quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Análise de conjuntura em novembro de 2023

                 A situação atual se define por uma série de forças em conflito e uma situação crítica cujo desenlace não está dado. Basicamente, na arena mundial, disputam alguns polos de força inimigas,  cujos objetivos são contrastantes. De um lado, o liberalismo, cujo hegemon segue sendo os EUA, com o apoio da EU e de alguns outros Estados. De outro o bloco sino-russo, com apoios importantes em outras potências de menor calibre.

                O liberalismo, tal qual se deu historicamente, era uma teoria que fundamentou a prática de diversos setores sociais, sobretudo às classes médias e burguesas, contra o absolutismo e os privilégios do rei. Seu período de apogeu, o século XIX, viu os impérios coloniais se expandirem e a assim chamada missão civilizatória do homem branco, ser enfiada goela abaixo ao mundo todo. Aos sequazes dessa teoria, não lhes parecia incoerente apregoar um sistema que se diz calcado na liberdade através dos métodos mais violentos e repressivos. Liberdade, para essa camarilha, significa a prerrogativa de impor seu poderio industrial e político, enquanto extrai matéria-prima, com base em uma mão-de-obra sem direitos, e regimes autoritários.

                No seio mesmo das nações industrializadas, entretanto, a classe operária, liderada primeiro por reformadores sociais, depois por anarquistas, por fim, sob a égide de vários tons de marxismo, se assomava como inimigo interno a combater, em benefício do lucro crescente das capas burguesas. Após a luta pelo saque colonial, que se constituiu a Iª Guerra e a consequente onda de sublevações operárias, sobretudo na Rússia e na Alemanha, a resposta política foi o fascismo e a imposição, aos povos europeus, dos métodos que as potências imperialistas impunham ao mundo colonizado. O medo da revolução em países como os EUA, França e Inglaterra, especialmente após a crise de 29, impôs que essas classes dominantes fizessem uma série de concessões a fim de manter seu império.

                Vencida a Segunda Guerra pelas potências, e com o avanço da Rússia soviética, os EUA, novo pólo do capitalismo global, concertou seus aliados a fim de fazer frente à ameaça. Coma revolução chinesa e as distintas lutas anticoloniais, muitas das quais ocorridas sob a égide dos comunistas e anarquistas (em menor número), o bloco da OTAN impôs uma série de cabeças-de-ponte e atuou no sentido de formar vitrines a fim de contrastar com o bloco comunista. Assim se explica o rápido desenvolvimento de nações pobres ou combalidas, como Coréia do Sul e Japão. O liberalismo econômico, tão propalado anteriormente, havia sido abandonado em benefício dos instrumentos que fizeram a potência das potências: ação estatal, estratégia industrial, etc.

                Os dois blocos, capitalistas e comunistas, se enfrentavam em todas as frentes e buscavam disciplinar os Estados de seus próprios blocos ou que eram considerados como área de influência natural, como os países da AL ou aqueles do Leste europeu. Ambas as potências intentavam, por outro lado, enfraquecer o bloco adversário, estimulando dissidências, por exemplo. Travou-se uma guerra de aproximação indireta, assim, tal qual define Liddel Hart e Beaufre, a arma atômica impedindo o uso direto da força entre as potências.

                Mas, especialmente nos EUA, a questão racial constituía um forte entrave à plena aplicação de seu poderio, de modo que os negros e boa parte da classe operária, especialmente após o choque do petróleo, foram combatidas por todos os meios. A fim de explorar as dissidências no outro bloco, os EUA adotaram uma política de aproximação com a China e, de um só golpe, de enfraquecimento de sua classe operária. Ávidos por lucros, os empresários da maior potência do planeta transferiram suas plantas industriais para o longínquo leste asiático, neutralizando, assim, sua outrora poderosa classe trabalhadora.  A imposição de uma política de choque, que quebrava os pactos do período anterior, privatizando direitos e empresas e impondo um arrocho salarial, agora poderia ser levada adiante.

                Nos países periféricos, especialmente aquelas da América Latina, impôs-se um retrocesso e uma política de desindustrialização maciça, evitando, assim, os ricos de uma sublevação proletária, e, no mesmo marco, através das maciças privatizações, um novo nicho de lucros para as empresas do eixo Atlântico Norte do capitalismo.

