveriam dirigir processos. Com seu conceito amplo de governo como “arte de conduzir condutas”, Foucault fez de tudo para evitar se tornar um governante. Ao contrário, preferiu lutar e escrever ao lado dos governados.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O humor de Cícero [Tradução]

 

Cícero, De oratore, II 276


Nausica, quando ao [à casa do] poeta Ênio foi e, diante da porta, perguntou [por ele], disse a serva desse "não está em casa", Nausica percebeu que ele ordenara que [a serva] dissesse que ele não estava em casa.


Poucos dias após, quando à [casa de] Nausica veio Ênio e por ela desde a porta perguntou, exclamou Nausica [que] "não está em casa".


Então Ênio [disse] " O que? Então, não reconheço", disse, "sua voz?"


Então Nausica [disse]: "És um homem imprudente: eu quando perguntei por ti, acreditei em sua escrava [quando ela disse] que "você não estava em casa" - você a mim não acredita mesmo?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

O deus dos filósofos

 

“Epicharmos, pois, os deuses são, diz,

vento, água, terra, sol, fogo, astros;

eu penso que úteis são os deuses

[como] dinheiro [argyrion, prata] nosso e ouro somente”


Menandro


Afora o ainda indecifrado sistema de escrita Linear A (de Creta, no mar Egeu, predecessores dos gregos) e daqueles do Linear B (que descrevem a organização e vida social dos micênicos, antecessores dos gregos tal qual os conhecemos e que ajudaram a destruir as bases da civilização cretense), a Ilíada e a Odisseia constituem os documentos mais antigos do futuro Ocidente. Nessas duas obras máximas de poesia épica se narram as peripécias dos gregos em torno da guerra de Tróia. A Ilíada é mais conhecida, já que virou um filme hollywoodiano, Troia, com Brad Pitt no papel de Aquiles. Várias noções distribuídas pela cultura popular se originaram da Ilíada, como as expressões ‘cavalo de Troia” ou “presente de grego”, em referência às astúcias dos gregos a fim de vencer os troianos: o famigerado cavalo de madeira, cujo conteúdo escondia poderosos guerreiros. O cavalo foi ideia de Odysseus ou, em sua versão latinizada, Ulysses, protagonistas da Odisseia, que narra seu retorno à casa após os eventos da guerra.

Sobre o mundo grego ou pré-grego de então, Finley escreveu memoráveis páginas em O mundo de Ulysses, onde, a partir dos poemas épicos de Homero, autor da Ilíada e da Odisseia já no século VIII antes da Era Comum (enquanto os eventos dos dois poemas se passaram antes da assim chamada Idade das Trevas grega, originada com a invasão de outra tribo helênica, do norte, os dóricos, em torno o século XII a.E.C.), desagregando, assim, o mundo micênico —, a estrutura social do período é explicitada. Tratava-se de uma sociedade organizada em torno de senhores, de cortesia, de troca de presentes e favores. Uma sociedade de nobres, por assim dizer.

Snell, em A descoberta do espírito, lembra-nos da distinção que ocorre em poucos séculos na cultura helênica. Homero, antes do século de Péricles (século V a.E.C.) era lido como descrevendo fatos históricos. Já nos escritos de Aristóteles, na Poética, o Estagirita distingue entre a Historia, que narra fatos, e a Épica, fruto da imaginação de um autor. Homero e seus versos perderam o status de veracidade em benefícios de estudos como os de Heródoto ou Tucídides, historiadores sérios e lidos até hoje com embasbacamento.

Os gregos eram politeístas, embora houvesse entre eles defensores do monoteísmo, mas a primeira via era a dominante. A religião grega era uma religião cívica, ou seja, estava ligada com os cargos públicos, com a liturgia da cidade, embora não houvesse culto oficial, somente deuses protetores das distintas poleis e lugares de culto, como os santuários.

