quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Raízes da greve de 2013 na UNESP


Felipe Luiz “Guma”

Filosofia FFC-UNESP/Marília

Ex delegado de base e ex membro do DCE-HR

 

EXPANSÃO DAS UNIVERSIDADES EM UM MOMENTO DE RÁPIDAS TRANSFORMAÇÕES NO CAPITALISMO BRASILEIRO

Brasil se desindustrializava desde os anos 1990 e o PT buscava criar, desde sua chegada ao Planalto, uma sociedade de serviços, ao modo de sociedades europeias que também se desindustrializavam, como Alemanha ou França. Para isso era necessário mão de obra. Ademais, o PT buscava criar uma nova base social para si, uma classe média de origem proletária, desancando a classe média tradicional

Além disso, as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa. Quem o faz é o Estado, de modo que se "socializam os riscos e perdas, mas se particulariza o lucro"; a burguesia nunca perde. Assim, começa-se um processo de ampliação das universidades.

O PSDB, cujas origens são intelectuais "ilustrados" paulistas, que seguem os rumos da social-democracia europeia, pelos mesmos motivos principia a expansão de vagas em São Paulo, mas sem aumentar o repasse de verbas. Quer-se que as universidades façam muito mais, mas com o mesmo.

Destarte, segue-se uma série de lutas no período da década de 2000 e 2010, especialmente na UNESP, que foi a universidade estadual que mais expandiu e é a que recebe menos verbas.

A greve de 2013 se insere nesse processo: estudantes pobres, que querem estudar e desfrutar dos mesmos direitos dos estudantes mais ricos, como somente se dedicar aos estudos, e que não tem condições para tanto. Assim, eles exigem da universidade políticas específicas que lhes garantam o direito de estudar, as políticas de permanência.

O velho PSDB planejava um sistema de cotas, em respostas ao sistema de cotas das universidades federais, aprovado em 2012 Sua proposta, entretanto, na verdade excluiria os pobres da universidade, já que eles teriam que ficar em banho-maria antes de entrar nas públicas paulistas, com incentivos para se contentarem somente com uma formação técnica.

Planejava-se, ademais, aumentar o número de estudantes com necessidades de políticas de permanência, sem aumentar a verba de permanência de maneira significativa.

Essas são as origens imediatas da greve estudantil: o fato da UNESP não possuir uma política de permanência estudantil, o que se refletia em seu próprio arranjo institucional, uma vez que não havia um órgão responsável por essas políticas, elas estavam concentradas na Pró-Reitoria de Extensão.

No campo das questões práticas, isto é, organizativas, do lado movimento estudantil, a greve começou a ser preparada muito antes. Após o movimento de 2007, no qual o governo Serra tentou implementar uma política que tornaria o sistema universitário paulista mero apêndice da FIESP ("socializando os riscos e investimentos", mas privatizando os lucros; capitalismo de compadrio), na UNESP a reitoria iniciou a organização de um projeto visando corrigir, desde o ponto de vista dos interesses da burocracia universitária, as distorções pelas quais a UNESP havia sido submetida por imperativos políticos do PSDB, como a expansão desordenada. Essa política tinha o nome de PDI

Esse PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) enquadrava a UNESP em parâmetros internacionais de qualidade, reduzindo a universidade, pois, ás exigências do capital internacional. Ainda que houvesse acenos no sentido de fortalecer a permanência estudantil, eram tímidos. Além do mais, não tocavam no essencial: a expansão de vagas fora feita sem a expansão de verbas, como se quisermos vestir um adulto com suas roupas de criança.

Além disso, o governo Serra acenava com a questão da UNIVESP, a Universidade Virtual do Estado de São Paulo e boatos corriam de que haveria um fechamento de cursos em benefício do ensino à distância.

O DCE da UNESP, que havia sido reorganizado durante o ano de 2007, adotara um modelo de delegados de base (em resposta á política conciliatória e de falcatruas de certas correntes do movimento estudantil unespiano). Impulsionado por trotskistas, independentes e anarquistas, o DCE-HR preparou a luta contra tanto o PDI, como contra o EaD, além das velhas pautas de luta pela manutenção e ampliação de padrões mínimos na universidade (contratação de professores, laboratório, bibliotecas, etc) e a questão da democratização da universidade.

O campus de Marília, pela excepcional combinação de possuir cursos mais críticos, com muitos professores e esquerda, e uma tradição de luta antiga, encabeçou esse processo de luta no ano de 2009 e saiu em greve e ocupação contra o PDI e o EaD. Afora apoios pontuais de outros setores do m.e., além de professores e servidores técnicos, o m.e. de Marília, do qual eu era delegado de base do DCE, fez a luta sozinho e, assim, seja PDI, seja UNIVESP foram aprovados.

Nos anos seguintes, Marília continuou com vários processos de luta, quase sempre isolados: greve de 2010 contra a terceirização, os entraços no r.u., ocupação do protocolo, Outros campi contribuíam, mas em Marília a radicalização era maior, além da organização.

A diretoria do DCE-HR foi deixando de ser eleita e o movimento adotou uma forma de organização puramente assembleísta, com Conselhos de entidades organizando as lutas e comissões pontuais tocando os trabalhos.

Em 2013, tudo isso explodiu, justamente nos campi mais precarizados, como Ourinhos, Marília e Assis por uma questão imediata de atraso no pagamento de bolsas, mas mirando todas essas questões de precarização da universidade.

Deflagrada a greve nesses três campi, tomei parte na comissão de comunicação da greve, o órgão mais central, já que é ele que articula com os demais campi a organização do movimento. Além disso, fui eleito para a comissão estadual de mobilização, que, depois, se tornaria DCE-HR provisório.

Marília rodou o estado, creio que o pessoal de Ourinhos também. Particularmente, fui para mais de dez campi, sempre ou de caronas ou passando o chapéu, na falta de uma estrutura que permitisse esse trabalho de articulação.

A greve se expandiu. A pauta básica era contra o PIMESP (A proposta do PSDB de falsas cotas nas Públicas Paulistas), por políticas de permanência estudantil, além da democratização da universidade.

Desde o começo eu e meu grupo tínhamos em mente a necessidade de ocupar a reitoria a fim de conseguir a implantação de nossas pautas.