                O que não foi previsto pelos analistas da OTAN foi o forte crescimento industrial e tecnológico da China, nem mesmo a retomada de uma política ativa por parte da Rússia, ou o crescimento de empresas indianas e, até mesmo, do tímido capitalismo brasileiro. Pelo tamanho de suas populações e papéis locais de liderança, o hoje bloco do BRICS, recentemente alargado, vê-se em posição de contestar a liderança da OTAN direta e indiretamente, o que deve gerar cada vez mais conflitos represados.

                No Ocidente, há três forças em conflito: os liberais clássicos, que visam aprofundar e desdobrar alguns princípios de sua tradição tal qual seu deu e, ao mesmo tempo, neutralizar grupos potencialmente revolucionários, como homossexuais, negros, mulheres e etc. Ou seja, neste quesito, o liberalismo ainda pode ser progressista, mas esbarra em seus próprios limites enquanto teoria social, uma vez que, ao mesmo tempo, buscar privatizar direitos e aprofunda as desigualdades sociais.

                Outra força é a do neofascismo. Os fascismos, já se disse, nascem de revoluções frustradas. No caso atual, nasceram de movimentos populares que foram derrotados no período precedente. Diante de injustiças sociais e opressão, toda uma leva de governos ditos progressistas se alçaram ao comando dos principais países e mesmo daqueles periféricos. Até mesmo nos EUA, com Obama, falava-se em mudanças. Como estas não vieram ou não ocorreram no volume esperado, impõem-se um retrocesso civilizacional. Mas há diferenças; enquanto no centro do capitalismo, as extremas-direitas são, sobretudo, estatistas, anti-imigração (calcadas em um racismo descarado ou confeitado), na periferia, a fim de contornar a crise, impõe-se o saque privatistas, seja de recursos naturais, seja de direitos e de empresas públicas.

                A terceira força é a social-democracia a qual, em partes, aderiu ao neoliberalismo, mas em um tal que busca conservar, ainda, algum papel ao Estado. É uma força diminuta nos EUA, mas com certo peso social nos países da América Latina.

                Já no distante Oriente, a China desponta como potência de primeira grandeza. Afirma não buscar a hegemonia, clara manobra diversionista. Os chineses são pacientes, como seu famoso livros dos estratagemas mostra. Sabem esperar e a lei da gravidade demográfica e econômica trabalha a seu favor. Não se constituem como uma nação aberta aos princípios do liberalismo, como direitos individuais e liberdades políticas. Destarte, seu domínio pode impor retrocessos. Ao mesmo tempo, a noção de coisa pública é mais desenvolvida e o papel do Estado é predominante, em um claro contraste com o privatismo do Ocidente.

                A Rússia é a principal potência reacionária do globo, um verdadeiro Estado mafioso e ressentido de sua perda de influência. Na política interna, impõe retrocessos e não compartilha, tal qual a China, da defesa das prerrogativas individuais, a tanto custo obtidas no Ocidente. Além disso, a Igreja Ortodoxa exerce profunda influência no nomos do país. No plano externo, envolveu-se em uma aventura na Ucrânia, com alto custo de vida, mas conseguiu escapar às sanções ocidentais. Viu, assim, sua própria estratégia indireta, que ela soube se valer tão bem no século XX, ser aplicada contra si mesma.

                No conjunto, desenha-se uma luta encarniçada entre um mundo unipolar, caduco e quase falecido, e uma ordem multipolar, com os conflitos que lhe são próprios, talvez esmaecidos pela arma atômica. A crise climática, além disso, impõe que ou mudanças se processem imediatamente, como apregoa a esquerda e parte dos liberais, ou vivamos o holocausto climático. A extrema-direita, negacionista e crítica á ciência, ademais com forte cariz religioso (e o seu “que o homem domine sobre as bestas da terra e do mar”), financiada pela indústria do petróleo, latifundiários, e outros interesses não confessáveis, busca impedir que as reformas necessárias sejam feitas. Os liberais tentam implementá-las a fim de se impor mudanças que mantenham o jogo como está, em última instância.

                Quais expectativas retirar de tudo isso?

                A esquerda no Ocidente, para lisada e desprovida de sua base de apoio histórica, a classe operária industrial, se vê combalida e sem grande força. Os planos de reindustrialização, que a social-democracia almeja na periferia, e a extrema-direita quer impor no mundo dito desenvolvido, podem ser benéficos a médio prazo no sentido de rearmar socialmente um discurso progressista. Mas, no curto prazo, especialmente no centro isso teria custos muito substanciais, uma vez que fortaleceria os setores mais radicais das direitas e granjearia o apoio de parte expressiva da população. Na periferia, especialmente no caso do Brasi, o gigante que esteve de joelhos nos últimos anos, a reindustrialização joga um papel muito positivo e pode reordenar todo o quadro global, uma vez que o Brasil possui os recursos necessários para se impor como potência. A ver.