Na Ilíada, como na Odisseia e, também, em Hesíodo, outro poeta que canta os feitos e presença dos deuses, as divindades não são encaradas como separadas do mundo. Claro, reinam sobre plagas do real, sob a égide de Zeus, mas são divindades personalizadas, presentes, atuantes, que interferem no mundo a todo instante segundo seus caprichos. Por exemplo, logo no começo da Ilíada, Aquiles, principal soldado grego, está furioso com Agamenon, líder das tropas gregas, e pensa em ferir-lhe com a espada. Athena, deusa da sabedoria, contém sua mão e Aquiles embainha a espada. A deusa interferiu diretamente no processar dos fatos, fez-se presente e está tão preocupada com o correr do mundo quanto consigo mesma, já que é de seu interesse que os mortais, pelos quais se afeiçoa, prosperem e encontrem glória.

Trata-se de um deus-interventor. A mitologia grega está cheia de exemplares assim: deuses se imiscuindo com os assuntos de mais baixa estatura, segundo seu capricho, e, assim, decisivamente alterando o desenrolar dos fatos. Zeus tem vários filhos com mortais, filhos prodigiosos. Dionísio preside festivais Diana abençoa os caçadores, Eros influencia em nossas paixões, etc. O mesmo ocorre em Hesíodo, onde os deuses regem os assuntos terrestres; eles basileuontai: dominam, reinam, são imortais e poderosos.

Séculos depois, Xenófanes de Colofão (c. 570-528 a.E.C.) rirá desses deus antropomorfizados, feitos á imagem e semelhança dos humanos. Deuses que sentem ira, que se encolerizam, que se apaixonam por mortais, que brigam. Ele diz que os etíopes pensavam que seus deuses eram negros do nariz achatado, assim como os gregos pensam que seus deuses são brancos do nariz fino. Xenófanes defendia não um deus-interventor, mas um deus como princípio de organização do mundo. Xenófanes, um monoteista entre politeístas (e cujo nome significa emblematicamente algo como “aparição estrangeira”), não utiliza o termo princípio (archē) mas é assim que Simplício o comenta. O deus dos filósofos não é o deus da religião. O deus dos filósofos é um deus que serve como princípio de explicação do mundo, não como veículo de crença, ainda que o filósofo seja religioso, pio e casto.

O deus dos filósofos serve como primeiro motor, como causa sui, móvel imóvel, não como deus ex machina, ou seja, como um recurso que se utiliza quando já não se sabe bem como proceder. O deus da religião é um deus interventor, que predica aos mortais o que fazer, como agir, o que pensar, que fornece respostas que a filosofia e a ciência não podem (por ora) fornecer. É um deus que conforta e, porque o que se exige dele é conforto, deve possuir a aparência e os traços humanos; afinal, é pouco provável que alguém se conforte com uma pedra ou um galho.

O deus dos filósofos advém do raciocínio, de uma sequência de causas e efeitos que conduz a asserção de que há um princípio do kosmos, que uma mente assim o ordenou e que, da mesma forma, assim o mantém. Já o deus da religião é um deus revelado e cujo forma de se mostrar divino é, precisamente, o milagre, ou seja, uma alteração sobrenatural dos rumos e caminhos que a natureza encontrou para si própria. Sem milagre, toda a narrativa bíblica perde sentido e o Cristo se torna somente outro profeta que vagou na terra dos judeus.

Isso não quer dizer que a religião seria totalmente irracional. Ao contrário, muito ao contrário: algumas das mentes mais poderosas que pisaram o planeta eram religiosas e dedicaram-se a provar a existência de deus e interpretar as escrituras. Tratam-se, em fato, de dois registros de verdade, dois conceitos incompatíveis: a verdade-revelada e a verdade raciocinada. Quem acredita que, em um átimo, a estrutura mesma do universo pode ser conhecida e quem pensa que a natureza deve ser interrogada para que extraiamos dela a verdade. A filosofia e a ciência se encaminham nesse último sentido e, todos os dias, dela usufruímos os frutos, já que ele nos confere uma vida mais aconchegante (além de problemas, claro; mas isso é assunto para outro texto).

Já a verdade-revelada, a qual perdeu todas as batalhas que travou contra a ciência, historicamente falando, nos oferece conforto, o conforto de uma mentira muito mal contada. A escolha é, portanto, entre uma verdade dura, mas que melhora nossas vidas, ou uma mentira bonita, mas que nos ofusca a verdade. Não é uma escolha tão difícil assim…