Fazíamos atos por todo o estado, e a reitoria marcava reuniões e enrolava  nossa delegação, protelando a aceitação de nossas reivindicações. A ordem era ganhar do movimento pelo cansaço. Diante de uma greve que parou mais de metade da universidade, a reitoria nos oferecia 200 mil reais para distribuir em bolsas, diante de uma procura muito maior, além de uma ou outra concessão pontual, que não tocava nos problemas por nós aventados.

Maquiavel diz que duas coisas são necessárias ao Princípe a fim de que vença: fortu e virtu, a virtude e a sorte. A virtude organizativa nós tínhamos, estava provado. Organizamos um movimento estadual com muito pouco, fazíamos atos, tínhamos comunicação, estávamos em contato com outros movimentos estaduais, com as entidades do Fórum das Seis, além de movimentos sociais propriamente falando.

As Jornadas de Junho foram nossa fortu. Diante da força da mobilização, a forma como a reitoria lidou com o movimento foi outra. Logo que a repressão massacrou os atos do Passe-livre, que redundaria no movimento, estávamos em um CEEUF em Marília. Decidimos mostrar nossa solidariedade e, influenciados or companheiros da UEG, que tinham vindo assistir nosso Conselho, fizemos um corte de rodovias, que paralisou Marília. A fila de carros e caminhões que se formou foi filmada por um motoqueiro, que postou o vídeo, o qual terminou por viralizar. Não é fácil saber qual a influência de nosso ato nas manifestações seguintes; o fato é que alguma teve. Com isso, desencadeou-se, propriamente, as Jornadas, com manifestações massivas.

Conforme dito, desde o princípio sabíamos que teríamos de ocupar a reitoria. No final de junho, já com as Jornadas acontecendo, com ampla participação de unespianos por todo o interior e capital, fizemos um ato na reitoria e ocupamos. O desespero nos setores dirigentes era patente: nossa vitória foi completa, visto que tudo aquilo que exigíamos para a desocupação, como pagamento de toda a demanda de bolsas, criação de políticas de permanência e recusa do PIMESP foi atendido. Diante do movimento de massas, a ordem era ceder.

No começo de julho, em reunião do DCE em Ourinhos, avaliamos que uma coisa ainda não havia sido conquistada: as moradias e os r.u.'s. Por todo estado, as condições das moradias eram horríveis, isto onde elas existiam, visto que campi com alta taxa de estudantes pobres, como Ourinhos, não contavam nem com moradia nem com r.u. Além disso, a questão da paridade era premente: democratizar a própria forma como a universidade se organiza.

Assim, decidimos que ocuparíamos novamente.

Organizamos uma plenária do DCE em São Paulo, no IA ocupado, e tocamos adiante a ocupação. Desta vez, com as Jornadas já extintas, a reitoria, que havia rachado diante da primeira ocupação, se unificou na necessidade de reprimir. Essa segunda ocupação foi, além disso, um tanto quanto desorganizada, visto que não conseguimos sequer estruturar a contento nossa pauta de reivindicações.

Digno de nota foi o fato da Vice-reitora ter se encastelado em seu gabinete e negociado diretamente conosco. Não disposta a ceder, abandonou o prédio já com a reintegração em vista. No saguão da reitoria, os estudantes gritavam enquanto ela passava: “vergonha! Vergonha!” episódio que ela lembraria em reuniões de negociação posteriores.

Decididos a não desocupar diante da reintegração de posse, eu saí do edifício, pois já não era réu primário, havendo sido condenado justamente por militância no m.e. da UNESP. O Choque chegou quebrando tudo, já de madrugada. Mesmo fora do prédio, fui preso com outro companheiro. Os policiais que nos levaram, em separado dos demais estudantes, faziam pressão psicológica. Quando cheguei na delegacia, encontrei os estudantes, cerca de 100 pessoas, chorando e desanimados. Diante de todos, disse aos policiais que me trouxeram: por que vocês não continuam fazendo aqui, na frente de todos, o que faziam quando eu estava na viatura? Assim, começou uma situação insólita. Transformamos nossa detenção na delegacia em ato político: ocupamos a delegacia.

Após ser fichado, sem dormir há quase 48 horas, eu estava particularmente cansado. Dormi um dia inteiro na ocupação do IA e, assim, já muito debilitado por quatro meses de greve, vagando de campi em campi, de ocupação em ocupação, com princípio de pneumonia, me afastei do movimento e deixei que fosse tocado pelos mais novos.

Minhas últimas tarefas na greve foram algumas reuniões de negociação, onde a reitoria oficializou a proposta de criação da COPE (Coordenadoria de Permanência Estudantil) e da CPPE, órgão consultivo paritário sobre permanência.

O legado da greve foram conquistas duradouras para o movimento, com ao princípio da formulação da política unespiana de permanência e do esboço de um processo de democratização da universidade. Ademais, os estudantes voltaram a ocupar espaços no Conselho Universitário e em outros órgãos da deliberação da UNESP. O DCE-HR, que estava sem diretoria desde 2010, saiu com uma organização provisória. Fato é que esse legado não foi bem aproveitado pelas gerações vindouras do m.e., que regrediram desde um ponto de vista organizativo e, também, de pautas, pelo menos até a greve desse ano, 2026. Mas esta já uma história para outra ocasião.

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Elementos para a análise de conjuntura em setembro de 2026