                No quadro atual, a revolução socialista segue escanteada. Os países que fizeram revolução, devem resistir, esperando por ventos favoráveis. Por outro lado, o projeto ultraliberal del Loco Milei vai abrir uma nova onda de lutas populares na Argentina, país com uma esquerda mais forte que a brasileira, onda esta que pode contaminar os demais países da região e, mesmo, do Sur global.

                Já disse Yeats, há mais de um século, "as coisas se dividem, o centro não pode aguentar”. No cenário atual, o liberalismo tenta impor mudanças antes que a extrema-direita condene o planeta, ou uma alternativa socialista se esboce. Oxalá as forças populares levantem-se e imponham um futuro socialista à humanidade.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Do destino

 Meu destino não é a morte

Pelas próprias mãos,

Como o seu MKNS.

Anseio a vida:

Vida plena,

Vida toda,

Vida que impulsiona e faz crescer.

Do meu destino,

Ninguém sabe,

Posto que indecidido.

Do meu destino,

Sabem as dobras do ser

E o correr do tempo-mestre.

Na minha tumba se escreva:

"Aqui jaz Felipe Guma Luiz

Viveu contente,

Morreu feliz,

Mas essa vida luzente,

Foi por um triz".


S.C., primavera de 2023

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Trenodia para Gaza

 Quando as luzes escapam,

 e o ar sufoca

Quando o clarão-trovão

É a bomba cadente

E o aroma que impera

É carne torrada.

Já não se distingue

Escombro e cremação:

 os ossos são pó

Os músculos, farelo.

Sobre os destroços

A ave negra paira

Banquete com gordura racional.

David cresceu

Já não combate gigantes:

Esmaga o fraco

Sob as asas da águia do novo mundo.

O sal das lágrimas

Se mistura com as areias do deserto

Os corpos se amontoam e apodrecem

Criando o concreto maligno da indiferença.

Na hora mais escura,

As luzes são da vela carpideira,

A música o estampido ruidoso

Que anuncia a permanência e expansão

Do mundo todo errado.

Aqui choramos, Gaza,

Teus mortos.

Aqui sentimos a tua dor.

Mas, se o desespero leva ao desespero,

É no crepúsculo e na queda

Que o destino distingue

Aqueles que devem permanecer

E aqueles cuja própria duração é vergonha.

A marcha dos fatos é implacável.

A história a contra pelo

Não precisaria ser feita

No alicerce dos cabelos dos mortos.

Se é necessário não esmorecer,

Se o grito de dor resta preso

Na garganta degolada,

Possa da dor

Nascer um broto resistente

Um alívio e auspício

De um futuro descarregado de dor.

O passado dura muito tempo

Mas o porvir é infinito.


S.C., Queimavera de 2023

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Modern love

 Esqueça o amor,

Essa miragem

Não vale a dor.

Melhor a sacanagem

O amor foi morto

Por tiro reto

Pelo olhar torto

Pelo capitalismo doentio.

Quem o deseja,

Está em desvario

E desse bolo cereja

O coração que lateja

O peito que sangra

A fila, que anda

E a solidão com queixa


S.C., primavera de 2023

domingo, 29 de outubro de 2023

Ode I.9, de Horácio [tradução]

Vês como alta se sustém a neve cândida, Soracte, nem já suporta esse fardo a selva laborar, e o gelo aos rios interromperam com vigor [o curso]?

Dissolve o frio [através da] lenha sobre a do fogo colocação e de bom grado retira do sabino de quatro primaveras ó Thaliarchem, o vaso do vinho.

Autoriza aos deuses os demais [problemas], os quais, concomitantemente, cobriram os ventos selvagens desarmando-os, nem os ciprestes nem os freixos foram agitados.

Aquilo que seja amanhã interrogar e quem a Fortuna dos dias dará dará lucro, põe de lado, nem os doces amores afaste, [visto seres criança], nem dances,

Enquanto a grisalhice máscula se abstiver lenta. Agora, que seja o Campo seja a área doce, sob a noite [com] sussurro variegado repita o momento,

Agora, assim o vasto riso traíra da donzela, no canto íntimo, o resgate arrancando dos músculos braças ou do dedo não firme.



