“Epicharmos, pois, os deuses
são, diz,
vento, água, terra, sol, fogo,
astros;
eu penso que úteis são os
deuses
[como] dinheiro [argyrion, prata]
nosso e ouro somente”
Menandro
Afora o ainda indecifrado
sistema de escrita Linear A (de Creta, no mar Egeu, predecessores dos
gregos) e daqueles do Linear B (que descrevem a organização e vida
social dos micênicos,
antecessores dos gregos tal qual os conhecemos e que ajudaram a
destruir as bases da civilização
cretense), a Ilíada e a Odisseia constituem os documentos mais
antigos do futuro Ocidente. Nessas duas obras máximas de poesia
épica se narram as peripécias dos gregos em torno da guerra de
Tróia. A Ilíada é mais conhecida, já que virou um filme
hollywoodiano, Troia,
com Brad Pitt no papel de Aquiles. Várias noções distribuídas
pela cultura popular se originaram da Ilíada, como as expressões
‘cavalo de Troia” ou “presente de grego”, em referência às
astúcias dos gregos a fim de vencer os troianos: o famigerado cavalo
de madeira, cujo conteúdo escondia poderosos guerreiros. O cavalo
foi ideia de Odysseus ou, em sua versão latinizada, Ulysses,
protagonistas da Odisseia, que narra seu retorno à casa após os
eventos da guerra.
Sobre
o mundo grego ou pré-grego de então, Finley escreveu memoráveis
páginas em O
mundo de Ulysses,
onde, a partir dos poemas épicos de Homero, autor da Ilíada e da
Odisseia —
já no século VIII antes da Era Comum (enquanto os eventos dos dois
poemas se passaram antes da assim chamada Idade das Trevas grega,
originada com a invasão de outra tribo helênica, do norte, os
dóricos, em torno o século XII a.E.C.), desagregando, assim, o
mundo micênico —,
a estrutura social do período é explicitada. Tratava-se de uma
sociedade organizada em torno de senhores, de cortesia, de troca de
presentes e favores. Uma sociedade de nobres, por assim dizer.
Snell,
em A descoberta
do espírito,
lembra-nos da distinção que ocorre em poucos séculos na cultura
helênica. Homero, antes do século de Péricles (século V a.E.C.)
era lido como descrevendo fatos históricos. Já nos escritos de
Aristóteles, na Poética,
o Estagirita distingue entre a Historia,
que narra fatos, e a Épica,
fruto da imaginação de um autor. Homero e seus versos perderam o
status
de veracidade em benefícios de estudos como os de Heródoto ou
Tucídides, historiadores sérios e lidos até hoje com
embasbacamento.
Os
gregos eram politeístas, embora houvesse entre eles defensores do
monoteísmo, mas a primeira via era a dominante. A religião grega
era uma religião cívica, ou seja, estava ligada com os cargos
públicos, com a liturgia da cidade, embora não houvesse culto
oficial, somente deuses protetores das distintas poleis
e lugares de culto, como os santuários.
Na
Ilíada, como na Odisseia e, também, em Hesíodo, outro poeta que
canta os feitos e presença dos deuses, as divindades não são
encaradas como separadas do mundo. Claro, reinam sobre plagas do
real, sob a égide de Zeus, mas são divindades
personalizadas, presentes, atuantes, que interferem
no mundo a todo instante segundo seus caprichos. Por exemplo, logo no
começo da Ilíada, Aquiles, principal soldado grego, está furioso
com Agamenon, líder das tropas gregas, e pensa em ferir-lhe com a
espada. Athena, deusa da sabedoria, contém sua mão e Aquiles
embainha a espada. A deusa interferiu diretamente no processar dos
fatos, fez-se presente e está tão preocupada com o correr do mundo
quanto consigo mesma, já que é de seu interesse que os mortais,
pelos quais se afeiçoa, prosperem e encontrem glória.
Trata-se
de um deus-interventor. A mitologia
grega está cheia de exemplares assim: deuses se imiscuindo com os
assuntos de mais baixa estatura, segundo seu capricho, e, assim,
decisivamente alterando o desenrolar dos fatos. Zeus
tem vários filhos com mortais, filhos prodigiosos. Dionísio preside
festivais Diana abençoa os caçadores, Eros influencia em nossas
paixões, etc. O mesmo
ocorre em Hesíodo, onde os deuses regem os assuntos terrestres; eles
basileuontai:
dominam, reinam, são imortais e poderosos.
Séculos
depois, Xenófanes de Colofão (c. 570-528 a.E.C.) rirá desses deus
antropomorfizados,
feitos á imagem e semelhança dos humanos. Deuses que sentem ira,
que se encolerizam, que se apaixonam
por mortais, que brigam. Ele diz que os etíopes pensavam que seus
deuses eram negros do nariz achatado, assim como os gregos pensam que
seus deuses são brancos do nariz fino. Xenófanes defendia não um
deus-interventor, mas um deus como princípio de organização do
mundo. Xenófanes, um monoteista entre politeístas (e cujo nome
significa emblematicamente algo como “aparição estrangeira”),
não utiliza o termo princípio (archē)
mas é assim que Simplício o comenta. O deus dos filósofos não é
o deus da religião. O deus dos filósofos é um deus que
serve como princípio de explicação do mundo, não como veículo de
crença, ainda
que o filósofo seja religioso, pio e casto.
O
deus dos filósofos serve como primeiro motor, como causa sui, móvel
imóvel,
não como deus
ex machina,
ou seja, como um recurso que se utiliza quando já não se sabe bem
como proceder. O deus da religião é um deus interventor, que
predica aos mortais o que fazer, como agir, o que
pensar, que fornece respostas que a filosofia
e a ciência não podem (por ora) fornecer. É um deus que conforta
e, porque o que se exige dele é conforto, deve possuir a aparência
e os traços
humanos; afinal, é pouco provável que alguém se conforte com uma
pedra ou um galho.
O
deus dos filósofos advém do raciocínio, de uma sequência
de causas e efeitos que conduz a asserção de que há um princípio
do kosmos,
que uma mente assim o ordenou e que, da mesma forma, assim o mantém.
Já o deus da religião é um deus revelado e cujo forma de se
mostrar divino é, precisamente, o milagre, ou seja, uma alteração
sobrenatural dos rumos e caminhos que a natureza encontrou para si
própria. Sem milagre, toda a narrativa bíblica perde sentido e o
Cristo se torna somente outro profeta que vagou
na terra dos judeus.
Isso não quer dizer que a
religião seria totalmente irracional. Ao contrário, muito ao
contrário: algumas das mentes mais poderosas que pisaram o planeta
eram religiosas e dedicaram-se a provar a existência de deus e
interpretar as escrituras. Tratam-se, em fato, de dois registros de
verdade, dois conceitos incompatíveis: a verdade-revelada e a
verdade raciocinada. Quem acredita que, em um átimo, a estrutura
mesma do universo pode ser conhecida e quem pensa que a natureza deve
ser interrogada para que extraiamos dela a verdade. A filosofia e a
ciência se encaminham nesse último sentido e, todos os dias, dela
usufruímos os frutos, já que ele nos confere uma vida mais
aconchegante (além de problemas, claro; mas isso é assunto para
outro texto).
Já a verdade-revelada, a qual
perdeu todas as batalhas que travou contra a ciência, historicamente
falando, nos oferece conforto, o conforto de uma mentira muito mal
contada. A escolha é, portanto, entre uma verdade dura, mas que
melhora nossas vidas, ou uma mentira bonita, mas que nos ofusca a
verdade. Não é uma escolha tão difícil assim…