 A ordem global está um balaio de gato. Andei-me ocupando, no começo do ano, com Julien Freund, um pensador francês da polemologia, i.e., sociologia da guerra. Ele busca formular as leis de todo conflito. Um desses postulados é aquele da polaridade, ou seja, todo conflito tende a assumir uma forma polar, quer dizer, dois oolos se enfrentando. Até pouco, havia dois blocos muito claros: OTAN e Organização do Tratado de Xangai (OTX, Rússia, China, e uma série de outros países asiáticos). A OTAN vinha buscando se expandir para o leste, razão pela qual os russos reagiram e invadiram a Ucrânia em uma guerra imperialista. Conflito, pois, interimperialista. Ocorre, entretanto,  que a Rússia, ainda que inimiga estratégia (o regime é criptofascista), é aliada tática do Brasil, uma vez que nosso principal inimigo são os EUA, que também é o principal inimigo dos russos e de nosso principal parceiro comercial,  os chineses. Não há mudança popular possível no Brasil e na AL, em geral (mudança de fato, não social-democracia) enquanto os EUA forem o hegemon, já que possuem múltiplas garras em nosso país, aliados das elites mais arcaicas desta terrinha. Assim, a ordem multipolar nos interessa, uma vez que há constante produção de subdesenvolvimento por obra dos próprios  EUA e aliados. Ora, um boato ronda a internet: o boato do acordão. Diz-se que  EUA, Rússia  e China dividiram o mundo em esferas de influência: Leste asiático para a China, Europa para a Rússia, América para .... os EUA, nosso principal inimigo na luta pelo desenvolvimento. Assim, aqueles (Rússia  e China)que  são nossos aliados estratégicos, nos BRICS, por um mundo multipolar, são nossos inimigos táticos na luta contra os EUA. Desta maneira,  a social:democracia brasileira  (o PT), busca aliados internacionais que a ajude a manter a independência,  por exemplo, a UE, entregue à sanha russa. Ocorre que a UE é, junto com os EUA, uma das principais produtoras de subdesenvolvimento em nosso país é inimiga estratégica, mas aliada tática. Nessa confusão, a política interna brasileira se debate. Há  dois partidos: o partido dos EUA, sempre forte (é o partido do agro), e o partido brasileiro.  O partido dos EUA é, conforme dito, o partido do agro; contudo, nosso principal parceiro no agro é a China, inimiga dos amigos do agro brasileiro,  os EUA. Ao mesmo tempo, nossa possibilidade de desenvolvimento,  que reside em nossa indústria,  concentrada em SP, tem como principal parceiro  os EUA, inimigo estratégico dessa indústria, que foi dizimada pela China, parceira do agro e inimiga dos EUA, que é inimigo da indústria brasileira estrategicamente,  mas depende dela taticamente.  Não há, especialmente nesse momento de elevada tensão,  terceira via socialista para nós,  do campo da esquerda socialista. A Ciência da Estratégia consiste, dentre outras coisas, em hierarquizar meios, fins, tática e objetivo de longo prazo. Nosso objetivo de longo prazo é a revolução socialista global. O principal empecilho para ela é o domínio dos EUA. O que enfraquecer os EUA e nos aproximar da revolução socialista  é estrategicamente correto. Em um momento de disputa entre partido dos EUA, totalmente subordinado a Washington, e a tímida social-democracia brasileira, inimiga da hegemonia dos EUA, e que acena com ganhos de direitos concretos às massas, a escolha para todos aqueles preocupados com a derrubada do domínio do capitalismo,  que ameaça a vida na terra, o futuro das espécies,  e rifa o bem-estar estar de bilhões para enriquecer meio dúzia de bilionários,  já está dada: é Lula 13, com todos os defeitos. Porque se o PT é inimigo estratégico,  é aliado tático.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Questão premente

De um começo marxista, com O trabalho, no PT recém chegado ao Planalto, e com um grupo de gramscianos da terrinha, à conversão, já universitária, ao legado de Malatesta, de um lado, e de Foucault,  de outro, foi sob a sombra de Marx que construí meu universo teórico e político. No movimento estudantil,  ora aliado, ora contra grupos marxistas, mas sempre em um encontro nem sempre sadio. Já mais velho, ainda ferrenho defensor da autogestão, e fora da vida militante,  é forçoso a complacência. O mundo está mudando rapidamente e pessoas muito gananciosas parecem não ter planos bons para nós, do sertão ou do litoral. Ou bem resistimos com todas as nossas forças,  nos aliando com quem também busca sobreviver, tanto enquanto indivíduo quanto enquanto civilização, ou soçobraremos na hora mesmo em que vislumbramos uma saída. Trata-se de nazistas, gente que se crê superior por conta de um ou dois genes, que nos saqueou e nos escravizou, que continua a fazê-lo, agora sob nova roupagem, mas que se cansou das firulas e da enrolação: eles virão para tomar. Assim, são belas as palavras de Foucault e mais belas as do anarquismo, mas no presente temos de saber hierarquizar as prioridades; essa hierarquização tem um nome: estratégia. Ou bem admitimos que nossas melhores alianças residem nos chineses e que a tarefa do dia passa por reorganizar e criar uma força estratégica na terrinha, que possua capacidade política nos preparar para a dura batalha que se anuncia, ou já estaremos vencidos, condenados a nos reduzir a objetos de nazistas. Tudo que não esteja subordinado a essa objetivo estratégico parece-me fútil, no momento. Qual organização tem essa potencialidade no Brasil,  no presente?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fragmento sobre marxismo e método

Estou lendo o "Pour Marx" ("A favor de Marx"), já disse. A ambição de Althusser é colmatar os vazios filosóficos do marxismo, dar estofo teórico a uma corrente de pensamento empobrecida pelo estalinismo. Ora, uma das questões que mais lhe tocam é a do método. Marx não escreveu o texto de método prometido, tão-somente uma pequena nota metodológica e indicações do mesmo calibre. As mais famosas são o texto "O método da economia política " e o prefácio da segunda edição d'"O capital". Nesta, Marx fala que ele "inverteu Hegel", metáfora que Engels recuperará em textos mais tardios. Ora, já há muito venho repetindo que "a metafísica hegeliana de ponta-cabeça nada mais é senão a metafísica hegeliana de ponta-cabeça". Ao que parece, Althusser pensou o mesmo muito antes e com um cabedal filosófico superior. Para ele, não há estalão de comparação,  porque a dialética hegeliana e a marxista são totalmente diferentes. A "Ciência da lógica", de Hegel, por exemplo, começa com a famosa divisão entre Ser e Nada, que redundan no Werden, no devir. Trata-se,  assim, de um simples, de um elemento, um "nec plus minor". Ora, diz Althusser, para o marxismo nada há dessa simplicidade, porque o real é "uma síntese de múltiplas determinações", isto é, o objeto é um composto e os compostos são compostos de outros compostos. Haveria aqui, a meu ver, certa relação a ser feita com o pensamento de Foucault e Deleuze (especialmente). O primeiro livro de Deleuze que li (depois reli muitas vezes) é o "Diálogos", obra que me causou grande impacto; passava tardes e mais tardes pelos corredores da UNESP lendo-o e debatendo-o após a greve de 2013. Ora, esse texto me inspirou a ideia de "dizímas filosóficas", algo que já publiquei, e que seria o horror de Aristóteles. Bem, não é sobre isso, no entanto, que gostaria de chamar a atenção. Por que Marx não  escreveu o livro sobre método  e o mais próximo disso que temos é a parte sobre filosofia do "Anti-Dühring", de Engels (texto que basicamente transcreve indicações da "Ciência da lógica")? Marx não o fez pelo simples motivo de que para ele o real é essa "síntese de múltiplas determinações ", isto é, é tudo "junto e misturado", "tudo no mesmo lugar, ao mesmo tempo". Não há,  como em Descartes, um objeto e um método, uma res extensa e uma res cogitans: é tudo matéria em movimento, o real é um complexo de complexos de complexos, etc, que redunda em dízimas filosóficas. Assim, há dois procederes, o método de análise e o de exposição, porque somente na exposição se divide o real, uma vez que ele é uma síntese. Bem, são reflexões parciais, tenho alguns meses para amadurecê-las