Vides ut altã stet niue candidum 

Soracte, nec iam sustineant onus 

siluae labõrantés, gelüque 

flümina constiterint acütõ?


dissolue frigus ligna super focõ 

large repõnéns atque benignius 

déprõme quadrimum Sabinã, 

õ Thabarche, merum diõta.


permitte diuis cetera, qui simul 

strauère uentõs aequore feruidõ 

dêproeliantis, nec cupressi 

nec ueterés agitantur orni.


quid sit futürum eras fuge quaerere et 

quem Fors diérum cumque dabit lucro 

is appone, nec dulcis amõrés

sperne puer neque tü choréãs,


dõnec uirenti cãnitiès abest 

mõrõsa. nunc et Campus et ãreae206 

lénésque sub noctem susurri 

composita repetantur hõrà,


nunc et latentis proditor intimo 

grãtus puellae risus ab angulo 

pignusque dêreptum lacertis 

aut digito male pertinaci.

sábado, 28 de outubro de 2023

Sobre universalismo e relativismo

A relação da matemática (ou seriam matemáticas?) com a filosofia é bastante antiga, remontando a tempos imemoriais, dos quais nos restam senão pistas e fragmentos. Se a filosofia surge com o maravilhamento ou admiração, como pensavam Platão e Aristóteles, a matemática surgiu da filosofia. Já no caso de que a filosofia seja a reflexão extraordinária sobre o extraordinário, como propugnou Heidegger, então as duas disciplinas estão separadas. Ao gosto do freguês escolher? Talvez..

Diz-se que na entrada dos jardins de Academos, onde Platão ensinava, estava escrito: não entre aqui quem não for geômetra. Com isso ele dava informações sobre o tipo de ensino que ali seria ministrado e o que os neófitos poderiam esperar. Matemática e a filosofia partilham características, é fato ou, ao menos, partilhavam. Ambas almejam (ou almejavam) proferir juízos apodíticos, necessários e universais, sempre válidos, sempre verdadeiros, aplicáveis a todos os pontos do universo. Talvez essa característica comum tenha feito com que Platão se enamorasse da ciência dos números.

É de se notar, entretanto, que em boa parte dos diálogos platônicos os interlocutores de Sócrates, mestre de Platão e porta-voz deste, sejam os sofistas. Assim, geralmente Sócrates, através de um fino uso de paradoxos e questionamentos, mostra como os sofistas, pagos para ensinar a juventude grega temas do que viríamos a chamar ensino superior e, especialmente, retórica, na verdade não sabiam nada. 

As escaramuças de um experimentado Sócrates contra alguns sofistas célebres, como um Trasímaco, Górgias ou Protágoras, em discussões talvez imaginadas por Platão, talvez realmente ocorridas, mas certamente embelezadas pelos dotes literários do escritor, não se resumem, no entanto, a bagatelas. Sobre elas paira um debate o qual se prolonga até os dias de hoje. Vejamos. Como se sabe, Protágoras, retratado na literatura como o mais sábio dos sofistas, tinha como principal lição a ideia de que o “homem é a medida de todas as coisas”. Ou seja, as coisas são relativas aos seres humanos, são deles dependentes. Valores que têm orientado a civilização, ao menos aquela ocidental, da qual nós, brasileiros, estamos na franja, como verdade, justiça, igualdade etc., são relativizados. Ao invés de um conceito de justiça, como os tantos que por aí há, Trasímaco, na República, oferece a noção de que a justiça é aquilo que convém ao mais forte, e se contrapõe, destarte, à própria noção que Sócrates oferece no final do livro, uma noção omnicompreensiva e positiva, realista, não relativista.

Platão, ao contrário dos sofistas, em alguns textos nos oferece um mundo todo ordenado, governado por princípios universais, apenas acessíveis através de um esforço mental. A ideia que preside o real, nos diz Platão, é o Bem, da qual todas as existências são dependentes. Platão é um realista e, como tal, um universalista. Trasímaco e Protágoras são relativistas. 