sábado, 29 de agosto de 2026

Horácio II

 Me dizes que já não resta saída,

Que a vida é um caminho sem volta,

Uma mão única, sem retorno após a partida.

Dançando com a escuridão,

Nas dobras das areias do tempo,

Te entregastes aos prazeres fáceis

Da droga, do álcool e do fumo,

Tentando te aliviar

Do peso imenso que te vergas:

Este mesmo, o de serdes a ti próprio, 

Mera carne sustentada por nervos e ossos

Perdida, a vagar insone no vácuo

Sem bússola que suporte

O desorientar desse movimento. 


- Queria censurar-te pela desesperança  

E rendição que fazes ao infinito.

Mal a batalha começa

E já te entregas, pusilânime, 

Ao inimigo que é tua mente e tua cultura.

Os antigos nos legaram

As soluções do dilema.

É na construção do caminho

Que teu enigma se dissolve.

O fim, que importa o fim

Se, quando ele chega, 

Nós já seremos a sombra

Da anima outrora viva?

O fim é pouco

Diante de tua tarefa.

O fim só pesa

Em quem já abriu mão do meio,

E somos todo meio

Todo na dobra, todo no fazer-se.


Acalma teu espírito 

Agarra aqueles volumes

Horácio, Pessoa

Maiakóvsky e Anacreonte

Neles, toda sabedoria que precisas

Para encarar o inifinito e vencer,

Para construir tua história 

Enquanto ser único que eres.


Pulsa com o kosmos

Que ele te responderá.

Assim, abres caminho

Na selva do desconhecido

E talha, no seio mesmo do infinito,

O manancial da liberdade dourada

Na qual vives e na qual passarás

Todas as eternidades a devir

Nem que seja dissoluto

Em álcool e moléculas

Átomos e energia.

sábado, 22 de agosto de 2026

Horácio

 No correr do tempo implacável 

Em que, teso de alegria,

Em mim se escondem as rugas da

Preocupação, 

E também na hora mesma

Na qual me verga a agonia,

É a arte das Musas que me sustém,

E, nesta, é em você onde deito meu pensamento, 

Senhor supremo dos poetas,

Molde e modelo inesgotável

Fonte mesma da inspiração. 

Não à toa,  Augusto te honrou

E os líderes onde nos fartamos,

Se rendiam à tua arte.

Abundas naquilo que necessita 

Quem toma a pena como cinzel:

O encanto e a adequação. 

Quando jubilo,

É ao velho das cãs já gastas que me dirijo,

Anacreonte, a lira da orgia;

Mas, nas horas decisivas,

Quando a vida é incerta

E a agonia pesa sobre minhas fibras,

Amolecidas pela sobrevivência, 

Hora na qual é o juízo que balança, 

Não é outro meu apoio.

Assim, nobre senhor, sossegue nos Elísios,

Conquanto nós,

Rebentos de um mundo decaído

Pelo peso de uma cruz e da sede pelo ouro,

Buscamos em vossa grandeza

Sustento e a ocasião 

Para fundarmos a Arcádia dos povos.


RP, inverno de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

Uma nova Fenomenologia do Espírito? Parte I

 

A busca pelo "ponto arquimediano", pela archē, perseguiu a filosofia por séculos.  Não somente a filosofia,  para ser exato, a cultura em geral do Ocidente. Ora, desde meados do século  XIX, sobretudo após Nietzsche,  isso vem sendo cuidadosamente desmontado. Após as tragédias das duas Guerras Mundiais,  cuja racionalidade atuante era a mesma que  conduzia à busca pelo tal princípio,  e as lutas do Terceiro  Mundo, conducentes à descolonização direta, o cânone ocidental,  isto o conjunto de obras formantes da Bildung iluminista,  foi sendo também alargado, a fim de que se abarque as obras de todas as latitudes e longitudes. Se, desde Marx e, a fortiori, Benjamin, a história a contrapelo era tarefa dos dominados, ela foi tomando forma através de uma revisão total de vários aspectos de uma civilização que se impôs ao mundo através das armas e da metis (a astúcia) do em moda Odisseu. Com Freud, se questionou o cogito, por exemplo. Com uma série de autoras, o domínio do macho. Com Foucault,  até mesmo a ascendência da razão sobre a loucura. Se o socialismo questionava já há muito o domíniod os ricos, formou-se uma avalanche de posições e posturas que punham xeque a própria maneira como a modernidade havia organizado as tradições ocidentais, as quais se expandiam e globalizavame. Esse é o processo no qual nos encontramos, no qual novas potências, por tempos obnubiladas, põem em xeque o domínio tradicional da Europa.

Na Fenomenologia do espírito, livro que é um dos mais difíceis do cânone ocidental, Hegel analisa a formação da consciência desse lado do mundo: como, até aquele momento, a consciência, desde seu modo mais simples, isto é, o imediato, vai se elevando em movimentos sucessivos, até à compreensão do Absoluto: o todo em si movente. Há várias etapas desse movimento, alguns que extravasam o círculo dos iniciados no hegelianês, como a subcapítulo Dominação e servidão, conhecido como dialética do senhor e do escravo. Nele, Hegel mostra como, formadas as consciência até um certo nível, o do entendimento, no qual a realidade é composta por forças (Kräfte), duas consciências se encontram. Ambas buscam ser reconhecidas pela outra como  enquanto consciência autônoma; assim, elas se engajam em uma luta em busca desse reconhecimento. Nesse embate, uma consciência está disposta a ir até às últimas consequências: essa consciência prefere morrer a se submeter à outra, escolhe a morte. Já a outra consciência, diante da persistência da outra, escolhe viver, selando, com isso, seu papel como dominada. O texto de Hegel, no entanto, não é estático: ele é em si movente, ela caminha conforme nele avançamos. Se, em um primeiro momento, a consciência que escolheu a morte, a do senhor, domina, logo é vê-se na dependência da consciência que escolheu a vida e, por isso, foi servir. Na labuta servil, essa última consciência se forma: ela trabalha a coisa, ela é responsável por si mesma e pelo senhor. O senhor se torna, pois, dependente dela. Com isso, agora é a consciência do senhor a dependente, e a do escravo o pólo dominante. A consciência do senhor percebe, ademais, que não basta ser reconhecida por uma consciência escravizada; antes, precisa ser reconhecida por uma consciência igual a si própria; destarte, mergulha na consciência infeliz.

Ora, com o colonialismo, as potências ocidentais submeteram o resto do mundo: eram o senhor. Já o Terceiro mundo, se submeteu. No pós Segunda Guerra, as indústrias dos países centrais foram trocando de base e se instalando nos países da periferia, atrás de lucros espetaculares com a superexploração da mão de obra. Hoje, contudo, o campeão dos países pobres, a China, aprendeu como fabricar os produtos, se formou pelo trabalho: Hoje, o mundo depende dela, ela é o pólo dinâmico. Qual será o desfecho?

Por outro lado, com o despertar do Terceiro mundo, já não é mais cabível que se queira reduzir o cânone à história da filosofia ocidental. O mundo é maior que uma península. Assim, incluir os múltiplos novos autores em uma análise teórica que dê conta da formação do contemporâneo nas mais distintas latitudes e longitudes, nas línguas diversas, nas diferentes civilizações, é o caminho para um mundo democrático de fato, não a democracia dos ricos, mas uma democracia que integre os povos, os medindo por outros valores além de sua conta bancária, tom de pele ou matiz ocular.

Essa obra deverá ser uma nova Fenomenologia do espírito, uma que, após a universalidade hegeliana oca, que nos conduziu ao colonialismo, e as insurreições identitárias, que nos cercam no provincialismo, finalmente permita que construamos uma civilização planetária, que possa singrar o kosmos e responder a perguntar: O que é o ser?

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fragmento sobre ontologia e marxismo

 Em seu doutorado, sobre materialismo antigo, Marx trabalha uma importante diferença entre Demócrito e Epicuro. Embora ambos sejam atomistas (o primeiro, um de seus inventores, junto a Leucipo, também originário da cidade de Abdera, do qual não sabemos quase nada), Demócrito é determinista. O mundo, para ambos, é formado átomos e vazio, mas Epicuro acrescenta que os átomos, em sua queda, podem sofrer um desvio, o clínamen. Com isso, introduz-se o acaso ou, se se quiser, a liberdade. Li os fragmentos completos de Demócrito ainda em meu primeiro ano de doutorado. Sua obra era gigantesca e cobria inúmeros tópicos, mas, além dos títulos, quase todos seus fragmentos extantes são de ética, muitas vezes meros apotegmas (sentenças). De Epicuro há mais fragmentos, também li completo, por ocasião da investigação da (abre aspas) obra prima (fecha aspas) de Olavo, que trata justamente de Epicuro; texto surrealista, pode-se dizer. Mas não é disso que quero falar, mas, sim, de uma outra polêmica. Kant, na primeira Crítica, trata como antinomia o par liberdade da vontade e determinismo. Assim, irresolúvel. O mundo das ciências naturais é considerado há muito o reino da necessidade. Já as ciências humanas são o reino da liberdade. Para os positivistas, contudo, não há, a rigor, essa separação: as mesmas leis presidem ambos os campos, e essas leis são aquelas da necessidade. Engels, como se sabe, deixou incompleta uma Dialética da natureza, onde se aproxima, nesse aspecto, justamente do determinismo positivista; se já no Anti-Dühring ele fornecia leis da dialética, extraídas da Ciência da lógica, na Dialética da natureza ele vai mostrar, a seu ver, como os mais recentes avanços científicos comprovavam essa dialética. O resultado disso tudo é o mais estrito determinismo, que redundou no marxismo da II Internacional combatido por quase todos os clássicos dessa linha teórica no século passado. Quase todos, porque, além de Kautsky, que formulou um certo materialismo histórico biológico, Stálin, em seu curto texto "Materialismo histórico e materialismo dialético" subscreve essa visão. É o marxismo-leninismo-estalinismo, origem da diamat. As consequências para a ação política são severas. Os marxistas mais espertos anteviram isso e tentaram poupar Marx dessa empreitada engelsiana. Marx, dizem, formulou uma teoria social, histórica, nada de dialética da natureza. Creio eu, no entanto, que, se Marx o fez ou não, talvez seja difícil mensurar. Contudo, Engels é um marxista consequente por defender essa visão. Ou seria sustentável defender que a sociedade é histórica, muda no tempo, mas a natureza não? Sem contar que na origem da dialética marxista encontra-se aquela hegeliana, que é uma ontologia, inclusive com uma filosofia da natureza. Hegel começa o segundo volume da Enciclopédia justificando a necessidade de uma filosofia da natureza. Assim, e falo como alguém que teve muito pouco contato com Lukács, ontologia em sentido amplo, não somente "do ser social".(mas também dele).

terça-feira, 7 de julho de 2026

A metamontagem

          

                                                           Para Kdu, com carinho


 Ao acordar uma manhã de sonhos inquietos, Eduardo Pamsa encontrou-se em sua cama transformado em uma lindíssima travesti. Estava deitada, de peruca, toda montada, um pouco indisposta, pois tinha batido cabelo por toda a noite, além de ter bebido todas. Estava sozinha no quarto, mas o cheiro que tomava o ar era de um dulçor imenso, lembrando-a de que não era mais Eduardo, mas, sim, Eduarda, a terrível, ou Duda Sanguínea, para os íntimos.

          Um gosto de boas memórias subiu-lhe à boca, misturada com certos efeitos da ressaca. Ao lado, no criado-mudo, um pacote de camisinhas usadas e duas delas no chão, cheias de marcas de intenso manuseio. Sentou-se à beira da cama, tomou um copo d’água e sorriu: havia se liberto?