Lembremos de Foucault, em A ordem do discurso, onde trata daquilo que ele chama de vontade de verdade, uma variação nietzscheana. Nietzsche se questiona, em Sobre a verdade e a mentira em um sentido extramoral, sobre o que teria levado esse animal que promete a se aficcionar com a busca pela verdade. O primeiro parágrafo do texto é deveras conhecido, talvez por seu tom poético: "em um universo sem fim de estrelas cintilantes animais inteligentes inventaram o conhecimento". Nietzsche descentra toda a história da filosofia e, com ela, as molas propulsoras da razão ocidental ou, como querem Adorno e Horkheimer, do Esclarecimento. Mas o faz relativizando, colocando em perspectiva, uma de suas ideias chave, as noções as mais caras ao conjunto da filosofia. Retornando a Foucault, este aponta, em um tema nietzscheano, que a vontade de verdade teria surgido com Platão, o qual, ao excluir os sofistas, impunha a busca pela verdade como valor maior.

Muitos nos perguntaram, quando militávamos no movimento estudantil, qual era nosso programa. Confesso que a pergunta me constrangeu por muito tempo. Enquanto os marxistas e até mesmo outros anarquistas contavam com centenas de programas e ideias feitas, eu, que me concentrara no estudo da psiquiatria em um viés foucaultiano, não possuia respostas prontas. Eram sempre programas de ocasião, mais reativos do que positivos. Isso se dava porque, enquanto Marx, Lenin, Bakunin e Malatesta propõem programas, Foucault se limita a descrever as forças em luta, somente respondendo à pergunta o que fazer? em ocasiões muito pontuais. No dizer dele próprio, Foucault é um positivista feliz.

Os marxistas possuem uma ontologia e uma tal que realista: acreditam que existe um mundo objetivo, governado por leis objetivas e das quais podemos extrair conhecimento objetivo. Já para Foucault, partindo de Nietzsche, não se trata de elaborar uma ontologia em sentido estrito, mas de questionar os valores, de observá-los de soslaio. A verdade, nesta tradição, é um valor, não uma propriedade das coisas. A verdade é, diz Foucault citando Nietzsche, "um erro que tem a seu favor o fato de ainda não ter sido refutada".

Foucault elabora, assim, uma ontologia política do saber, ao situar este em uma correlação de forças e mostrar como, na origem de todo saber, quer dizer, de toda valoração, há uma vontade de potência. Nietzsche puro. Assim, seus livros tratam sempre de partir do pressuposto de que não há universal, de que este é mero nome, e questionar antes as práticas que originam esses valores, do que se interrogar sobre a veracidade ou falsidade dos mesmos. Em um de seus últimos textos, Foucault afirma que elaborou uma redução nominalista da filosofia, ou seja, em um ambiente marcado pela fenomenologia e o marxismo, duas tendências fortemente iluministas e realistas, ele foi estocar com uma lança de caos, vociferando o que muitos tomam como antiiluminismo e nominalismo.

Um exemplo pode ser encontrado na ideia de a priori. Kant a introduziu a fim de pensar justamente os conhecimentos que se mostravam como apodíticos, ao menos segundo ele pensava. Assim, a matemática, a física ou a lógica produziriam saber universalmente válido, que independe de qualquer experiência para serem provados como verdadeiros. Foucault pensa o contrário; enquanto demolidor de uma civilização, ele toma que o a priori é histórico, ou seja, que esse tipo de conhecimento ordenador da experiência varia com o tempo e com o espaço. 

Sejamos claros: Foucault é um relativista. E não só ele, como boa parte da experiência intelectual contemporãnea o é, talvez influenciada por Einstein e Heisenberg, ou ainda pelas provas de um Gödel ou pela antrpologia de Levi-Strauss. Esse é o caldo cultural de Foucault.

Mas há um porém. Se a prova do pudim é comê-lo, como explicar que essa verdade, que seria relativa à vontade de potência e que as ciências duras dizem se aproximar ou formulam em leis, possa ter contribuído para alterar tão radicalmente o mundo? A noção de dominação parece se ligar àquela de arbitrio, de poder discricionário. Foucault admite que seu alvo foram ciências frágeis, como a psiquiatria ou a psicologia; mas, e quanto à física ou matemática, que nos brindam com resultados palpáveis? Como explicar a ciência moderna?

Em outros termos, se a ciência está ligada a um projeto de poder, como pode ela conhecer o mundo objetivamente? Afinal, se ela o conhece, é porque, ao contrário do que diz Foucault, o saber não violenta as coisas e nem há uma separação brutal entre sujeito e objeto, tampouco o saber seria uma invenção: haveria um fio de continuidade que liga os juízos com o mundo, não uma vontade de saber, mas uma pertinência e adequação entre aparato cognitivo e coisas a conhecer.