          Pamsa buscou recapitular a vida nos últimos anos. Ainda era jovem, relativamente: não chegará aos quarenta. “Quarenta anos!”, pensou, “estou quase lá. Mas ainda posso me divertir”. Seus quarenta haviam transcorrido de forma terrível, entre casos fingidos com mulheres, só para inglês ver, e desejos reprimidos. “Quarenta, não; trinta e oito, e pronta para atirar”.. Na balada ontem atirou mais que Clint Eastwood em algum spaghetti. Atirou como se fosse cangaceira, Maria Bonita rediviva e ativa; atirou como um franco atirador, atirou como um soldado soviético na frente oriental, em Stalingrado, lutando contra os nazistas, em plena guerra. Atirou como uma metralhadora, como se sua vida dependesse disso. E, no fundo, era isso: sua vida estava no jogo, sua vida dependia disso.

          “Nunca mais”, essa frase, como estribilho, como ritornelo, aparecia em sua mente. “Nunca mais”. Havia, à muitas custas, vencido a repressão, ou a parte mais difícil: a si mesma. Um casamento furado e muitos namoros até compreender que a vida não volta, vai para um lugar muito longe, para as aluviões do barqueiro sombrio, para depois da terra firme. Perdera trinta e oito anos se escondendo. E as mulheres que enganou? Aliás, as havia enganado? O mentiroso que crê na própria mentira se engana? Não sabia, não era filósofo. Era apenas um homem, quer dizer, uma mulher, quer dizer, era apenas um ser humano em busca de si mesmo, disposto a vencer o mundo para se realizar.

          Eduard Pamsa, ou melhor, Duda Sanguínea não tinha nas veias um de barata. Não se iludia: apenas a primeira batalha havia sido ganha. Ea guerra, aprendera quando serviu no Exército, a guerra é feita de muitas batalhas. Como um inseto, a noite passada serviu para que rompesse o casulo do enrustimento. E quanto tempo levou a incubação.

          Hoje, sentada na cama, pronta para fumar um cigarro, Duda reviu sua vida até ali, em um flash, como em um filme. A infância livre, cercada de amigos e amigas, as primeiras brincadeiras; fora muito feliz, pais amorosos, inteligentes. Teve contato com uma cultura que somente muito depois descobrira que outras crianças nem sonhavam, autores e artistas que elas não conseguiam nem falar, que dirá escrever.

          Levantou-se, foi até a sacada de sua casa em uma sobreloja no centro da cidade. Acendeu o cigarro. “Preciso mijar”, pensou.

          Se a infância fora prenhe de alegrias, a adolescência foi um terror, pelo menos até que entendesse. Em um primeiro momento, começou o desconforto. Via os outros meninos de namorico, apaixonado pelas moças da rua e da escola. E ele, digo, ela? Apaixonada em seu melhor amigo. As brincadeiras dos rapazes, passar a mão na bunda, simular o coito, disputar quem tem o maior membro etc., eram mais que brincadeiras para ela. Eram um deleite, o único momento em que podia ser quem sempre fora: Duda Sanguínea. Mas, por dentro, se sentia dilacerado. Um rapaz mais fracote da rua, ela batia e chamava de bichinha: “assim, ninguém descobriria, nem eu”, foi a conclusão que se lha assomou agora, já entrando na idade da loba.

          Lobo veio a primeira vez, com 16 anos, idade em que os rapazes estão à flor da pele. Duda evitou o máximo que pode, mas tomou um enquadro da menina. Tentou escapar pela última vez: “não tenho camisinha”, disse. “Não tem problema”, foi-lhe objetado, “tomo anticoncepcional e sou virgem”. Os amigos do lado de fora do quarto saberiam se ela saísse rápido demais, coisas que nem mesmo a inexperiência, o balbucio peniano explicaria. A moça era um diaba: se lha agarrou, fez preliminares, buscou o poste túrgido. Em vão. Faltou-lhe ânimo. Explicou-se, até para si mesmo: “estava nervoso, primeira vez”.

          Logo descobriu que isso podia ser vencido com meios artificiais: remédios para importência, usados por senhores de alta idade, se tornaram sua companhia. Assi, podia fugir da constatação brutal: não gostava de mulheres, queria ser uma.

          Enquanto os garotos de sua idade buscam as fitas pornográficas a fim de satisfazer o desejo sempre crescente por sexo, ele assistia, escondido e se reprovando, vídeos de travestis. Seu foco não era o sexo, era a mistura de mundo, era o encontro do céu com a terra, era a ginga e a maquiagem, era o fato de, ali, acompanhado (admoestando os atores) ou sozinho, acariciando-se, poder ser reconhecido por si mesmo, ainda que não soubesse. Ali, era a si próprio, ali podia sair da casca e desabrochar como a borboleta que sempre quis ser.

          O casamento veio por pressão familiar. Sua mãe e seu pai queriam netos. Ele, queria estabilidade e estar acima de qualquer suspeita. Com o tempo, se acostumou com o sexo ruim, com a vida de casado, com a rotina. Sua mulher já não o procurava, nem ele a ela. Viviam como amigos, amigos íntimos, afinal, gostava dela. Só não queria fodê-la.

          O casamento não durou, mas o filho veio. Arrumou uma desculpa e foi cursar uma faculdade em outra cidade, longe do filho, longe da ex-mulher. Na nova cidade, podia ser quem sempre fora.

          Saía escondido da república. “Vou à feira”, dizia. Ao mesmo tempo, somente conhecia um único tema de conversas: travestis. Tudo era travestismo para ela ainda ele, tudo era motivo de abordar o tema da transsexualidade, de fazer piadas, de apontar o dedo e dizer que seus amigos gostavam de travestis. E assim, conjurava o sofrimento interno. Porque ela ainda ele sofria. E sofria tanto que se dedicava a impor-se por meio da onipresente diminuição de todos, como o fracote da infância. Apelidava os outros, sempre com apodos jocosos e humilhantes. Era turrão, briguento, falastrão: era uma pessoa infeliz.

          A universidade passou e ele, à parte algumas amizades mais profundas, não teve nenhuma experiência libertadora além daquelas que já tivera na infância.

          Agora, trabalhando, com o filho crescido, se sentia diferente. Tudo começou quando, lendo uma reportagem, se deparou com uma frase que lhe impactou profundamente: “só se vive uma vez”.       

          “Sim”, recapitulou, “uma única vez por toda a eternidade”. Acendeu outro cigarro, tomou um gole d’água. Avançou pela casa cheirando a gozo de macho e pensou: “nunca mais”.

sábado, 27 de junho de 2026

Kdu

 O que aconteceu contigo, Carlos?

Qual bicho te mordeu?

Tinhas esperanças, sonhos,

Um futuro, um que era só teu.

Hoje estás destruído

Alquebrado pela vida.

És um longínquo ruído,

Uma coisa puída,

Estás num buraco infindo

Te tornastes uma fruta roída.

Oxalá encontre força

E se recupere.

A festa ainda não acabou.

As pedras do caminho

Só indicam que ninguém passou,

Mas para tudo o povo dá um jeitinho.

Para sair dessa fossa,

Te digo: levanta, lê um livro, te movimentas

Te organizas, não estás sozinho.

Tens a ti mesmo, teus camarás,

Um mundo, um sol com brilho.

Só não há além,

Não, nem um pouquinho.


R.P., inverno de 2026

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Ártemis

 No arcabouço das horas

E das eras,

Erra imenso

Pelo kosmo

Aceso,

Pelo voltear dos astros,

Pelos pastos,

Pelos passos,

Da escuridão infensa.

Quedamos aturdidos

Mesmo com aço,

Mesmo sabendo

Os caminhos idos.

Quedamos presa de nós

Próprios, de nosso asco,

Ascese das oportunidades

Perdidas.

Que vida amarga,

Que vida fodida:

De todas as possibilidades,

Deu-nos ser objeto

Deu-nos ser partida

De quem lucra com sofrimento,

De quem só pensa com a lombriga.

Possa o povo se unir,

Possam as eras ceder,

Possa a dor cessar,

Possa o dia, enfim, nascer.


RP, outono de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Aquarela do Brasil

  Sou uma boa pessoa, amor?

― Hua, está tarde. Vá dormir.

― Sim, mas antes me responda: sou uma boa pessoa?

― É sim, meu bem. Por que a pergunta?

― Por nada, só uma dúvida.

E beijou-lhe.

― Boa noite.

― Boa

    Mas não dormiu. Já era tarde, amanhã havia expediente no quartel. Não era um quartel, claro, mas era assim que chamavam. Apesar de já ser tarde, não conseguia pregar os olhos. Do infinito da noite, remoía-lhe essa dúvida: era boa gente?

    Era militar, casado, pai de filhos, católico apostólico romano. Até conhecia o cardeal. Pagava os impostos, contribuía com a caixinha da igreja, tratava bem os animais, quando aparecia uma oportunidade, até mesmo ajudava as velhinhas a atravessar a rua. Vez ou outra chegava a esmolar para o Benedito. Dito era um negrão que morava nas cercanias da Sé, alcoólatra, mendigo, vinha do norte. Tentou a vida por aqui e não conseguiu. Fedia a merda. Mas controlava o asco para poder chegar perto de deus.

    Na Escola de Formação de Oficiais, aprendera, com Clausewitz, um alemão do tempo de Napoleão, que na guerra o moral da tropa era importante, talvez o mais importante. Pensa bem: se o soldado não quer lutar, se vacila, se pensa que é inútil resistir ou que já perdeu, para que as armas? De que lhe bastam fuzis, escopetas, metralhadoras? De nada. Essa é a verdade. Na guerra, é todos por um e um por todos. Acima da soldadesca, só deus. Ah, e os oficiais.

    Ele era oficial.

    E aquilo era uma guerra.

    Ou não era? Era sim. Havia tropas em conflito. De um lado, a vagabundagem comunista, essa ralé oriental, paga a ouro por Moscou para nos subtrair a liberdade. Ou a escumalha cubana. Ou quem sabe os malditos amarelos fazedores de pastel. Que se foda, é tudo lixo. São ateus, todos eles. Alguns até comem cachorro, os outros fazem lavagem cerebral desde jovem.

    Era guerra.

    E na guerra, quem não está disposto a ir até às últimas consequências nem deve se alistar. A guerra é sangue. A guerra é tiro, são tripas. A guerra é morte. Não se mata por prazer na guerra, ou quase ninguém o faz. Na guerra se mata porque se deve. É o dever do soldado matar, como é dever do inimigo morrer. Na guerra tudo é por dever. É assim porque é assim. Nada de questionamento. Ninguém questiona o Sol por ser quente, ninguém questiona a água por molhar. Por que um filha da puta acha que tem o direito de questionar um oficial superior? Ninguém tem esse direito. Obedeço quando sou mandado, mando quando devo e o putedo dos subordinados devem obedecer.

    Na guerra vacilar diante da ordem pode colocar a tropa toda em risco. O medo contamina a soldadesca, um depois do outro vão caindo, como moscas diante do inseticida. A confiança tem que ser total.

    O alemão que escrevia sobre moral sabia disso. Por isso disse que é essencial para um exército o bom chefe. O oficial de qualidade é aquele que sabe mandar, que faz todo mundo o obedecer com gosto, quase sem ver. É o gênio militar. Nós tínhamos vários chefes desses, ao menos a meu ver, a começar pelo presidente do país, até chegar em mim. Sou um bom chefe? Só não admito ser contrariado, mas não dou castigo injusto.

    Talvez no trote. Nos damos um papel para o recruta ler em voz alta; só que, no lugar onde há uma vírgula, ele deve ler “de cu pra cima”, e onde há um ponto, leia-se “de cu pra baixo”:

    “A República Federativa do Brasil, [de cu pra cima] ou só Brasil, [de cu pra cima] é um país localizado na porção oriental da América do Sul. [de cu pra baixo] O Brasil é composto por estados e um Distrito Federal, [de cu pra cima] em cujo território se encontra a capital do país, [de cu pra cima], Brasília. [de cu pra baixo]. O atual Presidente do país, [de cu pra cima], General Emílio Garrastazu Médici, [de cu pra cima] tem obtidos êxitos enormes na condução da política econômica, [de cu pra cima], com crescimento robusto, [de cu pra cima], criação de empregos [de cu pra cima] e industrialização do país. [de cu pra baixo.]”

    Quem rir toma logo uma bofetada. Não é pra rir, porra, é para se segurar. Isso aqui é guerra, tem gente morrendo e arriscando a vida e o porra vem dar risada. Tem que se controlar. Militar tem de ser macho.