Para Foucault, tanto o sujeito quanto o objeto não são dados naturais, mas constituídos historicamente através de variegadas práticas, ao passo que estas estão imbricadas em relações de poder, ou seja, exteriores ao conhecimento. Assim, é como se o conhecimento fosse dependente de um extra-conhecimento, de um conteúdo irracional ou pré-reflexivo que o determina.

Na luta entre aplicações que parecem indicar um conhecimento do mundo e teorias que relativizam a historicidade do mundo, como ficamos nós, meros estudiosos? Como resolver a charada? Como se orientar, como diz Porchat, no conflito das filosofias? Uma saída hegealiana, que nega a via niilista foucaultiana? Ou simplesmente nos aproximar da história das ciências, a qual, ela mesma, termina por relativizar a mesma? Ou, quem sabe, propor uma trégua, uma espécie de transcendental histórico, como quis Foucault?

Questões nas quais estamos trabalhando.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

O conceito de filosofia da guerra

 O conceito de filosofia da guerra

Felipe Luiz

UNESP-Marília

2015


Nosso objetivo é elaborar um pensamento que seja uma arma de guerra, intentando permitir-nos acabar com o governo em beneficio do autogoverno. Para tanto, é mister descobrir de que há governo, de que se diz que há governo e também como se governa. Tradicionalmente se aponta que há governo de um estado, quer dizer, de um conjunto de instituições e leis, mas, mais recentemente, pesquisas alargam a noção de governo, para nele incluir também outras formas de condução de condutas. Assim, para além de entender o governo como mero ato de coação, também seriam pensáveis enquanto formas de governo diferentes formas de condução de condutas e estabelecimento de sentido.


Governar seria, neste acepção, estrategiar, quer dizer, enquadrar o vir-a-ser de certo objeto ao constituí-lo. Ora, sendo nosso fito precisamente elaborar um pensamento máquina-de-guerra contra as formas de governo, ser-nos-ia forçoso analisar de saída as formas mais gerais de enquadramento, na medida em que as estratégias menos gerais estão inclusas nas que são as mais gerais, ou, por assim dizer, a relação entre estratégia e tática é de determinação dinâmica. Quais os enquadramentos os mais gerais? — a filosofia, a religião, a poesia, a história; neste rol de disciplinas, sem dúvida a filosofia tem a primazia, posto que é nela que os demais vão para se fundar, seja enquanto teologia, seja enquanto poesia, seja enquanto filosofia da história.


Portanto, afirmamos que a filosofia é a estratégia suprema, ela é técnica de totalidade, intenta tomar de assalto o próprio ser e, seu surgimento, é já marca da dominação. O fato de sob o guarda-chuva do nome distintos pensamentos, muitas vezes contraditórios, se abrigarem, poderia levar muitos a querer refutar este ponto; ora, o caráter aporético da filosofia ou, por assim dizer, dela surgir de uma incompreensão do estatuto da linguagem talvez indique exatamente o contrário: que a filosofia é uma metaestratégia, e que diferentes filosofias e disciplinas seriam estratégias tributárias ou, por assim dizer, vias diferentes para um objetivo similar, segundo a resposta que se dê ao problema. As dizimas filosóficas seria, assim, não a estrada sem saída, mas o solo do qual ela brotaria.


Entender qual seria este objetivo, ou, de outro modo, a que intentaria a filosofia, implica traçar sua história, ou seja, entender as condições de surgimento da filosofia, na Grécia. A filosofia, quer dizer, esta forma de grega de pensamento — posto que variadas outras civilizações formularam princípios basilares similares aos filosóficos, ou seja, metaestratégicos. A filosofia é pensamento de dominação, seja porque surge já pela existência de uma dominação (de tribos sobre outras, de ociosos sobre escravos, etc.) seja porque coloca estes elementos de enquandramento de sentido no objeto ao constituí-lo. 


Há, de um lado, uma tática — a ciência, ou seja, por assim dizer, ministrar os entes para dos entes ser ministro. Há outra — enquadramentos lógico-ontológicos dos quais se extraíram princípios reguladores de modos de vida, quer dizer, ético-políticos, ou seja, modos de vida da necessidade. Por fim, ainda outro, relativo mais propriamente à organização do modo de vida a ser regulado: afinal de contas, o liberalismo não está contido no tratado Da Interpretação? Não foi Porfírio o primeiro a formulá-lo? Na foi Abelardo e a disputatio que lhe determinaram o vir-a-ser na medida em que aconteceram? 