    Se é guerra, meu serviço é necessário. Os comunistas são terroristas. Eles querem fazer de tudo para ganhar, roubam, batem, matam. E o pobre Tenente que o comunista traidor Lamarca matou a golpes de coronha? E o pobre Mário? E o dinheiro roubado, economia da vida toda de milhares de aposentados e trabalhadores? Os comunistas não tem vergonha na cara, são uns filhas da puta. Vendilhões da pátria, trocaram o país por uma merda de garrafa de vodca e um fumo cubano. Bando de filha da puta. Eu os odeio.

    Quem se opõe ao mal só pode ser bom. O mal se mescla com o mal, como o bem mescla com o bem. É uma luta eterna.

    Faço parte dessa luta, sou não soldado, sou guerreiro, luto não só pelo ordenado. Luto porque preciso, porque quero. Porque é o certo. Luto pelos meus filhos, por minha esposa, por minha família, colegas, por minha pátria. Luto por deus. Em nome de deus, o que não é permitido? A boa causa enobrece até o inferno.

    Em nome de deus faço de tudo. É deus no céu, meu comandante na Terra. E meu comandante diz: não meça esforços; faço o necessário mas debele esses comunistas. In nominis patri, fili et spiritus sancti. Por todos os meios. Os comunistas tomaram metade do mundo. Se ganham aqui é pum, vai sobrar pra todos nós. Eles não tem misericórdia, não reconhecem Cristo-rei. Se bem que tem até padre no meio. Quer dizer, padre não: arremedo de padre, vermelho infiltrado, vagabundo.

    Amor por todos é o caralho. Amor por quem nos ama. E quem nos ama, nos apoia. Foram às ruas pedir que viéssemos. E mesmo que não tivéssemos pedido. Juramos proteger nosso ver e amarelo, juramos dar a vida. Veja bem: verde e amarelo, não tem nada de vermelho. Vermelho é país que faz a guerra, vermelho são os comunistas. Queremos a paz, nossa guerra é contra aqueles que querem a guerra os subversivos. Nossa guerra é para não ter guerra.

    São de muitos tipos. Tem os cubanos, os chineses, os russos, tem até de tipo europeu. Só não tem cristão. Corrompem a juventude, fodem com o negócio todo, lavagem cerebral, maldizem Nossa Senhora, cospem no papa. Temos que resistir.

    Já disse: toda arma é santa na guerra santa quando o inimigo é o mal. Eles mesmos se odeiam, faz lá vinte anos que se denunciaram. O tal Stálin perseguia os próprios comunistas nos confins da Rússia. Foi caçar um lá no México. Nem eles se suportam. Proteger nossa juventude, evitar a contaminação.

        Comandante disse: faça o que for necessário. Sigo ordens, sou soldado, sou guerreiro, desço a porrada. Fui treinado para não sentir fome, frio, calor ou medo. Eu obedeço e faço obedecer. Contra a escroqueria comunista vale tudo.

    Que é uma unha arrancada perto da salvação de dezenas de milhões? Que são uns cabelos puxados? Queimaduras? Uns ossos quebrados. Na guerra mata-se. Que eles farão, se ganharem, com gente como nós? São ladrões. A propriedade é santa¹ A família é santa! Na guerra, toda arma é boa se benzida. O capelão a benze para nós. A boa sociedade está conosco.

    Há excessos? Talvez! É o preço a se pagar.

    Morrem inocentes? Não há inocentes na guerra. Se é amigo do inimigo, é meu inimigo, merece morrer.

    Quem causa tudo são eles mesmos. Por que não se filiam à oposição? Por que se op~em ao que está acontecendo? Há crescimento, todos estão ganhando dinheiro, o país anda pra frente, vencemos a Copa, somos os melhores, somos os primeiros. Somos o país do futuro. Por que se opor? Que haja lá pobreza, mas os que sofrem nessa vida vão ser recompensados. Assim, até ajudamos o putedo comunista os fazendo sofre: deus se compadece. Expiam os pecados na Terra, vão direto para o purgatório. Do contrário, seria o inferno, do contrário, sofreriam no garfo do capeta.

    Eu gosto mesmo é do choque. A carne do vagabundo fica mole, mole, abre tudo, diz até o que não sabe. Estupro não faço e sob minhas ordens não se faz. Um cassetete não é estupro, só com o pau e por prazer é que é. Não temos prazer, temos contentamento por servir a pátria, por salvá-la, por por nos trilhos esse Brasilzão. Vamos cumprir nosso dever, vamos impedir que isso aqui vire um país vermelho, vamos crescer primeiro e depois distribuir, como disse o ministro. E quem não quiser, pode ir embora, os aeroportos estão à disposição, vão pro cu do Judas, mas não atrapalhem a maioria. A maioria nos apoia, é católica, a Igreja já proibiu o comunismo. A maioria é silenciosa e apática, e sua apatia é sinal que tudo está bem.

    Em cinquenta anos, seremos a segunda maior potência. Vamos ultrapassar até a Rússia. Vocês verão. Então os netos dos comunistas, se deixarmos algum sobrar, lamentarão os erros de seus avós. Porque aqui é Brasil. Aqui é verde-amarelo, não vermelho. Aqui é ordem e progresso. Aqui é o país do futuro. E o futuro demora, mas chega. Ele chegará.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Z.

 - Armamos as choupanas,

Sorvemos o licor da terra,

Extraímos o néctar o mais puro da natureza,

Provamos o tutano das bestas

E os frutos do solo,

Os quais, de prévio, apascentamos e domamos.

Crescemos sob o uso do humus mesmo.

E tudo para que?

Para nos tornarmos pasto de vermes e pousio das moscas,

Para nos misturarmos com tudo aquilo que vivo,

Jaz morto, entremeado à  poeira,

Para ter nossa dignidade reduzida ao chorume

Que envenena o corpo do planeta

E polui a água mesma,

Este vinho da vida.

...

- Mas o que esperavas?

O divino encarnado?

O diamante vivo?

O cristalino do eterno?

Queres demais,

Foste mal acostumado

Pelas tontarias dos platônicos de batina.

Senta em tua poltrona,

Traga a aguardente que te faz sentir vivo

E prova do manjar que te é ofertado.

A vida é curta e insensível

Somente para os autômatos

Que já não refletem

E matam o presente

Na futura frialdade da tumba.


RP, verão de 2026