  • então, o capitalismo não seria um universal, mas uma estratégia, a forma de dominação especifica de um povo sobre os demais; daí também que não haja crise, mas recuo ou avanço, na medida em que acontece. Daí as razões do subdesenvolvimento filosófico da terra brasilis: a colônia não pode estrategiar; é só tático, só administrar (por isso as idéias de um obscuro professor de província grassam na província além-mar). Daí que sejamos colonizados, e Fanon já demonstra o papel da violência teórica na dominação. Daí também que nos momentos onde a questão do desenvolvimento nacional se põe, o movimento pela filosofia brasileira tome corpo; por isso há de ser filosofia terra-a-terra e ter de ser pensada precisamente agora; daí que tenha de ter havido por tanto tempo uma acumulação primitiva de capital filosófico: para que se tornassem possíveis os investimentos. Por isso também, quis o conluio das forças, que uma das formas da filosofia brasileira seja esta forma plebéia, esta aqui mesma, de pensamento: porque tem de ser na colônia, e nesta colônia da miscigenação, que o mundo novo se expresse: soa a hora da civilização brasileira —


Que a filosofia possa ser pensada como estratégia, isto depende de Kant. Em Kant, a pergunta pelas condições, a fórmula da autonomia. Com Kant aparece a questão da dominação, quer dizer, a questão geográfica, porque uma resistência tem ser sobretudo geografia, visto que se é histórica, liga-se à consciência, logo ao instante — portanto, trata-se de um problema de governo, quer dizer, de como constituir uma consciência-a-governar. 


No pós-Kant, há uma reorientação: como neutralizar seu explosivo poder geográfico? De um lado, o domínio tático avançava: a ciência, o estado e o capitalismo modernos. Kant é neutralizado pelas formas de metafísica da história: da ciência, da consciência, da economia política, da vida, do dizível e do ser, por fim. Todas, anunciando o fim da filosofia, tinham como objetivo impedir novas estratégias; o crescendum de abrangência é exatamente isto: como dominar Kant? A tática adonou-se da estratégia, no fim das contas: a filosofia é estati-privatizada, e aparece a história da filosofia: a dominação pensa se eternizar, ao instaurar o meramente tático.


Mas houve Foucault, o qual torna possível que se diga que o mundo não é nem a totalidade das coisas nem dos fatos, mas das estratégias. De um lado, ele percebeu a “falha” heraclítico-anaxagórica: a elisão do discurso, isto é, não há a verdade do objeto, posto que a verdade é um nome, isto é, autorreferente; ao mesmo tempo, Foucault é comunista, no sentido de Kropotkin: o sentido é social. Ele entrevê que para perceber a formação das estratégias é necessário conceber o mundo como espaço de imanência contigente, espaço este composto de campos recortáveis, traçáveis, criáveis . Ele formula um método filosófico, a genealogia, a qual nos permite ter vertigem, como diz o professor Bruni, quer dizer, estranhar, maravilhar-se — então a história deixa de ser um problema de consciência e sua formação; mas um problema de forças e de sua correlação; e a questão política já não é o governo e sua condução, mas o corpo e sua organização — tal porque a consciência é um corpo que se sente. A genealogia ademais é o método que permite a organização da periferia. 


Contudo, há limites claros de Foucault, porque ele contenta-se em mostrar a formação das estratégias, deixando para cada qual a tarefa de fazer o que bem quiser com a demonstração da estratégia.


Para nós trata-se de elaborar a formação desta metaestratégia de governo de totalidade — é a filosofia, a qual serve, como se vê, antes de mais nada para fazer a guerra. Fazendo emergir a formação das distintas estratégias, entenderemos como o mundo veio-a-ser o que veio-a-ser. E assim, nos será possível precisar: 1. Análise do terreno: Como a metaestratégica filosófica se constituiu historicamente em detrimento de tantas outras metaestratégias — para dizer de outro modo, trata-se de levantar o que Aristóteles sussurava nos ouvidos de Alexandre; 2. Análise do inimigo:  qual o objetivo da metaestratégia — a maquinidade, quer dizer, o aparecimento das condições para o controle completo do ser. 3. A guerrilha: contraestratégia — chamemo-la de anarquismo, ou seja, o método para a anarquia — a fim de dobrar a tessitura do devir no sentido do autogoverno?